Espero que o Bovinenses viva até o fim de semana, para poder atualizá-lo.
Os alemães estão ameaçando chutar minha bunda.
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Züruck
@ 2009-11-20 – 01:45:30
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Vem aí... o Marco Regulatório da Internet
@ 2009-11-04 – 00:30:16
No mês de outubro, quando o Bovinenses completou seu primeiro ano de aniversário, foi simplesmente impossÃvel atualizar o blog. Claro que eu gostaria de ter feito alguma ação beneficente para comemorar a data, algo que incluÃsse várias cervejas aos amigos, entre outras atrações, como sorteio de vacas de pelúcia ou sair por aà com máscaras politicamente incorretas.
Acontece que foram dias difÃceis, e até mesmo minha identidade entrou em crise. A razão de ser do blog parece fútil, atualmente, perante o manicômio em que se tornou o Pasto; não dá tempo de um assunto esfriar e outro escândalo é derramado sobre o anterior, como uma calda quente sem fim, e tudo se transforma em papel velho ou CPI, cujas conseqüências práticas são as mesmas: o vácuo. Então, é como chover sobre o oceano. De qualquer forma, crises fazem parte da vida, e resolvi dar mais uma chance a este espaço verde e abrir novembro com uma notÃcia que parece ser importante a todos os que lidam com informação e internet.
O Ministério da Justiça lançou no dia 29 de outubro o Marco Regulatório Civil da Internet, "uma consulta pública em formato de blog que vai definir os direitos e responsabilidades básicas no uso da rede mundial". Ou seja, mais uma tentativa de se criar regras para utilização da Internet no Brasil, e vinda da parte do governo federal. A intenção, avisa-se no blog, "não é restringir o acesso ou uso da internet nem normatizar localmente aquilo que depende de harmonização internacional para funcionar".
Embora esta frase possa parecer tranqüilizadora, a regulação a que o governo busca é justamente "proteger e regulamentar direitos fundamentais dos indivÃduos, bem como estabelecer com clareza a delimitação da responsabilidade civil de quem atua na rede como prestador de serviço. O marco regulatório também pretende discutir temas como a privacidade, a liberdade de expressão e as responsabilidades dos usuários da web".
Eu gostaria que ninguém, especialmente o governo, viesse com esse papo de "proteção". Não sei quanto a você, meu já etéreo leitor, mas sempre que ouço coisas como "para sua proteção" a realidade mostra outra coisa, coisa esta que me usa conforme seus interesses, faz suas exigências, me policia, me observa, rompe com meus direitos de privacidade e de cidadão. A segurança dos shopping centers, as câmeras dos estabelecimentos comerciais, as gravações dos tele-atendimentos automatizados e seus atendentes robotizados, a falta de transparência e a transparência da mentira: tudo isso é um abuso, uma força que chega devagar e sorrindo alegando esse papo de "para minha proteção".
Bom, o Marco Regulatório Civil da Internet está recebendo contribuições e sendo discutido aqui, no Cultura Digital, site no qual os internautas podem ter acesso aos temas abordados e à forma com que serão tratados no documento, podendo dar opiniões por meio de comentários, e-mails e no Twitter. Eu acho que não precisamos que o governo nos diga o que podemos fazer na Internet. Se a idéia de um Marco Regulatório da Internet não existisse, seria sinal de liberdade, civilização, inteligência. Mas, lamentavelmente, parece que o gosto por delimitar direitos e responsabilidades de cada um na Web é uma obsessão, mesmo que isso seja como minhas crÃticas ao Pasto: inútil. A quem interessa fazer uma ilegalidade, a lei não é obstáculo.
Regulamentar a Internet e os limites de quem a usa não cheira bem, em nenhuma instância. O Código Penal e o Civil, e a própria Constituição estão aà para isso. Já há muita legislação nesse PaÃs, e não vejo a lei atualmente ser utilizada para garantir direitos e sim para processar, calar e punir quem ousa ir contra certos setores privilegiados da sociedade, ou ferir melindres de crenças fascistas de meia dúzia de desocupados da extrema direita. O movimento deveria partir da sociedade, por meio de uma liberdade cada vez mais presente, intensa, com crÃticas por todos os lados. O governo deveria se preocupar seus deveres cada vez mais rarefeitos para com a sociedade, em investir na educação; o governo deveria se preocupar com o cheiro de porcaria que exala dos parlamentos e com a notória perturbação mental de alguns governantes.
Uma das justificações alegadas para a implantação do Marco Regulatório é que, por mais que alguns tipos de violação já estejam previstos na Constituição, não existe nada que diga diretamente o que cada um pode e não pode fazer no mundo virtual. Outra importantÃssima observação é que "as infrações que fogem ao padrão previsto no texto da lei brasileira acabam prejudicando toda a sociedade, tanto as pessoas quanto as empresas e governos". Abaixo, um trecho do texto publicado no Observatório do Direito à Comunicação.
A elaboração do marco ocorrerá em duas etapas. A primeira terá duração prevista de 45 dias com um debate em torno de idéias, princÃpios e valores. O blog apresenta um texto base contextualizando os principais temas pendentes de regulação e cada parágrafo estará aberto para inserção de comentários.
Cada participante também poderá votar para ranquear, positiva ou negativamente, as contribuições dos demais. Esses votos não significarão, necessariamente, a inclusão ou exclusão de determinado tópico do debate. Servirão para nortear a equipe de redação sobre as preferências, opiniões e interesses dos participantes, contribuindo para a formulação da proposta.
Como resultado dessa discussão coletiva, o texto será aos poucos modificado. Novos parágrafos, tópicos ou eixos poderão ser incluÃdos, conforme a demanda, pertinência e desdobramento das discussões. Essas modificações e inclusões serão notificadas por meio do blog. Ao final da primeira etapa, será elaborada uma proposta de anteprojeto de lei, que levará em consideração os debates realizados.
Na segunda etapa, a discussão terá o mesmo formato, mas ocorrerá em torno da minuta de anteprojeto de lei. Mais uma vez, cada artigo, parágrafo, inciso ou alÃnea estará aberto para apresentação de comentário por qualquer interessado. Também os foros de discussão serão usados para o amadurecimento de idéias e para uma discussão irrestrita. A duração desta fase do processo será de mais 45 dias.
O que se busca com o Marco Regulatório da Internet? proteger o governo e as empresas e dar ainda mais subsÃdios a processos pelos tais danos morais? Estejamos atentos.
Se houver vida inteligente na Web, o site do Marco Regulatório será terreno fértil para protestos em massa. Quanto a mim, mudei de lado e resolvi usar as armas com as quais nos atacam: entrarei ainda esta semana com um processo contra um espertinho chegado a trabalho escravo.
Estou assistindo pela quarta vez a Good bye Lenin, veiculado hoje pela televisão alemã NDR, em celebração pelos 20 anos de queda do Muro de Berlim. Erros não devem ser esquecidos para que não se repitam
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Patinhas dando mole na pista
@ 2009-09-18 – 08:41:31
Fato misericordioso, digno das loucuras do Otto, chamou a atenção semana passada, e só não escrevi sobre isso antes porque estivemos fora do ar por alguns instantes.* As chefias pastoris entrarão para a História bovinense como moluscos raros da polÃtica, encontráveis somente em castas residentes sob o vestido de Maria, a Louca, e dentro dos bolsos de Napoleão, o Psicótico, em companhia da inesquecÃvel coxinha de frango.
A importância do respeito às faixas de segurança, despertada pela proximidade das eleições de 2010, motivou o Poeta à atividade. Mexeu-se e, brilhantemente, lançou a nova campanha de educação para o trânsito, cujo objetivo é conscientizar pedestres e motoristas.
Verdade, as pessoas andam mesmo inconscientes por aà − como zumbis, já se disse aqui. Tenho visto taxistas, por exemplo, tão inconscientes que liberaram o Id: a gente nunca sabe quando vai pegar um deles "naqueles dias" e levar uns sopapos por observar que o caminho parece um pouco mais longo ou simplesmente perguntar cadê o troco. Mas a campanha de conscientização nada tem a ver com o machismo de alguns taxistas, seres que pairam sobre nós, reles morochas.
Todo mundo sabe que o trânsito de Porto Alegre, cidade melhor em tudo, é uma demência. Os motoristas são psicóticos. Vi outro dia aqui na Hilário Ribeiro dois homens de aparência irrepreensÃvel trocando estercos; um mandava seu rival de volta ao útero da difamada mãe, o outro recomendou a este meter o carro em uma parte pudenda, paradoxalmente muito pequena para um veÃculo. Eles rosnavam, de pé ante o outro, com as mãos fechadas. As palavras saÃam espumantes das bocas. Ninguém acha isso anormal. Pelo contrário: as pessoas passam e nem olham. É como se houvesse um cãozinho fazendo xixi em um tronco de árvore, um joão-de-barro ciscando uma querela sobre a calçada, uma nuvem passando sobre nossas cabeças: irrelevante, invisÃvel, desprezÃvel.
Você anda por qualquer rua do Bom Fim, Independência, Moinhos de Vento, a partir das 18h, e vê no que pessoas são capazes de se transformar, no que o transtorno as transforma. Elas metem a mão na buzina e brandem aquele som como se fosse um 38; aliás, se andassem armadas haveria genocÃdio entre motoristas. Palavrões voam por janelas de carros e caminhões, motos aceleram por cima dos pedestres, sinais são respeitados apenas quando há uma ameaça clara à integridade do carro, ou seja, outros carros e ônibus mais agressivos ou maiores. E nem precisa ser no rush: na Mostardeiro, após a meia-noite, carros voam. Sábado passado, o cara por pouco não entrou no meu prédio. Espatifou-se sobre carros parados e finalizou o estrago no poste onde deixo o lixo, a três passos da minha porta. A polÃcia disse que ele estava a mais de 150 Km/h, possivelmente na contramão.
Mãozinhas − A campanha possui um sÃmbolo de uma genialidade tão simples quanto inacreditável: uma mãozinha aberta. O novo sinal consiste no seguinte gesto, de acordo com as palavras oficiais: "Ao atravessar uma faixa de segurança sem sinaleira, o pedestre deverá esticar o braço para sinalizar ao motorista a existência da faixa. Nas travessias sinalizadas por semáforos, estes continuam valendo".
Ou seja, o cidadão deverá colocar seu corpo e sua vida em risco para avisar ao cavalgadura do motorista que à sua frente existe uma faixa de segurança e que há uma pessoa querendo atravessar a rua sem ser morta. Gesto, no mÃnimo, imprudente. E uma campanha para motoristas CEGOS.
E se eles não enxergam a faixa de segurança nem o sinal, muito menos um corpo, como vão ver uma mãozinha, um bracinho? Tenho absoluta certeza de que se for eu a retardada a colocar um dedo aqui na esquina da Mostardeiro terei o braço inteiro arrancado, o sangue jorrará sob o sorriso dos motoristas remanescentes e pedestres hipnotizados pela pressa.
Você me dirá, caro leitor, que sou uma neurótica, exagerada, que vê defeito em tudo, unzufrieden. Que a tudo eu falo mal, critico como algo ruim, que eu tenho nódoas de ódio em meu coração. Ora, afinal, você poderia dizer, uma campanha de educação para o trânsito só pode ser boa!
Seria, se fosse coerente e séria, se não fosse um conto de fadas da agência de publicidade que criou a campanha. Se fosse séria de verdade, a campanha teria mulheres peladas no lugar da mãozinha, como na Dinamarca. Isso é sério, por mais que não pareça. É sério porque funciona. É sério porque não põe no lixo o dinheiro que eu e você tanto lutamos para dar ao Poeta. Seria uma campanha séria, acima de tudo, se realmente tivesse como objetivo prevenir a imprudência, como esta aqui, ou esta − e não ser um paliativo de gosto para lá de duvidoso, colocando em risco um membro de nosso corpo.
Além do mais, por que ela se volta apenas ao pedestre, como se só ele devesse ser ciente de suas obrigações de trânsito? Por que o pedestre jamais pode ser imprudente? Afinal, ele não dirige máquinas por aÃ. E se ele bebeu uns schnaps, como fica? Vamos proibir o pedestre de beber? Ele pode ser alguém que faz tratamento com neurolépticos, ter alucinações, problemas cognitivos ou ser simplesmente distraÃdo. Quem dirige um veÃculo tem que ser obrigatoriamente atento, sóbrio e educado. Quem dirige tem que saber cuidar dos outros, sejam eles motoristas, pedestres, cachorros, velhinhas ou carrinhos de bebês.
A campanha da mãozinha decepada, ops, esticada já está sendo veiculada em televisão, rádio, jornal, cinemas, outdoor e ônibus, entre outros locais como estacionamentos (uns vazios que se proliferam onde antes havia casinhas de 1920 e cujo proveito é quase nulo, pois fecham à noite, quando mais se precisa). Também serão distribuÃdos adesivos aos motoristas e taxistas. Pelo site oficial da campanha, a comunidade bovina encontrará informações e poderá esclarecer dúvidas. Aproveite e pergunte o que fazer se o carro não parar.
Ok. Preciso me internar, estou delirando, pedindo peladas no lugar dos boludos, tô querendo plantar uma Dinamarca no meio do potreiro. Por favor, alguém chame meu psiquiatra e enfie em sua mão uns 400 reais para que ele me exile em algum hospital sob forte medicação. Preciso fugir para uma cidade do interior, buscar um sanatório onde haja um enorme pátio com árvores, passarinhos e, por que não?, um clima ameno, não deveria ser pecado querer viver sob temperatura de 10 graus em um lugar civilizado, onde não precise me aporrinhar com taxistas, impostos vãos e berreiros de Grenal, um lugar enfim onde dizer o que se pensa não é ofensa, inconveniente ou motivo para levar um tiro no meio da cara. Onde ser mulher não queira dizer ser doce e servil. Meu lugar não é aqui.
Que a campanha da patinha na pista dê certo, eu duvido, mas não custa a você "torcer". Afinal, é preciso ter esperanças, ter fé, acreditar em alguma coisa, nem que seja em um time ou na consciência dos motoristas. Eu só espero que a campanha não custe o seu braço. De qualquer forma, melhor perder seu braço antes, e por uma boa causa. A campanha de 2010 vem aÃ, e custará certamente os seus olhos, braços e outros membros.**
Bom, chega, né? Afinal, já estamos na semana de comemorações pelo dia da glória nacional do Pasto. A chama crioula anda um pouco explosiva e perigosa ultimamente, é verdade. Este ano, a TAM estará presente no acampamento farroupilha, no Parque da Harmonia. Espero que não haja nenhum acidente. A propósito, o que aconteceria se aquela chama crioula tivesse se transformado em uma tragédia de terceiro grau? Cartas e comentários para este espaço. ***
Aguardemos o 20 de Setembro, sua reverência à s tais façanhas, ao chimarrão, ao churrasco e a seus cavaleiros; aguardemos o desfile, os cavalos e o inconfundÃvel cheiro bovinense, caracterÃstica marcante de nossa cultura, moral e conhecimento. Mas cuidado onde você pisa e, principalmente, onde mete o nariz.
* Os servidores nada servis do Bovinenses ficaram fora do ar por vários dias. É verão na Europa, o que explica tudo. E é com alegria que retorno, pois achava que tudo tinha ido parar, como diz aà um "editor", junto a coliformes cibernéticos, ou, em suas palavras, "no aterro sanitário da Web".
** Mas se Netto perdeu sua alma, quem somos nós para reclamar de alguma coisa?
*** Peço desculpas, mas este serviço é o único refúgio possÃvel atualmente, pela pretensa agilidade e segurança de dados, além do spracheangstung que afugenta os moralistas. Então, tenham paciência. Não sou eu quem decide se esse blog pode ter comentários sem moderação, e sim o serviço. Por mim, entra tudo, como diria a Cicciolina. Em geral, libero todos os comentários, mesmo aqueles ofensivos classe 1. Um dia, quando estiver em meu sanatório, quem sabe possamos contar com a decência de um Wordpress.
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Isso tem que parar
@ 2009-09-01 – 09:47:01
Neste dia 3 de setembro, completa-se um mês que o Jornal Já está sob intervenção judicial. A medida visa a bloquear 20% da receita bruta da empresa para forçar o pagamento de uma indenização de R$ 54 mil à Julieta Diniz Vargas Rigotto − mãe do ex-governador do Pasto, Germano Rigotto. O jornal foi condenado em uma ação por dano moral movida em 2001, por publicar uma reportagem sobre fatos cujo zênite foi a morte do irmão do ex-governador: "O caso Rigotto - Um golpe de US$ 65 milhões e duas mortes não-esclarecidas", de autoria do jornalista Elmar Bones. Lindomar Rigotto, 47 anos, foi assassinado em Capão da Canoa, praia cor de lama do litoral bovinense, em fevereiro de 1999. Ele foi morto com um tiro na manhã de Quarta-Feira de Cinzas do Carnaval de 2001, durante perseguição a quatro homens que tinham assaltado uma de suas boates, a Ibiza, na Praia de Atlântida. Entenda o caso em detalhes aqui.
Dona Julieta, viúva de Germano João Rigotto, não curtiu a matéria e meteu-lhe processo, aliás, dois processos: um contra o jornalista Elmar Bones, por calúnia, difamação e injúria à memória dos mortos, e outro, de natureza indenizatória, contra a editora do jornal por dano moral. A reportagem chegou a ser premiada pela Associação Riograndense de Imprensa, o que, convenhamos, não é lá grande coisa, dada a qualidade de nossa mÃdia e os critérios a meu ver um tanto parciais da associação. A viúva bem que poderia ter entendido que, por extensão, a ARI também insultara a memória dos mortos ao conferir o prêmio à ultrajante matéria, mas quiçá ponderou que não pegaria bem processar a tradicionalÃssima instituição.
A primeira ação teve sentença da juÃza da 9ª Vara Criminal, Isabel de Borba Lucas, que absolveu o jornalista de todas as acusações, em setembro de 2002. Ela fundamentou sua decisão no fato de que o texto "teve por finalidade o interesse público, não agindo com dolo" nem ser ofensivo ao morto, uma vez que o autor "somente narra situações com base em documentos e depoimentos". Três desembargadores ratificaram a absolvição do jornalista. A segunda ação, exigindo indenização por dano moral, cujo objeto era a mesma reportagem, teve decisão contrária. A sentença foi do juiz Giovanni Conti.
Sem condições de arcar com a indenização, a editora ofereceu seu estoque de livros à penhora, o que não foi aceito. O juiz decretou então o bloqueio parcial da receita como fiança, a fim de garantir o pagamento. O valor da indenização, inicialmente R$ 17 mil reais, hoje engordou para R$ 54 mil reais. A Já Editores ainda mantém uma ação rescisória que anularia todo o processo e aguarda decisão do STF. Enquanto isso, é obrigada a cumprir a determinação judicial.
O Jornal Já justifica que uma das principais razões da reportagem sobre Lindomar Vargas Rigotto foi a sua participação nos episódios que resultaram no cabuloso processo de desvio de dinheiro público, em contratos lesivos à Companhia Estadual de Energia Elétrica. Leia aqui detalhes sobre a CPI da CEEE e quem são os réus arrolados no processo em matéria do Jornal Já.
Ainda sobre a aplicação irregular do meu, do seu, do nosso dinheiro, a Procuradoria Geral do Estado tem uma espécie de paper disponÃvel na Web, no qual registra em minúcias as operações que os atuais processos por difamação impetrados pela viúva contra a imprensa impediram de transpirar.
Quando morreu, o empresário estava com seus bens indisponÃveis por conta exatamente deste processo sobre desvio de verbas públicas que foi alvo de investigação na CPI da CEEE. Além disso, Lindomar Rigotto também havia sido indiciado pela morte de uma garota de 24 anos que "caÃra", estatelara-se, completamente nua, da janela do apartamento do empresário na Rua Duque de Caxias, no centro de Porto Alegre. O caso nunca foi esclarecido.
A dona Julieta Diniz de Vargas Rigotto, do lar, já é veterana em processos contra meios de comunicação que a seu ver jogam lama no nome de sua famÃlia. Em 1999, vencera ação judicial contra a TV COM, do Grupo RBS. A sentença do 5° Grupo CÃvel determinou reparação por danos morais de 150 salários mÃnimos − hoje uns R$ 75 mil −, com juros retroativos a fevereiro de 1999. Tudo em função de notÃcias divulgadas sobre o falecimento de seu filho. Aqui pode-se acessar as degravações das fitas da RBS, exigidas pela viúva, e a coluna de Paulo Sant'anna, peça integrante da querelice. Deus me livre provocar desgosto na dona Julieta.
Após tanta ação neste enredo, porém, observei que a mÃdia deixou o caso Rigotto à s traças da Hstória e que restam bolhas opacas a respeito da nhonha referente à ação contra o Jornal Já.
1. A matéria não foi reproduzida no site do jornal nem há links que forneçam algum trecho esclarecedor, explicativo, nenhum infográfico, legenda, nada. A Justiça teria impedido? Bom, mas se a matéria deu origem a um processo que pode levar ao fechamento do jornal, um meio de comunicação gratuito que atende ao interesse público, creio que temos o direito de ter acesso a esta reportagem.
2. O que justificou o juiz para trocar de idéia sobre a absolvição?
3. O que o Sindicato dos Jornalistas bovinense faz para merecer existir? Com nosso piso salarial ridÃculo, não podemos bancar advogados e processos. Que ao menos nos defendesse publicamente já seria um abraço.
O Jornal Já aparenta ser muito decente, dotado de opinião própria e senso crÃtico, além de manifestar uma postura independente (entenda-se com isso que não serve de assessoria de imprensa governamental), coisa rara no Pasto. Em comparação com a imprensa bucéfala que temos por aqui, é ar fresco. Entretanto, a empresa pode ir à falência em função desta condenação.
CarÃssimo, enigmático e nebuloso leitor, juro que estou bolando uma lista de tudo aquilo que hoje é tido como crime e o que não é, para esclarecimento da esquizofrenia ruminante, oficial e generalizada. ConcluÃ, por exemplo, que homicÃdio não dá nada, dependendo de quem você é. Não pagar pensão alimentÃcia para a sua ex-mulher, do lar, porém, é cana. Descobri, pasma, que o medicamento que tomo há dez anos diariamente não é fabricado pela Novartis, como se informa seriamente na embalagem. Aprendi que há medicamentos éticos, e o resto é genérico. Vivemos tempos que nem um Kafka em surto imaginaria, acredite. Incrédula, ouvi ontem na tevê e no rádio a heresia de que todos preferem voar TAM. Se as pessoas começarem a fazer cocô no meio da rua, leve a sério e avalie sua situação: pode ser recomendável imitar para não ser preso. Olha, acho que precisamos de um rol de ações seguras que permita-nos ter um Norte, para movimentarmo-nos sem sofrer constrangimentos por processos ou prisão, como, por exemplo, por escrever sobre fatos, simplesmente, ou falar sobre tabus de forma sarcástica.
Será que terÃamos em nosso colo tantos processos se não houvesse indenização pecuniária? A injúria, a difamação, o dano moral se transformaram em uma assombração para nós, e um bom negócio para aqueles que têm talento para a distorção. Isso tem que parar. Essa coisa de que é imoral mas é legal é pornô.
Aja. Já. Amanhã pode ser tarde. Jamais vire as costas para a realidade: uma bala pode te acertar as costas assim, do nada, e ainda te acusarem de marxista, à guisa de defesa do próprio rabo. A liberdade cerceada de alguns hoje pode ser a de todos em um futuro iminentemente próximo.
Falando em futuro, soube hoje que o nosso próximo governador pode ser novamente o Chorão.
Ops.: Três sugestões a propósito dos temas aqui arejados. 1) Aos interessados, o Prêmio ARI está com inscrições abertas. 2) Leia artigo de Leonardo Barreto: "Sem liberdade não há polÃtica". 3) A Abraji − Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo recomenda três ações que podem ser feitas em relação a este caso: a) escrever para o Tribunal de Justiça do RS protestando contra a decisão, que ameaça de forma clara a liberdade de imprensa no PaÃs (e-mail: disqjud@tj.rs.gov.br); b) escrever ao juiz Giovanni Conti para lembrá-lo de que três outros colegas já tinham, em decisões anteriores, derrubado a ação movida pela mãe do governador Germano Rigotto (esm@ajuris.org.br); e c) denunciar a condenação ao Ministério Público (e-mail: pgj@mp.rs.gov.br).
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Batatices: a receita da Nova Tirania
@ 2009-08-21 – 09:56:45
O que liberdade de expressão tem a ver com sopa de legumes?
Vamos descascar a idéia.
Hoje, tive uma vontade imensa de fazer uma sopa para minha famÃlia. Fui ao súper e comprei chuchu, batata, cenoura, moranga, carne, cebola, salsa crespa e tomate. Para cozinhar é preciso ter paciência e coragem, porque não é fácil encarar aquela montanha de legumes para pelar, porque é preciso ter cuidado para não se machucar, e é preciso ainda respeitar o tempo e as texturas de cada alimento, etc. Você pode não gostar de chuchu, mas da maneira como o faço fica gostoso. Isso eu penso, pois você pode não querer comer chuchu nem a pau.Agora, imagine se eu lhe processasse só porque você não tem minha mesma opinião a respeito desse assunto? É como se eu ficasse indignada porque você não curte chuchu (ou cenoura, nabos, mandioquinha, etc.), como se lhe obrigasse a ter que comer chuchu todos os dias só porque eu gosto, acho interessante a cor, adoro a gosminha que ele solta, etc. Nossa sociedade é como uma sopa de legumes, e não adianta retirar o chuchu de toda a sopa só porque você não gosta dele: há de haver comensais com tara por esse legume, fazer o quê? Então, o mais adequado é você retirar delicadamente o chuchu de seu próprio prato, afastá-lo como se fosse um inseto ou um cabelo. Igualmente, é contraproducente eu tentar impor a contragosto no seu prato um legume que você detesta; no mÃnimo você nunca mais virá jantar aqui em casa. Mas daà é problema seu. Nenhum visitante precisa voltar a uma casa que o maltratou, para ser recebido aos trancos e bangornadas pelo anfitrião ou para ser forçado a comer sua maldita sopa de legumes com chuchu. É esta a relação, embora um tanto extravagante, que eu traço entre liberdade de expressão e sopa.
Quem não tem capacidade de viver em um ambiente de discussão, em que visões divergentes estejam presentes, não possui condições de viver em um mundo civilizado. Para viver em sociedade também é preciso ter paciência e coragem, mesmo que seja para defender certas visões de mundo que não sejam as da maioria ou de um certo setor. Porque há coisas que precisam ser ditas, porque é importante dizê-las, porque talvez ninguém esteja dando atenção a um fato importante ou porque talvez todos insistam em manter uma venda diante dos olhos: há um bilhão de justificativas para um ato elocucionário.
Por outro lado, também é preciso ter maturidade e reconhecer quando estamos delirando ou vendo maldades, injúrias e danos onde eles não existem. O mal, já dizia Jesus, mora no coração do homem, órgão tempos depois substituÃdo pela cabeça da serpente moral em Nietzsche. Eu arrisco dizer que vemos o mal onde e quando nos convém.
O que temos colhido enquanto exemplos aqui e ali, atualmente? blogs sendo retirados do ar, processos por danos morais, calúnia e difamação se proliferam e entopem as gavetas da Justiça, visões de mundo diferentes de uma certa casca social caladas, censuradas, perseguidas. O pensamento dissonante é delinqüência, é o chuchu do mal. Ou, sob outro ângulo, todos têm de comer a mesma sopa, com os mesmos legumes, e não reclamar.
Comecei assim, culinariamente, porque até então não havia conseguido falar sobre o fechamento do blog A Nova Corja. Vários foram os motivos (o capitalismo se transformou em prestidigitação e foi preciso trabalhar como uma cadela este mês; além disso, estou em crise de asma, com três espinhas dolorosas na boca, em TPM e, clÃmax, o gato está no cio). Mas nada afastou a importância de fazer uma reflexão a respeito do fim d'A Nova Corja.
Mesmo tendo saÃdo vitoriosos de um processo, os jovens jornalistas decidiram dar um fim ao blog, reconhecido por sua acidez e crÃtica, fosse contra quem fosse − afinal, o rio de escândalos escorre, esguicha e não pára, e fica difÃcil ignorar heroicamente a realidade para, na mÃdia, apenas assoprar mimosos moinhos de vento, alardear sobre baleias, corujas, lobos-marinhos e cágados ou poetizar sobre futebol. Acompanhei o embate entre Rodrigo Alvarez e os moralistas de ocasião, cujas alegações cheiravam a abobrinha curtida no bolor. Acho, cá entre nós, que fora talvez o modo como o processo foi encarado, sob a veia do humor, o que causou nos colegas belicosos o desejo de aniquilação a qualquer custo. Mas ironia mesmo é a Internet: em pouco mais de cinco anos os jornalistas da Nova Corja construÃram um público cativo composto de uma miscelânea de tipos de inimigos voyeurs, adversários, amigos e "comentaristas" (autores de comentários).
Acho também que os jornalistas conscientes podiam ser mais unidos e financiar um contraprocesso de fazer os moralistas chorarem moedas mas isso é eu com você, aqui nesse miniespaço verde, que cogito. Por fim, acredito que tenham feito a coisa certa. Sim, raro leitor, fechar o blog A Nova Corja foi um golpe de mestre, pois ocorreu justamente no ápice de mais uma denúncia escandalosa contra o governo do Pasto. Estávamos todos ávidos para ler o que A Corja escreveria, e então nos locupletarÃamos com suas palavras sobre a prevaricação generalizada dos Poderes e partilharÃamos do fel e da bile nos comentários. O NC assim fez-se mito: utilizou um comprimento de onda oscilatória apropriado para partir, e partiu. Sobrou esta última parte, um post eterno com atualmente mais de 350 comentários. Um post morten, um enterro que não acaba, pois os comentaristas não saem da volta do corpo defunto. É tentador pensar que não o abandonam. Mas abandonaram, abandonamos nós todos, aos jornalistas processados, porque não oferecemos nosso apoio para que enfrentassem jornalistas pseudomoralistas e todos aqueles que acham que ecologistas são comunistas trotskistas.
Pois não bastasse a nuvem preta que paira sobre os bovinenses, não sendo suficientes a falência econômica, moral e social do Pasto, sem esquecer do churume que espirra dos lados da polÃtica todas as semanas, ainda há os que se regozijam com o fechamento de sites e blogs de opinião, aqueles que aplaudem a mordaça. Só pode ser inveja ou falta de oxigênio no cérebro, nada mais explica uma atitude tão ranhenta. Prova da postura de bravata infantil, da ira birrenta e irracional, é a declaração de um autodenominado "editor" em seu blog. A vÃrgula está em vermelho porque consta na citação original, mas gramaticalmente ela não existe. O "editor" diz que:
A remessa dos dois blogs para o aterro sanitário virtual da Web, é uma homenagem do editor a todos os jornalistas caluniados por grupos iguais de delinqüentes polÃticos petistas. Além da famÃlia comum, os editores dos dois blogs escondiam-se sob pseudônimos e alojamentos em provedores fora do paÃs que acolhem todo gênero de bandidos.
Todos nós que lidamos sério com Web, que estudamos e trabalhamos nela, sabemos que a rede não possui aterros sanitários: isso é muito fácil de se comprovar pelo cheiro que exalam alguns ambientes, sem falar no que é ilegal, proibido ou pornô. Afirmar que na Web há coisas semelhantes a banheiros pode até soar poético, mas é delÃrio de quem não conhece a rede. Tachar blogueiros de delinqüentes poderia dar germe a uma boa ação por calúnia e difamação por parte dos ofendidos.
Agora, a última frase da citação acima é ainda mais interessante. Note, raro leitor, que agora até o livre uso de pseudônimos suscita a ira da direita monástica e toda a corja de enjoados que mal sabem o que é um code. Além de usar o nome que nos der na telha, creio que qualquer um é livre para meter seu blog no provedor que mais lhe aprouver: o que os chatos têm a ver com a cor que escolho para minhas cuecas? Se preferimos provedores fora do paÃs é porque os nacionais não andam suficientemente à altura de nossas exigências. Escolher provedor dedo-duro não seria prova de acefalia? Se as coisas já andam pretas sobre nossas cabeças com provedores seguros, civilizados e difÃceis de se acionar, imagine o que aconteceria se ousássemos ser como as tais moças namorando pela Internet e adotássemos um provedor dedo-duro?* É preferÃvel ser chamado de bandido e delinqüente que dar uma de purista e entrar pelo cano na atual conjuntura de caça à s bruxas. Afinal, nossos blogs são feios, perigosos e sobretudo imorais porque ousam dizer aquilo que Mark Twain aconselhava manter em silêncio e levar para o túmulo: a livre expressão, "o privilégio da cova".
Segundo o Global Voices, "por causa de seu trabalho investigativo, muitas vezes dando furos na imprensa convencional, o Nova Corja sofreu três processos em seus cinco anos de existência, e alguns dos blogueiros e suas famÃlias chegaram a ser ameaçados". Ainda conforme a mesma fonte, e de acordo com um dos ex-colaboradores do blog, "a grande motivação por trás do fechamento do A Nova Corja foi o desânimo causado pelo conjunto de processos, mas não necessariamente porque os blogueiros têm medo de suas conseqüências".Ouvi William Bonner dizer esta semana que se festejam os 30 anos de Associação Nacional de Jornais. Só pode ser piada ver os donos de jornal reclamando de censura. Os enjoados e os moralistas de ocasião devem estar realmente atrapalhando seus negócios. É o que eu penso, mas sou uma devassa, malcriada, maluca, trapaceira e covarde, além de vaca, como já bem observou um incauto visitante.
A Internet funciona sob a Lei de Lavoisier. Aguardemos.
Ops: Lembramos que o Bovinenses não adota as regras da nova reforma ortográfica e está aberto a processos de todo o tipo, desde que os querelentos a) falem pelo menos três (3) idiomas fluentemente; b) tenham lido ao menos uma (1) obra de Emmanuel Kant e saibam citar um (1) trecho desta; c) diga qual a nacionalidade EFETIVA de Arthur Schopenhauer e o que ele quis dizer com o conceito de "representação"; e, sobretudo, d) que tenha ciência de que o processado não possui bens, vive no Exterior e é portador de doença mental crônica e comprovável. Não responderemos a comunicados que desprezem as regras da elegância gramatical, utilizando-se de vÃcios de linguagem tais como "o mesmo" para significar o elemento recém-citado, ou que precindam da educação culta. Sugerimos antes, ainda, uma visita à lista de blogs associados à Relatoria para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA.
* Uma reportagem do telejornal noturno alertava hoje sobre os perigos dos golpes pela Internet. Dizia o repórter que moças casadoiras, ingênuas e bem-intencionadas caÃram em uma armadilha ao se relacionarem com larápios. Seus "namorados" (assim mencionava a reportagem, para meu espanto) não passavam de ladrões, chantagistas e frios estrategistas. "Ora, essa!", exclamou Otto, meu amiguinho imaginário cada dia mais sóbrio, "que absurdo! Veja só! Elas caem na batatice** alheia e depois se queixam!". Concordamos, eu e ele, pela primeira vez na vida.** Mistura de batatada com patetice: batatice. Tolice, paspalhice, toleimas, abobrinhas. Termo criado pela autora do blog.
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Estado de sítio
@ 2009-08-05 – 22:41:54
Entra para a História bovinense o 5 de agosto de 2009: governadora do Rio Grande do Sul Yeda Crusius e mais uma trupe de asseclas foram indiciados pelo Ministério Público Federal, em uma ação de improbidade administrativa. A ação atinge além da chefe do Executivo do Pasto, seu marido [in facto ex-marido, segundo fontes próximas me dizem, há 20 anos], Carlos Crusius; a assessora do governo Walna Menezes; o ex-secretário-geral de governo Delson Martini; o deputado federal José Otávio Germano [PP]; os deputados estaduais Luiz Fernando Zachia [PMDB, e bolso de campanha do Poeta] e Frederico Antunes [PP]; o presidente do Tribunal de Contas do Estado, João Luiz Vargas; e o tesoureiro da campanha do PSDB ao governo do Estado em 2006, Rubens Bordini. O processo é resultante da Operação Rodin, que apura o desvio de verbas envolvendo o Detran-RS.
− Não haverá moleza para estes réus, como não há moleza para nenhum criminoso que comete ato de improbidade −, fulminou o procurador da República Adriano Raudi. O processo até esse momento ainda corre em segredo de Justiça, embora seja esse um fato que interessa aos bovinenses como um todo, em seu pleno direito de cidadania e de eleitores. Rumina-se abertamente, da rádio bovina à Ordem dos Advogados do Brasil, a possibilidade concreta de impeachment. Pelo modo incisivo como o MPF se pronunciou, tudo indica que os procuradores sabem de coisa grossa. Mas não se apresentaram fatos, infelizmente, o que impede a legitimidade, que pena.
A ação vai propor o afastamento temporário dessa gente enquanto durar o processo e a perda dos cargos no julgamento. Ouvi dizer que os que exercem mandato ficarão inelegÃveis por oito anos, o que é pornô, pois roubo dá cadeia para os reles mortais. O MPF também pedirá o bloqueio de bens ou valores que os acusados tenham porventura embolsado ilicitamente e determinar o seu ressarcimento aos cofres públicos. Desconfio que a casa da governadora pode estar no rol de bens confiscados.
A lÃder da governança está off line há dias. Dizem que está em Canela, na Serra gaúcha, mantendo-se sob forte medicação e curtindo seu jardim de hortências nas alturas, bem longe das chamas. Apareceu nem na abertura da Expointer, uma feira olorosa de bovinos, ovinos e suÃnos que curiosamente atrai milhares de pessoas todos os anos a Esteio, na Região Metropolitana, incluindo mulheres e crianças. O jurÃdico do Executivo afirmou, ainda à mÃdia do Pasto, in live de BrasÃlia, não saber de nada do que está acontecendo, ou seja, advoga em outro mundo. A Casa Civil adjetivou como "crueldade" a ação.
A tropa de choque estava até há pouco o final do dia na frente do Piratini, impedindo o arremesso de ovos contra o prédio do governo.
Será que o rei Careca chegará ao poder? Haverá mais algum cadáver boiando? O que existirá ainda de tão podre que não sabemos debaixo desse tapete do sigilo? Lair Ferst tomará um chope hoje?
Certeza só tenho uma: a venda de cervejas aumentou 200% nos bares da Cidade Baixa neste fim de tarde.
Update, 6/07/2009, 1h56min: Passei o dia me recuperando do schnaps de ontem, quando me reuni com fonte próxima do Palácio Piratini a fim de saber detalhes picantes sobre a possibilidade de prevaricação apontada pelo MPF. Soube que a coisa é trabalho forte, há gente à beça no barco e que não é novidade deste governo. Não posso dizer mais que isso ou posso acabar virando isca para truta no Lago Paranoá.
Ainda no calor da noite de quarta-feira, o "Palácio Piratini" emitiu nota a respeito da ação do MPF e criticou a postura dos procuradores. Segundo a nota, o MPF "deixou estarrecidos a todos quantos defendem o estado democrático de direito". Uma afirmação esquizofrênica, já que nosso CalÃgula surtadinho é especialista em ações truculentas e tem brotoejas ao entrar em contato com blogs que exercem a liberdade de expressão, o que em geral resulta em processos.
Em relação à fraude do Detran (R$ 44 milhões!), já existem outras três ações tramitando na Justiça Federal de Santa Maria: uma criminal − com 33 réus − e duas cÃveis, também por improbidade administrativa. Ambas são de autoria do MPF contra 52 pessoas fÃsicas e jurÃdicas . Há ainda outra ação, esta da Procuradoria-Geral do Estado, contra 44 pessoas fÃsicas e jurÃdicas e duas fundações. A PGR tem atribuição para apurações de âmbito criminal envolvendo pessoas com foro privilegiado. Caso sejam julgados culpados, os réus perdem também os direitos polÃticos.
Ainda grogue de sono, escutei o jornalista e comentarista Lasier Martins defender, ao vivo, na edição do telejornal do meio-dia de sua emissora, que a chefe do Executivo tenha sensatez e se afaste de suas atividades enquanto durar o processo. Ela terá de deixar o cargo, de qualquer forma, se a Justiça aceitar o pedido de liminar. Se a governadora perder o cargo após condenação da Justiça, o vice-rei Paulo Feijó é empossado. No entanto, se a governadora vencer com novos recursos contra a condenação, ele teria de ceder e entregar o cargo a ela de volta. Como se vê, uma novela complicada à s expensas do erário; os bovinenses só marcham, desde o pagamento de impostos ao financiamento de defesa de governantes, sem falar no restante dos gastos. (Por estas e outras que defendo um sistema polÃtico descentralizado, como na SuÃça.)
De acordo com a agenda da governadora, divulgada no site oficial do governo gaúcho, ela se reuniu nesta quinta-feira com secretários do governo; o teor da pauta e o horário não foram informados. O pedido de criação da CPI da Corrupção foi protocolada na Assembléia Legislativa no inÃcio da tarde de hoje, com 40 assinaturas. Se tudo correr bem, a CPY poderá ser instalada até o dia 20 de agosto.Yeda Crusius concedeu entrevista à rádio do Pasto nesta quinta-feira, ouça aqui.
A TV bovina realizou matéria a respeito do caso, veja aqui.Por fim, o blog polÃtico A Nova Corja anunciou seu último post ontem. Parece que tem dedo da governança nisso, além de dois jornalistas que apreciam tirar dinheiro de colegas à s custas da Justiça. Falo sobre esse tema ainda esta semana. Agora preciso dormir para pagar a existência de governos que não me servem para nada, como um apêndice que se manifesta apenas para incomodar.
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Sob a batuta do esporte
@ 2009-08-02 – 09:33:01
Não suporto mais escutar o Hino Nacional. Pode parecer frescura, peruÃce, pegação de pé, provocação, petulância ou, como diria aquele antigo professor de uma faculdade particular, empáfia de minha parte, eu sei. Mas como assisto todos os jornais da TV (misto de mania, costume, obrigação) isso é uma tortura, já que 40% do conteúdo dos telejornais hoje (misto de moda, estratégia sedativa ou falta de assunto) é tomado por esportes de todo o tipo, desde o campeonato mundial de nado borboleta masculino paraolÃmpico até a novela do futebol, que tornou-se diário, com toda a sua vasta taxonomia de torneios e copas. É claro, meu caráter nojento, antissocial e antipático contribui em muito para que uma coisa tão fofa, inocente e lúdica como a divulgação massiva dos jogos seja aos meus olhos algo tão execrável quanto um crime, enquanto omissão, ou estratégia para a defesa da ignorância geral. Também tenho ciência de que não sou forçada a assistir aos telejornais, caro leitor. Mas gostaria de partilhar algumas observações sobre o assunto, até porque estou frustrada, recalcada, deprimida, entre outras tantas aflições sem remédio, e isso ajuda a me acalmar.
Quando criança, fui obrigada, por conta da conjuntura autoritária, professores e a cretina disciplina de Educação Moral e CÃvica, a cantar todos os dias o Hino Nacional. E não era só saber a letra e a música: tinha de ter a postura correta, olhos mirando um remoto ponto onde estaria a bandeira com a cabeça ereta, pés alinhados, mãos junto ao corpo e a cabeça concentradÃssima. Nada de sorrisos, olhar para o lado, fazer caretas para os colegas, reclamar do frio, chegar atrasado, meter o dedo no nariz ou relaxar a coluna. Todos os dias, à s 7h da manhã em ponto, durante anos estive sob este tormento. Em alguns Estados onde também morei, como em Mato Grosso e Goiás, a postura mudava: mão direita sobre o coração, olhar dramático e bandeira grudada na lapela do uniforme. Pelo visto, não bastou sermos submetidos a esse teatro fascista na infância, pois todos os dias qualquer esgar esportivo é festejado com o Hino. Se ainda tenho algum neurônio sóbrio, recordo de que ele deveria ser executado apenas em jogos internacionais. Talvez haja muitos jogos internacionais hoje em dia.
Hoje, ao assistir a TV ou ouvir o rádio, havendo em algum canto remoto do mundo jogos de qualquer espécie em que vença um brasileiro, e parece que isso acontece todos os dias, lá está o Hino, em geral tocado por bandinhas que mal sabem o Dó-Ré-Mi. No campeonato de Fórmula 1, lá está ele de novo. E novamente cada vez que um brasileiro chega em primeiro, segundo ou terceiro lugar, quando sai um gol ou um pontinho qualquer, acompanhado, caso seja uma transmissão da Rede Globo, do setentista grito de "Brasil", o "L" volteado na lÃngua, na empostação da época em que foi gravado, há uns 20 anos por aÃ. Em pleno século 21, diariamente, ouve-se o Hino − H maiúsculo por ser SÃmbolo Nacional, cuidado: ai de quem assobiá-lo, alterar o arranjo ou fazer uma versão pop.
Já começo a torcer contra o Brasil para evitar surpreender minha memória e ouvidos com as notas traumáticas. Agora, quando o telejornal se encaminha para o fim, e estou com o (enorme) controle remoto nas vizinhanças das mãos, troco de canal ou desligo a TV e vou para a Internet, onde há excelentes telejornais internacionais, menos entusiasmados por esportes e com programas educativos ou documentários e grandes reportagens, com transmissões ao vivo, grátis e em ótima resolução. É uma fuga desta realidade, literalmente.
Interessante é que além do bloco exclusivo dedicado nos telejornais à s mais irrisórias conquistas brasileiras no vastÃssimo setor esportivo, em que notÃcias de interesse público são encolhidas para que à s atividades esportivas seja dedicado tempo suficiente, à altura de sua importância para a minha, a sua, a nossa vida, ainda há os programas só de esportes. Assim, após o microtelejornal do Pasto − cujas notÃcias jamais ultrapassam o fait divers −, a emissora entra com a transmissão de um programa de absoluta meia hora consagrada apenas ao esporte em suas mais irrelevantes modalidades, do micro ao macrocosmos do atletismo. E depois, não bastasse, o outro jornal repete mais notÃcias esportivas no seu último bloco. Isso ao meio-dia, porque à noite começa tudo de novo, e tem ainda um resumo esportivo do dia à meia-noite. E Domingo tem mais esporte. Se eu assistisse a sério esta edificante programação, ficaria tão pateta que meteria uma bala na cabeça sem me dar conta: olhos hipnotizados, cérebro ôco, boca aberta, babando.
Sinto-me na finada União Soviética ou em uma odiosa celebração nazista pelo culto ao desempenho do corpo como máquina perfeita, pela reverência ao atletismo como fonte de esperanças, pela veneração ao esporte como filosofia e religião. Tenho mêdo dessa avassaladora fome por esportes. Até as emissoras educativas aderiram à histeria esportiva. No inÃcio, pensava que era por ser um tipo de cobertura de baixo custo e fácil a jornalistas e editores cada vez mais néscios; logo em seguida, observei que poderia ser uma ótima saÃda para as saias-justas polÃtico-partidárias e a rotina de protéicas denúncias mais e mais presentes nas agendas local e nacional. Por fim, concluÃ: como a mediocrização tornou-se a regra, o esporte hoje tomou o espaço da educação, cultura e conhecimento. No sumo, agora esporte é cultura, conhecimento e educação.
Não sou contra nenhum tipo de esporte; pelo contrário: quando menina, jogava futebol, vôlei e handball, e a bicicleta era uma extensão de minhas pernas. Ganhei vários torneios escolares e mesmo de Fórmula 1 já fui fã, daquele tipo que acorda cedo para não perder o treino ou a corrida. Também reconheço que o Hino Nacional é até bonito quando bem tocado, o que é uma loteria. Creio que se amassem tanto quanto parece a esta obra deveriam tocá-la na Ãntegra, em vez de espicaçá-la conforme conveniências de tempo e patrocÃnio, e atentar para desenvolver um arranjo decente, bem diferente das cornetinhas dolorosas de notas pernetas das quais comumente ouvimos os queixumes. Na escola padeci muito em aulas de Música para interpretar e escrever a notação do Hino − inclusive cheguei à humilhação de colar para prova, escrevendo as notas em uma calça jeans azul, sobre a coxa esquerda, que seria cruzada sobre a direita durante o teste e onde a mão descansaria com naturalidade, podendo facilmente ser afastada. Foi minha única cola na vida.
O que eu queria dizer com toda esta churumela, meu rarÃssimo ruminante, é que a vulgarização da execução do Hino Nacional é irritante. Não pela vulgarização em si, afinal, há sinfonias ainda mais ordinariamente executadas em comerciais e reportagens vis. Mas porque é exagero, excesso: enjoa o ouvido, inflama o cérebro e por fim torna-se insuportável. Se você pensar bem, qualquer coisa realizada em excesso enfastia, nauseia ou faz mal.
Em si, o esporte não é mais entretenimento, um jogo, uma recreação e sim uma guerra: de nacionalidades, de patrocÃnios, de egos, um atentado à paciência. E seus defensores acham que é uma guerra saudável, bonita de se ver, importante para todos, tanto quanto talvez uma guerra santa. Os fanáticos pelo esporte estão certos de que todos devemos acompanhar os jogos e as comemorações sagüÃneas pendurados em nossas janelas, aos berros, quem sabe até mirar um rojão no vizinho. Porque os retardados de meu prédio, modelos de cidadania e patriotismo, torcedores fiéis que atiram palavrões janelas afora em dia de Grenal, não têm tanta fé assim no edificante papel do esporte para a harmonia da humanidade. Ao contrário: neste novo mundo, o filete de sangue prenuncia a vitória.
Gostaria de estar bem longe deste manicômio quando espoucar a Copa de 2014.
Ops: A respeito da pretensa cobertura de imprensa e seu caráter omisso já escrevi aqui no Bovinenses e prossigo enfatizando o crime que tal postura significa, historicamente. Descobri porém que não estou sozinha neste front sem vencedores: há um interessante artigo publicado esta semana no jornal JÃ, um pontinho de discerninento na mÃdia bovinense.
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"Edgar o quê?"
@ 2009-07-15 – 23:48:17
Posso dizer que estou há algum tempo relutando em narrar esse episódio de não rara demonstração de completa ausência de conexão entre neurônios, para não dizer gnorânça asinina mesmo. A relutância se deve a vários motivos, um deles é certa vergonha. Resolvi enfrentar somente hoje meu caderninho de anotações do ano passado devido ao calor de algumas discussões a respeito da formação em Jornalismo. Advirto que não falarei nada sobre o tema diretamente: espero que o episódio seja suficiente para evidenciar o que penso sobre, mais que o diploma, uma boa formação. Advirto ainda que o relato está como minha memória o guardou, ou seja, sujeito a lapsos e exageros, afinal, estou mais para Charlie Hebdomadaire que para NYT. Mas garanto a veracidade oferecida pela assessoria do caderninho em que anotei as frases ipsis verbis.
Aqui no Pasto há centenas de bons jornalistas que alimentam a máquina moedora das redações do eixo Sudeste com muito orgulho. Os melhores vão embora, dita por aqui uma regra implÃcita. Mas também é verdade que muitos ótimos profissionais prosseguem nas redações bovinenses, seja por comodismo ou por ser este de fato o seu objetivo, e nisso só importa o que próprio nariz decide. Contudo, e num momento em que o diploma foi classificado como adubo orgânico pelo Superior Tribunal Federal, achei muito a propósito lembrar de uma repórter de televisão local que para mim é, infelizmente, o paradigma de uma péssima jornalista, e cuja inconseqüência só não é verificável, penso, porque ela tem a sorte de trabalhar com variedades. Evidentemente seu nome será preservado.
Ostentava um pêlo louro, liso, brilhante e comprido, corpo esguio, rosto de boneca e dentes de causar suspiros a aficionados por dentaduras como eu; ela estava lá para a coletiva com dois cineastas brasileiros pela segunda edição do então Curso de Altos Estudos Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem − Beto Brant e José Padilha. É verdade que cheguei atrasada, um papelão inadmissÃvel, e, por isso, fiquei de pé atrás de toda a platéia de jornalistas, o que pode ter dado a idéia de que eu fizesse parte da assessoria do evento. No final da coletiva, esta moça, que certamente chegou pontualmente e "sempre carrega lápis e borracha na bolsa",* perguntou para mim na primeira oportunidade, em tom de cochicho: "Quem é aquele homem de barba?". Era Jorge Furtado. A princÃpio, achei que era gracejo, mas, em um átimo, concluà que era absurdamente sério e, atônita, já me vilipendiando com chicotes por dentro por ser tão antipática para com as dúvidas humanas sobre o óbvio, respondi-lhe que era o diretor de Ilha das Flores. Ela anotou, equilibrando em uma mão uma resma de papel sobre o microfone da tevê: "Barba. Jorge Furtado. Ilha das Flores". Depois, indagou-me sobre outras pessoas, e, como eu estava bebendo um cafezinho mesmo, fui lhe dizendo quem eram.
Como já disse, cheguei atrasada, e, muito bem-feito, não consegui a entrevista com o José Padilha, cuja assessora era uma fera zapatista (e ele uma moça de delicadeza). Assim, meti meu rabo no meio das pernas e peguei o elevador, cujo interior já abrigava a mesma moça da tevê local, e que me aguardava com um balaio de dúvidas. No térreo, pontuava com ela ainda suas últimas indagações o mais solicitamente possÃvel, uma vez que me sinto muitas vezes na obrigação de dar alguns esclarecimentos por trabalhar há alguns anos com cinema. Mas o que viria a seguir me faria tremer pelas bases da realidade, realidade esta cimentada atualmente de forma cega na mÃdia.
Quando a moça me perguntou, em um tom de 6 anos de idade, qual edição do evento era aquela, pensei que ela estivesse com muita pressa para ler o release, e, bem, eu estava coçando mesmo; enfim, persigo a meta existencial de ser menos nojenta com as pessoas, e ninguém é obrigado a saber um detalhe tão importante como esse em seus primeiros passos no jornalismo, ou é?
Após a resposta, ela me perguntou quem viera na primeira edição. Respirei fundo. Disse- lhe que era apenas uma jornalista de cultura que estava ali em busca de uma boa pauta, e que muito certamente ela encontraria isso no release ou com a excelente assessoria do evento. Ou seja, de uma maneira delicada porém firme informava já estar farta de suas perguntas. Ela demonstrou aflição, agitou o microfone que ainda mantinha em uma das mãos, como se fosse parte de seu corpo, e perguntou se podia apenas tirar uma dúvida. Tudo bem, acedi. "Como é o nome do cineasta europeu aquele que vem para o evento?". Você deve estar se referindo ao Wim Wenders, respondi, já com mêdo do poço sem fim de escuridão daquela mente. E admito que senti desprezo no instante seguinte, ao ouvir o seu pedido para soletrar como se escrevia. Eu soletrei, mas senti ódio dela e de mim.
Senti ódio porque 1) facilmente, ela poderia buscar isso na Internet,** logo, era preguiça, e me sentia estar sendo usada, e 2) eu estava auxiliando seu comportamento auto-indulgente e ela jamais aprenderia desta forma a ir atrás de dados e a ser uma boa jornalista. Ela me pareceu uma usurpadora, fosse bela ou ingênua, tanto faz. Fiquei ainda mais chateada por acreditar que este é o tipo de gente que se dá bem na vida às custas do outros; é aquela espécie que pede cola aos que estudam; é da laia dos que não querem fazer o menor esforço e que, por meio de sua cara-dura, atingem seus objetivos. Ao contrário dos idiotas como eu, que têm um comportamento "excêntrico", parecem metidos demais e dão com os burros n'água por serem "uns chatos".
A seguir, bom. A seguir, ouviria a frase que marcaria para sempre aquele dia. Prestes a sairmos do Sheraton, ainda no saguão e já querendo esquecer a repórter, havia comentado com meu fotógrafo e marido, en passant, que talvez não conseguisse falar na conferência daquela noite com José Padilha e estava assim mais confiante e empolgada com a vinda de Edgar Morin. Então, a repórter lascou no meu ouvido direito, a cabeça lindinha inclinada 75 graus: "Edgar o quê?". Senti vergonha de existir, juro. Tive vontade de me esconder, como se eu estivesse ali no saguão nua; não entendo por quê até hoje me envergonha tanto este momento.
"Edgar o quê?", ela repetiu, a cabecinha ainda mimosamente inclinada. Sinceramente, eu estava paralisada, parecia ter sofrido um AVC e aposto como quase babava em um canto da boca, pela surpresa, pelo momento traumático, pelo abuso ou completa estupidez da menina. "Mo-rrã", eu disse, querendo dizer na verdade um imperativo de grafia semelhante, só que sem o "til". É claro que ela não saberia escrever, jamais ousaria esperar isso, então tomei-lhe a caneta de supetão, a delicadeza que fosse às favas, e escrevi. Ela me agradeceu com aquele sorriso de propaganda de creme dental e foi embora rebolando, microfone relaxado sob a mão. Parecia bem contente.
Agouros − Agora que a GM desanunciou sua concordata, resolveu investir no Rio Grande do Sul. Até Otto, meu amiguinho imaginário, caiu na gargalhada, ele que tem mantido o seu fÃgado permanentemente encharcado por conta dos desvarios do Piratini. Desta vez, admoestei-o: "Otto, então você é um agourento. Todos estão festejando o fato com fogos porque o Pasto está com uma galinha preta há mais de décadas e ninguém é suficientemente maluco para colocar um centavo por estas terras!". Otto respondeu que até eu entrei no clima otimista da agenda da imprensa bovinense. A minha única apreensão é que, sempre, após o anúncio de um fato positivo pelo governo no RS, na mesma semana, quando não no mesmo dia, um fato negativÃssimo estoura na imprensa − em geral, fitas e "provas" de teor vil. Assim, não é que aqui em casa eu e Otto fiquemos bebendo cerveja e esperando que o Piratini pegue fogo (já está em cinzas, mesmo), mas tornou-se uma ação skinneriana: fato positivo = explosão.
Dizem que hoje vai faltar luz aqui daqui a pouco no Moinhos de Vento (menos na Padre Chagas) quando chuviscar. Então, infelizmente preciso desligar as máquinas. Da última vez, o poste aqui da frente de casa explodiu cinco (5) vezes e quase perdi um computador, esta espécie de segunda cabeça à xifópago imprescindÃvel para a sobrevivência.
* Com isso não pretendo dizer que informações devam ser sempre buscadas na Web, mas, neste caso especificamente dramático, em que a moça desconhecia nomes tão significativos e talvez não tivesse a menor idéia do que ela mesma ali fazia, lançar mão deste recurso seria até louvável. A este respeito, recomendo a leitura de Ética no jornalismo, de Rogerio Christofoletti (Ed. Contexto).
** Eu sempre esqueço "o lápis e a borracha da minha vida" em alguma gaveta de casa. Quando já estou diante de algo que precisa obrigatoriamente destas metáforas, é tarde e tenho de me virar para que tal falta não me prejudique. Nunca fui competitiva, apenas não suporto ser suplantada pela mediocridade, morrer na praia apenas "porque não trouxe lápis e borracha na bolsa", entende? Bom, é uma metáfora e não tem a menor importância entender isso, mesmo.
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Flanelinhas, piratas e cebolas
@ 2009-06-30 – 22:37:32
Olha, além de trabalhar como uma vaca, peguei uma gripe do tipo "velha", ou seja, não-suÃna, e acabei sumindo junto com o mês de junho, que nem me abanou de longe um tchauzinho; já entramos no sétimo mês de 2009 e parece que o ano-novo foi ontem. Então, na verdade, você sabe: os assuntos esfuziantes de nosso Pasto se acumularam, mas não por isso deixaram de ostentar seu caráter absurdo.
Não consegui me informar muito bem das coisas, mas ouvi dizer que o Poeta legalizou a atividade dos flanelinhas em Porto Alegre. Apenas para refrescar a nossa memória, já que os fatos são não apenas discrepantes como desafiam o bom senso: em 2007, o governo do Pasto, representado pela figura da Secretaria de Segurança Pública, havia "declarado guerra" aos flanelinhas. Antes de mais nada, também é importante não esquecer que a atividade da extorsão de motoristas é prevista em lei, ou seja, é natural, como vários outros atos imorais mas não ilegais.
Continuo vivendo no mundo do faz-de-conta, onde tudo "deveria ser" e não é. Assim, gostaria de, junto com você, meu raro leitor, tentar entender: o usurpador, aquele cara que chega ao lado do vidro do motorista e fala em tom ameaçador que "tá bem cuidado, doutor", e que quer dizer "na volta, espero uma grana, senão...", agora é reconhecidamente um profissional. Como eu, por exemplo, só que meu diploma já não vale muita coisa. Além disso, nunca extorqui ninguém, o que não é muito bem-visto em nosso PaÃs. E enquanto tenho de emitir nota fiscal para exercer a profissão de jornalista e fazer mais três frilas para chegar ao fim do mês viva, o cara-dura do flanelinha − que, salvo injustiça, em geral mal sabe escrever o próprio nome − foi reconhecido e legitimado. Será que se eu sair aà ameaçando as pessoas com uma faca eu também ganho alguma coisa? É verdade, sempre ouvi dizer que no Brasil o crime é "organizado" e que ser ladrão é coisa de "profissional". Eu deveria ter voltado meu interesse de estudos a outras áreas.
"Tá bem cuidado, doutor", "tá bem cuidado, madame" são ameaças verbalizadas como uma boa ação. A intenção velada, justamente por não ser evidente, é de conclusão escorregadia mas que poderia ser curta e grosseiramente resumida por: "quero receber uma grana por fazer de conta que cuido de seu carro"; "eu poderia exigir sua bolsa, mas estou tentando parecer honesto"; ou "você sabe, tem um monte de ladrão de carro por aÃ, é só me passar uma grana que deixo eles longe daqui". Porém, ainda há atrás destas pseudointenções uma ameaça ainda mais encoberta pela frase positiva. É uma espécie de "senão", "caso contrário". Ou seja, o bovinense não tem escolha de dar ou não dar a grana, como se acreditasse no caráter de prêmio da gorjeta. Não, esse ato é uma exigência, quase um tomar. Porque todos sabem o que pode acontecer se o cara fizer de conta que cuida e você não acreditar que ele foi sincero. Conheço algumas pessoas que tiveram de mandar pintar o carro, e uma, inclusive, precisou refazer seu pára-brisas, que, misteriosamente, apareceu quebrado em um local de estacionamento já costumeiro da cidade; e, tão misterioso quanto, o flanelinha também havia sumido. Isso para ficar na superfÃcie, já que tem muito flanelinha que serve de agente de informações a sujeitos interessados em usufruir do bem alheio.
Então, sem mais a dizer, concluo o óbvio, dadas as informações repassadas pelas manchetes e pelo comportamento de nossos edis, pela legislação modificada em benefÃcio de alguns, etc.: no Brasil, quem é honesto se dá mal. E em Porto Alegre, o roubo é legitimado. Processos podem ser endereçados ao CPF utilizado por um ex-ministro da Fazenda. E é por estar com o nariz em chamas pela gripe, mais chapada de analgésicos que Michael Jackson, e tomada pela absoluta preguiça de fazer um post novo que puxo o assunto a seguir.
Pirataria! − Aproveito para informar que o site de torrents The Pirate Bay foi vendido hoje por US$ 7,8 milhões. A notÃcia pode ser lida na Ãntegra aqui e aqui. No blog do TPB pode-se ler já uma nota a respeito, que começa com "Yes, it's true". Estive com Peter Sunde, um dos fundadores do TPB, durante um encontro integrante das atividades do Fisl 10, quinta-feira passada, e juro que nada em seu rostinho inocente denunciava qualquer indÃcio disso, ou o cheiro de cebola dificultou se perceber alguma coisa. Mas as bombas do dia não terminam aÃ. Os fundadores do TPB criaram um site de vÃdeos que desafia as bases do YouTube, chamado The Video Bay, que disponibilizará filmes em HD para exibição: adeus downloads, bye processos. Juro que também isso não foi adiantado durante o Fisl.
Não foi a "prisão" de Sunde que influenciou a venda do TPB; talvez o processo, sim, tenha levado a uma oferta, como também só influenciou positivamente o Partido Pirata da Suécia, que, com toda a celeuma, conseguiu mais adeptos e em conseqüência uma cadeira no Parlamento Europeu. A meu ver, o efeito replicador da Web é seu maior poder e este negócio − a venda do site de torrents mais polêmico da Web e a criação de um concorrente de peso ao YouTube − só reforça tal opinião. O termo "pirataria" deverá ser utilizado com mais consciência crÃtica a partir do TVB, uma vez que seu significado hoje só contempla uma das partes interessadas, ou seja, a indústria cultural.
Outra novidade que saiu na imprensa nesta terça-feira é que o Fisl prosseguirá sendo realizado em Porto Alegre, e parece ter finalmente recebido um local de acolhida: o Cais do Porto. A novidade já entra em vigor em 2010, quando o festival completa 11 edições. Acredito que, não obstante possuir tudo para um bom funcionamento da Web, a péssima infra-estrutura oferecida aliada à conhecida mal-humorada burocracia da PUC venceram os organizadores do Fisl. Para se ter uma idéia, o auditório da Famecos não ofereceu nada aos palestrantes do Festival de Cultura Livre além de um palco. Foi impossÃvel utilizar os preciosos equipamentos da PUC, presos a cadeado dentro de seus túmulos. Conexão com a Internet, nem pensar. Não se sabia ao menos informar onde estavam as tomadas. Só se pôde utilizar a iluminação default e o microfone, o que impossibilitou a apresentação de trabalhos prontos, como a oficina de pure data do doT. Ainda bem que os participantes foram pacientes. A Procempa divulgou uma nota lamentando o ocorrido.
A mim sempre surpreendeu que um evento voltado à liberdade tecnológica, à difusão do conhecimento de forma livre (leia-se sem copyright e códigos abertos) fosse realizado em um local que prega uma ideologia diametralmente oposta, sendo inclusive um pólo de certificação da Microsoft. Agora, no novo espaço, a Procempa se responsabiliza em oferecer uma estrutura melhor ao Fisl 11. Que o Cais do Porto venha para mostrar com quantos megabytes se faz um festival de tecnologia livre.
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Boas-vindas ao espírito do Kerb
@ 2009-06-10 – 03:39:15
Este espaço guasca não nasceu para falar de seu autor guaipeca, e estamos conversados. Mas é que estive sem tempo para escrever sobre o Pasto nos últimos dias, por conta das tarefas da gincana necessárias para se chegar ainda vivo no final do mês. E hoje é meu aniversário, e por causa das urgências de trabalho não vai ser possÃvel comemorar a data: estou determinada a entregar minhas mumunhas no prazo, embora isso seja fisicamente duvidoso.
Era a manhã de um domingo frio e chuvoso de 1973 e os porões do Brasil ainda estavam lotados de corpos, gritos e sangue. Nove dias depois, peguei uma pneumonia por andar por aà passeando na chuva. Sobrevivi à minha mãe para atormentar editores, maridos e bovinenses em geral. Em 10 de junho de 1980 meu avô materno morreu; durante muitos anos, a partir de então, esta foi uma data nula. (Poderia dizer que o pai morreu perto da mesma data, mas chega de miasmas de necrolatria aqui.) E então, um dia, já velha, descobri o maravilhoso prazer de encharcar os miolos, e, para isso, nada como ter alguma coisa como pretexto, nem que seja o seu tosco nascimento.
Daà que hoje lembrei que há exatamente um ano celebrei meu aniversário como se fosse um Napoleão − ou napoleoa. Foi algo assim, para dar um exemplo atual, como se estivesse possuÃda pelo espÃrito exultante da chefe do Executivo pastoril: festejei durante 13 dias. Depois desse Kerb, sobreveio uma fraqueza tal que achei que minha hora tivesse chegado. Foi então que escrevi os eslovos abaixo, lidos em oportunidades inesquecÃveis perpetradas em alguns recantos boêmios da Capital do Fim do Mundo, como aqui, aqui e aqui. Contudo, advirto aos literatos da Academia que não tenho um "eixo narrativo". LÃngua, ó.
Paciência. Na próxima semana, prometo falar sobre a impressionante ligação entre os brocoiós de Porto Alegre e os freqüentadores de casas de chá de uma cidade turca, ou algo assim.
Agora devo voltar ao pelourinho. Deixo você com o delÃrio zambeta abaixo.
Trinta e cinco anos e treze dias
Ariela Boaventura
Hoje é o décimo-terceiro dia.
Ouço as batidas de um coração eletrônico, em conjunto com notas assÃncronas de saxofone; meu peito dói, a garganta está em chamas. Hoje é o décimo-terceiro dia do final de tudo. Já está aà de pé a morte prematura, o medo me congela os pés, o corpo frio de um defunto contamina a imaginação. Vejo lagartas e micróbios rastejantes em ávida pressa me invadindo orifÃcios, sem-terra desterrados que reivindicam sua nesga preterida por mais de três décadas, cinco anos e treze dias, uma tragédia que poderia ter sido evitada: determinação, coragem e purificação; higiene e disciplina. Junkie seminal, fuckyness, a rotina da nova convenção, o pastor cretino cujos fiéis quebraram um templo de candomblé no Catete, o filme se passa rapidamente, dizem que é assim. Templo? O cérebro ainda tenta corrigir, atento. Ritmos entram pelas aurÃculas e contrastam com esta tragédia com frases ridÃculas e alegres como em um filme de Chaplin − notas vivaldinas ou vivaldianas, horror explÃcito de violinos executando uma primavera homossexual, explosão de exageros, uma bichice à Tatata, uma xáisse à italiana, cornetinhas de berimbaus e eletrocutes irritantes. Agora, ainda pior, som de desenho animado, vejo o Patolino andando de um lado a outro, toda a famÃlia Walt Disney e seus maravilhosos compositores de trilhas de desenhos, os tons das corridinhas, pauladas e eternos acidentes e crimes sem uma gota de sangue, sem morte ou qualquer conseqüência, uma vida sem fim, sem doenças, sem câncer, vermes rastejantes ou pleonasmos de óbvia ressaca.
Heute ist die dreizehnte tag zu ende. Algoritmos, curvas, contas binárias, processamento matemático booleano e ritmos. Contas, sobretudo e principalmente contas − o motivo de minha ruÃna: dÃvidas com o fisco, com o próprio corpo, uma curva descendente de desilusão consigo, algo sempre a dever e deveres sem-fim: o trabalho protelado, preguiça gulosa engolindo a cada dia vontades e tarefas; os prazos na porta, os cobradores na cauda da Justiça ou até da polÃcia, por que não? Meu pai ali na sala, morto. Nu, de pé e morto, apontando para a porta de minha casa. Fazia frio e ele me rogava gravemente o alerta: "Não abra a porta para o homem de sobretudo marrom e chapéu sobre o rosto, aquele cara que toca a tua campainha, não vai lá!". O perigo arrepiou os cabelos da minha nuca, uma urgente ingerência, e então o bafo da morte arrepiou novamente todo o pêlo de minha cabeça mais duas vezes; o medo fincou suas patas em meu coração e, em um sobressalto, acordei. Surge a percussão e um bicho grunhe como um pássaro, como durante todo o dia de hoje, treze dias depois, a floresta, o rio, os pipilos eletrônicos que tanta preguiça me fizeram sentir e dormir. Brurp, faz o sax tenor, arrotando como um alemão após comer chucrute ou compota de ovo com rabanete. Ahhhh! Dentes brancos, hálito puro, não era esse o slogan daquela propaganda de Close-Up?
Hoje é o fim, treze dias de regada putaria acabaram com trinta e cinco anos de minha vida. O sax vai ficando mais grave, mais grave e curto, às vezes é rebatido com um agudo e volta a ressurgir com o sotaque do demônio de O Exorcista em baixa rotação, o fim palmilha cada célula e se aproxima de instante em instante, as horas passam e tenho medo, o corpo resfria, as forças para manter os olhos abertos se vão. Ouço já a música distante, como se ela fosse sendo tragada por um crescente abismo, queda livre de notas, arcabouço de já indistintas colcheias. Uma vez mais, um sopro; outro expirar, mais lento, agora, e outra vez, ainda mais devagar...
O disco silencia.
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Libelo contra o bovinismo
@ 2009-05-23 – 09:37:06
Foi depois do vazamento de gás aqui no prédio, ontem, ante a iminência de uma possÃvel explosão − afinal, além de pessimista, a inalação de substâncias tóxicas deixa minha imaginação vulnerável à crença em desastres de toda ordem −, escolhi morrer e deixar morrer. Porque não poderia sair de pantufas por aà com o gato debaixo do braço no meio da noite, assim como não poderia deixá-lo para virar churrasquinho. O gás entrava por baixo da porta de entrada, pela fresta das janelas e principalmente pelas tubulações da fantasia. Chamei os Bombeiros e eles disseram que é vazamento em um apartamento e que a possibilidade de explosão é real. De maneira que escolhi sem pestanejar morrer com meus livros, meus discos e meu gato. E depois disso, quando o cheiro do gás passou, e em conseqüência a possibilidade de o edifÃcio virar um pirulito de fogo, voltei meus pensamentos para os chatos e politicamente corretos, para a turminha enjoada e para as senhoras do sagrado coraçãozinho de Jesus, a massa de dementes, papalvos e imbecis que se locupletam em meter um processo por conta de uma vÃrgula ou horrorizam-se diante de caricaturas religiosas e piadas sobre a morte, o câncer, tabus em geral; os corifeus da decência que volta e meia aparecem para obscurecer a civilização e perseguir os infiéis, esses imorais sem coração. E eu não sei se foi pela proximidade com o apito final e por tudo diante disso parecer tão pálido e sem importância, ou se foi por ler uns eslovos a que fui exposta e cujo teor só existe similar junto aos anais da imbecilidade crônica, que concluà protelar meu schnaps hoje e escrever um post recheado. Porque, você sabe, tem um monte de bovinense retardado mas também há gente inteligente sobre a Terra. E esse meu amigo é uma destas pessoas. Não é por ele ser pós-doutor em n universidades internacionais; é que ele escreve poesia e crônica e é intolerante para com a boiada néscia de nossos dias.
Então, sabe, eu achei esse texto dele de uma lucidez incomum e resolvi que era muito a propósito. O elogio e a crÃtica são essenciais a quem cria, mas raros são os que conseguem manejar seus pensamentos sem falar merda. Há uma turba de descontentes e grosseiros, uns cabeças-de-pixel mesquinhos que exalam seu vácuo mental por aÃ, uma gente a quem simplesmente é impossÃvel exprimir-se sem ser ofensiva. E há os eternos cordatos, que ficam em cima do muro pelo temor de desagradar ou por desconhecimento total do mundo. Eu diria que o bovinense padrão é da turma dos descontentes e nada neste universo é capaz de lhe agradar de fato; há um ranço ou inveja que impede-lhe o elogio vÃvido e seus movimentos são como cascos de ferro embebidos em veneno, causando necrose a tudo o que possa ser objeto de sua crÃtica.
A quem não entender na primeira lida, sugiro insistir. Aos enjoados (sempre tem um), sugiro que não percam tempo neste blog, me esqueçam: vão pastar em outros espaços.
Bom, enquanto você lê, vou beber meu schnaps. Skål!
E, por que não?, goodvibes!Â
O concordista
Marcus Fabiano GonçalvesNão pode o elogio ser dolorido nem a crÃtica regozijante. O primeiro há de ser ao menos vagamente feliz e a segunda suavemente aflita, exprimindo a capacidade de bendizer de quem mantém viva a sua disponibilidade à comoção tanto quanto o senso normativo que sustenta esse exercÃcio de ortopedia que começa com um singelo não.
Quem interpõe excessivos poréns ao sincero aplauso frustra a fruição da aprovação e não raro deixa ver por entre as rugas de seu sem cenho o rancor da própria inveja. A bem da verdade, ninguém precisa ser um Mozart para reconhecer de longe um Salieri. O elogio não pode ser doÃdo. Quem rejubila-se com a crÃtica quer em regra apenas demolir irresponsavelmente, revelando assim a própria inépcia para fazer aquilo a que se arvora no direito de julgar levianamente. Aristóteles bem o disse: é mais fácil demolir do que construir. Mas há os quem sequer bem se prestam a demolir. São aquelas figuras relegadas à réplica medÃocre dos diálogos de Platão, são seres cuja fala tem o registro dramático de meros artifÃcios estilÃsticos, são os eternos parasitas da voz alheia, os artifÃcios narrativos que provocam a alternância dos travessões.
Entre uma e outra coisa − entre o elogio doÃdo e a crÃtica regozijante − pode ainda vicejar a atitude compassiva do concordista: aquele que nunca tendo comprometido-se genuinamente com algo para fruÃ-lo ou recusá-lo, sem jamais ter sido compelido pela própria vidinha que escolheu a tomar alguma posição digamos, mais perigosa, encontra em absolutamente tudo a ocasião perfeita para os apaziguamentos. O concordista tem a convicção Ãntima de que o mundo é mesmo inerte à sua presença anódina e apolar. Por isso resta-lhe falsificar a idéia de mediania manifestando uma repulsa aos extremos. O concordista sublima a crÃtica e o elogio em vapores de tépidas normalidades, imprestáveis porém tanto à inalação dos aromas do êxtase como da catinga da ruÃna. Sua figura pública manifesta um senso de humor comportado e pode ser a do pusilânime, do plantonista da sensatez ou do rebeldinho dos blogs e das listas de email. Fabricaram e foram fabricados pelos aconchegos desse mundo entrevado de cinismos que aà está. Sua devastação entretanto jamais atinge grandes proporções. O obstáculo tanto à critica como à fruição que o concordista representa vê-se logo mitigado por um singularÃssimo dispositivo interno: o concordista vive atormentado com o que pode pensar dele quem não é como ele, sabendo que, para quem freqüenta o lúdico como bélico da vida − ou o ético como o estético ativo, caso se queira −, sua pretensa temperança cavalheiresca não passa da mais farisaica e risÃvel covardia. O concordista opõe limites ao guerreiro e ao artista, justo por isso ele acaba sendo o que apenas talvez fosse para quem não adere aos consectários éticos de suas inoxidáveis premissas existências. Quando porém a sua platitude é tomada de assalto por vertigens, por algum Ãmpeto de cascos e corcovas, ele não tem pejos em socorrer-se de um bovarismo que amplifique as suposições do seu cabedal de experiências romanescas, compensando o seu desabastecimento de mirradas vivências por um repertório de episódios assistidos e comentados na confortável passividade com pipocas do espectador moderno. Mas não seria justo dizê-lo incapaz de fantasias. Ele cogita a máscara, mas nunca como herói ou como bandido: ele põe-na imaginariamente, como o funcionário obediente que amarga a impotência de ansiar por secretas escapadelas sadomasoquistas. A sua auto-imagem completa assim o prodÃgio de ser a um só tempo penitente e deslumbrada ao saber-se a fonte de um não tão fraco e de um sim tão fácil. Ela (de)forma-se como o decalco fantasmagórico de um jogo de espelhos no qual simplesmente desaparece ao ser capturada por um sistema de reflexos contraditórios que rumorosamente duvidam de seus critérios. Como boa refém, a auto-estima do concordista suporta o cativeiro com docilidade e rejubila-se quando pagam o seu resgate: a concordância com o concordista é a transação economicamente mais perfeita da soma zero. Ela é processada no terreno supostamente casual das afinidades eletivas concebidas como diletantismos de eruditos fin de siècle que se exercitam aos finais de semana entabulando conversas de comadres que tenham lugar sobre os escombros de um terreno que jamais conseguem compreender como conflagrado. O concordista aplica-se com denodo em exaltar as muitas vantagens de se habitar os subúrbios da existência: sua tranqüilidade, seu asseio, sua comodidade para o filel cumprimento das obrigações sociais e afetivas. Impossibilita-se assim tanto a solidão criadora que no campo restitui a terra quanto os fluxos caóticos que só uma autêntica metrópole oferece. E resignando-se como um autêntico suburbano, ele não experimenta nem a errância do flaneur de Baudelaire nem os caminhos do pastoreio de Caeiro. À barbárie do banal ele aspira ombrear sua peculiarÃssima filosofia, exercida como uma espécie de escolástica de roupagem modernizada mas no fundo votada a catalogar deduções de inutilidades indemonstráveis. Ele cuida de cristalizá-las como sólidos valores e, como não age, ao concordista pouco importam os fins, afinal ele enfim tornou-se um homem de princÃpios. Embotados princÃpios à beira de um precipÃcio.
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Frontal 1 x 0 Grenal
@ 2009-05-15 – 05:07:29
Optei por desprezar a azáfama que deixou a polÃtica pastoril incandescente esta semana por tratar-se, como a própria governadora definiu, de fatos "requentados". Ela tem razão. Nada há de novo. Os noticiários parecem repetitivos e por isso cansativos. Enquanto labutamos por empregos mal-pagos, apertamos o cinto e o bem-viver se parece mais e mais com um sonho odioso porque impossÃvel, nos estuários governiculares uma constelação de elementos peludos acumula-se sobre um ralo já entupido, como um dente que criara uma cavidade na qual vão se juntando restos de comida apodrecidos e bactérias. Mesmo quem acompanha tudo com atenção acaba se perdendo neste mar de lama e entedia-se. A cada semana um novo capÃtulo surge nesta novela que daria inveja a ficcionistas de folhetim, com personagens incrÃveis e um final previsÃvel. Tudo já foi dito, e a gente sabe como isso termina.
Assim, volto a atenção para a obscuridade de nossas cabeças, o vazio de nossas vidas, nossa covardia disfarçada de alienação, uma danação sem fim porque assim escolhemos. Se vivemos na ala manicomial onde Napoleão usa sutiãs e toma Frontal ante cada crise, é porque assim a maioria quis. Isso não é uma questão partidária, nunca foi. A escolha que o bovinense fez se deu em razão do Grenal, de ser "anti", de achar que tudo na vida é como futebol. Enquanto os gritos ecoam pelos edifÃcios e há energia para xingar o vizinho por ser gremista ou colorado, a panela continua no fogo e os sapos prosseguem ali dentro, cozinhando. E infelizmente tenho certeza de que pode acontecer a mais inacreditável reviravolta ou aparecerem mais mistérios, detritos, cadáveres e suspeitas que o enredo não afetará os ruminantes do nosso valoroso universo pastoril, os quais assistem a tudo pastando bovinamente, como se não fosse com eles.
(Hão de me bater: centenas de cidadãos marcharam esta semana na capital melhor em tudo pedindo o impedimento da soberana. Mas os bovinenses já estão "marchando" há anos. E as manifestações, embora muito organizadas e bonitas quando o Sombra não infiltra um espertinho, são anódinas. É preciso mais. Mais barulho, mais união, mais enturmação. Enquanto o Moinhos de Vento não descer do salto e participar das aglutinações, enquanto a Cidade Baixa se negar a subir até o bairro nobre para seduzir as peruas, enquanto Porto Alegre permanecer uma cidade antropologicamente separada em castas, nada funcionará, e é com isso que os ladinos do poder contam.)
Nosso autismo, em seu sentido metafórico, tornou-se um costume. Desde há alguns anos, a realidade do gaúcho está de cabeça para baixo. Assistiu-se a fatos na área polÃtica que solaparam completamente o orgulho do bovinense, o qual, maltratado em sua dignidade e humilhado até na sua mais recôndita fagulha de fantasia heróica, e sem argumentos que justificassem sua confiança ou antipatia polÃticas, passou a ignorar o que a realidade lhe mostrava. E o estado de coisas prosseguiu em uma linha ascendente de escândalos, processos judiciais e assombrações, sem que investigações pudessem discernir se o ovo goro existia ou seria uma alucinação coletiva. E não podemos dizer que já alcançamos o final dos degraus na escada da degradação, pois a cada semana surgem novos eventos mais fantásticos. Dessa exposição constante ao absurdo decorre a insensibilidade perante o que acontece, uma carapaça que se transformou na pele do gaúcho. Os poucos entes a comentar alguma coisa o fazem aos cochichos, como se falar sobre a baixaria que reina fosse algo vergonhoso, como se vis não fossem os atos que fomentam a decadência moral em que vivemos.
O fato desta vez foi desqualificado por já existir e pela maneira como foram obtidos os diálogos de botequim (em nossa sociedade, a balbúrdia dos barzinhos é onde se arma a polÃtica que governará a todos com o dinheiro alheio, em meio a chopes e muitas risadas de escárnio do papel de nulidade desempenhado pelos bovinenses). Tal como já ocorrera outras vezes: o como é o que importa mais que o fato em si, em um exercÃcio de retórica reles, pois qualquer trissômico vê o quanto são os fatos o ponto em questão e não o modo como eles foram obtidos; isso não só é secundário como aviltante à inteligência, mesmo daqueles que entraram nessa achando que eram revanchistas. Já disse que estamos todos no mesmo barco; quando isso fizer algum sentido ao imenso clube do Grenal, as coisas terão chance de ser melhores.
Fato é que a rainha do abismo está só. Entre o clero polÃtico, a distância e a frieza são evidentes à causa da desconfiança de lepra e de ser contaminado. Há quem diga que a medicação anda pesada para os lados do palácio e eu mesma juro que já vi, em uma coletiva, umas pupilas que mais pareciam pratos. Agora fala-se em CPY, um ardil para ganhar tempo, para deixar as coisas esfriarem, para que a agenda da mÃdia se ocupe com outras coisas − a poupança da classe "média", por exemplo. Não que uma comissão vá de fato ocorrer. Até meu gato no cio entende que é só ensaio teatral: a ninguém interessa saber o que há de verdadeiro ou ainda pior nisso tudo. Nem mesmo aos chamados radicais de esquerda, porque, se de fato se interessassem, teriam dado o que é de direito ao cidadão em vez de entregar os doces ao limbo federal. Ou será que temeram que algo muitiÃssimo grave acontecesse? Tipo assim, o quê? Cartas com possibilidades para este espaço verde, por gentileza, porque eu não consigo imaginar nada, a não ser holofote.
E quando disserem que os Ovnis estão chegando, não duvide. Aqui, onde a vergonha perdeu a cabeça, as roupas e as botas, tudo não só é possÃvel como é bem provável que em breve aconteça. E tudo permanecerá como antes, entediante e sem sentido, pois só assim conseguimos encarar nosso rosto no espelho todos os dias.
Afundamos de nariz em pé.
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A besta está solta
@ 2009-05-08 – 08:58:33
Soltaram os cavaleiros do Apocalipse. Não me lembro muito bem da ordem dos fatos, mas acho que tinha um certo 'anjo' que, lá pelas tantas, abriria um tal de selo e lançaria durante estes dias tão funestos mil pragas com toda a sorte de doenças nos cornos da humanidade. Depois disso, tinha mais um bando de 'anjos', cada um com um livrinho selado contendo sua cota de tormentos endereçada a boa parte de nós. O sujeito que escreveu este livro, a meu ver o mais interessante da BÃblia, deveria ser socialista para distribuir de modo tão equânime tantas desgraças. O que ele não poderia imaginar é que no futuro esta história pareceria filme infantil. Enfim, Jesus é pop e está na moda; faz shows de fé freqüentes na capital do Pasto, milhares comparecem emocionados, e resolvi escrever hoje nesse tom divino para comemorar o milagre do novo template dóitsche.
Vendi a BÃblia em uma época de vacas magras, ou talvez a tenha perdido, pois foram muitas as mudanças e cervejas. É um livro importante para um escritor interessado em estilo, e havia um prazer proibido lê-lo escondido de meu pai, ateu convicto e profundo crÃtico da igreja. Gabriel GarcÃa Márquez jamais teria ganho um Nobel por 100 Anos de Solidão se não tivesse se inspirado no repetitivo Gênese. Nunca gostei desse livro introdutório, as contas não fechavam e a gente acabava se perdendo por causa da reincidência de nomes, parecia que o cara que escreveu estava com Alzheimer. Mas o Apocalipse foi inesquecÃvel. É um show de horrores, um prenúncio de Hollywood, é um thriller, impossÃvel não tremer − rezai e temei − diante das promessas do dia do juÃzo final.
(Para eṕocas eivadas de danus morais como a nossa, a BÃblia é um paradigma de como fazer sucesso por séculos nas costas do autor; afinal, ele atende por uma alcunha genérica, mora em lugar incerto e não-sabido e ditou as histórias ali contidas sem prova material alguma a gente de sua confiança, conhecida só por um codinome. Não haverá processos, alguém pensou, e isso foi bom. De qualquer forma, se hoje algum enjoado quisesse encrencar, não poderia, pois é uma obra de domÃnio público.)
Pois bem, os cavaleiros do Apocalipse estão aà de chicotinho em punho: há pragas, doenças, gafanhotos aos enxames, bacanais de roubo, fome e ranger de dentes da maioria para alimentar executivos movidos a Black Label que, ao fim do dia, vêm aqui na esquina de casa em um BMW fumar seu charuto e apreciar a vista. O Google saiu ontem do ar, deixou milhares de almas bovinenses sem saber o que pensar a não ser: Deus, e agora? Cara, os castigos da BÃblia parecem pálidos perto das ameaças que nos rondam atualmente. Eu prefiro o Apocalipse − aliás, eu desejo o dia da ira: minha baba doce de vingança caindo sobre os fiscais do Fisco. O governo não disse que perdoaria R$ 2 bilhões aà de uma falcatrua beneficente que vendia canudos?
E você, caro ruminante, o que deseja? Esqueça a cabeça baixa. Quem sabe uma lâmina lenta entrando no coração de um poder inútil, por exemplo. Porque, pensa bem. Parte de seu salário, dizem, vai para o governo, à causa de previdência e servir de caixa para educação e saúde. Outra parte do que você ganha, com o esforço do tédio infinito, é enviado ao Leão. A desculpa é a de sempre: saúde, a segurança, a educação, os investimentos prioritários que beneficiam a todos. Agora, pensa comigo. Você vê segurança? Não disseram outro dia que abririam o PresÃdio Central e soltariam os detentos, pois não há mais espaço nem condições financeiras para o Estado abrigá-los? Você vê saúde? A não ser que pague um plano particular, e olhe lá, cuidado, amargará meses em uma fila até conseguir 10 minutos cravados com um médico. Você acredita que existe educação? Aqui no Estado mais e melhor em tudo já existe a enturmação e a multisseriação. Ouvi (quem tiver ouvidos, que ouça) que os professores agora hão de lecionar não só o conteúdo para o qual são licenciados como também disciplinas que eles não têm a menor idéia. Ou seja, um professor de FÃsica poderia dar, a 80 alunos enturmados em uma única sala e de diversas séries misturadas (déficit=0), QuÃmica, Matemática e FÃsica, por exemplo. E as escolas bovinenses que tiverem florzinhas murchas no pátio vão se transformar em presÃdios. Prender ou aprender?
O poder na terra do Teixeirinha perdeu o sentido, nenhum funciona; a sociedade deste latifúndio decadente está grogue por consumo, é o único 'valor' que tem importância: ter. Vive-se a barbárie (é Mad Max, disse-me um querido amigo viciado em anos 80). No entanto, paga-se imposto sem se esperar mais nada, como se isso não devesse ser revertido em algo para a sociedade, como se, em última instância, por um medo febril, o inferno fosse devorar aos inadimplentes (mas não aos sonegadores).
Lembro que, depois desta parte aà em que os anjos abrem diversos selos com pompas e trombetas, a gente fica sabendo que um dia, ai de nós, o chão da terra vai se abrir e deste terrÃvel abismo o Demônio em pêlo se levantará (dormia? É um deitado, mesmo) e reinará por mil anos. Nasci tarde demais. O herói rebelde reloaded, fez e aconteceu e pisquei, perdi aquela eletrizante parte dos selos; agora, só sobrou bad trip.
Essa bobagem toda era só para dizer que, após 30 dias, o Bovinenses está de volta.
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Teste rápido
@ 2009-05-07 – 21:23:19
Teste: ratão de aço cai de ipê em ravina Ãngreme.
Acentos: ok.
Voltaremos em 24h. -
Caríssimo ruminante
@ 2009-04-08 – 08:10:16
O Bovinenses está em fase de recuperação. No dia 29 de março, o sistema de administração do Blog.de teve uma espécie de AVC. O último post parecia ter sido escrito em chinês, mas (embora haja um robô tradutor multilíngüe lá embaixo) o caso estava mais para coisa de xamã: sumiram acentos, travessões, aspas, enfim, toda a rica fauna de sinais da tipografia transformara-se em algo grotesco e ilegível. Desde então, não foi mais possível publicar neste espaço verde.
Jamais desistimos – embora eu tenha escrito palavras feias naquela manhã e publicado aqui mesmo, danada da vida. Apaguei o post azedo, resolvi encarar os fatos e buscar ajuda.
Um engenheiro muito generoso criou rapidamente um conversor, feito exclusivamente para o Bovinenses. E agora, enquanto você lê este post explicativo, esse sistema está em ação. Nele, o ascii nocivo e o html hemorrágico são mastigados e, após regurgitados, transformam-se em mimoso html default. Depois desse trabalhoso processo, o bloco textiforme é inserido, conforme as etapas de um check-list, com muito cuidado, novamente no template. Então, endlich!, os códigos desaparecem quando o texto transmutado é publicado no blog. Parece luso, mas é suíço.
Também sei que parece coisa de lunático, mas é melhor que acabar com o blog. Além disso, mudar-se da Alemanha para o Azerbaijão não é bem assim, ainda mais nos tempos obscuros que correm. E vamos convir ainda que ser obrigado a voltar a escrever em ascii em pleno 2009 dá vontade de se automutilar.
O sistema está em testes, nem sempre funciona. Neste momento, não dá para exigir muito sem passar horas a repetir os mesmos procedimentos. Examinar, observar, testar, persistir. Peço a você que torça comigo para que se estabilize – tenho algo a respeito do processo de um jornalista citado no texto anterior para publicar.
Não é bom estar morto: os dedos coçam.
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O gato está sob o tapete
@ 2009-03-26 – 03:49:48
A idéia era escrever aqui sobre uma sorridente estátua de 1,65m da cantora Elis Regina, que será inaugurada hoje junto à maior chaminé de uma usina de gás extinta instalada à beira de um lago, a Usina do Gasômetro. E sobre como estes, va lá, dentes da estátua (estátuas têm dentes? questões insolúveis) dariam asas à imaginação de prováveis espíritos bonachões — embora a segurança do local, há sempre o sabor do desafio — que muito provavelmente exerceriam sobre estes mesmos dentinhos seu humor. Mas a estátua não sorri, apenas abençoa seres imaginários com uma mão sob um olhar de quem tomou Rivotril. Felizmente, para a felicidade do seu e do meu bolso, já esgarçados pelos impostos e pela conjuntura, a obra é um souvenir à capital bovinense oferecido por uma rede de supermercados pelo aniversário de 237 anos de Porto Alegre.
Eu também ia falar da "implantação" da coleta seletiva do lixo em nossa melhor em absolutamente tudo Porto Alegre, pelo Poeta — contrariando meu testemunho de que ela já existe, mas é problemática e muito seletiva, à moda lusa, em termos de bairros e ruas. Sim, eu podia estar falando de coisas bacanas, estruturantes e otimizantes, para não dizer articuladas, proativas e sustentáveis, como o primeiro cão com chip de nossa capital; eu poderia estar falando de coisas de gestão holística ou mesmo dramáticas, como meu casamento ou a decisão de dar um fim a mim como as pessoas conhecem. Poderia falar, ainda, sobre a cirurgia cardíaca pela qual passou nosso vice-rei, e da qual se disse que fora causa de uma "indisposição", como se fosse dispepsia, e sobre o súbito desaparecimento do conteúdo de seu blog, ou, enfim. Mas não posso falar sobre nada disso, porque há uns detritos mais urgentes caindo sobre nossas cabeças: uma chuva de processos judiciais incitados por... adjetivos.
Tem uns retardados aqui em meu prédio que adoram usar as janelas para se xingar dos adjetivos mais infames sempre que seus times jogam; as ofensas são atiradas de um prédio para outro como bolas, em altíssimos brados. É grosseiro, é desagradável, é odioso e impede de ver um bom filme, de trabalhar ou ter paz. Mas violência não causa problemas, assim como corromper e desviar recursos públicos ou envolver-se em máfias cabulosas: já "fazem parte", como um membro físico coletivo. Escrever, opinar, criticar ou noticiar fatos é arriscado. É altamente recomendável tornar-se apático. A educação e a imprensa, dois setores responsáveis por difundir conhecimentos, tornaram-se areia movediça e não se sabe mais onde se pisa. Otto, meu amiguinho imaginário, diz que sou exagerada, sensível demais; ele acha que está tudo conforme e eu, torta; que é necessário ser mais estilo pós-Segunda Guerra, sabe? mais coragem, mais pragmatismo e menos logolatria. Mas só sei escrever, e adoro introduções não-ortodoxas, em todos os sentidos.
Algum tempo atrás, escrevi aqui neste espaço livre, verdejante e limitado em termos de widgets que o ar em Porto Alegre, como em todo o nosso Pasto viril, estava se tornando irrespirável; que a nuvem preta baixara já há muito e que são épocas escuras, envoltas em brumas; que alguns jornalistas andam sussurrando em vez de falar e, bizarro, que há jornalistas processando jornalistas: enfim, que a cerca elétrica estava se erguendo. Então, esta semana, três notícias vieram encaixar-se em minhas idéias paranóicas. Vamos por tomos, pois assim é mais gostosinho (recomendo a pomada, já disse):
1. A revista eletrônica Ponto de Vista, do professor Wladimir Ungaretti, emitia ontem umas mensagens estranhas. Tive de reler algumas coisas para entender que o conteúdo do blog e da revista, material de nove anos uma década de escrita crítica, está sendo retirado do ar por "força maior". Ele recebeu uma intimação que o obrigou a retirar qualquer material sobre o tema, com o prazo de cinco dias. Esse caso envolve um fotojornalista que alega difamação por causa de um apelido; disso, supõe-se que as críticas sobre o seu trabalho, existentes no blog e na revista, não o incomodaram tanto a ponto de mover processo por isso, mas o epíteto, sim.
Esse caso foi objeto de algumas ilações aqui no Bovinenses. Recebi, após o post, algumas visitas curiosas, mas deixo por conta do robô qualquer conclusão. Nunca entenderei por que é mais fácil cortar a língua de um interlocutor crítico do que discutir. E, olha, se você pensar bem, pode até cortar a língua, as mãos, a cabeça. Pode até tornar a realidade mais difusa, esculpi-la a Photoshop, por assim dizer — mas não vai poder escondê-la de todos para sempre. Em algum momento, alguém bate com a língua nos dentes; uma hora alguém prevarica ou mesmo bebe aí umas cervejas e comete algum deslize.
E, de qualquer modo, estamos em uma época diferente, com uns meios de comunicação para lá de verdes, epistemologicamente, e já se viu o que acontece quando alguém tenta excluir um arquivo do YouTube, proibir um site ou agir por qualquer meio de mordaça em relação à Web. A replicação de conteúdo, o hiperlink e a reprodução instantânea de novos sites com o material banido é certa. A era do ciberpunk exige uma nova postura diante da comunicação, bate de frente com o hábito da proibição de conteúdo e dispensa a gravata.
O material do Ponto de Vista, pelo que pude entender, terá de sair do ar até esta sexta-feira, dia 27. Por isso, salvei as últimas postagens, que podem ser vistas aqui, em jpg tosco. (Se alguém vier me encher, chamo a ONU, o Ifex e invoco todos os órgãos de liberdades de expressão internacionais que defendem o fim de leis de calúnia e difamação pelo seu cerceamento ao livre exercício do jornalismo. Certo, não tenho dinheiro para dar a nenhum espertinho que queira viver de meus eslovos mal-interpretados, de modos que eu iria direto para a ala psiquiátrica do Madre Peletier, viver às custas do Estado, roupa lavada, comida de graça, tempo para escrever e estaria livre de impostos para todo o sempre, amém. Além do que me tornaria imortal como Gramsci ou Marquês de Sade, o que é sempre conveniente. E sempre tem a saída de Goebbels, caso alguém mais sinistro queira mandar um livrinho ou convidar para jantar no Alfredo.)
2. Hoje, fiquei sabendo que os membros do blog A Nova Corja foram processados, novamente, por outro jornalista. Este alega, adivinhe você, calúnia e difamação. Há brumas. Tem algo verde que parece uma moita. Se for uma moita, pode ter cobra gorda aí. É o segundo processo que os colunistas da NC levam pela mesma alegação. O primeiro processo foi ganho, porque, dizem os autos, houve inépcia.
Eu acho, cá entre nós, in off, sabe?, que, se o cara quer um dindim, que faça que nem eu e trabalhe como uma vaca, noites a fio, sem dormir e em surto. Que escreva um livro, pega bem. Ou use seus contatos e seu talento e consiga um emprego melhor. Ou que faça como muitos jornalistas, que agüentam o salário de fome, que o sindicato insiste em dizer que é o que se consegue, e bebem, devem e não negam. Porque o jornalista processar outro jornalista por "difamação" não dá para engolir. O jornalista já tem seus meios de expressão para, se quiser, fazer dano bem pior que um processo e até com certo nível. E pode-se sempre ousar ter honra, não é feio nem faz rugas (dá umas úlceras, mas o que não dá úlcera em uma redação?). Jornalista atacando jornalista por conta de crítica — opinião, palavras, pensamento — é pornô.
3. Não obstante, li a notícia de que o jornalista José Barrionuevo, um veterano em termos de processos, vai ter de pagar R$ 50 mil a uns advogados trabalhistas, por conta de umas notícias que ele deu em veículos da empresa de comunicação em que trabalhava. De acordo com o site Coletiva.net, com essa, Barrionuevo esgotou seu amor ao jornalismo. Declarou ele:
Não quero mais saber de ser jornalista! As condenações judiciais impedem que haja liberdade de imprensa no Rio Grande do Sul.
Ainde conforme o site, na sentença, ninguém questionou a veracidade dos fatos, e sim certa adjetivação "excessiva". Barrionuevo, diz a matéria, vai entrar com recurso.
Felizmente, fui obrigada a fazer estatística na graduação. E aprendi que alguns termos qualitativos são extremamente subjetivos e dependem de contexto; além disso, é preciso aplicar-lhes algum valor, para que possam ser calculados e interpretados com o máximo de precisão possível. Não sei como se julgaria algo classificado como adjetivação excessiva. Se minha proposição tiver dois (2) adjetivos, é pouco? e se for cinco (5)? há uma tabela, como a de limites inferiores e superiores para derivadas? e se houver desvio-padrão, como fica? vale qualquer adjetivo do dicionário? e se eu "inventar" um adjetivo? a questão é moral, ética, econômica, psicológica, de nível cultural ou n.d.a.? Se eu for antropólogo, posso entrar com processo de difamação ou Lévi-Strauss pesa a meu desfavor? E se eu for filósofo, e meu ato ilocucionário for um paradoxo? Se eu disser "o gato gordo está sob o tapete" e os elementos desta proposição não tiverem o mesmo sentido do que teria em um discurso de linguagem humana de senso comum, como fica? Posso processar Wittgenstein, mesmo ele estando morto? É questão de substância, em termos lingüísticos? Não deve ser nada fácil julgar um troço desses.
Tenho, como me disse um professor de uma faculdade técnica de comunicação aí, "muita empáfia" (texto de "nariz arrebitado"). Diante dessa espécie de, vá lá, jornalismo que se tem feito por aqui nas pastagens sulinas, acho esse o menor dos pecados. E quem não entende ironia e não é capaz de lidar com críticas sem chamar "o irmão mais velho" para dar uma lição não deve trabalhar com gente, tampouco com comunicação. A estes, eu indicaria um livro interessante de Arthur Schopenhauer sobre como responder a ataques verbais de um adversário. Ou que vá beber uma polarzinha e falar mal de seus coleguinhas ou vá ver seu futebolzinho para mandar seu vizinho tomar naquele lugarzinho.
Os processos no jornalismo, como se vê, estão no cio e os filhotes têm todos o gene da difamação. Onde levará isso? A quem interessa o silêncio, a quem beneficia uma mídia acrítica? Que tipo de sociedade se desenvolve com comentaristas mornos e receosos, ou mesmo sem opinião alguma? Sem dúvida, é preciso exercer o jornalismo com responsabilidade, que é coisa diferente de medo ou acefalia. Mas não vemos responsabilidade, vemos fatos graves saindo como vermes de covas obscuras, sendo abordados por uma retórica ôca; vemos ovos, muitos ovos no caminho, e cristais delicadíssimos.
Olha, o discurso que tenho visto na mídia sobre esqueletos que não páram de cair no colo de alguns é daquele tipo que esvazia a substância do objeto para deslocar a atenção à legalidade do modo como tais esqueletos vieram à tona. Ou seja, não interessam os fatos em si, mas como eles foram obtidos. Picardia: o foco é desviado do acontecimento qua fato para o interesse estritamente legal. A mim interessaria ambos, mas prefiro saber primeiro dos fatos e seu teor de realidade, pois pago esta gente para atender a meus interesses; interessa-me mais o que eles andam fazendo com o poder que lhes dou do que se o modo como vazam os seus supostos segredos está nos conformes (nunca estaria, senão, de que modo vazariam?).
Acho que está chegando a hora de fazer as malas.
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Homenagem às mulheres
@ 2009-03-10 – 07:07:14
As pessoas não ententem quando falo sobre dépaisement, ou algo assim, ou me sinto a besta loira sem cabelos em um potreiro, por deus, enfim, como um estrangeiro. Sempre quis falar sobre o 8 de março, esse tal dia da mulher, como também poderia ser o dia das baleias ou jaguatiricas ou qualquer ser em extinção ou especial, como um trissômico, filosoficamente, algo que não tenha todas as faculdades humanas em sua plenitude ou seja deficiente, ou ainda apenas uma coisa. Mas esqueço de escrever publicamente sobre isso, inacreditavelmente, tal como esqueço de festejar meu aniversário: não me dou conta. Um rapaz que é muito gentil me lembrou disso, e resolvi fazer este texto bem tosco para dizer o quanto é difícil lidar com isto. Pois talvez por me sentir tão fora odeie ser "homenageada" e veja isso como um insulto, se é que alguém me entende. Se não entende, cara, pense: o que você diria se eu lhe desse uma rosinha e dissesse que "você merece, porque é o seu dia"? Vou lhe apresentar um bom pepino, talvez você entenda.
Nos anos 50 e 60, até nos 70, ainda fazia sentido, uma "homenagem" por "ser mulher" (seja lá o que isso signifique, éramos para ser todos pessoas humanas). Naquela época, era uma descoberta, era novo, era até moda queimar sutiãs. Mas parece que as pessoas pararam no tempo -- e, olha, eu não sou novinha.
O que eu acho absurdo é que elas, as morochas, em nosso Pasto, aqui na capital do Teixeirinha, gostam de e se sentem "homenageadas" (uma conotação interessante para um morocho em sua intimidade, e que mais tem a ver com leite que com rosas). Ouvi uma vez no Clube Leopoldina Juvenil, pasma, umas meninas consolando amigas que choravam e vomitavam no banheiro; elas diziam: "mulher não sente dor, nem fome nem frio: tem que ser bonita". É bom aprender a ser forte, para agüentar a natureza ou alguns revezes, mas não apenas para ser bonita. Ser bonita (=boa, boazinha, à Platão) custa muito caro, em qualquer sentido. Conheça uma mulher "feia" e você verá como é uma mulher bonita.
Já falei aqui neste espaço grosso e verde que, se uma mulher sai sozinha por aí, é puta. Você vê pelos bares as meninas sempre juntas, e elas também vão em dupla ao banheiro, são três ou quatro na mesa, e nada de conteúdo se ouve a não ser aquele eterno "então ele disse, e daí ela disse"; e elas não bebem em público cervejas, uísques, talvez uma (1) taça de espumante, vá lá, porque acham "chique", mas em geral só bebem um (1) refrigerante ou uma (1) água mineral e móita batata-frita com cheddar ou coisas bem doces tipo um "negrinho de colher" como acompanhamento e, claro, provocação à outra forma de homenagem.
Eu observo as pessoas e isso é horrível, porque elas são patéticas, e vice-versa. E as "meninas" (serão sempre) dizem para não olhar para os meninos (serão sempre) e, se olhar, não sorrir, mas, se sorrir, disfarçar (cabelo), e, se não conseguir disfarçar (jogo), quando ele chegar e quiser conversar, elas dizem sempre que não, não importa a oferta, nem a cara do sujeito. Elas nem olham, e quando olham, olham errado, porque elas têm em mente uma coisa tóxica, não-saudável, qual seja: seduzir e apenas isso. Ou algum "trouxa" que lhes pague a conta (o que há de trouxa em pagar uma conta?). Não gosto disso, elas ocupam mesas preciosas. Querem sentir-se pagas e desejadas, e apenas isso. Torturam e gostam disso, e acham a coisa melhor do mundo. Elas não se masturbam. É doente. É religioso, por deus. Mas é o código que elas aprenderam com as mães e com as avós. E o código é: "Faça-se de difícil, assim, não vão achar que você é uma puta que dá para qualquer um", ou seja, é uma boa mulher para casar. Mas elas não querem isso, nem poderiam, nem eles, porque não têm capacidade, ou porque os tempos mudaram, mas os códigos foram amputados. Pobres das putas, ofendidas pelo uso do termo que define o seu trabalho.
O que mais dói é que tais pessoas que fazem tais jogos entrem em um buraco negro sem nenhum domínio; quando conseguem ir além do milimétrico (cartilha 1), fazem filhos e enfeitam a casa (cartilha2), porém, como o ressentimento e a culpa estão lá com eles, juntos na cama, é ou a novela ou eu; é meu celular ou eu; é o futebol ou eu; é aquela cadela ou eu; é o seu emprego ou eu; é meu corpo e só. Nunca apenas nós como pessoas, esta nossa pobre carcaça de humanidade.
Bom, com licença, vou ali fazer uma singela homenagem e já volto. :-)
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Torpor e impostura bovinenses
@ 2009-03-02 – 11:08:58
Vou falar sobre comer cocô de modo institucionalizado, ou seja, como se fosse algo normal. Pensei em outros termos, mas infelizmente as outras palavras são muito amenas, e é preciso utilizar o peso correto que os fatos exigem. E, dentro do esquema da norma, sou a rebeldia, e por isso escolhi o ensaio como forma – o texto 'objetivo' é, paradoxalmente, uma maneira de não falar sobre as coisas diretamente, é tangenciar a realidade, é como ficar sempre em cima do muro. Por isso, esses posts são longos e optei por não utilizar imagens, para que o texto seja em-si.
Os bovinenses são adeptos da dieta do cocô, não por serem desviantes ou tenham alguma tara, mas porque se diz que é a atitude conveniente do momento. Quem diz? A tal da opinião pública, esse ser etéreo, sem forma ou nome próprio. E então você tem que se portar assim-e-assim, vestir-se de modo tal-e-tal, aparentar ser ponderado e cordato diante da aberração que é sua realidade, enfim, não ser semelhante a um irlandês é muito importante.
E você segue esta cartilha, para manter seu emprego, seu marido, sua namorada, ou simplesmente por ser a única que você conhece, ou porque é mais fáci aparentar ser do que ser algo de fato, ou, ainda, porque ser algo de fato é démodé, não é cool, porque a pessoa se incomoda mais, enfim, não passa uma boa imagem. Penso que respeitar a si mesmo é escolher um caminho que não violente você e que torne sua vida digna de ser vivida, com sabor, vívida. Vilipendiar a si mesmo é fazer o oposto, por critérios utilitários como dinheiro, poder, status, valores vazios de significado vital. (O dinheiro é uma ferramenta, não o motor.) Dar a si próprio a oportunidade de uma existência plena, aproveitando seus talentos, é um luxo que a atualidade não contempla. Prega-se o individualismo e o salve-se quem puder como uma visão única e sem alternativas. O humanismo tornou-se um modo retrógrado de pensar e agir, coisa de francês de maio de 68.
Há algum tempo, deixei de ver como ignorância o fato de alguém viver por prestações, gastando o seu tempo de vida em um trabalho sem sentido, não raro com alguns sapos como parte da dieta diária. Esta postura é um pacto de conivência cujo fundamento é arraigado na crença em certezas indiscutíveis. Estas crenças são representadas por categorias como a "exigência do mercado", por exemplo.
Tal mudança em meu entendimento surgiu pelo contato com outras culturas, especialmente a alemã e a francesa. Ao colaborar com dois veículos estrangeiros, percebi um jeito de encarar o trabalho que não existe por aqui, caracterizado por elementos como dedicação (sem cegueira), flexibilidade, rigor (quanto à qualidade), tolerância à diversidade do ser humano, honestidade e confiança prévias e incentivo à independência de pensamento.
O contraste se mostrou violento especialmente a partir da experiência de colaborar para uma conhecida rede de jornalismo alemã; sou metida e propus algo que me surgiu num insight que parecia um delírio; pautei-me, construí todo o esqueleto de uma reportagem e isso foi aceito, contanto que o resultado fosse algo acima da média, que surpreendesse o leitor, enfim, deveria produzir algo muito além do comumente tido como excelente. Não venho aqui me autoapupar, basta dizer que tudo correu bem. E aprendi a respeitar meus delírios. Para estes meios de comunicação, eu não era um patinho-feio, que, por ser assim, um pouco intrépido, sempre foi visto como uma ameaça aos ditames bovinenses do que é aceito como norma. Foi justamente esse "perfil" que agradou. É justamente esse "perfil" que é desencorajado em nossas faculdades de comunicação, algumas no topo das listas do Ministério da Educação – por seus equipamentos, não pela formação que oferecem –, onde as pessoas aprendem a se robotizar, a não indagar nem criticar (= ser um chato). Aprendem a ser "profissionais". O medo de desagradar ao mercado impera.
Conformismo – Foi a partir destas experiências que enxerguei que o caminho que se escolhe por aqui dificilmente concede aos bovinenses uma chance de dignidade – por conta da chamada "postura profissional" –, de modo que a pessoa possa confiar em seu feeling e exercer o que faz conforme lhe manda o próprio nariz, livre e por si, comprometida apenas com a obviedade de se fazer algo bem-feito, em um sentido que o termo competência não tem entre os gaúchos. Ser competente é o mínimo. Mas ser competente não é coadunar, não é colocar uma venda diante dos olhos, não é ser puxa-saco. Já escutei colega dizer que competência é ter jogo de cintura, é entrar no jogo, é não encher o saco com questões morais ou criticar posições de gente acima de você, mesmo que isso possa dar merda depois para esta mesma gente e até à instituição.
O posicionamento crítico é mal-visto e combatido, é confundido com eflúvios de comunismo ou mesmo lepra. As redações estão repletas de gente em estado larval e de interesses que atendem a tudo, menos à sociedade. Há locais que são gerenciados por pessoas que não têm a menor qualificação intelectual, tampouco ética. Os jornalistas, especialmente os da capital do Pasto, têm seu caráter destroçado e em pouco tempo aprendem a baixar a cabeça e calar a boca, entendem que é preciso ser bovino para não perder o emprego e que é preciso deixar o cérebro em casa. Aprendem que é preciso ser esperto, competitivo e medíocre [mediano], e que o crachá é seu coração. Tenho muitos amigos jornalistas, e não conheço nenhum que jamais não tenha emitido sinais de amargor, ao recordar de suas esperanças e expectativas espezinhadas pela máquina de moer carne. É o preço, como tudo na vida, dizem, conformados. Não aprendi a ser conformada nem a respeitar alguém por conta de seu cargo ou fama.
Escrevo isso porque um dos personagens principais do contexto político que se vive hoje em nosso já escasso pasto é a mídia. Há quem reclame que não se tem feito uma cobertura isenta dos fatos ligados ao governo e a quem governa. Há quem aponte ligações e laços de amizade entre estes personagens. Diante do que tenho escutado, visto e lido, ouso dizer que não temos imprensa, a não ser que se admita que esta é uma imitação da Imprensa Régia. Também não temos governo, se admitirmos que um poder executivo deve atender demandas sociais básicas, como educação de qualidade, saúde e segurança, respeitar as manifestações e protestos como algo normal em um regime democrático, e, por fim, quando houver alguma suspeita de mácula, pronunciar-se com coragem perante seus eleitores e não-eleitores – afinal, todos dividimos o mesmo teto.
Já escutei que o governo não consegue trabalhar por causa de denúncias atrás de denúncias, sem trégua, que lhe atordoam e atrapalham. É como dizer que não é possível fazer um bom trabalho porque o vizinho está ouvindo heavy metal a todo volume, ou dizer que não se compareceu ao trabalho por causa de uma dor de barriga: estas abordagens não chegam nem perto de se assemelhar a justificativas e deixam claro o vácuo de respeito perante a quem se deve explicações, e da pouca estima que se tem pelo que se faz. Deixa a sensação de eximir-se de suas responsabilidades e impinge a culpa da própria inépcia aos oponentes, demonizando-os.
O que se vê é desastroso: embates que não chegam a uma conclusão; investigações envoltas em um manto de sigilo, sigilo que se tornou uma regra no âmbito da Justiça. Vê-se a falta de pudor ante a utilização de argumentos de ordem pessoal e de linguajar vulgar; cartas à imprensa com referências a Harry Potter e de duvidosa sustentação lógica; vê-se um limbo de ignorância pairando sobre o horizonte, impedindo de se ver o que realmente está acontecendo. E no epicentro dos escândalos semanais está a mídia, notavelmente sem coragem para assumir seu papel, o de mediar com exatidão e com a gravidade que o momento exige. O papel da apuração dos fatos foi substituído pelo de assessoria governamental. Não seria tão vergonhoso se as pessoas tivessem mais opções de informação; se não houvesse tanta novela, missas e orações. Os parcos noticiários pisam em ovos, e no geral tomam uma posição liberal extrema, quando não impõem seu silêncio e seus panos-quentes.
Por isso, creio que, mesmo diante da atroz realidade das nossas redações, e em uma conjuntura de crise financeira e de histeria neoliberal, seria preciso que os bovinenses tivessem mais coragem. Os que se informam, deveriam ser mais exigentes, atrolhar estas mídias com cartas e telefonemas, mostrar que não são acéfalos nem esponjas. Aos que produzem informação, a coragem de dizer não, de jogar o crachá no lixo e dizer se é um jornalista ou um rato, porque o que os jornalistas estão fazendo, diante de uma análise socio-histórica, é criminoso: o papel da omissão, da servilidade a interesses mercadológicos ou políticos, interesses acima da sua missão social, a de prestar-se ao interesse público acima de tudo e formar uma opinião de qualidade, movida pela ética e pela seriedade ao tratar com algo tão precioso: a sociedade a quem a imprensa deve sua razão de existir. Ética só existe uma, embora manuais de redação insistam em que cada empresa tem a sua. Um dia talvez eu conte aqui o caso de certa colega que, defendendo uma tal de "ética administrativa para com a empresa", aceitou assinar matérias que não eram produzidas por ela, e sim publicadas em outros jornais do país. Tudo para manter-se no emprego. Quando o caso veio à tona, a empresa a qual ela havia "defendido" a demitiu – e a processou.
Em resumo, as pessoas estão vendendo e comendo cocô porque isso "é o que o mercado quer". Se você observar bem, nos telejornais, nas rádios e nos jornais, há um tom melancólico, quase queixoso entre os jornalistas, como se houvesse medo de dizer algo que seja mal-interpretado, de dizer o mínimo, quase aos sussurros, e mesmo assim exagerar a mão, como se fosse imprescindível parecer que se é bom (à Tomas de Aquino), como se existir fosse um pecado. Talvez por isso seja mais seguro falar tanto de futebol.
Jornalista não tem emprego. Local de trabalho de jornalista é a realidade, não a do mercado, mas a realidade objetiva. Jornalista tem que ser menos profissional e mais competente, ser menos número, menos robô; tem que ter uma postura crítica, tem que questionar e se questionar, e correr o risco de "não se enquadrar no perfil", de ser mau (à Nietzsche). Isso muda uma sociedade, ao contrário de falar sobre baleias, cágados e corujas. Isso pode custar o emprego, mas fará valer cada segundo de vida. Você saberá que fez o que você achava certo, e isso não tem preço.
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Kaputt: a misteriosa dança do 'embaixador'
@ 2009-02-20 – 23:44:02
É Carnaval. No Brasil, na verdade, sempre é Carnaval porque quando não é samba é fantasia. Claro que a folia geral não se estende a todos, e daí é bala perdida, pereba e fome. Mas isso é problema de quem, mesmo? De cineastas e políticos. A sociedade no Brasil é uma ficção. E não poderia ser diferente aqui nos confins da humanidade, na cauda deste país selvagem. A realidade aqui no Pasto é um delírio constante e a sensação geral é de que se vive em uma ilha de um universo paralelo em que as leis gerais da lógica não se aplicam. E não há limite para a queda, e o horizonte da insanidade é tão infinito quanto a lendária coragem do bovinense é história para boi dormir. Assim, vou narrar em traços simples uma carta imaginária – como anda tão em voga em nosso universo pastoril – para você, e você é um amigo que, bem, você logo intuirá quem são os nossos personagens.
“Digamos que eu realmente tenha lhe procurado e oferecido um cargo em minha empresa, da qual eu mesma o demiti há alguns meses. Assim, do nada. Mas, então, magoado, você não aceita, alegando para isso incompatibilidades com minha nova equipe de profissionais. E daí, em questão de duas semanas, você se mata.
Ok, não foi assim, tão simples, vamos equacionar. Ainda não se sabe se foi suicídio ou homicídio. Só o que se tem certeza é que: a) você estava muito angustiado dias antes, por causa de um certo depoimento ainda envolto em brumas, e b) seu corpo apareceu boiando no Lago Paranoá, uma obra de arte do urbanismo (o lago).
Penso que, em tempos de recados cifrados pela imprensa, escolher jogar-se no Lago Paranoá pode não ter sido casual. O bom senso também pondera que é muito difícil alguém cair no lago por acidente, uma vez que todos podem vê-lo de longe. E afogar-se não é um método prático, você sabe.
Sabendo destes itens, eu diria que você preferiu matar-se a aceitar o cargo que lhe ofereci, o que seria de muito mau-tom de sua parte, uma ingratidão, ou, em última instância, um gesto deselegante. Mas como sou uma pessoa de primeira linha, educada e sensível, mando flores ao seu velório, sem me surpreender no outro dia com a foto de seu caixão na imprensa – cuja legenda é paradoxal: “Gremista, o carioca Fulano de Tal foi sepultado ontem em Brasília com a bandeira do time”. Sim, não bastasse todo o redemoinho de fatos que o levaram a este final dramático, você, apesar de carioca, é gremista, um fato extremamente relevante, tanto que consta na legenda da foto do jornal do Pasto. Legenda que poderia ter destacado alguma qualidade sua que não apenas a preferência por um time de futebol – afinal, o que é isso perante uma vida? E, afinal, por que diabos você não era fluminense ou flamenguista será para sempre um sepulcral mistério.
Ao tomar conhecimento dos detalhes das notícias, disseram que você estaria enredado com aquela novela do Caso Detran: os desvios de verbas para financiamentos de campanhas políticas, verbas estas que eram angariadas graças à necessidade dos bovinenses, que, por legislação, tinham de renovar ou fazer uma carteira de motorista, a de custo mais pornô do Brasil (R$ 805,71, na época). Mas aquilo chegou a lugar nenhum, graças ao talento de excelentes roteiristas. Foi como uma alucinação, um sonho, um filme, um samba-enredo inconseqüente.
De qualquer forma, meu amigo, creio que seu ato serviu de modelo a toda a terra e muita gente deve ter ficado de pêlo em pé. Dizem, agora, por aí, que um ex-colaborador 'nosso' teria costurado toda esta história fascinante. Dizem que ele teria procurado a oposição para contar ou mostrar uns filminhos que explicariam ao povo o conceito e os materiais, por assim dizer, com os quais trabalhamos. Mas acho que tudo não passa de intriga. Ou seria mais um recadinho?”
A carta prossegue até a despedida póstuma, a qual editamos para não melindrar corações.
Falando sério – A mídia bovina e também a nacional abordam esse assunto misterioso como se fosse um cristal finíssimo no qual mal se pudesse enconstar um algodão. É notável que em pleno século 21 haja cadáveres boiando, cartas estratégicas, rebuscadas e sigilosas e livros oferecidos à guisa de ameaças. Democracia é um sistema de governo injusto e imperfeito, mas seria preferível a esta era absolutista, cujos esqueletos saltam de armários cotidianamente, mas são invisíveis à mídia e aos poderes Legislativo e Judiciário. Qui tacit, consentire videtur (quem cala, consente).
Olha, creio que precisamos fazer uma ostomia em nossa política e em nossos próprios valores (se os há). A ostomia é uma intervenção cirúrgica que permite criar uma comunicação entre o órgão interno e o exterior, com a finalidade de eliminar os dejetos de um organismo que não o faz naturalmente. A minha única dúvida é onde colocar a bolsa de excrementos.
Ontem, um homem encarava o trânsito veloz de uma grande avenida da capital do Pasto de frente; postava-se diante dos carros como se fosse invisível ou um super-herói. Os motoristas dos carros o ignoravam e passavam rente ao seu corpo, como se praticamente comprovassem, não fosse por centímetros, sua inexistência. Então, ele se virou e pude ver que ele balançava sua genitália nua aos motoristas. Esta é a própria imagem da pornográfica conjuntura vigente, com suas farsas, fraudes e mentiras; uma genitália masculina sendo chacoalhada, nua: esta é a cara da realidade bovinense.
É Carnaval. Aproveite a época de máscaras criativas. Sambai, bovinenses! E depois, responsabilizai-vos pela ressaca de uma era perdida. Dançai e bebei, porque quem saberá do amanhã? Uma realidade sem esperanças, como a que vivemos, é muito própria a exacerbações: uma vez que não há futuro, para quê cultivar com carinho e atenção a própria vida?
God save the Queen!
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Do fim do tempo a um certo leitor de Nietzsche
@ 2009-02-12 – 20:14:07
Estranhíssimo é quando a gente se depara com dados na Internet de um querido amigo morto. Em portais de comunidade, por exemplo. Ou seu nome está ainda lá na lista de contatos do e-mail ou ainda no messenger. A gente não retira, não exclui, porque parece que é como se matássemos a pessoa para nós. Mais chocante ainda é encontrar sua coleção de fotos na Web, em uma página pessoal compartilhada com uma rede de amigos, como o Flickr: imagens desta pessoa, dela com os amigos, dos últimos lugares que fotografou, seus derradeiros registros do que vivia.
É como se a pessoa ainda vivesse de fato, em alguma dimensão paralela ou habitasse um limbo em que a passagem do tempo estagnasse em uma determinada época. E daí em diante será então eternamente a mesma data. Será ainda o mesmo rosto, o mesmo sorriso, cruel ante si próprio porque inciente dos dias que antecederiam sua morte.
Não é como se a gente sonhasse com alguém que se foi. Também não é como ver fotografias físicas. É muito diferente. É como se você fosse comprar pão ali na esquina e pá!, desse de frente com a criatura.
E daí, bom, você sabe. Junto com uma perplexidade que beira a patafísica, a tristeza engorda, incha e transborda. Pois na Internet a morte é um capricho da realidade: é possível manter-se em certo sentido "vivo" neste ambiente por tempo indeterminado – enquanto o servidor estiver em atividade, por exemplo. É como ter uma espécie de alma cibernética. É como se o tempo de fato parasse em um presente infinito e, assim, fosse possível viver para sempre.
Nada mau para quem escreveu, antes do dia 3 de dezembro de 2006, idéias sobre "o entrecruzamento de duas esferas de espaço que conduz a uma cidade que, ao fim, é um híbrido de redes e de lugares físicos". Tais idéias seriam defendidas dois dias depois perante uma banca. Falando assim parece bobo, mas, se você começa a rever as fotos e o que a pessoa escreveu dias antes, e, bom – isso pode parecer uma imensa bobagem, mas –, sente que existe um ponto físico exato que define o começo e o fim de tudo, e isso é uma sensação aterradora, especialmente para ateus, como eu.
A menor distância entre dois pontos é uma curva ou uma avenida íngreme?
Isso não tem nada a ver com o propósito deste blog, eu sei.
É triste o pôr-do-sol em dias nublados. -
Sobre cágados e o animalismo humanista
@ 2009-02-02 – 08:32:28
Depois de ler pérolas no jornalismo bovinense sobre os hábitos bizarros dos cágados do Parque Moinhos de Vento, notícia de importância notável à vida de qualquer bovinense que se preze, e, portanto, candidata a Prêmio ARI 2009 não apenas pelo flagrante da foto como pelo furo da reportagem, que esmerou-se nos detalhes sobre o tema, rendendo uma das maiores matérias jornalísticas já postadas na história da imprensa no que diz respeito a cágados – como eu dizia, após saber do comportamento dos cágados assassinos e refletir espantada sobre o termo "ataque", empregado em várias ocasiões no citado artigo (ricamente ilustrado com fotos e vídeos), e sobre o quanto isto poderia dar um filme Z, com cágados gigantes marchando sobre a cidade, lembrei de outra pérola do jornalismo de mesma espécie.
Tenho costume de, após o susto ou superar o choque da surpresa inicial, recortar o espécime e guardá-lo em uma pasta, onde há três categorias: "babadas", "animalismo humanista" e "diversos". As babadas são aqueles tropeços lingüísticos que transformam uma realidade inocente em algo jocoso. Por exemplo, ler "Menino encontra os braços da avó" foi um trauma e já imaginava a cena sangrenta de um garoto segurando um braço da pobre avozinha mais recortada que um quebra-cabeças. O texto, uma novela, dava conta do encontro, após muitos anos de revezes e lágrimas, deste menino com a mãe de sua mãe e que culminou em um longo abraço. Como se pode perceber, meu critério é simples: em todos os casos, a pérola é uma forçação de barra para que algo simples e cotidiano, um fait divers ou naïve, torne-se uma novela, um algo emocionante, artificialmente lacrimoso.
O "animalismo humanista", como no exemplo memorável dos cágados, dota animais e vegetais de características humanas, como intenções e sentimentos, por exemplo. Isso retira-os de sua realidade animal, coloca-lhes por assim dizer "roupas e óculos", e então é possível, por meio da linguagem, heroificá-os e alçá-os a estrelas, como se fossem um personagem que tivesse um papel a desempenhar – como foi o já clássico caso do João-de-barro que, "movimentou" e "mobilizou" a capital bovina, curiosos, vovós, poodles, polícias e bombeiros, em um resgate incrível dos cumes dos fios elétricos para, depois, não bastasse tanta emoção, morrer, em uma tragédia sem precedentes que provocou soluços, gemidos e convulsões em todos os bovinenses.
Outro caso emblemático foi o de umas corujas do litoral gaúcho. Na cronologia esquizofrênica da mídia bovina, tudo começou de modo muito fofo: "Casal de corujas vai participar do réveillon no RS" (31/12/2007). É claro que as corujas não iam colocar gravata borboleta e brindar o ano-novo com as pessoas na beira-mar, pois – como todos nós sabemos – corujas não são pessoas. Os bichos foram satanizados um dia depois: "Corujas cancelam queima de fogos da virada no litoral gaúcho" (1º/01/2008). É claro que você e eu sabemos que as corujas não têm o costume de entrar com ações na Justiça para cancelar qualquer coisa que seja ou ir ao primeiro orelhão para pedir à polícia para descer o cacete naqueles retardados que ficam soltando foguetes de ano-novo. Bom, após a histeria e a natural frustração diante do impedimento da queima de fogos, teve maluco querendo fazer churrasco de coruja, por conta justamente destas manchetes "humanistas" do jornal do Pasto. Então, para acalmar os ânimos, as aves foram canonizadas: "Ninho de corujas vira ponto turístico no RS". Há uma análise sobre o tema aqui.
Filosoficamente, animais não-humanos não têm intenções, algo que até Aristóteles já sabia. Logo, essas dramalhadas midiáticas são pura invencionice criada pela imaginação pobre de editores. Em sua estreita visão da realidade, acham que tais fatos vendem jornal ou dão mais audiência, como bem ensinaram-lhes os manuais de jornalismo norte-americano adotados em milhares de péssimas faculdades de comunicação do país nas quais os professores não passam de papagaios amestrados. É claro que o público médio tem apreço por essa gororoba, assim como não perde um BBB, curte a sua novelinha ou assiste ao seu futebolzinho, bebendo sua polarzinha. Mas a imprensa tem um papel muito mais importante que apenas vender jornal, você sabe: educar e formar opinião sobre fatos socialmente relevantes, ou seja, coisas de interesse público.1
Eu escrevi tudo isso porque sábado (31) a minha rua ficou sem luz durante 10 horas.Além de mim e de uns milhares de vizinhos, a rua tem dois bancos, uma farmácia, um centro comercial, bares, uma livraria internacional, restaurantes, etc. Ou seja, não é um lugar onde o Diabo perdeu as botas. A explicação da CEEE foi que alguns pontos apresentavam problemas; a atendente não sabia dizer quais, nem quantos, nem quando a luz voltaria. Eram umas 16h e como já fazia mais de três horas que não havia energia, perguntei o que eu deveria fazer, caso meus camarões do congelador fossem para o brejo. Ela disse que eu poderia entrar com recurso em uma agência da CEEE e pedir indenização.
Em seguida, liguei para duas rádios do Pasto. Os repórteres haviam tido, naturalmente, a idéia de falar com a assessoria de imprensa da CEEE para saber o que houve. Segundo eles, eram 500 pontos sem luz, da cidade de Alvorada ao bairro Moinhos de Vento. E que a causa fora "o vento", que fizera cair fios. O vento? Chuviscava e nenhuma brisa rolou lá fora o dia todo. "Não aqui na minha rua", eu disse, já emendando, metida, por que ele não havia falado com o presidente da CEEE ou com um engenheiro para perguntar por que raios ainda não enterraram esses fios, pois na minha rua falta luz todos os meses e nem sempre a causa é "o vento" ou "a chuva" ou mesmo "o chuvisco" e "a brisa". E que isso não é normal, tanto quanto não é normal ter 500 pontos sem luz em uma capital como a nossa tão maravilhosa e melhor em tudo Porto Alegre. Tanto um quanto outro repórter deu de ombros mentalmente e disse que a bola seria passada adiante para outras pessoas da redação. A energia voltou somente às 22h30min.
Pergunto-me constantemente até sangrar o mesmo ponto do cérebro:
1. O que diabos aconteceu com a imprensa bovinense, que julga mais importante falar de cágado comedor de pombas em vez de falar de algo que interfere na minha, na sua, na nossa vida, como as constantes faltas de luz por motivos pífios? Porque eu não engulo esta de "vento". Se o ventinho arrebenta fios, não é o vento o problema, e sim os fios. Há quanto tempo será que Porto Alegre tem os mesmos transformadores, os mesmos fios, enfim, os mesmos equipamentos da época do Pleitosceno? O que o governo faz com os quase R$ 200 mensais que pago pela energia?
2. Por que as faltas de luz começaram a ser freqüentes de uns dois anos para cá? É coincidente com o governo do Déficit Zero (= investimento zero)?
3. O que os bovinenses ingerem para ser tão apáticos? Será algo na carne, alimento mais consumido pelo povo deste universo pastoril? Olha, creio que mais bovino que bovinense só islandense – e olha aqui o que eles estão fazendo após tomarem bem bonito no cu.
É importande lembrar que estamos sob o comando do Governo Provisório do Mal cuja legislatura está nas mãos de um Calígula de saias surtadinho.
Diferentemente da imagem de bruto, falava grego e dominava a retórica, tido por historiadores e políticos da época como bastante inteligente. Ao assumir o império, porém, dava linha a caprichos de sua personalidade dúbia e autoritária, às vezes condenando pessoas por se mostrarem pouco entusiastas com suas idéias ou que discordavam quanto a sua divindade. O terror das perseguições voltou ao mesmo tempo que o imperador tomava atitudes no mínimo excêntricas que incluíram nomear o seu cavalo de corrida, Incitatus, senador e mandar esculpir sua cabeça em todas as estátuas de deuses de Roma, intitulando a si mesmo como um deus. A sua memória foi apagada pelo Senado, que ordenou a destruição de tudo o que pudesse recordar Calígula. É também preciso ter em conta a sua inexperiência e a excitação com o exercício do poder. [...]
Depois de ter alienado as classes dirigentes, Calígula teve a imprudência de criar impostos para os artífices e os comerciantes da capital, não perdendo também uma ocasião de insultar os tribunos das cortes pretorianas, que eram o único apoio que lhe restava. [...] foi finalmente assassinado pelo tribuno do pretório Cassius Chaerea, o executor de uma conspiração em que se encontravam senadores, um dos dois prefeitos do pretório e de libertos importantes, cansados de tanta loucura.2
Detalhes tão pequenos: a uma quadra de minha casa, na Padre Chagas, não faltou luz. E lá também tem um monte de árvores. O Shopping Moinhos também não ficou sem energia. Sabe, começo a achar que tem algo de pessoal nessa de sempre penalizar a Florêncio Ygartua. Talvez exista algum inimigo do povo morando aqui e eu não saiba. Porque a rua também não tem uma iluminação pública decente, não tem coleta seletiva de lixo, não tem nem ronda policial, além de aqui acontecerem coisas estranhas de madrugada. E os jornais só falam da perfumaria do bairro.3
Olha, eu realmente estou em dívida. Queria ter escrito sobre a interessante relação entre suecos e bovinenses, mas fica para um dia mais calmo. Lembro que apostei com uns amigos que, se der Calígula 2010, entro correndo pelada no Piratini com uma garrafa de Schmittão-molotov e atirá-la-ei contra a cabeça-de-laquê. Viver como marginal eu já vivo, que diferença faz?
Ops.: 1 Veja mais sobre interesse público e sua difícil mas importante definição aqui.
2 Fonte: Portal da História.
3 Essa matéria sobre os carros incendiados eu "dei" a uma repórter em estado larval. Ela não queria fazer, pois ia ter que vir ao local, era de madrugada e ninguém quer saber de mexer a bunda da redação. O jornal deu duas páginas no dia seguinte. -
Mastigar abelha não é Mu-Mu®
@ 2009-01-20 – 08:00:18
Não leia estas palavras.
Se você obedecer esta frase paradoxal, ninguém vai dar a menor importância a este Bovinenses. E então talvez minhas preocupações sejam injustificadas e jamais se concretizem. E todos viverão em paz.
Se você realmente insiste em ler, não me responsabilizo por melindres. Ninguém reclama de música pornográfica, mas todos querem regular a Internet e punir autores de eslovos considerados desagradáveis. Apagar a História ou impedir a livre expressão não podem fazer a realidade desaparecer. Você não é obrigado a visitar este espaço, portanto, considere-se "ciente" ou livre para clicar no botão "voltar" (back).
Estou perplexa. Enquanto eu recebia uma advertência "amiga" sobre os perigos da postagem, os absurdos da última semana vistos na terra do Teixeirinha foram daquele tipo que acorda até os mortos. A quantidade de fatos insensatos e asneiras bovinamente tolas que nem no Burundi já se viu solaparam minha escassez de tempo. Não conseguiria comentar tudo nem em um mês; assim, fiz minicomments na orelhinha de cada item, pós-asterix.
Vejamos:• Luto oficial e histeria coletiva pelas três mortes no acidente com ônibus de jogadores. *Se eles fossem apenas pessoas, como você e eu, ninguém derramaria uma lágrima e nos atirariam numa cova rasa, sem ao menos se despedir com uma flor de plástico. Mas como são heróis nacionais, ou seja, são jogadores de futebol – nosso maior patrimônio e doença social –, já viu. Patético. Recorde-se que, na mesma semana, a cobertura jornalística do "ônibus desgovernado" já havia oferecido um show de sangue e lágrimas e houve quem suspeitasse da ética de certos repórteres.
• A urgência de comprar um avião para o "Estado". * Escândalo sem fim. Avião para quê, Lôca? Alguém perguntou a mim e a você, caro ruminante, se nós temos como pagar esse luxo? Não, claro, somos uns jacus idiotas.
• A sempre ereta força despótica que tornou já indiscutível o poder do laquê. * Ops. Comentário encriptado. Significado disponível só para iniciados.
• A nomeação do galo de rinha para certa administração munícipe. * Idem. Cara-dura sem fim. O demônio não seria tão bisca.
• O delírio ufanista da imprensa da Província pela posse de Obama. * E o jornal do Pasto mandou quem para a cobertura? Maldade infinita.
• A nova vida do coronel mais querido do Pasto. * "Flora vive! Melara livre, já!"
• O nível mais baixo de oxigênio no Pasto. A crítica política está no fio da navalha, e desde a era de 70 nunca se viu clima assim, com aumento da autocensura, perseguições, processos e ameaças, e a necessidade de se utilizar cada vez mais um discurso codificado ou repleto de figuras de linguagem, para dizer o mínimo.* Comentário encriptado por força maior.Sobre minhas idéias paranóicas de que a nuvem está cada vez mais carregada, inspirar-se, por gentileza, nesta matéria da Deutsche Welle (em português) e achar os sete pontos de coincidência com a teoria dos sapos gaudérios na panela de água morna.
As pautas se multiplicam, os vermes se disseminam e eu preciso lutar para arranjar disposição para simplesmente ignorar como um Epicuro tamanhas barbaridades, calar a boca, baixar os cornos e trabalhar, pois estou deveras deprê, o dinheiro acabou e meu gato enlouqueceu. Assim, caro ruminante, diante do churume geral e avacalhação descarada da democracia, diante das labaredas desta Nova Idade das Trevas, concentrarei minhas forças sobre as incríveis amenidades pastoris, uma diversão edificante e saudável para toda a família.
Perfil do macho do Pasto – O bovinense macho típico é um bicho brabo. Xucro e encaroçado, afirma-se em sua grossura e no orgulho pelo seu jeito tosco. Este espécime não usa creme, desodorante é frescura e unha encravada é prova de virilidade. Para ilustrar o quanto este tipo é pitoresco, há uma canção muito famosa, em cuja letra o autor ensina que mulher e égua são domadas por meio das mesmas regras. Do contrário, "é maneador nas pata [sic] e pelego na cara". Vai aí então para satisfação do meu caríssimo leitor um trecho da canção citada:
Não vem morocha, te floreando toda
Eu não sou manso e esparramo as garras
Nasci no inferno, me criei no mato
E só carrapato é que em mim se agarra.
Tu te aprochegas, reboleando os quarto
Trocando orelha, meu instinto rincha
E eu já me paro, todo embodocado
Que nem matungo, quando aperta as cincha.
(Refrão) Aprendi a domar, amanunciando éguas
E para as mulher, vale as mesmas regra
Animal te pára! Sou lá do rincão
Mulher para mim é como redomão
Maneador nas pata, pelego na cara.Bovinicionário: Morocha: moça morena, mestiça, mulata, rapariga da campanha. Cincha: peça dos arreios que serve para firmar o lombilho sobre o lombo do animal (mulher ou cavalo?). Redomão: cavalo que resiste à doma. Maneador: tira de couro cru que o campeiro conduz no pescoço do animal (mulher ou cavalo?).
Um gaudério que se preze prefere a companhia dos cavalos, de seus iguais e de seus cachorros guaipecas – poodle não é cachorro de macho –, nesta respectiva ordem, do que partilhar o mesmo oxigênio com uma mulher, a não ser que o seja para fins viris. A mulher é uma espécie vista como animal de comportamento duvidoso. Porém, o que faz fumegar as guampas do gaudério não-castrado é o que o gaúcho tradicional chama de veado, ou seja, homem gay. Ser "fresco" é uma espécie de doença para o homem típico do Pasto e vale tudo para evitar qualquer suspeita sobre sua própria masculinidade. Se um bombachudo entrasse no bar Ocidente, ali na esquina maldita, certamente desmaiaria.
Um dos sites mais populares entre este povo coloca entre as personalidades importantes para a cultura tradicionalista (uma espécie de imaginário criado sobre uma guerra perdida e os alegados costumes do campo) só nomes de homens. Embora a mulherada em geral só se interesse por bobajada, mesmo, é deste folclore a idéia de lugar de mulher é na cozinha, é em casa, é com a família. Não é à toa que a mulher do gaúcho é chamada de prenda (= jóia).
Assim, a chamada linguagem tradicional do gaudério, e de muito bovinense da capital do Pasto, é cheia de expressões que trazem a marca da comparação jocosa e um humor tosco. Vejamos:
"Alegre como puta em dia de pagamento de quartel."
"Gaúcho macho não come mel, mastiga abelha."
"Guri que não teve gonorréia até os 15 anos é puto."
"Com quem veste saia – mulher, padre ou juiz – não se brinca."Quero deixar claro que não tenho nada contra os CTGs e MTGs, muito organizados e com suas leis próprias. Não me importo muito também que o Parlamento do Pasto promulgue leis que se reportem ao estatuto dos CTGs, como a Lei da Erva Mate e a Lei do Chimarrão. É claro que os parlamentares deveriam se preocupar com a sociedade em geral, e não apenas com determinados setores de existência autônoma ou com interesses de minorias sem demandas essencialmente sociais, um assunto já abordado neste espaço verde aqui e aqui. Mas você sabe como são os parlamentares e o quanto suas preocupações passam longe da seriedade que o cargo exige, em tese. É preciso reconhecer porém que a associação a estes locais que preservam e transmitem o folclore pastoril nunca foi obrigatória. Mas ajoelhou tem que rezar conforme os preceitos destas instituições. Há até um pai-nosso gaúcho, entre outras particularidades pitorescas. Não sei se o Papa sabe disso, mas é bem curioso que até Deus em sua santa eqüidade1 tenha que discernir entre humanos em geral e gaúchos. Há regras rígidas também para indumentárias e, é claro, sobre como fazer o sagrado chimarrão.
Voltemos ao gaudério e sua estranha relação com a mulher. Em texto encontrado no mesmo portal, afirma-se que:
A sociedade rio-grandense tem tradição machista, pois é originária de uma oligarquia militarizada, que demarcou fronteiras, através de lutas e de guerras. [...] O tradicionalismo prima por preservar, divulgar e cultuar a tradição gaúcha, ou seja, o patrimônio sociocultural desta sociedade com tradição machista.
Pelo que meus neurônios embebidos em cevada forte entenderam, não apenas assume-se o machismo como tradição como também existe o objetivo de preservar esta cultura. Acho assombroso, realmente. E ainda mais surpreendente é alguém se orgulhar de tal tradição de superioridade masculina; contudo, não devemos nos esquecer que outras formas de comportamento discriminatório têm orgulho de suas esporas, como neonazistas, racistas e jornalistas.
Eu juro que não sei se existe ligação entre o comportamento bovino e o mito do gaúcho, mas não deveria haver mais espaço no mundo de hoje para uma cultura de simulacro tão anacrônica ante o nosso já turvo cotidiano de tantos descalabros, cinismos, improbidades e insânias generalizadas. O vazio de razão, no entanto, não serve para entender o comportamento ou a cultura. Mas fica aí um pouco de grama para mastigar enquanto se fita o vasto horizonte de possibilidades.
Olha, eu queria muito contar a você sobre a invasão russa do Moinhos de Vento ou sobre a teoria do sapo na panela de água morna – morna, mas no fogo. Mas vou deixar para outro dia.
Nota 1: A Nova Ortografia da Língua Portuguesa não foi adotada no Bovinenses. Utilizamos as normas do Formulário Ottográfico de 1943.
Nota da Redação: Mu-mu® é o nome de um famoso doce de leite bovinense e tornou-se sinônimo de coisa fácil de se conseguir fazer, entre outros usos mimosos.
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Sobre a cerca elétrica no Pasto
@ 2009-01-09 – 00:57:19
Vou precisar de uma digressão para espremer o caso.
Alguns jornalistas incomodam interesses e poderes e acabam servindo de comida para os cães. Outros têm a vida pessoal destroçada e, mesmo ganhando o processo, os custos não compensam a vitória; então, a saída é beber. E sempre tem um faca-na-bota metido a macho por aí para ameaçar e coagir um escriba por telefone ou faz o despacho de galinha preta na própria casa do desafeto. Há também jornalistas cretinos e picaretas, gente que nasceu com microencefalia hereditária mas mesmo assim exerce a profissão por aí, servilmente – esses nunca têm problemas. E como estamos vivendo o Juízo Final, nada mais prosaico que jornalista processar jornalista. Tem uns que evoluíram seus requintes de coação e desenvolveram o truque do livrinho. Funciona assim: desconhecido telefona para você e pergunta seu endereço, pois gostaria de lhe enviar um livro. Se você der o endereço, já viu.Segundo a organização de defesa da liberdade de expressão Article 19, existe uma ação de indenização por danos morais para cada jornalista que trabalha nos cinco principais grupos de comunicação do Brasil (Folha, Globo, Estado de São Paulo, Editora Três e Abril), "um recorde mundial". O valor médio das indenizações passou de R$ 20 mil em 2003 para R$ 80 mil em 2007. Liminares se proliferam proibindo publicação de informações, exigindo a retirada de material publicado em sites, entre outras ações repressoras que não passam de mordaça. A quem interessa o silêncio do espaço vazio?
Se eu tiver uma opinião pessoal negativa sobre alguém e quiser escrever sobre isso aqui no Bovinenses, posso tomar um processo (morar no Madre Peletier com tudo pago, perto da chuva de canivetes e impostos aqui fora não parece má idéia). Adoraria ser processada e levar a ação até as últimas instâncias, especialmente se o caso envolver liberdade de expressão. Este blog seria um sucesso e eu escreveria com o sangue de meus dedos na prisão, entraria para a História como mártir e o litigante morreria babando de inveja nas aspásias da insignificância.
Mas é importante lembrar que este é um direito de todos os que se sentem atingidos por algo que acham difamante. Porém, a Justiça deve ser acionada com racionalidade. O que tenho visto por aí é abuso, cara-dura e gnorânça. O público e o privado hoje é um carnaval, todos sabem. Vejo coisas bem graves que dariam lindas peças criminais, como alguns meios de comunicação liderados por parvos que mal sabem escrever "vovô viu a uva" e cujos preceitos de ética são semelhantes às divagações de um psicopata. Há um, inclusive, que manda repórteres copiarem matérias alheias para seu jornal publicar como próprias – e diz que quem não assinar é demitido. Talvez algum dia eu conte aqui sobre minha fase terrorista.
Certa vez, passei saias-justíssimas por conta de um imbecil que resolveu qualificar uma crônica que escrevi como "imoral" – até aí, morreu Neves, você pode achar o que eu escrevo o que quiser. Mas ele resolveu encher. O processo chegou a ter mais de 1,5 mil páginas e caminhou do Rio de Janeiro até a 10ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, que tive então o prazer de conhecer. De lá, foi para o Ministério Público, onde a crônica passou a ser denominada de "matéria jornalística" e a alegação foi modificada, pelo mesmo energúmeno, para "apologia ao uso de drogas". A coisa virou um drama e foi parar na Polícia Federal e lá fui eu, prestar esclarecimentos por existir. Tudo isso só não teve conseqüências maiores porque 1) a capital bovina estava em chamas por conta de um assalto a um banco, cujos ladrões fizeram a gerente de refém e cingiram sua cintura com dinamites, após o que a seqüestraram – e os policiais tinham preocupações mais importantes que aquela peça literária ridícula, e 2) contei aos policiais que todas as informações que deram origem à denúncia foram retiradas de sites do Governo Federal. Aí, alguém deve ter visto a luz búdica, ponderou que o negócio ia complicar para o outro lado e se encarregou de dar um fim àquilo.
Tudo isso para dizer que o jornalista Wladimir Ungaretti, professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, está sendo processado por um colega, que sentiu-se injuriado por ser denominado como "cascateiro". Segundo o blog Ponto de Vista, a história toda começou porque Ungaretti apontou manipulação em seu trabalho; ou seja, que, enquanto fotojornalista suas obras não resistiriam a um teste de realidade. Reproduzo abaixo um trecho de um e-mail do professor.
Depois que o cara abriu o processo e eu passei a apertar as críticas, no blog Ponto de Vista, ele foi colocado na geladeira; corre a informação de que poderia ir para a rua. Esteve na minha casa me ameaçando e isso não é coisa da RBS. Foi indentificado pelo porteiro do prédio. Não fiz, na ocasião, um registro na Polícia. Comuniquei o fato à direção da Faculdade, pedindo que alguém avisasse a empresa. A empresa não tem interesse nesse tipo de coisa. Enfim.... é o preço. Não pretendo recuar. Não quero acordo. Posso perder na justiça, mas na vida real desmontei um cara cascateiro e que será para sempre Fotonaldo. Não tenho no meu histórico escolar ou profissional nenhum episódio que mostre que eu tenha a prática de criar apelidos. [...] Sou do tempo que jornalista não processava jornalista, mas pedia direito de resposta. Nenhuma das minhas críticas foram respondidas. Posso cometer erros, mas tenho convicção do que aponto como picaretagem na mídia corporativa.
O detalhe é que o injuriado não fez objeção à acusação de que manipularia seu material, mas objetou sim o termo "cascateiro" e o apelido. O Houaiss diz assim, ó:Cascata. Acepções: adjetivo e substantivo masculino. Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
Diz-se de ou indivíduo que cascateia, que mente ou conta vantagens.Quanto ao termo "apelido", o Houaiss nada diz de ímprobo.
Não entendo nada de Direito, mas defendo que eu posso apelidar qualquer um com o eslovo que me vier na telha. Poderia apelidar alguém de Patolino ou Fodonaldo, por exemplo. Ou de Lôca do Exu de Laquê. Ou Girafão, como já é o caso. Se o Girafão quiser me processar por causa desse apelido, ele será a piada do Pasto. O Poeta só tem graça porque ele não é poeta. E ele é invisível e faz obras de qualidade artística sofrível, todos sabem, até sua sombra. Então, esse caso aí do fotógrafo me parece mais aquela gente ranhenta de escola primária de periferia que, ao saber que um colega tira notas ótimas, ameaça: ó, vou te pegar na saída. Ou esses que querem móito enviar um livro para a sua casa. Uma coisa é certa: a coação é a pior maneira de defender a honra – mesmo porque quem tem honra não usa meios sinistros para prová-la. E é igualmente correto deixar os litígios por conta de sua jurisdição, ou seja, o Tribunal. O que me racha a moringa é o cara se inflamar contra perfumaria mas não se defender do mais importante.
Trabalhei com vários fotógrafos do jornalismo, um deles apelidei de Jesus Cristo, não apenas pela aparência riponga como pela sua capacidade de realizar milagres e pela sua santa paciência para com o manicômio onde trabalhávamos. Jesus jamais me processou. Nosso diretor era conhecido como Deus, mas, enquanto pessoa sem fé, referia-lhe pelo nome de uma leguminosinha da família das vagens, que combinava com a dimensão presumida de seu cérebro. Conheço no entanto alguns colegas menos, digamos, elevados. Gente que mata a mãe com faca de passar manteiga por um furo, um prêmio ou o pelo vazio da fama. Já vi repórter entrar em delírios de que é policial e realmente perseguir gente no trânsito para fazer "flagrantes" e ainda, por isso, para horror geral, receber prêmio. Vi há dois dias um famoso colega "matar" o outro ao vivo, para que este não aparecesse demais e lhe "roubasse" a pauta (estas pautas são umas putinhas, mesmo). Então, o que dizer?
A meu ver, é grave obstruir a Justiça com querelas de ordem pessoal. E não é salutar cercear a boca, a pena, toda e qualquer forma de expressão, seja qual for o tipo de alegação. É o que eu penso, e ofereço como exemplo de saúde e liberdade o governo da Dinamarca, no caso das caricaturas de Maomé: "Não podemos fazer nada, na Dinamarca todos são livres para dizer, escrever ou desenhar o que quiserem. Processem-lhes, mas, enquanto governo, não podemos fazer absolutamente nada". É claro que a coisa não ficou por isso, mas daí já é outra história.
Antigamente, eu via gente morta. Ungaretti sacudiu meus ombros com força e perguntou onde estava aquela vida que o brilho dos meus olhos mostrava, ou qualquer coisa assim. Ressuscitei do torpor e da amarga falta de fé no jornalismo graças a essa sacudida, e sou-lhe grata por isso. É claro que ele pode ser apenas só mais um comunista e o litigante, que trabalha há 31 anos no mesmo local, um gênio da fotografia inocente e difamado. Sei contudo que gênios são raros, que a nuvem preta da mordaça vem crescendo sobre o Pasto e que sou apenas uma filosofista bêbada que confia nas liberdades individuais e nas arestas da História.
Se lhe acusassem de ser um farsante, o que você faria?
Se Maomé fosse amordaçado, ele deixaria de ser Maomé? -
Pastar é o que há
@ 2008-12-31 – 20:51:32
Preciso fazer uma lobotomia. Porque não consigo tirar férias, as vacas loucas do Pasto me colocam em chamas. Dia 29 de dezembro, os vereadores de Porto Alegre aprovaram por 'unanimidade' dois projetos: Gigante para Sempre, de reforma do estádio do Sport Club Internacional, e Arena, de construção de um estádio novo para o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. (A unanimidade no segundo caso é falsa, pois houve seis votos contrários.) Os edis do Pasto se envolveram nestes dois projetos com paixão e a votação ocorreu em urgência, na última sessão plenária do ano. O Girafão e o Poeta se engajaram diretamente. Não ouvi, não vi nem li nenhuma crítica a estes projetos na imprensa.
O deputado estadual Paulo Odone (PPS) é presidente do Grêmio. A OAS é a megaempreendedora que recebeu a benesse de construir uma dúzia de torres onde hoje é o estádio gremista. Sem entrar no mérito do conflito de interesses óbvio em exercer o cargo de parlamentar com o de presidente do clube de futebol, apenas citarei o que está escrito no próprio site de Odone:
A área [do estádio Olímpico, do Grêmio] havia sido doada aos padres jesuítas em 1963, pelo governo do Estado, com a contrapartida de serem construídas escolas no local e de não ser vendida. Para comprá-la, a OAS fica com a obrigação de construir uma universidade técnica e uma escola na Restinga.
Os negritos são apenas para frisar a diferença entre o que era para ser e o que é. Também destacam a distância entre algo de interesse do bovinense – a educação –, atirado para a Zona Rural da cidade, em relação à ambição particular, como a construção de empreendimentos imobiliários no bairro Azenha, próximo ao Centro. E me racha o melão esta tal universidade técnica, um contrasenso em si.
O fato de a área do estádio Olímpico não ter servido à sua vocação inicial deve seguir a mesma lógica lôca argumentada por alguns vereadores, como Haroldo de Souza (PMDB): a construção do novo estádio do Grêmio e a reforma do estádio do Inter "são de interesse de todos os bovinenses", porque "os times são dos cidadãos". É notável que o futebol tenha atingido o status de interesse social aqui nas cucuias da gauderiada. É ainda mais surpreendente que um time de futebol seja dos cidadãos, mas a cidade e seu destino, não.
Apenas para citar en passant, o pacote do projeto Arena inclui a construção, nesta mesma área onde fica o Olímpico, de um empreendimento imobiliário composto de várias torres de 70 metros de altura. A idéia é montar ali um cemitério vertical, pois a desertificação deixará o local mais adequado à moradia de vampiros e zumbis.
Eu só gostaria de saber que diabos os interesses de clubes de futebol têm a ver com você e comigo e com os nossos interesses. Porque eu não caio nessa de que o Inter é meu. O Internacional não ajuda a pagar minhas contas, a quitar minha dívida com o Fisco, tampouco time algum ajudou a pagar meus 10 anos de estudos superiores e eu duvido que algum time de futebol pague meu enterro – a não ser que isso seja uma metáfora sinistra.
Dizer que tudo isto é para conseguir que a Fifa aprove a capital do Pasto como subsede dos jogos da Copa do Mundo de 2014 é uma missão defendida pelos parlamentos municipal e estadual, pela líder do palácio de Calígula e pela mídia monocromática que apita aqui na terra do Teixeirinha. A justificativa para envolver a Câmara de Vereadores e o meu bolso em tais delírios é uma patada bovina: se esta cidade sombria conseguir a aprovação da federação para ser subsede do circo de 2014, haverá mais turismo, empregos, dinheiro para todos. Somente em 2014, durante apenas os dias que durar a Copa e se e somente se a cidade for subsede e eu, um ganso polar. Até lá, tanto a cidade quanto os empregos e o turismo permanecem estagnados e nenhum projeto nos salvará da danação total.
Os corifeus do desenvolvimento dizem também que os estádios transformarão a capital bovina em um epicentro do primeiro mundo, que haverá champanha grátis para todos e que os ecologistas são um atraso de vida, pois são todos comunistas. Que o desenvolvimento vai embora quando acabarem os jogos, se houver jogos, é desagradável falar.
Ainda bem que não há mais o que esperar de 2008 – e que a corja de filisteus que comanda a boiada entrou em recesso.
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Rapsódia a Melara (afinal, o terrível 2009 vem aí)
@ 2008-12-26 – 22:22:10
Senti falta do Melara neste Natal.
Para quem não sabe ou já não se lembra de quem foi esta figura, Dilonei Melara protagonizou uma das mais incríveis perseguições policiais de verdade, colocando o Pasto em chamas em julho de 1994. Na ocasião, ele, um comparsa e duas estagiárias de psicologia invadiram com um táxi a mais ou menos 80 Km/h o saguão do Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre, na época o mais chiquê, fazendo pó das portas envidraçadas. Melara acumulava penas barbudas que chegavam a 70 anos de prisão e aquela era mais uma das suas fugas. Desistiu da agricultura para ser assaltante de bancos – casualmente, os mesmos bancos que nos assaltam, caro ruminante.Em janeiro de 2005, Melara foi encontrado morto lá para os lados de Dois Irmãos com cerca de 20 tiros na cara, entre outras perfurações de bala pelo corpo. A gente não é idiota e sabe que isso não é, delicta carnis, mero assassinato, a gente fareja que tem cobra atrás desta moita, enfim. Buliçoso pensar é que, segundo a lenda, mulherengo como era, pode ter sido atraído por uma isca, ou uma bisca, ao lugar da cilada, como também acontece com muita gente decente até hoje. É um plano antigo e sem imaginação mas muito utilizado aqui no RS.
Lembrei do Melara na véspera de Natal, quando tentei ligar para o 190 (Brigada Militar) de um dos orelhões que há aqui perto das pastagens verdes onde moro. Queria denunciar o abuso que acontecia na Fernando Gomes naquele fim de tarde. A cada 10 minutos cravados, um caminhão do tipo grande passava por ali com um bate-estaca dos infernos, muito além dos 200 decibéis. Ninguém conseguia ouvir nem a própria consciência quando aquele elefante pornográfico passava. O caminhão, segundo informações da embalagem, fazia publicidade para o vereador Brasinha (PTB). Fui em quatro telefones públicos. Nenhum funcionou.
Todos sabem que esses telefones de emergência são gratuitos. É dever do Estado oferecer esse meio às pessoas para que possam comunicar irregularidades ou chamar por ajuda. Os orelhões testados têm um logotipo da Brasil Telecom. Todos têm botõezinhos facilitadores para "bombeiros", "polícia", "socorro", etc. Não funcionam. A ligação é atendida e cai. Ou seja, como a cadela aqui teve seu celular roubado ("déficit zero" = algo a menos), sífu. E daí o Brasinha prosseguiu com sua churumela pornô. Pensei em um ataque frontal por meio de ovos, mas já desempenho os papéis de louca e de bêbada: acumular mais funções, como a de ativista radical, não ajudaria em nada uma vida já complicada.
É importante não esquecer, para manter fresca a capacidade de se surpreender. Assim, não deixo de citar aqui outros serviços públicos que fazem o vivente passar pelo teste da paciência infinita, quando se é atendido; e, se é atendido, daí lhe dizem que não é possível fazer nada quanto a este procedimento, porque está tudo dentro das normas. Acrescente-se as inexplicáveis faltas de luz quando apenas há um cheiro de chuva no ar; o total abandono das ruas; a falta do lixo seletivo em ruas próximas às que possuem o serviço; os Kennys a cozinhar uma poção imunda de toda a sorte de churume sólido, líquido e gasoso; as taxas de iluminação pública que vieram para deixar as ruas no breu; os fios elétricos arrebentados e caídos que enfeitam calçadas e chamam para um choque de realidade. Eu queria saber o que você pensa sobre isso, porque tais paradoxos e surrealismos superaram qualquer espécie de compreensão que estivesse ao meu alcance.
Senti falta do Melara neste Natal. Perto das aberrações que povoam nossas ruas, nossas vidas e os noticiários – sejam as do tráfico ou aquelas que disfarçam suas sujidades com terno e gravata, e vivem à minha, à sua, às nossas custas nos Poderes –, perto do Império do Laquê e ante todo esse adubo orgânico que parasita nosso universo pastoril, esse ladrão parece uma criança boba que roubava pirulitos.
Melara ao menos espantava o TÉDIO estagnado no ar da capital do Pasto e o próprio ar de infinito enfado existencial de cada bovinense diante de cada dia nesta cidade desenhada e planejada somente para se ir e voltar do trabalho, e olhe lá. O bovinense se esqueceu de dar a própria entrada no hospício, porque tem certeza de que, olhando sua rotina, tudo parece mais ou menos certo. Cada bovinense é um zumbi que vive apenas para torcer pelo seu time, encher a cara de Polar e assistir a novela das 21h. Uma vida morta, portanto. Uma vida sem vida não vale a pena ser vivida, já diz aí uma banda alemã.
Esse adubo podre que nos suga o bolso, o prazer de ser vivo e a paciência tinha que ser mais corajoso e sair do armário de vez. Para que você e eu soubéssemos com quem estamos lidando, sabe? No entanto, uns contam histórias tristes, outros nos oferecem pão, bola e circo ou escrevem livros de aventuras imaginárias em terras estrangeiras para distrair a platéia; outros, ainda, governam sob os desmandos do Id, exalando a psicoses de nível 1 e há ainda aqueles que têm a cara-dura de simplesmente abdicar de governar, uma vez (re)eleitos. O passado suspeitoso ou mesmo maculado não existe. Aparecem por aí, na mídia e em coquetéis, sorridentes e altivos. Tal tipo de gente se mantém no poder graças a todos nós e às custas da satanização de setores, seja pela mídia ou pelo próprio discurso político. A estereotipização (a política do terror), seja pelo eterno medo da chegada dos comunistas, seja pelas queixas ante a "excessiva liberdade de expressão" ou mesmo pela demonização dos movimentos sociais e certas classes profissionais são clichês totalitários para esconder a própria lama – conversa para boi dormir.
O que é um Melara em comparação a tais adoráveis símbolos da probidade, estas centenas de células destruidoras da sociedade e do bolso de cada um de nós, em uma metástase sem fim? Um contra uma instituição é diferente de instituições contra cada um.
Tudo o que sobrou ao imaginário dos habitantes do Pasto foi a existência instável de um 190 e o mito do Melara. O resto tornou-se alucinação coletiva. Tenho mêdo do que espera os bovinenses em 2009. Estamos sob o Governo Provisório do Mal, uma época rarefeita de liberdade, imersa no absurdo e rica em irracionalidades.
Enquanto o ano-novo do terror não chega, vou ali na esquina comprar uma pomadinha lubrificante, antecipando dificuldades com a durice da grossa que vem por aí, pelo ar, batendo asas.Salve, liderança!!
Salut, 2009!
Ops.: Para quem quiser saber mais sobre a citada perseguição, o texto “A noite dos desesperados”: motim no Presídio Central em Porto Alegre, do historiador Cláudio Pereira Elmir dá uma dimensão interessantíssima, a partir da análise da cobertura da mídia bovina.
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Abusatto!
@ 2008-12-17 – 19:36:43
Precisamos urgentemente de um aparelho para mensurar nossa idiotice: um idiotômetro. Ou alguém fabrique por favor um medidor do índice de realidade, porque, para mim, e provavelmente também para você, ela se inverteu e cada dia aparece em um ângulo ainda mais distante da civilidade.
Nesta tarde, o economista Cézar Busatto esteve na rádio bovina dando entrevista sobre o lançamento de sua obra-prima, um livrinho em que ele resume como ajudou a eleger Obama, ou, melhor, sua experiência como voluntário na campanha presidencial do democrata.
Não custa lembrar para sempre (já que a amnésia é geral) que Busatto foi chefe da Casa Civil e secretário-geral do governo Yeda Crusius. Alguns se referem a ele como "ex-chefe da Casa Civil" ou "ex-secretário-geral". Ele não é "ex-". "Ex-" só se é quando se deixa um cargo com decência. Busatto foi pressionado a deixar o seu cargo por conta do escândalo do Detran, dentro do âmbito da operação Rodin, da Polícia Federal. E até hoje nada ficou esclarecido, e a sociedade ficou em um limbo de ignorância, sem saber o que exigir. Busatto também foi processado pelo vice-governador Paulo Feijó por danos morais, em uma ação que alega ofensas proferidas em entrevista.
No programa desta tarde, apenas cinco meses passados da novela do Detran até hoje sem desfecho, Busatto falou ao microfone felicíssimo, gargalhou orgulhoso de sua crista. Exaltou-se, exaltou os EUA, exaltou Obama. Referiu-se à raça em vez de etnia ("na campanha, não se falou em raça"), embora qualquer fascista saiba que raça só existe uma: a humana.
Muito bem-humorado, Busatto falou sobre sua experiência com a comunidade hispânica norte-americana, mas, nos ecos de suas risadas juro que escutei timbres de escárnio contra os bovinenses.
E então, ouvindo isso, você tem vontade de ir ao banheiro vomitar, porque parece que NADA ACONTECEU por aqui, parece que foi tudo uma ILUSÃO COLETIVA que tenha levado Busatto a ser afastado do cargo, mesmo que fosse com uma garrafa de champanha na mão; parece que tudo o que tenha levado à Assembléia Legislativa a montar um circo não passou de fermento, que os fatos que quase levaram ao impeachment da governadora foram pura ficção – quase, porque uma operação-abafa se fez na mídia e esses graves fatos, de um dia para outro, foram substituídos por outra agenda.
Busatto revelou que foi ao exílio como convidado, para participar de uma certa pesquisa em democracia na Universidade de Stanford. Saber que o Busatto recebeu uma licença-prêmio, após a suspeita de levar o Rio Grande do Sul à lama ética, para viver esta tão caliente aventura revolveu-me as vísceras. Vê-lo de ótimo humor e pairando acima das cabeças bovinas foi ultrajante.
É claro que ele falou sobre temas como "lisura em financiamento de campanha", lobby e sobre o caso Nixon. "O lobby é tão poderoso que não permite que o interesse dos cidadãos se expresse", concluiu. É curioso que ele precisasse se exilar nos Estados Unidos para descobrir isto, pois, na época do vazamento das fitas, Busatto parecia desconhecer tais poderes do lobby.
Depois, ninguém entende quando as pessoas enlouquecem e começam a incendiar os Tribunais de Justiça. Bastaria ligar tico e teco, afinal, o que se vê e ouve aqui no RS, à semelhança do resto do País, é a impunidade.
Havia outros temas a falar aqui, mais divertidos, mas a quantidade de absurdos que acontecem no Pasto é inacreditável, e acabam solapando a oportunidade de assuntos mais amenos e pitorescos a serem abordados neste espaço verde.
Sinto-me otária; sinto-me de luto e, por algum motivo, tenho vontade de bater com a cabeça na parede até que consiga fazer entrar no crânio um átomo de iluminação; afinal, só vejo trevas. Sinto-me impotente diante do império de Calígula e seus animaizinhos abusados. Não tenho esperança de que se faça alguma justiça ou de que a CPI do Detran tenha um final decente. Porque nós vivemos uma era desavergonhada, em uma época em que a degeneração ética é a norma: vivemos a Era dos Ínfimos. E, se o Busatto voltar a fazer parte do governo, não me surpreenderia.
Tudo isso dá vontade de revolta, dá nojo, dá ódio e é só por sermos tão bovinos que não agimos como irracionais contra gente dessa laia. Enquanto isso, a governadora nega pagamento do piso do salário dos professores, porque isso atingiria o "equilíbrio fiscal do Estado". Enquanto isso, ela recebe 143% a mais em seu salário. Enquanto isso, as pessoas passam a se digladiar dentro de suas famílias ou vizinhanças, porque a estes é mais fácil atacar. E não há um cristo que vá lá nesta gloriosa noite de autógrafos "levar um livrinho" ao Busatto.
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Admirável perna de anão
@ 2008-12-08 – 16:17:20
É de impressionar o quanto o futebol tem o respeito e o amor do brasileiro. Nesse sentido, o gaúcho é um extremista fanático, cujo comportamento lembra o de religiosos mais radicais. Não recomendo falar de futebol, tampouco sobre religião, até porque tratam-se de crenças e gostos, como se eu preferisse um Mac a um Dell apenas por seu desenho ou seus widgets, ou detestasse o jeito doce e artificialmente alegre daquela apresentadora do Jornal Hoje. Sobre isso não há argumentação racional a se expressar e muito menos alguma coisa que disso se possa extrair. Mas reconheço que futebol e religião unem o país e são as únicas coisas, fora a novela das oito, que são veneradas com o núcleo da alma de uma grande maioria, de norte a sul do Brasil.
E em termos de futebol, o governo do Pasto deu um golaço. Populista e despótico, em busca de fazer cena bonita, fez um acordo pornô, isentando de ICMS construções, reformas e ampliações de locais esportivos, tais como estádios, que visem a criar condições para que a capital bovina seja escolhida como subsede da Copa do Mundo de 2014. O projeto é parte integrante do Programa Estruturante Nossas Cidades – como se futebol estruture alguma coisa que não seja o caixa dos clubes. Isso quer dizer, por exemplo, que as reformas dos estádios do Grêmio e do Inter sairão do bolso dos bovinenses. Ninguém lhe perguntou se você é gremista ou colorado, se gostaria, se poderia: é assim mesmo, o governo decide e mete a mão. Vou tentar lembrar desse episódio quando o fiscal de impostos aparecer aqui em casa para me levar para o Madre Peletier e penhorar meus CDs e meus livros.
Esta demência não seria um tapa na cara da cidadania e da democracia se não envolvesse o seu, o meu, o nosso dinheiro; não seria tão revoltante se o Girafão ou a Lôca tivessem lembrado que atrás de cada bolso existe um cidadão já aviltado por impostos. Se os chefes do manicômio querem agradar aos clubes de futebol, é um problema deles. Se eles querem tirar as calças para atrair sussurros da Copa de 2014 (o que, literalmente, seria a salvação do Pasto) visando enriquecer sua azeda trajetória política, também não é problema meu nem seu. Além disso, a medida certamente encherá a cidade de fanáticos da bola, e a gente sabe o quanto é difícil agüentar aqueles exagerados que vivem para soltar foguetes, encher a cara e gritar vitupérios pelas janelas a cada partida.
Segundo a líder do Executivo pastoril, o ICMS gaúcho tornou-se "um instrumento de desenvolvimento" (repito, o seu, o meu, o nosso dinheiro). Ela disse que, a partir do "saneamento das despesas do Estado, com a conquista do déficit zero", foi possível fazer com que o ICMS se tornasse um instrumento de sustentação de renda e de produção. O que ela chama de "saneamento" é deixar de atender algumas demandas básicas, como pagamento de salários, para priorizar dívidas do Estado, coisa que até eu, que nunca fui economista, poderia fazer. É como se eu pegasse o seu dinheiro para pagar os meus impostos atrasados, entende?
Detalhe gostoso: as obras da chamada Arena (Grêmio) estão orçadas em R$ 1 BILHÃO. A reforma e a cobertura do Estádio Beira-Rio estão orçadas em cerca de R$ 80 milhões.
Aos ruminantes resta baixar a cabeça e pastar – até porque só sabem ir para a rua para festejar a glória do seu time. É por isso que vivemos em um hospício; é por isso que a demência impera, e eu acho que é melhor, mais prático e indolor não citar nomes. Quem lê, ouve ou assiste jornal e quase surta com o nível de surrealismo dos fatos e declarações, projetos, falência moral, carências em várias áreas e descontroles de infra-estrutura básica, sente-se, no mínimo, humilhado e descontente.
Aos descontentes, só há uma saída: o Aeroporto Salgado Filho.
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O Bar do Vice
@ 2008-12-02 – 18:55:05
Meu consumo de cerveja aumenta à proporção que a demência gaúcha cresce. Porque eu não consigo acreditar que estamos em um manicômio, embora seja isso o que a janela me devolva. E você liga o rádio e de repente tem uma declaração da governança pastoril dizendo com naturalidade que a realidade é fantasia; que os impostos vão simplesmente aumentar, porque é assim que tem que ser; que irá cortar o ponto de gente que já vive matando cachorro a grito; que o governo pretende estender concessões das rodovias estaduais por mais 15 anos a uma turma que já cobra mais de R$ 30 para a gente ir e voltar da Serra (coisa em torno de 100 Km de Porto Alegre), enfim, cada dia é uma bovidade ainda mais anestesiante, mais acachapante – como, ora bolas, em um ato despótico, conceder a si própria 143% de aumento. E ainda há os espirros de laquê na área cultural.
A última idéia desse tipo é a tal revitalização do palácio governamental, com a colocação de guarda-sóis patrocinados pelo banco do Pasto no terraço. Tais mimos fazem par com mesinhas brancas de plástico, as quais provavelmente fazem conjunto com seus rebentos, as famosas cadeiras de plástico branco que costumam ceder as pernas ao ser usadas por quem é um pouco mais pesado. Segundo meu amiguinho imaginário Otto, sou uma chata, pois a intenção é louvável. Afinal, faz parte dos planos de abrir o solene prédio do Executivo aos bovinenses. Porém, não acredito que asseclas e seguranças me deixassem passar pela entrada com um engradado de Schmittão. Certamente, não seria o lugar mais adequado para uma reunião alegre com brindes à vida e à miséria. De qualquer forma, respondo a Otto, não parece ter existido algum estudo arquitetônico para dispor as coisas de maneira adequada àquele ambiente; vê-se as mesas, os guarda-sóis e o chão de concreto nu, nenhuma flor ou plantinha para animar os olhos ou promover vivas à vida vegetal.
Mas é claro que o fato de o terraço ser desolador não é da minha conta. Da decoração de seus ambientes e dos seus cabelos cuida a chefe do Pasto, e pelo visto já é muito com o que se preocupar. O que me tisna a bile já verde é não se ter imaginação. Porque, ora, tudo bem fazer apupos em misses ou contratar um Roberto Carlos cover para comemorar o Dia da Mulher (rosas e música romântica, ou seja, questões caríssimas às mulheres), estas escorregadas a gente até entende – quem é a boa moça que ousaria querer direitos iguais, exigir o direito sobre seu corpo, qual é a "prenda" que desprezaria flores e um playback melado, detalhes tão pequenos mas singelos e sensíveis, como homenagem pelo seu dia? Mas, Otto! Fazer um local de entretenimento apenas com mesinhas e guarda-sóis é de lascar a moringa de qualquer bovino com dois neurônios. Afinal, não faltaria então uma piscina?
Nesse ponto, acredito que o vice, meu herói – e o único herói careca de que se tem notícia – seria mais competente. Não que ele entenda de refinamentos decorativos ou porque seja contra mesinhas de plástico branco, mas certamente não se contentaria em oferecer como brinde só a vista do terraço aos visitantes de tão honorável local. Acho que ele faria mais, sem fazer uso do laquê e quem sabe até em um pé só, sem usar as mãos. E, como bom empreendedor, descartaria o terraço e abriria direto um bar dentro do palacinho, o Bar do Vice. Completo, com garçons, cerveja, vinho, petiscos, água. E, talvez, com mesas e cadeiras de verdade. E, se houvesse no jardim guarda-sóis, seriam estes naturalmente de algum patrocinador neutro. Escusado dizer que, uma vez que o Bar do Vice seria um local de consumo comum, embora em um ambiente palaciano, pagaria impostos e geraria caixa ao Estado de modo isento.
Mas o que há é o terraço nu e suas mesinhas de plástico. Brindemos, assim, a mais uma ação lúcida e nobre do Poder do Laquê para beneficiar ao entediadíssimo povo bovinense, e, por que não?, vamos aproveitar e pensar o que faríamos com 143% de aumento.
Otto, já grogue de tanta cerveja, faz cara de CC, aponta minha ignorância e diz eu não entendo nada de governanças nem de Relações Públicas. Otto, meu caro, estamos sendo administrados por Calígula em apoteose psicótica. Otto, você não acreditaria se eu lhe dissesse que...
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A glória das bombachas
@ 2008-12-01 – 07:41:33
Não deixe de conferir a edição 6 da revista Norte, que traz uma excelente matéria de Vitor Necchi sobre as origens da famosa empáfia do gaúcho: "A invenção da superioridade – como o ufanismo gaúcho instiga o radicalismo e o preconceito". A análise é mais saborosa que carreteiro de beira de estrada, o texto é construído com elegância e faz revelações que vão muito além da notória fé do bovinense de ser melhor em tudo. Vai aí um trechinho:
Na gênese desta mentalidade de que o gaúcho é “mais”, há um amplo processo de construção de uma identidade baseada em mitos e dogmas nem sempre lastreados por uma realidade fática mas que, mesmo assim, acabaram adotados pela sociedade como se gozassem da condição de atributos inatos. O problema é que o culto ao passado e a defesa das tradições foram revestidos, ao longo do tempo, por um discurso de intransigência e dogmatismo, como se houvesse uma única vertente de cultura no estado, pautando o presente que revive as glórias (?) pretéritas.
Pois foi lendo esta matéria que descobri as origens da bombacha, uma espécie de calça folgadona nas pernas e apertadinha nos tornozelos muito apreciada pelos homens que prezam as tradições do Pasto. A gloriosa bombacha, diz a matéria, citando o historiador Tau Golim, deveria a sua origem a um lote encalhado de uniformes produzidos por fábricas inglesas ao Exército turco, na época da Guerra da Criméia. Como a guerra teria acabado antes do esperado, os ingleses tinham uma bomba na mão e a salvação foi desovar os uniformes no mercado rio-platense para evitar o prejuízo.
E não se engana quem acha que o termo bombacha tem a ver com um artefato explosivo: diz o Houaiss que o gene do nome da roupa de fato é esse, porque o corte arredondado e "avultado" sugere exatamente a figura de uma bomba. A mim a bombacha sempre lembra um bombom, o que dá uma certa tez por assim dizer mais cor-de-rosa a este traje tão amado por aqueles que veneram as tradições do Pasto, no geral um pessoal que só respeita seus irmãos de cueca, menospreza as mulheres e vê lepra em homossexuais. O adágio xucro que diz "Mais apertado que bombacha de fresco" já mostra o que um bovinense-padrão compreende por liberdade e respeito.
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A maior ilha do (fim do) mundo
@ 2008-11-25 – 21:03:01
É uma necessidade, entende?, falar um pouco da alegada boemia desta que é a maior ilha do fim do mundo, onde vive o melhor povo, com os melhores costumes e a mais espetacular estátua da História, cujo desenho é inspirado em uma morsa. No post anterior, falei sobre algumas mumunhas do Moinhos de Vento e de três lugares possíveis neste bairro para quem gosta de uma boa cerveja e de um atendimento dentro dos padrões normais de civilização, se é que se pode conceber tal requinte na capital do Pasto. Claro que não é possível esquecer os contrários presentes em tal empresa, ou seja, a antítese do que seria um local decente.
O sorvete do japa, um inbes que fica ali na Padre Chagas, debaixo do sórdido Dublin, é uma das sete maravilhas da Terra. Peço sempre o de amarena, seja lá o que esta legenda realmente signifique. Presumo que seja cassis. Fato é que há frutinhas vermelhas tipo mertilo incrustadas e o iogurte é de Primeiro Mundo. Sai uns R$ 7 a despesa, se você pedir uma bola e um espresso. O preço vale cada colherada.
Contudo, logo acima do japa, residem as trevas da ignorância, o Dublin Irish Pub, que, a despeito das filas redéculas de deslumbrados que se formam na frente, não vale um cent. Sim, a cozinha é boa. Sim, tem um chope decente. Até Acquavit tem (o garçom o classificaria como "licor", para desespero de toda a Escandinávia). Mas a gerência é de estábulo, é um local silvícola e então não recomendo nem para meus inimigos. Não há a menor consciência da mais parva educação, é puro Id. Se você quiser passar pela aventura, vá com um amigo da Polícia Civil ou com um bom advogado. Além disso, exigem couvert explícito de R$ 25 para entrar, à guisa de sachê para a banda que toca as mais centenárias dos Beatles, Stones e U2.
Se você não entrou nesta roubada, à sua direita há o Sheraton. Faz jus ao título deste post – embora ninguém, talvez nem deus, consiga assoprar a nuvem preta de tédio estagnado que paira acima de nossas cabeças. Ali você será tratado como gente, se é que me entende. O preço é infinito. Minha brincadeira lá saiu R$ 150, e olha que eu só pedi uma taça de vinho e uns nuts. O garçon achava que eu era francesa (e fiz de tudo para trazer à tona resquícios do idioma amado por Juremir Machado da Silva). Foi divertido fazer de conta que eu não entendia o inglês do gentil homem. Detalhe: era 1h da madrugada, eles estavam fechando, mas prestaram um dos melhores atendimentos que já mereci. E você ainda tem a oportunidade de tomar um café com a Xuxa, com a Amy WhiteWestinghouse, com o Berlusconi, o Lula ou com o time inteiro do Boca Juniors (mêdo).
Falando em paspalhices, passei ali em frente por volta desse mesmo horário no dia em que o Deep Purple fazia show aqui na cidade do Laçador de laquê. Na única mesa de luz bruxuleante do bistrô do Sheraton, ali na rua, estava o Ian Gillan, mórto de tédio. Sobre a mesa repousavam um copo de uísque cheio e o braço, que segurava a cabeça; os olhos olhavam para o céu, indagando talvez o que raios ele teria feito de tão bizarro para merecer uma noite careta como a do bovinão. Juro que naquele instante Smoke and waters parecia algo vanguardíssimo perto da pasmaceira colossal desta província de mortos-vivos.
Aliás, não fique com fome após as 23h em Porto Alegre. Você morre – ou terá de se contentar com o LSD do Listo. Pizzarias, restaurantes, filés, x-búrgueres? esqueça, eles não querem ganhar dinheiro. Alguns têm requintes de crueldade: "Após as 23h, só sexta e sábado". Creia, reze e espere. Quer comer? Morra. Nada funciona em Porto Alegre após as 23h, a cidade dos mortos.
