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  • Aviso

    Caríssimos, o Bovinenses está sendo repensado.
    Enquanto isso, prosseguimos em atividade intensa no Twitter, via @bovinenses.
    Novidades em breve
    .

  • A different kind of truth

    Eu avisei. Mudanças estavam por vir, já a galope. Pois foi tudo muito rápido, como acontece em catástrofes e eventos que te pegam com as calças na mão. De janeiro a março, em dois meses, tudo o que existia em minha vida terminou, perdeu-se. Ou ficou a distância indeterminada, impalpável, obscurecido, como um desenho oculto na parede atrás da grossa camada de pintura nova: aparece sob determinado ângulo e desaparece se a atenção se distrai.

    O eixo está de cabeça para baixo e tudo, absolutamente tudo pode acontecer de agora em diante. Essa dimensão de probabilidade assusta pela falta de chão, mas é excitante pelas surpresas que guarda.

    Há uma certeza: nada será como antes. Pode parecer terrível a quem tem uma vida toda estruturada. Aqui, dentro do caos em vórtice que me circunda, é uma perspectiva interessante, até promissora.

    Minha dedicação ao trabalho foi total. Passei quase um ano sem ver pessoas. Estive doente, entrevada. Me separei. Mudei de casa. Ainda tento me acostumar com a ausência de meu gato. Fui destituída de meu cargo em pleno deadline. Não chorei em nenhum momento: as fichas ainda estão caindo.

    A urgência do dinheiro terá de esperar, mesmo que isso implique trocar o espumante do Sheraton pela Polar no Pingüim (não, não, não).

    De diva decadente à mendicância basta um passo. Não identifiquei medo diante dessa possibilidade. A mente está desperta e aberta - mas não alerta, já que isso implica estar ocupada (tu-tu-tu-tu). Estou jogando a escada fora após subir por ela.

    Não respondo pelo que virá, pois não faço a menor ideia do que me espera ali na esquina.

    Tudo o mais está em loading ou em repeat, como A Different Kind of Truth (2012), o último disco do Van Halen, com David Lee Roth e Eddie Van Halen, que ouço dias inteiros.

    A mudança se tornou meu norte.
    Por isso, pela primeira vez na história do Bovinenses (talvez um dos poucos blogs only text do Universo) coloco um vídeo embedado. Veja, e saberá o que sinto quando ouço isso. Se não funcionar, já que o sistema dos salsichas é repleto de fehler, clique aqui.




    Daí que decidi três coisas.
    1) Dar uma aliviada na cabeça e viajar.
    2) Publicar Fiorde infinito - Uma Noite com a Musa do Marlborão, o livro que está dormindo na gaveta desde 2004. (Incrível como aquele enredo ficou atual. Parece cortado a centímetro para o contexto de agora, juro.)
    3) Deixar mais um post band-aid no Bovinenses, para não perder o blog.
    Isso não quer dizer que eu vá insistir em mantê-lo: não fiz backups, e não farei neste momento.

    É possível que também edite as poesias do CORVO (publicação irregular de aipins)* da mesma forma que o livro.

    Quero encerrar esse capítulos para começar novas obras.

    A lei que apita ali na curva agora é ganhar tempo para pensar, repensar a direção.

    Por enquanto, a direção aponta para o aeroporto.

    O mundo é independente de minha vontade. Que o Sol nascerá amanhã é apenas uma hipótese na qual todos cremos como se fosse certa.**

    Relinchos. ;-)

    * O CORVO é uma revista de short poetry criada no Facebook em 2008, e que vai migrar para outra mídia porque o Mark Zuckenberg me cansou. Os aipins são eslovos que nascem de vez em quando meio tortos e sujos, tipo a cara de uma mandioca.
    ** Opa! Respingos ranhentos de Wittgenstein
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  • Voltaremos!

    O Bovinenses está em férias até ordem em contrário.

    Muitas coisas mudaram em minha vida em 2011. Projetos bacanas tiveram de ser adiados, um emprego desafiador surgiu, a realidade diária ficou mais apertada; estou aprendendo diversas coisas novas, entrei em uma rotina de exercícios, etc. Também houve sustos na saúde da minha família. E agora, por isso e por outros motivos, a própria família está em uma fase esquisita, cujo rumo aponta para a implosão da parceria e a partida para caminhos diferentes.

    De maneira que resolvi colocar aqui esse post band-aid, porque os salsichas enviaram mensagem de saudades. E isso quer dizer, na cultura alemã, que tá na hora de movimentar, mexer, escrever ao menos uma frase, ou perco o espaço.

    Talvez seja hora de repensar a razão de ser do Bovinenses.
    Há prioridades reais e mudanças a serem decididas nos próximos meses.

    Começamos 2012, portanto, com a promessa de modificações na estrutura da própria vida, o que já me parece melhor do que o caos que foi no ano passado a área pessoal. É preciso cortar determinadas relações para que haja crescimento e chance para que cada um encontre novamente seu ritmo e tranquilidade.

    Este será um ano de trabalho e construção. E de disciplina, para arrancar mais tempo na correria para escrever, seja aqui, no ZuKino, no CORVO (minha horta de aipins literários), e até quem sabe publicar finalmente aquele romance. Ser produtivo requer disciplina.

    Por enquanto, apertamos o pause para reflexão e organização.

    O mundo não vai acabar. Voltamos em breve.

    Bis bald!

  • Post-it eqüino contra 2011

    Estamos em fase de vida complicada. Daquelas de dar nó nas guampas. Conto tudo depois, quando a poeira baixar.

    As complicações vão desde a saúde ao casamento, por isso peço a paciência dos queridos ruminantes que aparecem já raramente neste espaço verde.

    Enquanto a tarja tá preta, deixo aqui uma frase - só para que os salsichas não achem que morri e me tirem o blog.

    "Cornografia, a arte de escrever utilizando determinadas aspas."

    Nem vi 2011, mas deixo a ele meu adews antecipado. Que o diabo o carregue.

    Relinchos.

    Ops.: O Bovinenses não observa as normas do Nôvo Acôrdo Ortográfico da Língua Portuguêsa nem do VoLP.

  • Cagada viral

    "Foi mal, aí, ipanêmicos". Assim começa a nota oficial sobre que diabos acontecia na Ipanema FM 94.9, expedida no final da tarde desta segunda-feira. No texto, um gênio infelizmente ainda anônimo, tenta minimizar uma ação que a meu ver foi maior que um tiro no pé: é o paradigma de uma ação malfeita, seja ela da alçada da publicidade ou de algum inservível de alto cargo da sede da empresa, lá em São Paulo. O argumento da nota é de que que foi uma 'pegadinha' com os ouvintes. Se colou, não sei, a História sempre vence e eu tenho fontes que podem revelar alguma coisa  embora, em uma empresa de comunicação, nem sempre se saiba de onde a bala saiu ou porquê.

    E, se foi 'pegadinha', foi mal mesmo. Não foi buzz. Foi abuso geral. Brincou com a seriedade de seus comunicadores, alguns dos quais perderam completamente as estribeiras. Essa gente, cuja maioria eu conheço, não é da arte dramática. As lágrimas e as bebedeiras do fim de semana, para afogar a incredulidade, não eram pegadinha.

    Há muito tempo o Grupo Bandeirantes deseja dar um fim à Ipanema FM 94.9.

    Na última sexta-feira, 12, o golpe  - administrativo ou publicitário, não importa - foi executado. A rádio, que completaria 28 anos em outubro, morria aos 27, como vários nomes do rock - gênero ao qual se dedicou desde 1986. Houve quem dissesse que era uma retaliação contra a veiculação de Gangue da Matriz, de Tonho Crocco: a repercussão negativa na web de um processo contra ele, instaurado pela insatisfação de um deputado, teria motivado a 'revolução' na programação. Nesta segunda-feira, 15, ao longo do dia, alguns insistentes ouvintes foram alvo do que, segundo a nota, era uma chacota em ode à 'liberdade'. Pérolas da axé music e afins foram lançadas do Morro Santo Antônio. Se era uma piadinha, por que um apresentador foi retirado por seguranças do prédio, no sábado? Será que a violência era também uma pegadinha? E isso aqui, é o quê? Porque eu perdi a noção.

    A até então chamada 'Ovelha Negra' possuía uma longa história; antigamente também conhecida como a 'rádio dos loucos', a Ipanema FM 94.9 criou e educou musicalmente gerações de ouvintes. Com um perfil inovador, rebelde e irônico, também abriu espaço a diversos estilos musicais, do cool jazz ao eletrônico. Foi uma das primeiras rádios do Brasil a ter transmissão integral via streaming. Sempre levou muito a sério seus ouvintes, afinal, um dos mandamentos da comunicação radiofônica é a credibilidade. Ironia não é sinônimo de inconsequência.

    A turma que por lá trabalhou ao longo desses anos é um time de cabeças criativas e antenadas. A nuvem ameaçadora pairava há muito tempo sobre a 94.9 - talvez desde sempre. Mas a vontade das pessoas que faziam a rádio era forte e até então havia conseguido evitar o pior.

    O Grupo Bandeirantes cometeu, seja por si ou através de algum asno da publicidade, um deslize, e da pior forma possível. Se você quer fazer uma alteração radical em um veículo de comunicação, a regra número um é fazer isso aos poucos. Qualquer estudante de Comunicação sabe disso.

    Contudo, parece que alguém teve uma idéia brilhante para o que caracterizam genericamente de público jovem. O diretor-geral da regional estava tomando chá, nesta segunda-feira, em uma reunião com a cúpula executiva. Será que ele estava de pegadinha? E estas afirmações aqui? Devem ser uns mal-informados. O pessoal que papagueia release é que tá correto.

    Não é de hoje. Seduzir esse tal público jovem é uma ambição histórica da empresa, cujas raízes estão fincadas em São Paulo e ignora o que acontece aqui no Pasto. O nicho almejado é formado por um espectro imaginário gasoso, ninguém sabe ao certo o que o público jovem é, nem do que realmente gosta de fato. Dependendo do executivo, ele pode achar que os jovens de 10 a 18 anos adoram qualquer tipo de lixo de gravadora. E as gravadoras não andam bem das pernas, você sabe. Talvez algumas empresas de comunicação estejam perdidas, apalpando a realidade, crendo em gurus com MBA em mídias antissociais, fazendo qualquer coisa para conseguir chamar a atenção de anunciantes.

    Executivos do marketing são uma gente mesquinha e medíocre, e com esse pensamento dominam o mundo - pois investem-se rios de dinheiro em publicidade de alguma onda de estrume qualquer que, de tanto se insistir em cima, no mesmo hit, as pessoas passam a achar normal. E você, caro ruminante, sabe que quanto menos estímulos, mais insensíveis nos tornamos. A mediocrização torna as pessoas estúpidas não porque a porcaria vendida tenha potencial para contaminar cérebros. Nada disso. As pessoas se tornam energúmenas e quadrúpedes porque conhecem poucas coisas, poucos lugares, poucas culturas. O que você viu na Ipanema FM não é pegadinha: é a prova da midiocrização.

    Mas os executivos precisam manter seus empregos e seus altos salários, e para isso precisam inventar moda, criar necessidades, gerar demandas inexistentes, seja na publicidade ou na área de gestão administrativa. Então, algum ensebado que tem uma cadeira de couro em uma sala refrigerada, seja em uma agência famosa ou na sede da rede, lá em São Paulo, esse gênio resolveu mostrar trabalho, cavar, de alguma forma, uma maneirinha aparentemente ousada para ganhar uns centavos a mais e fazer bonito na reunião mensal da equipe ilustrada a Power Point. E então essa pessoa, pressionada por algum gerente que só ouve a voz dos números, decidiu que é hora de a audiência da Ipanema FM aumentar a qualquer custo. Nem que isso signifique ofender sua fiel e antiga audiência e submeter uma equipe de profissionais ao estresse e à tristeza. Nem que para isso seja preciso falar de cocô ao vivo, como aconteceu neste sábado, dia 13, às 16h, no Programa QUEAD, de um mau gosto e nojeira abissais. Mas talvez seja esse o objetivo: veicular merda para ganhar audiência. Não é genial? Vivemos tempos estranhos, mesmo.

    Como eu disse, e reafirmo, mudar a programação da Ipanema FM é idéia antiga.

    Trabalhei na Band AM 640 ao longo de um ano, entre 1996 e 1997, como repórter.
    Foi uma época de ouro nesta emissora hoje agonizante; para mim, foi uma oportunidade fantástica de aprendizado. A Band AM 640 fica no mesmo prédio da TV Bandeirantes, da Band FM (transformada pouco depois em um playlist automático) e da Ipanema FM, no Morro Santo Antônio, e a empresa não se chamava 'Bandeirantes', mas Rádio e TV Portovisão. As redações das rádios  ficavam em aquários praticamente diante uma da outra. Entre elas, o corredor. Na época, ouviam-se ecos na 'rádio corredor' de que havia necessidade de se exterminar com a Ipanema FM, pois 'não dava lucro'. Houve alvoroço interno, e o pessoal se puxou. Lembro de ver as estatísticas de vendas de anúncios em um painel: pela primeira vez, um veículo da Band RS dava 'lucro'. Esse veículo era a Ipanema FM. Conseguiram provar aos executivos de São Paulo que a rádio valia a pena.

    Desde então, houve uma explosão de crescimento no número de ouvintes e no sucesso da Ipanema FM. Não tenho o menor conhecimento sobre números de audiência da rádio, e seu destino me importa tanto quanto a cotação do adubo. Mas se houvesse cérebro no lugar da ervilha existente na cabeça deste executivo, esse gênio criativo, ele saberia que o mercado de rádio gaúcho é dominado por um conglomerado maior do que a Band, que tem outro perfil. Além disso, saberia que a Ipanema FM cresceu justamente porque havia uma parcela significativa de público órfã, cujo único refúgio eram LPs, fitas K-7 e Walkmans. Foi esse público carente de rock de qualidade que a 94.9 conquistou, e o fez com elegância e inteligência. Acima de tudo, a Ipanema FM ganhou seus ouvintes pelo ouvido. Nesta segunda-feira, houve quem cogitasse, na concorrência, sobre as possibilidades de se aproveitar esse nicho de abandonados e fazer uma nova Ipanema FM.

    Saí da Band AM 640 em uma emissão de gases semelhante à esta. Era 1º de abril de 1997. Era difícil de acreditar. Mas não era pegadinha. Em um papelzinho, estavam escritos os nomes de não 10, como está registrado por aí, mas perto de duas dezenas de jornalistas, entre chefes, supervisores, produtores e repórteres. O critério utilizado foi: quem é solteiro está demitido. Foi o que me disseram. As coisas são assim, de repente. As explicações para as coisas não seguem linhas de inteligência, são burocráticas e obedecem ordens espirituais de flutuações de mercados. E aquela rádio dinâmica, com um time incrível, tornou-se insignificante até mesmo na transmissão de futebol. Parte de seu cast integra hoje a concorrência, e dá show de bola. Em seguida, aconteceu uma 'fumaceira' na Ipanema FM.

    Mas agora está tudo esclarecido por meio desta nota não-assinada. Não é? reflita. Se realmente fosse um golpe de marketing fabuloso, por que razão 1) diriam que 'foi mal', e 2) acima de tudo, por que esse gênio criativo não aparece? Eu digo por que.

    Não houve coragem de assumir o processo de 'reestruturação' até o fim. Alguém ponderou que o estrago no branding já estava grande e que o cofrinho estava aparecendo. O 'sucesso' desta empreitada foi tamanho que a retratação aos ouvintes foi publicada também no site da Band.

    Para mim, essa pegadinha tem outro nome.
    Foi a maior cagada da história do rádio no Rio Grande do Sul.

    Leia aqui a nota da Ipanema FM. Ou seria do Uol?

    Nota 1: Esse post foi escrito no sábado, 13, e antes de terminá-lo meu marido sofreu um ataque cardíaco. Isso não é pegadinha. O update, feito nesta segunda-feira, ficou cheio de remela por conta do episódio. O texto saiu que nem boi de corno virado, e assim ficará.

    Nota 2. Leia mais sobre a história da Band AM 640 kHz e a demissão de Kátia Suman da Ipanema FM neste livro do Luiz Ferraretto.

  • Horizonte de eventos: princípio de exclusão

    Estamos trabalhando duro para melhor entendê-los.
    Falarei sobretudo sobre tudo. Juro. Em breve neste espaço verde.
    Muitas mudanças em andamento, ao mesmo tempo.
    Grata pela compreensão momentânea, deixo-vos com um texto inédito e nubente de transformações.
    Não que venha ao propósito do Bovinenses, ou tenha serventia de entretenimento.
    É um suspiro
    apenas.


    Como matar um Golem

    Chega o tempo em que, embora a dor seja a mesma, chorar torna-se um desperdício; De tempo para se reconstruir; De lágrimas que poderiam ser empregadas para alegrias; Uma despesa de forças para alcançar a trégua, mesmo que isso seja uma ausência, um nada. E você constata um padrão, uma série de eventos repisados e reincidentes, e que graças a esta rotina então a dor permanece lá, em seu ninho, como uma hóspede já conhecida, que tem seu quarto e suas cobertas; E suas glândulas tornaram-se viciadas, as lágrimas são abstratas ou o corpo já está tão macerado que não reage mais; Nos olhos, o desespero prossegue buscando uma solução, uma saída para que tudo isso pare, um remédio decisivo que acalme a vontade de arrancar a pele do rosto com as unhas, perfurar o tórax, arrancar à força o coração e atirá-lo pela janela, antes que ele mesmo se suicide num enfarto. O tremor das mãos denuncia sua angústia, e elas pegam xícaras e cigarros como se denotassem Parkinson. Quase todas as vontades desaparecem ― sobra apenas aquela que diz para você correr para bem longe de onde está, deixando para trás esse lodo fatal, onde busca algo em que se agarrar e acha não mais que fantasmas de raízes estéreis desde o pretérito; Evadir-se, mandar-se à merda, para bem longe, é uma idéia que lhe puxa como um ímã, magnetica e constantemente. Você tem diarréia, você chora insone até salivar porque precisa lutar por sua vida, para que essa sua vida não queira também lhe abandonar, como você quer abandonar a situação.

    Chega o tempo em que mesmo os bons momentos são prelúdios do mal, então até deles é preciso escapar, evitá-los como um inseto de patas pegajosas e corpo mole; E talvez esta seja a maior dor, porque o seu amor não muda, mas você precisa ignorá-lo, ou tudo volta a um início eterno, e tudo se repete, e você pode até achar que está sonhando, porque a realidade aparece como irreal, um exagero, um peso que a um corpo pequeno é impossível encarar; E você sabe que se não arranjar uma saída, uma solução, mesmo que temporária, sucumbirá; E aí você estará marcado para morrer antes da hora por causa dessa degeneração, hipnótica como um vício, porque acreditou que isso bastava para que as pessoas fossem, ora, felizes; E hoje o espelho devolve-lhe uns olhos que não parecem mais seus, e eles também lhe indagam e devolvem o olhar de perplexidade, de aflição; E você tenta entender como surgiram em cada lado do rosto ravinas escuras, da pálpebra em direção à boca, e se pergunta como foi tão parvo a ponto de se meter mais uma vez com esse Golem, e nada faz sentido; E você sabe, com toda a força da ciência que possui em si mesmo, que para parar isso não existem remédios nem fugas: é preciso apagar do Golem uma parte dele mesmo para que morra ― Você sabe que é preciso amputar sua perna, se ela estiver gangrenada, para permanecer vivo; decepar-se é a única saída possível.

    Chega o tempo em que é preciso que você faça um sacrifício para ter de volta a si mesmo, mesmo que lhe falte um pedaço; Você precisa fazer essa renúncia para ser novamente um ser humano e ter sua vida de volta. Chega o tempo em que é preciso ter coragem, e para viver é preciso matar, ou você sucumbirá de mãos dadas com o Golem. Após esse procedimento, doloroso mas necessário, ainda sangrando, você conseguirá abrir um sorriso débil, febril, mas ainda um movimento vivo, e concluirá: quem inventou o Golem foi você.

    Ariela Boaventura, set2010.

    * O Bovinenses não obedece às regras do Nôvo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

  • Cinzeiro

    Este é o texto que o escritor, poeta e mestre Marcelo Noah* apresentou no Primeiro Popular Porto Alegre de Ruído & Literatura Vol. 3, no qual eu também li um eslovo delirante. Naquela época (2008), platéia ainda tinha acento − atualmente, até diarréia perdeu o agudo. O Rio Grande do Sul vivia então um ápice de trevas absolutas, em que a política, eivada de escândalos, abria uma fenda sináptica no entendimento e a realidade estava, como ainda está, virada ao seu avesso. Como hoje tal contexto é contingência nacional na figura de fatos cabulosos, o prezado ruminante constatará que os dados do texto são ingredientes que prosseguem integrados ao caldo podre da realidade brasileira. É possível que alguns percentuais estejam mais altos. Os atos, também é preciso reconhecer, são ainda mais audaciosos na esfera federal e escarnecem da boa-fé do cidadão.

    A apresentação deste texto foi mais que um fato estético. Foi muito além da performance, pois o autor estava possuído e quem o escutava, em catarse. Suas palavras eram petardos que, emitidos, comoveram quem teve o privilégio de assistir esse exorcismo.

    Assim, como hoje é meu aniversário, resolvi oferecer esta leitura como presente aos meus raros, mas fiéis, bovinenses.

    Desfrutem e digiram esta emulsão explosiva, enquanto uma nuvem de cinzas vulcânicas cobre o Rio Grande do Sul e uma neve de chumbo cai sobre nossas cabeças.



    O POPULAR

    Por Marcelo Noah

    SEIS BILHÕES/OITOCENTOS E VINTE E TRÊS MILHÕES/ SETECENTOS E DOZE MIL/ CENTO E NOVE [...] pessoas.

    8,6 bebês nascem a cada segundo no planeta, são 516 nascimentos por minuto.

    No Brasil nasce 1 bebê a cada 12 segundos e, mesmo que meus cálculos não estejam assim tão corretos, nesse exato momento somos perfeitamente CENTO E NOVENTA E DOIS MILHÕES/ NOVECENTOS E SETENTA E CINCO MIL/ SEISCENTOS E SETENTA E DUAS pessoas.

    E segundo dados do IBGE, a média de cesáreas no brasil é de 46,6%; mais que o dobro da porcentagem recomendada pela Organização Mundial da Saúde, que considera aceitável um índice de no máximo 15% de cesáreas entre as parturientes.

    Mas nada de entrar em pânico, pois ao menos em São Paulo a fecundidade anda diminuindo: em 2008, a média de filhos foi de 1,7 por mulher. É a metade da taxa registrada em 1980.

    E mais! UMA em cada 7 brasileiras de até 40 anos já fez aborto, o que dá um número aproximado de 5 milhões de mulheres.

    No Brasil, homens duram 7,6 anos menos que as mulheres.

    Já um levantamento recente do Incra revela que o órgão ignora o que se passa em 5 milhões de km² da Amazônia Legal, que compreende 59% do território nacional.

    E a soma total da riqueza dos milionários no mundo chegou a US$ 40,7 trilhões, o que representa 75% do PIB mundial no ano passado. E o número de milionários NO BRASIL não pára de crescer: são CENTO E NOVENTA MIL milionários, 46,1% a mais que no ano passado. Já na lista de BILIONÁRIOS deste ano da revista "Forbes", o Brasil tem 18 ilustres representantes, sendo que o mais rico é o empresário Eike Batista, que aparece na OITAVA colocação geral com seus modestos 27 bilhões... de dóoolares.

    Mas a grana não pára por aí, e tudo indica que o Brasil é mesmo um país pro futuro. Segundo um levantamento da Barclays Wealth e da Economist Intelligence Unit, estima-se que em 2017 o Brasil terá 675 mil domicílios com fortuna de pelo menos US$ 1 milhão e será o país emergente com o maior número de milionários.

    Enquanto isso, do lado de cá da realidade, a taxa de desemprego ficou em 7,4% no primeiro trimestre de 2010, mas o Sistema de Informações de Crédito do BC divulgou que o universo de brasileiros com alguma dívida, mesmo que pequena, é de 80 milhões. Mas ao contrário do que pode parecer, 95% são adimplentes, ou seja, pagam em dia as suas obrigações.

    Já uma pessoa que, em 1994, comprava uma calça por R$ 100, hoje teria que gastar R$ 150. Mas, se em vez de comprar a calça em 1994, o consumidor colocasse os R$ 100 numa aplicação que corrigisse o valor da inflação do período, em 2009 ele teria R$ 311,12. Em outras palavras, o dinheiro que comprava 1 calça há 16 anos, hoje compraria 2. E ainda sobraria um troco pro xis com ovo e pepsi-cola.

    E a milhagem não pára, mais de 208 milhões de pessoas no mundo usaram drogas ilícitas pelo menos uma vez nos últimos 12 meses, é o que afirma o Relatório Mundial sobre Drogas da ONU. A maconha é a droga mais consumida: 166 milhões de pessoas usaram em 2006.

    E segundo dados da PF, um grama de cocaína vale R$ 6 no atacado e R$ 25 no varejo, gerando um lucro de 300%.

    Agora um recado pra quem acha o Paulo Coelho uma droga: em maio de 2008 os originais de um romance do Paulo foram arrematados por 243 MIL EUROS (cerca de R$ 617.000) num leilão beneficente promovido pela atriz Sharon Stone, em Cannes. O livro, que atende pelo título "O Vencedor Está Só", é considerado a obra mais longa do autor, com 100.000 palavras - contra as 76.000 de "O Zahir".

    Os evangélicos já são 25% dos brasileiros, sendo 19% seguidores de denominações pentecostais, O crescimento do rebanho acompanha a redução do percentual de católicos, que hoje são 61%.

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a registar 76% de aprovação para o seu governo, um recorde desde que assumiu, em janeiro de 2003. Lula é o presidente mais bem avaliado desde o fim da ditadura. Fernando Collor (1990-1992) teve máxima de 36%. Fernando Henrique Cardoso (1995-2001) chegou a 47%.

    Estados desembolsam R$ 1,69 bi em propaganda. O governo tucano do Estado de São Paulo foi o que mais gastou com propaganda e publicidade no país -quase um quinto de R$ 1,69 bilhão que as administrações estaduais desembolsaram na véspera do ano eleitoral.
    Sozinho, o governo federal teve gastos publicitários de R$ 1,119 bilhão em 2009.

    O gasto dos gaúchos com propaganda para divulgação da governadora Yeda Crusius foi de R$ 18,98 por habitante.

    De acordo com levantamento realizado pela ONG Contas Abertas, o chamado horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão custará R$ 856.359.976,86 aos cofres públicos - dinheiro suficiente para custear um ano de estudo para 635 mil alunos, um contingente de estudantes de rede pública de uma grande capital.

    39 pessoas já ocuparam a Presidência do Brasil, o sucessor de Lula será, portanto, o 40º presidente.

    O texto aprovado essa semana pela Câmara do projeto Ficha Limpa atinge só 1 político dos 70 deputados federais e 3 senadores paulistas, além dos 37 líderes partidários do Congresso. De acordo com o site da Transparência Brasil, apenas Paulo Maluf se enquadra no projeto.

    No 1º dia no Twitter, Chávez supera 69 mil seguidores

    dilma já está a dois meses no twitter e só hoje chegou nos 66 mil

    Dilma teria direito a 10min29s no horário nobre da TV (em um bloco de 25 minutos), contra 6min46s de Serra. A campanha eleitoral na TV vai durar 45 dias, no primeiro turno.

    Das 512 prefeitas Brasil adentro, 51,2% comandam cidades nordestinas.

    De acordo com números divulgados pela Anatel referentes a abril, o Brasil tem 180,8 milhões de celulares. A cada grupo de 100 habitantes, existem 93,8 celulares. Desse total, 82,36% são pré-pagos e 17,64%, pós-pagos. A Vivo tem 30,14% de participação e é líder do mercado, seguida por Claro (25,47%), TIM (24,72%) e Oi (20,3%).

    A telefonia móvel também teve um aumento em acessos, e deve chegar a 5 bilhões de assinantes apenas neste ano.

    A internet chega a 26% da população mundial, ou melhor, 1bilhão e 700milhões de usuários.

    1,4 bilhão de domicílios possuem aparelho de TV -- o que representa uma cobertura equivalente a 5 bilhões de pessoas no mundo, ou uma penetração de 79%. Só na África que a penetração ainda é baixa: apenas 28% das residências possuem TV.

    dados do Ideb divulgados na última segunda-feira mostram que só 2% das escolas de ensino fundamental no país atingiram ou superaram a média 6.

    de janeiro a março de 2008, 41.565.000 brasileiros tiveram acesso à internet.

    Os ganhos da operadora OI subiram de R$ 11 milhões, no primeiro trimestre de 2009, para R$ 496 milhões.

    Apenas 17,5% das escolas brasileiras têm banheiros e dependências acessíveis a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Os dados são do Ministério da Educação.

    o índice de acessibilidade na rede pública é de 14,6%; na particular, é de 29,7%.

    Segundo dados do Departamento da Defesa dos EUA o país possui 5.113 ogivas nucleares ativas. 
    O Brasil está terminando de colher uma safra de soja de 67,4 milhões de toneladas.

    O peso médio dos 23 jogadores convocados por Dunga é de 76 kg. Quanto à altura, o time atual mede em média 1m82cm.

    Uma em cada seis crianças nos EUA é obesa. No Brasil, 9% das crianças e adolescentes são obesas.

    Ao menos 22.700 pessoas aguardam hoje na fila por um transplante de córnea, sendo que a média de espera é de TRÊS anos.

    a AmBev gasta 4,37 litros de água para produzir cada litro de cerveja. O brasileiro bebe 9 bilhões de litros de cerveja por ano.

    o Rogério Skylab meteu 19 vezes as expressões "vagabundo" e "filho da puta" no Hino Nacional e não foi processado sequer uma única vez pela façanha.

    207 dos 3.000 escaladores que já subiram os 8.848 metros do Monte Everest morreram durante o trajeto.

    44 MILHÕES (44.000.000!!!) foram os REAIS roubados DO POVO GAÚCHO com a conivência de uma mulher que - ainda hoje - segue à frente do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Faltam 128 dias para a próxima eleição.


    * Além ser possuído pela faculdade cada vez mais rara de cultivar o pensar, Marcelo Noah apresenta o programa Teorema na Ipanema FM 94.9 MHz todos os Domingos e alimenta o espaço literário Contém Glúten com proteínas poéticas em transe. Ele também domina de jeito um bambolê.

  • SIZA versus PISA

    ATENÇÃO: Se você é engenheiro ou querelante, veja a descrição do PISA antes de ler este texto aqui.


    "Um muro se ergue à minha frente, na curva do caminho..."
    (Pierre Teilhard de Chardin)

    "A violência que se desencadeou alhures aproxima-se sem que eu a veja. Ela se oculta atrás dos muros, como fazem os salteadores" (Iberê Camargo)


    RESUMO:

    Porto Alegre terá a melhor rede de tratamento de esgotos do universo. É um projeto amplo, com nome e sobrenome. Atende por Projeto Integrado Socioambiental (PISA) e construirá o Emissário Subaquático, no Estaleiro Só, e a Estação de Bombeamento de Esgotos do Cristal. O projeto tem três frentes de ação:1

    (1) melhoria da qualidade da água do Guaíba;
    (2) desenvolvimento urbano e drenagem e programa de geração de renda;
    (3) gestão ambiental.

    "O projeto é coordenado pela Secretaria Municipal de Gestão e Acompanhamento Estratégico e executado pelo DMAE, com a co-execução de outras secretarias e departamentos do município" (Correio do Povo, Geral, 20/06/2010).

    Fôlego. Respire.

    Urge destacar quatro (4) pontos exalados deste projeto.

    (a) De acordo com o jornal Zero Hora (30/12/2009), o Projeto Integrado Socioambiental (PISA) foi alvo de inquérito pela Polícia Federal.
    (b) De acordo com o jornal Zero Hora (Geral, 27/05/2011), as tubulações preciosas do Emissário Subaquático forçam a construção de um muro em frente à Fundação Iberê Camargo.
    (c) Na tarde de 20 de maio de 2011, o prefeito de Porto Alegre José Fortunati e a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, visitaram obras do Projeto Integrado Socioambiental (PISA).
    (d) O Consórcio GEL/Infracon/Bronstrup, constituído pelas empresas Goetze Lobato Engenharia Ltda., Infracon Engenharia e Comércio Ltda. e Bronstrup Construções Incorporações e Participações Ltda. foi o vencedor da licitação do projeto, com proposta de R$ 102.595.189,43.

    Agora, raro ruminante, acompanhe os desdobramentos de cada ponto:

    (a) A Polícia Federal abriu o inquérito contra o PISA por suspeita de irregularidade em licitações. Está no mesmo texto citado.
    (b) Esse muro já está sendo erguido desde fevereiro de 2011. Ele terá 4m40cm de altura. Deve ficar pronto daqui a pouco mais de 2 meses, em agosto. (Dados: Idem, loc. cit, passim.)
    (c) Na visita, a ministra falou da alegria de conhecer o projeto. As obras do PISA contam com financiamento da Caixa Econômica Federal via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
    (d) Aqui você tem os nomes envolvidos na suspeita de fraude. Não há referência ao consórcio nem às empresas vencedoras. Mas há um nome já citado em outros litígios.

    Ainda em relação a (b), o Departamento de Esgotos Pluviais explica que o muro defronte à Fundação Iberê Camargo vai proteger as tubulações do emissário terrestre. (Fonte: idem, etc.).

    Por fim, alguns números.

    - As obras do PISA custarão um total de R$ 580 milhões. É mais de meio bilhão.
    Deste total:
    - R$ 83 milhões são financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID;
    - R$ 316,2 milhões são financiados pela Caixa Econômica Federal por meio do PAC;
    - R$ 67,1 milhões como contrapartida da Prefeitura de Porto Alegre.

    Detalhes que fogem por um ponto de fuga invisível:

    - A imprensa bovina pastejou e pautou o tema de forma oblíqua e fragmentada: fala de canos na Geral e de obras magníficas de tratamento de esgotos para 2014 no caderno de Esportes. Um texto sóbrio e de poucas linhas, cuja forma tem similar na literatura de releases de assessoria de imprensa de Departamento de Esgotos Pluviais, anuncia na manchete que o muro ficará pronto em agosto - como se o fato fosse favas cantadas, como se todos os bovinenses estivessem já carecas de saber desse muro que está sendo construído em frente ao prédio da Fundação Iberê Camargo, o que leva ao ponto seguinte.

    - O prédio da Fundação Iberê Camargo é uma obra de arte. É projeto do arquiteto português Álvaro Siza. É um referencial arquitetônico não apenas para Porto Alegre como para o Brasil. É um espaço ativo com mostras de arte moderna e contemporânea. Álvaro Siza é um dos cinco arquitetos contemporâneos mais importantes do mundo. O projeto da Fundação Iberê Camargo recebeu o Leão de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza (2002) e é mérito especial da Trienal de Design de Milão. No Brasil, Siza foi agraciado com a Medalha de Ordem ao Mérito Cultural em 2007 e recebeu A RIBA Gold Medal, que é um dos prêmios mais prestigiosos da arquitetura.

    Uma, e apenas uma, observação - que talvez tenha a ver com o item (a) supramencionado: "A vereadora Maria Celeste (PT) solicitou", na tarde de 2/12/2009, "a criação de uma comissão externa para investigar as possíveis irregularidades no PISA, relatadas durante sessão da CPI da Corrupção. Esta comissão teria autorização para acessar no DMAE todos os documentos que envolvem as obras do programa" (Fonte: Jornal do Comércio, 2/12/2009).

    Ok, só mais uma observação: "O PISA" era "um dos principais programas da gestão José Fogaça" (idem).

    Dúvidas:

    - Como se justifica a interferência perene de encanamentos, obras-de-arte da engenharia, na beleza da obra de arte de Álvaro Siza?
    - Que fim levou a investigação da Polícia Federal?
    - Por que os jornalistas de cultura de Porto Alegre não dão atenção a esta pauta flamejante, fervente, fumegante, quentiíssima?
    - O que aconteceu com a intenção do PT municipal em querelar contra o PISA?

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    "Tem uma chaminé de equilíbrio no meio de tudo isso. Tem, mas eu não vejo. Há dois emissários: um terrestre e um subaquático. Vejo apenas um emissário, e ele me parece extraterrestre" (BOAVENTURA, 2011).

    Em troca da beleza da arte, teremos merda tratada.
    Teremos de abdicar de ângulos de visão que nos porporcionam prazer aos sentidos.
    Teremos de abrir mão da liberdade de olhar para o pôr-do-sol no Guaíba sem entraves.
    Mas pondere.
    Merda pode dar muito dinheiro, depende de como você a encara.
    Perdido o ângulo, a coisa se reconfigura.
    O ponto de vista é crucial para a arte e para beleza.
    A fruição depende dos sentidos humanos.
    Quanto mais aguçados, sensíveis e treinados, melhor apreciamos a arte.
    Quanto menos usarmos e cultivarmos nossos sentidos, menos prestamos atenção à arte.
    Ao perder um pedaço da visão da Fundação Iberê Camargo, por um lado, e pelo outro uma nesga de pôr-do-sol do Guaíba, também empobrecemos mais nossos sentidos.
    Ao empobrecermos, sensivelmente, emburrecemos: embrutecemos.
    Brutalizados, reagimos sem ciência, sem pensar no que queremos receber.
    Recebemos o que merecemos e o que podemos pensar merecer.
    Coliformes fecais, neste caso.

    REFERÊNCIAS

    BOAVENTURA, Ariela et al. 'Siza versus Pisa'. In: Bovinenses, 'os melhores em tudo'.
    DE CHARDIN, Pierre Teilhard. (Citação.) In: CAMARGO, IBERÊ.  Cartão de Natal. Disponível na íntegra no site da Fundação Iberê Camargo.
    CAMARGO, Iberê. Cartão de Natal. In: Gaveta dos Guardados. Edusp (1998).

    NOTAS EXPLICATIVAS

    1 São termos empregados em documento contendo dados do PISA em formato PPS, entregue à Câmara de Vereadores de Porto Alegre em 2009.


    ANEXOS

    I - Há mais detalhes sobre o muro de Iberê aqui, aqui e aqui.

    II - Há uma enquete com opções nonsense sobre o tema deste post aqui.

    III - Há fogo-amigo nos canos e tubulações do PISA aqui.

    IV - Confira o andamento de cada obra do PISA aqui.

    V - Veja como foi a chegada das gigantescas tubulações a Porto Alegre aqui.

    VI - Confira e partilhe também das preocupações da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, com o cumprimento dos prazos das obras de infra-estrutura para a Copa de 2014 aqui.

    VII - Cotação do dólar em 2009: R$ 2,443. É só para ver se você estava concentrado. ;)

    * Bovinenses não observa as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

  • O caso da Formiguinha Gulosa & outras lendas inarráveis do rock gaúcho

    Ser gaúcho e ser nostálgico. O vivente toma a cuia e sorve a erva-mate com os olhos perdidos no horizonte. A milonga é declamada com rugas dramáticas, para enfatizar o sentimento sem dar ar de frescura. Os esses são cortados dos plurais propositadamente, para dar ainda maior ênfase ao idioma do bovinense, essa criatura metade homem, metade cavalo e coração de manteiga domado no relho. A imagem do gaúcho é, assim, conhecida no mundo inteiro: sua terra é a melhor e mais guasca do universo, com histórias de façanhas marcadas na pele do tempo com sangue e coragem, malgrado as dúvidas históricas, o exagero pitoresco e os sorrisos céticos dos estrangeiros. É daqui o chimarrão, o churrasco e o cusco, e ninguém tasca. E é aqui, nessa terra de desembestados, que foi inventado o melhor rock do planeta, misto de tosquera nua, cachaça, jovem guarda e milonga. É o melhor rock das realidades existentes ou imaginadas porque, ora bolas, é daqui. Dizem que gaúcho roqueiro toca só com dois dedos e três acordes, enquanto prepara a erva com a outra mão, assoviando em uma perna só.

    E é para celebrar a memória do rock gaúcho que você vai ler aqui no Bovinenses três episódios não-oficiais que integram e deliciam o imaginário de todo aquele que esfregou a bunda na calçada da Osvaldo Aranha e estragou o fígado com Polar quente na Lancheria do Parque. São dois os impávidos protagonistas, eles mesmos lendários em si. Vou narrar com todas as nuances duvidosas e falhas da minha memória. Processos por danos morais por conteúdo publicado aqui não terão bens a confiscar.

    Verão, loucos anos 90. Porto Alegre arde a sua criatividade. Bares e bandas se multiplicam de forma bacteriana. É nessa caldeira de idéias que gente inesquecível como Edu K, Frank Jorge, Nei Lisboa, Júpiter Maçã, Plato Divorak & milhares de bandas desenvolvem e elevam sua arte a um nível jamais vislumbrado nem pelo filósofo Humberto Gessinger.  A música lisérgica de bandas como Laranja Freak incensam momentos inesquecíveis. E é nessa nuvem de elementos tóxicos porém ainda liberados que Plato Divorak protagoniza um momento de alucinose jamais visto. Não se sabe como ele desenvolveu tal ideia. Sabe-se apenas o que testemunhas narram. Beirava o meio-dia. Nas proximidades da rua João Abbott, ou, mais exatamente, próximo à Eça de queiroz, havia uma padaria e confeitaria chamada Formiguinha Gulosa sobre cuja calçada era exibido, para atrair as crianças, um dispositivo do tamanho e do formato de uma enorme bola de praia, transparente e repleto de chicletes e balas coloridos. De repente, num átimo, surge correndo nas proximidades um rapaz de longos cabelos castanhos cacheados. Era Plato Divorak que saíra de casa em estado mescalino e agora voava Preotásio Alves abaixo, em direção à Formiguinha Gulosa. Então, ele pára, e decididamente arranca a enorme bola de balas e sai correndo novamente. O ato foi tão absurdo que o dono, mesmo vendo o que estava prestes a acontecer, ficara de boca aberta e só acordou quando Plato Divorak já dobrara a esquina e voltava para casa. O dono da confeitaria chamou a polícia, que, após custar a crer no que o comerciante relatava, saiu meio que de má vontade atrás desse indômito adorador de balas, sem contudo obter sucesso na busca.

    Porto Alegre, anos 80. Não existem ainda amplificadores nem estúdios de ensaio.  O Domingo ensolarado é de um arreganho que é flor e flor.  Gordo F., um jornalista famoso no underground do rock porto-alegrense, não por apenas publicar o jornal voltado ao tema quanto por fornecer alegria infinita a estrelas de todos os escalões, está relaxando dentro de seu carro, estacionado no meio-fio que circunda a Praça da Encol, bairro Bela Vista. Ele vai a um casamento, o que explica seu aspecto black-tie não-usual: está de terno, gravata, sapato social; penteou o cabelão ensebado, está de barba feita e até mesmo de banho tomado. Parece mais alegre que guaipeca recebendo o dono na porteira. No porta-luvas do seu Fusca, há um tijolinho de alegria, empacotado em papel alumínio à causa de ganha-pão. Por uma infeliz piada do destino, a Polícia Civil resolveu fazer um rolê pela praça. A viatura passa devagarinho pelo nosso herói e pára ao lado do Fusca. Os policiais fazem sinais esquisitos, mas o Gordo resolve dar uma de esperto e finge que não entende. Por precaução, esconde o dedinho de erva fumegante todo dentro da boca. Mas o cheiro inconfundível de muamba teima em permanecer no ar. Os policiais estão bem-dispostos e folgados. Eles apeiam do veículo e vêm ter com o Gordo, que começa a demonstrar seu desespero também por meio da pele, suando frio por antecipação glandular; o coração coiceia e tenta a saída pela boca; a voz o abandona. Engole o pedacito fumegante enquanto espera, sem conseguir responder às questões embaraçosas, por causa do cheiro na boca; espera que revistem o carro enquanto gagueja uma desculpa vaga sobre o casório ao qual se dirigiria logo depois. Os brigadianos encontram o pacote no porta-luvas e olham para o Gordo, como quem pega a criança com a mão no doce. Lágrimas escorrem pelos olhinhos oleosos do Gordo. Mas os guardas estão com senso de humor, e já têm a pena decretada. Admiram a beca e a preza do Gordo com aqueles trajes de Domingo, sapatos listrados e cabelo engomado. Então, eles lhe dizem para tirar as calças. É de cuecas que ele recebe sua sentença. Os policiais mandam o Gordo sair do carro e correr em volta da Praça da Encol. "Corre, gordo!", eles gritam. E ficam ali, encostados no fusca, às gargalhadas, enquanto vêem ao longe o Gordo de fraque e cuecas largando fora, sem olhar para trás. De vez em quando, eles recuperam o fôlego e gritam: "Corre, Gordo!".

    Pouco antes, ou pouco depois, desse episódio da Praça da Encol, o Gordo foi protagonista de um filme deveras bizarro. É claro que ninguém, naquela época, estava em um estado normal de consciência, e era comum cometer-se desatinos por um pacote de salgadinhos ou balas da mesma forma como se faria por uma garrafa de Jack Daniels ou certas substâncias até hoje inenarráveis. O filme, um curta-metragem de uns 10 minutos, foi feito em VHS em plano-sequência por um baterista, hoje aposentado, em estado alterado. É uma obra-prima expressionista repleta de suspense e com um desfecho arrasador. Será imperativo cometer aqui um spoiler, uma vez que a fita se encontra em lugar incerto e não-sabido. Play. Abaixo do comando REC, vê-se em princípio somente trevas. É preciso acostumar seus olhos, ou olhar, é preciso que use toda a sua sensibilidade cinematográfica. Em um quarto escuro e repleto de restos de comida e garrafas de cerveja, vê-se em primeiro plano um colchão encardido, fininho, com um cobertor cinza-rato por cima, o qual parece esconder alguma coisa debaixo. Tudo está quieto, neste momento. A câmera oscilante aproxima-se um pouco mais do colchão, onde, à distância de um braço, encontra-se um pacote de Ruffles aberto; algumas batatinhas escorregaram para fora e descansam sobre o chão imundo. O sagaz diretor espera, a câmera grava o escuro, o silêncio cortado de vez em quando pelo que parecem ser roncos, mas o olho da câmera não se distrai desse colchão. Então, quando você começa a dar o primeiro bocejo, o colchão se mexe. Quer dizer, aquilo que está sob o cobertor e sobre o colchão, uma montanha de alguma coisa viva se contorce e geme. A câmera treme de emoção e fecha mais sobre esse mesmo ângulo. De soslaio, abre-se uma fenda no canto superior direito do cobertor, e dali espia para fora uma mãozinha gorda, branca e peluda. Frágil e vacilante, ela apalpa o chão, farejando alimento. Encontra o saco de Ruffles, e você até pode notar que ela, de algum modo muito próprio, sorri, ao agarrar algumas batatinhas; daí, num ímpeto, como se temesse ser surpreendida tal presa, foge por entre a fenda do cobertor novamente, onde some. Ali, movimentando-se minimamente, a montanha viva emite um ruído similar a 'crock-cronch-cronch'. A câmera se distancia, como se admirasse aquele ignóbil momento, e antes que possamos morrer de nojo chega o fade out. Fim.

    Caro ruminante, você quer saber mais sobre estas e outras história do rock gaúcho em detalhes incandescentes? Adquira o livro Gauleses irredutíveis, de Alisson Ávila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller, o Cocó (Ed. Sagra-Luzzatto). É pena que esse livro também já esteja se tornando uma lenda, porque foi lançado em 2001 e até hoje não recebeu uma segunda edição e é muito difícil encontrar à venda. (A situação dessa obra me recorda a letra de 'Buraco Tridimensional', de Os Replicantes, cujo refrão diz: "Mudou-se para outra camada/Mudou-se para outra dimensão/Mudou-se para outra realidade/Mudou-se para outro sistema...".) Quer adquirir uma discografia especial das obras-primas do gênero? Clique aqui e baixe uma compilação, dividida em dois volumes (e um terceiro de extras), de arquivos históricos do rock rio-grandense. Clique aqui e para baixar pérolas da discografia do rock made in RS.

  • 'Shoobydahbydoobah - Porto Alegre é meu lar'

    Refletir sobre o aniversário de Porto Alegre, que completou 239 anos no último dia 26, pode parecer tosa de porco: muito barulho e pouca lã. Penso porém que o ruído provocado pela eventual agitação de qualquer fato corrente de Porto Alegre é como saborear lascas de picanha recém-saídas da brasa: há contrações afetivas nas ondas de histeria de tamanho variável que surgem de um mar de absurdos. O novelo cultural torna-lhe uma cidade ainda mais peculiar, onde há tantos escritores, cineastas e bandas de rock por metro quadrado quanto árvores que, em dias ventosos, torram os fios de eletricidade e deixam a capital do Pasto no breu.

    Porto Alegre tem muitos ícones: a Polar quente, o Laçador, o pôr-do-sol do Guaíba, este sendo por sua vez um desafio à hermenêutica ecológica, misto de lago, lodo e enigma; o Monumento ao Expedicionário do Parque 'da Redenção'; a enorme chaminé da Usina do Gasômetro; o Mercado Público; a Feira do Livro; a Ponte Móvel do Guaíba, hoje um tanto paralisada devido a uma artrite em suas junções; a Casa de Cultura Mário Quintana, o próprio Mário Quintana e sua poesia de sapatinho florido, de equação simples como um cacetinho do Zaffari, que é bom porque é nosso. E foi a partir dessa fartura de imagens e excesso de façanhas mal-acabadas que pensei em celebrar em texto o aniversário da cidade por meio de uma música. Primeiro, pensei no óbvio: implicar com a letra de 'Porto Alegre é Demais', de Isabela Fogaça e José Fogaça, Poeta, ex-prefeito e ex-candidato a governo do Rio Grande do Sul. Por quê? Porque é uma delícia a analogia da letra com uma sacanagem do tipo proibida:

    Porto Alegre é que tem
    Um jeito legal
    É lá que as gurias etc... e tal

    Como assim, "as gurias etc. e tal?", o que quer dizer isto? É uma ilação a respeito de alguma ação ímproba das meninas porto-alegrenses, algum costume erótico impublicável? Não sei, mas eu fico com a pulga atrás da orelha. Daí, para tentar a ingenuidade, tem mais essa parte:

    Porto Alegre me dói...

    Onde, querida?

    Não diga a ninguém...

    É um segredo entre nós, claro. Agora, conte-me: o que você anda fazendo que lhe dói e não pode se comentar por aí?

    Porto Alegre me tem...

    Ah, entendi. É uma relação amorosa. Você é casada?

    [...]

    Mas resolvi deixar essa bela canção dos Foçaga em paz e resumir a homenagem por meio de uma obra-prima tradicional, algo vetusto, em riste e, não suficiente, inesquecível como uma cicatriz. Chama-se 'Shoobydahbydoobah, Porto Alegre é Meu Lar'. Note o "bah" sonoro no final deste termo indômito que dá início ao título da música. É uma obra criada pela banda de trash metal Panic, porto-alegrense da gema e da clara, cujos integrantes germinaram sua infância no Bom Fim/Cidade Baixa/Centro/IAPI. O clipe é de 1993, muito moderno, se você levar em consideração que Porto Alegre teve seu primeiro estúdio de som somente nos anos 80, época em que possuir um amplificador seria considerado tão-somente impossível quanto o indivíduo seria suspeito de inssurreição contra o regime militar.

    Devo avisar duas coisas, antes de você ter acesso a este videoclipe.

    1) Ouvir Panic pode causar inflamação de nervos em vizinhos, portanto, tenha cuidado; o áudio está um horror, tenha paciência, observe a data ninguém sonhava com colesterol ou em ouvir música em mp3.

    2) Embora fosse de se imaginar o contrário afinal, o trash metal escandalizaria agora os porto-alegrenses, cuja maioria prefere o sertanojo universitário e outras milongas parasitárias , a banda não acabou completamente, é sucesso ainda hoje na Europa e no Japão e está para lançar, se é que não lançou, um CD do primeiro LP o clássico "Rotten Church" (1987) remasterizado digitalmente, uma bigorna auditiva, um ataque biológico aos nervos.

    Por fim, como eu sou uma mãe para vocês, é possível conferir a generosa ficha técnica com o nome dos artistas e colaboradores, muitos deles hoje grisalhos pais de família ou maestros cujo fino bom-humor subsistiu a Chernobyl. E, por conta dos anais da História, cometi talvez o exagero de copiar os carinhosos agradecimentos do encarte do LP "Best Before End". Nos detalhes, inseridos aqui ipsis verbis, você poderá constatar a invenção da primeira hashtag, ainda analógica: "Nãomexecomaminhaneguinha" (piadas internas, cacofonias bagaceiras, homenagens a groupies e revelações públicas de última hora, entre outras vilanias que agora levariam a tarja de politicamente incorretas, eram muito comuns em encartes de LP's).

    Leia os agradecimentos com bondade. Sua digitação foi trabalhosa, me causou LER e é o registro de uma mentalidade sem caretice que já não encontra espaço atualmente no meio cultural, tampouco na sociedade bovinense.

    Quanto à letra de 'Shoobydahbydoobah, Porto Alegre é Meu Lar', repensei, e concluí que o mundo não tem mais preparo psicológico para tal contato direto.

    Feliz aniversário, Porto Alegre! Clica aí no link, pois o Bovinenses é low-tech.

    http://www.youtube.com/watch?v=yT_UFGueKwk


    PANIC - LP "Best Before End". Ficha técnica:

    Recorded in Porto Alegre 1993 - Panic - Best Before End / Band: Eduardo Martinez: Guitars / Guga: Vocals & Guitars / Marcelo PT: Baixo / Claudio Calcanhotto: Drums.

    Ultra thanx: Eduardo, Sandra & Martinez Family. Morgada Cunha. Carlos Calcanhoto. Kraemer Gomes Fonseca Family. Paz Family. David "Monobumbo Troglovaldo" Drumer. Simone & Nejitailenco Family. Guga & Freitas Family. Klaina. Gremlin.

    Thanx to: Cau. Danilo Pizzato. Biba. Igor Cavalera. Xicone. Duda Dolls. Daniel & os Malaca do Pé do Morro. Leandro. Leonardo. Zico. Pelé. Silvinho. Celso. Vivi. Luz. Rafaela. Luiz Paulo Santos. Kátia Suman & Ipanema FM. Coconut & Felusp FM. Ricardo Barão. Clóvis Dias Costa. Dedé Ferlauto. Revista Bizz. Revista Rock Brigade. Revista Metal. Gustavo Barros & Madhouse Magazine. Riff Zine & all Zines. Andrei Calcanhoto & Padaemônio. Leonardo, Gláucio & everybody at Lito Som. Bruno "Nãomexecomaminhaneguinha" Klein. Dido (apaguei!), DiMenor (morsa atômica) & everybody at Eger Studio. Flávio (Pit). Henrique (Vap). Maracelo (Bus). Lica. Fátima. Vanessa. Fausto e Mônica (Beco 26). Kayson & Galera AAARGH. Galera do Ypu (Os Chaminés). Galera do Tubino.* Airton Amaral. Paulo Grillo. Edu K. Egisto. Ivan Muller. Izak. Mario Grace Gildo. Onairo. Minero. Paulão. Babu. Keny. Nazi. Paulo "Jake E. Lee Slash". Cassio & Jacques Maciel & Eduardo & Barezin. Sandra Slayer Hell Awaits. Regener. Ricardo Olsen. Renato Jardim. Julio Falavigna. Rodrigo K. Baço. Rexx. Terra. Rui & Jean (Gringolândia). Russowsky Family. Dudi. Paulo Mallet. Guta. De Rose. Woodstock Records. Cogumelo Records. César Átomo. Oswaldo Aranha (Bar Lola & seus residentes). Nova Idéia Records. Alexandre Machado. Gilberto & Paulo Rocha. Márcio Pereira. Lizi & Cris. Marlon Xavier. Fabrício Viegas. Zel. Álvaro Borges. Cliff Burton. Ariel Tatim. Carmelo Zarbá. Enrique Azambuja. Marcelo Fornazo. Eládio. Marguinha & Alex (Clara Luz). André. Cleide & Clóvis (Porto de Elis). Cocaine. Marofa. Pico. Boleta. Gordo Miranda. Studio Alfa. Mr. Plus & suas fontes maravilhosas. Sérgio Luffing. Felipe (Studio Live). Eduardo "Pingüino" & Alexandre. Cleomar. Paul Jannone. Andréa. Cláudio Heinz. Matthew Kerr. Brian Larsen (Artless Manag). Marcos Machado. Jonca. Clá, Adrianne, Chris, Ajaxi & Mousse Simioni. Zózimo Rech. Adriana Scherer, Nicolau Richter (Somúsica), Fredi & Cristina Gerling. Hubertus Hofmann. Any Raquel. Zé Prediger. Celso Loureiro Chaves. Pedro Duval. Fernando Torres. Lea Kiefer. Casa de Cultura Mário Quintana. André Bertuol.. Simone Rasslam. Eduardo Figueiredo. James Correa. Cláudia. Geraldo Massiah. Akira. Joyce. Kid Beiço. Museu. Queen. Arroz. Zé Augusto. Gil Vane. Cleber. Vera. Paula Phone. Dão. Dirceu (Passo Fundo). Richard & Phillip. Frank & Roger. Pezão. Xico (MX). James Muller. Paulo Nequete. Ricardo "Perna". Marcelo Truda. Nicanor. Marto & Marcia Alcaide Vieira. Pinheirinho & Family. Werner. Paulinho. Nênis. Beto. Luciane (Provok). André Barcellão & Family. Circo Voador. Frank Jorge. Tchê. Charles Master. Paulo Arcari. Lucia (Stúdio Biz). Aeroanta. Armando. Bulita. Fernando (Pialo). Eduardo "B.C. Rich". Flavo Becker. Gustavo & Galera de Três Coroas. Marco DeMartino. Régis & Tânia. Irzo. Domingos Fialho. Silvio. Suzy Doll. Silvio Lima. Wilson. Léo. Zé Natálio. Caco & Vento Norte. Cintia & Ceccarelli Family. Dante Jr. Bugo. Karen (SP). Cristiano (SP). Genevieve (RN. Jorge (Salem). Pereira (Cia. das Pizzas). Cárlida. Ananda Ferlauto. Artur de Farias. Marcelo (mau Yamaha!. Alberto Siedler. Coca Barbosa. Lenha. Elaine. Silvia. Quina. Chôco. Panga (Ré). Diabo Loiro. Rodrigo. Morcego. Ermilio. Ika. Cláudia. Otavio. Alex (Thrash Attack. Kerine (SP). Felipe Drago. Corset. Carlos Gerbase.

  • Lista de desejos pelo 8 de março

    Não basta eu ficar martelando no quanto é ocioso festejar o Dia Internacional da Mulher com parabéns, rosas e outros louros inúteis e fortalecedores do machismo latente em nossa cultura. Não basta olhar para a realidade e constatar que somos, ainda, fragilizadas em vários sentidos, e o ponto mais frágil é a comemoração de uma data voltada para lhe parabenizar por você pertencer ao sexo feminino. Se isso não é sexismo, pode me internar. Sou contra a criação de datas de discriminação, acho que só servem para demonstrar o quanto nossa sociedade é retrógrada. Também não gosto quando a imprensa faz comparações rasas entre sexos, enfatizando diferenças e não os pontos de semelhança. Mais que isso, ao receber um botão de rosa pelo "meu dia", por mais que o gesto pareça belo, me sinto ofendida. A sensação é de pertencer a uma espécie em extinção, como as baleias. Não me faz sentir pertencer a um meio sem preconceito ou a ser igual, pois já estou sendo colocada à parte, como alguém especial. Ser especial não é ser igual.

    Como mulher, posso ter particularidades: posso gestar crias, tenho TPM e me acostumei a me maquiar -- e há homens que se maquiam, e meu pai foi um, para disfarçar traços como bochechas e nariz vermelho como um morango. Temos problemas hormonais dramáticos. Nosso sistema nervoso é mais assim-assim, e por aí vai, pois há diferenças estruturais entre os corpos de um e de outro sexo. Contudo, os homens não precisam ter um dia, eles apenas existem. São livres, infinitamente mais livres. Podem beber até cair sem ouvir censuras morais em voz alta ou ser vistos como alguém que está ali no bar para se oferecer sexualmente, em busca de alguém; podem jamais se casar com uma mulher, e isso não será interpretado como se não prestassem ou fossem histéricos; podem colocar o pinto para fora e fazer xixi na rua (embora isso seja uma selvageria), pois ninguém vai censurá-los. Até mesmo os gays homens parecem ser mais aceitos em público do que as lésbicas. A lista de opressões é grande e não pretendo esgotá-la aqui.

    Criei outra lista. Diante destas e de outras discriminações residuais, ainda evidentes em diversos detalhes cotidianos, elenquei itens que acho importantes para a igualdade feminina em uma muito singela lista de 5 desejos. Afinal, para alguma coisa essa data de 8 de março deve servir, além de distribuir cestinhas com flores e entregar botões de rosas, e acredito que a reflexão seja um excelente pretexto para marcar a data.

    Lista de desejos para a igualdade feminina:

    1) Que as lésbicas possam manifestar seu carinho em público sem isso ser atentado aos bons costumes.

    Ainda são raros os locais que suportam a manifestação de carinho entre mulheres; ver o carinho como um atentado ao pudor é uma prova do quanto a sociedade é doente. A violência é bem-tolerada. O amor, não.

    2) Que as presidiárias possam ver seus filhos com mais frequência, e que sejam liberadas para vê-los no Natal/Ano-novo.

    Como jornalista, fui sensibilizada pelas causas das presidiárias, ao cobrir duas rebeliões. Estas insurgências tinham o mesmo motivo: a saudade dos filhos. É de cortar o coração vê-las apanhar para sossegar o coração, especialmente em datas tão significativas para todo ser humano.

    3) Que haja menos homenagens, efemérides e hipocrisia para que haja igualdade real. Dar botão de rosa é fácil.

    A mulherada também pode ajudar, recusando ser alvo de atitudes patéticas, e engajar-se por mudanças reais e na discussão de seu papel na sociedade.

    4) Que haja mais isonomia nos salários. Não somos escravas.

    As mulheres recebem cerca de 20% a menos que um homem ocupando o mesmo cargo. Pelo menos, pois esse percentual pode chegar a 50%. E as mulheres não costumam reclamar, criticar, ousar reivindicar melhores condições. São passivas, e isso é reflexo da presença do machismo ao qual elas se subjugam, adotando-o como modelo de conduta.

    5) Que as mulheres deixem de crer que só ao lado de um homem há realização.

    Ao tomar a responsabilidade por sua realização nas próprias mãos, as mulheres poderiam ser mais livres, de fato. Casamento não é objetivo de vida. Viver plenamente deveria ser a finalidade de uma existência. Há o conhecimento, a arte, o trabalho, e talvez isso já não seja o caso da maioria. Porém, ainda vejo mulheres sozinhas infelizes com sua situação, sofrendo emocionalmente por serem solteironas e sonhando com um homem perfeito que venha salvar-lhes de uma existência vazia. Isso me entristece. É como vender-se em troca de segurança. O casamento não é algo para todos, é preciso ter vocação para tamanha empresa. Há mulheres que se sentem frustradas e infelizes por serem solteiras, e saem por aí ensandecidas para encontrar alguém, qualquer um a quem possam chamar de seu. Respeitar-se acima de tudo como ente humano seria emancipador. Acho que esta é uma questão sociocultural séria sobre a qual se deve refletir.

    Muito foi conquistado, reconheço. Mas ainda há muito caminho a ser percorrido, com vontade e engajamento, pela liberdade e pela igualdade entre sexos. Tenho fé na ideia de que ser menos machista ajudaria a mulher a ter uma existência mais plena, enfrentando conflitos humanos extensíveis a todos, independente do gênero. Ser feminista do tipo mulher-macho também me parece frívolo no século 21. Portar-se como homem para ser vista como igual é travestir-se de algo que não se é: bastaria tentar existir sem ilusões de cinderela. E banho de rosas de nenhum tipo pode ser sinônimo de igualdade. Nem putas, nem submissas.

    A vida é maior e mais complexa e cheias de conflitos, aos quais todos nós, seres humanos, necessitamos encararar com maturidade, ação e coragem. Reagir contra o próprio comodismo, à passividade e ir ao banheiro sozinhas, em 2011, já seria um começo. O debate aberto, unir-se para discutir suas necessidades de forma organizada perante a sociedade, para mim, isso sim, seria um orgulho.

  • Bullshits instantâneas: liberdade/covardia em 140 caracteres

    Decidi inverter o processo blog-Twitter. Ninguém mais tem tempo de ler textos longos, análises com encadeamento lógico e analítico. Ninguém mais quer saber o que outros pensam. O que se quer são epifenômenos. Epifanias. Momentos mágicos de tiradas e análises críticas em 140 caracteres, no máximo. Lembrei então desse espaço de terra arrasada, devastado pelo abandono, e resolvi publicar o impublicável. Se você achar ímprobo, reclame ao servidor alemão, em alemão. Espero de coração que os sérios me perdoem; bom humor é decisivo para a minha sanidade mental.

    A seguir, caro ruminante, você terá acesso privilegiado a minha primeira seleção de tweets. São tweets ordinários? é o jogo o que importa. Nasceram nas horas mortas, explodiram dentro da membrana úmida da madrugada. Enquanto espécimes larvais, devem se dar bem em terra semi-árida.

    Calma, raro leitor. É como reality show em forma de palavras, jpgs e links. Possui mais força no calor da hora, integrado ao LIVE ou com efeito delay proposital. É como o brilho distante de uma estrela que consegue ser captado em um átimo.

    Mas de que diabos você está falando?

    A experiência está em fase beta. Para dar certa dimensão 'estética', publiquei primeiro no TweetLonger, agora aqui, redigido com as devidas justificativas para a posteridade nula. Pequena explicação: trollar é o ato de surrar, esculhambar, esculachar qualquer coisa conhecida: alguém público ou programa de TV, por exemplo (LOST, neste caso). O processo de overflood se encarrega de causar qualquer coisa: colocar o tema nos Top Trends, dar idéia para pauta a jornalistas ociosos, enfim. A coisa é criativa e totalmente fora de controle. Quer dizer, no meu caso, foi planejada em um instante, entre goles de uma taça de bom vinho branco. (Não repita isso em casa. Jamais se deve tuitar em estado alterado, a não ser que você seja nerd consciente.)

    Porém, além das epifanias, há aquelas porcarias mentais que você jamais tuitaria, a não ser que não tenha amor por sua imagem pública ou esteja alterado. Assim nasceu a hashtag #tweets-deletados. Definição: Tweets de 5 segundos. É anomalamente simples. São tweets-relâmpago de consciência leviana publicados na Time Line que somem em exatos 5 segundos. Desaparecem. Não ficam em cache. Quem lê, leu, ponto, adeus. Podem ser reprisados? Sim, caso os seguidores peçam. Ou por milagre. Tweets-fantasmas. Podem ser editados? Sim, se o tema for maculoso. Quanto mais o tema for ameaçador à imagem do autor, mais ele tem potencial para jamais ser reproduzido. ORSÊJ, o sumo desse fenômeno é:

    "Escreva qualquer bullshit e suma com as provas em 5 segundos."

    Há uma dimensão ética e moral nisso, e que demonstra muito sobre nossos tempos. Deixo essa análise para algum filósofo beneficente com interesse mórbido em fenômenos de comunicação na internet. Isto é, em tese.

    Bom, let's go! Você pode - talvez deva - ler debaixo para cima, se quiser entender a ordem cronológica. No Twitter, o tempo corre ao contrário, você sabe: os últimos da lista são os primeiros.

    Relaxe. Garanto-lhe: é rápido e gostoso. E é só, nada mais que isso.
    De nada. O prazer foi meu. Deixe seus comentários ali embaixo.


    @bovinenses
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    ¸.*´¨`*.¸¸.¸.* PIPILOS DA MADRUGADA *´¨`*.¸¸.¸.*´¨`*.¸¸.¸.*

    ░░░░░░░░░░░░░░░   ♫ SELECTION TWEETS ♫   ░░░░░░░░░░░░░░░░░
    by Ariela Boaventura

    1º/03/2011

    ░░░░░░░░░░░░░░░ LOST: TROLLER:

    15 hours ago
    » @boninho, explique LOST.

    15 hours ago
    » NÓNCA vou entender! "Vou matar você!"/ "Como?" (i. e., de que forma)/ "É surpresa". LOST infinito.

    15 hours ago
    Esse careca "dono" de LOST tem SÊOS. #duloren

    15 hours ag
    » O cara se afoga com uniforme de capitão de navio. Morri.

    15 hours ago
    » Ontem me concentrei e consegui entender 1 minuto de LOST.

    15 hours ago
    » Acharam meu marido em LOST. Sempre desconfiei dele.

    15 hours ago
    » "Destruir metaforicamente". Só em LOST, mesmo.

    15 hours ago
    » Quer dizer. Eu não vou ficar aqui sozinha escutando esses diálogos nonsense de LOST. "Eu quero partir", ele diz. Eu também. Adeus.

    15 hours ago
    » <-- Sozinha na TM. (Snif.)

    15 hours ago
    » @boninho Sei imitar com desenvoltura e entusiasmo GRAVE a voz do cara que diz: "Nos episódios anteriores...". Tenho emprego?

    15 hours ago
    » Jesus, já é LOST.


    ░░░░░░░░░░░░░░░ METAFÍSICA

    15 hours ago
    » (@bovinenses fala para todos) Onde estão @todos?


    ░░░░░░░░░░░░░░░ POLITICISMO E PROFECIAS

    15 hours ago
    » Nota 2: No Brazil, Lattes tem "erro". E pessoa ganha título Honoris Causa -- sem estudar. #bananite

    15 hours ago
    » Nota: o ministro alemão (que realmente é barão) teve a HONRA de assumir publicamente o plágio e sua vergonha, e depois renunciar.

    15 hours ago
    » Ministro da Defesa alemão Theodor zu Gutenberg é chamado de "Barão do Copy+Paste" na imprensa europeia após renúncia: http://goo.gl/bLEee.

    16 hours ago
    » Profetizei que Zu Gutenberg cairia em 5 dias. Tenho testemunhas.

    15 hours ago
    » Decretada prisão preventiva de Ricardo Neis, MONSTRORISTA INDÔMITO que atropelou ciclistas em Porto Alegre #melhoremtudo: fiança de quanto?

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    » <-- escreveu "prexisa". Fez efeito.

    16 hours ago
    » Obituário do @blogdayeda prexisa ser atualizado. (Na pelica.)


    ░░░░░░░░░░░░░░░ #tweets-deletados (5 seg.)

    15 hours ago
    » RT @luciouberdan presenciei tudo; RT @bovinenses: Você é testemunha. @luciouberdan tuite sumindo foi cômico; || (kkks suprimidos.)

    16 hours ago
    » Foi-se. CONTAMINOU. Adorei.

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    <-- bebeu toda a garrafa de vinho branco e colocou água c/ CURRY p/ disfarçar. (Crianças, não façam em casa.) (Esse tweet sumirá em 5 seg.)

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    » Ó, ATENÇÃO seus indômitos: vou ressuscitar um tweet deletado - por 5 seg. Lembre-se de dar adeus. #tweets-deletados

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    » Perdi a noção. Escovei os dentes de novo. Efeito LOST.

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    » Até o ERRAMOS pode ser editado hoje em dia.

    16 hours ago
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    » Criado: tweet de 5 segundos com delete instantâneo. Por @bovinenses. 1/03/2011. ÔSEJER: quem viu testemunhou.

    (x)

    Ops.: O Bovinenses jamais adotou as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Não obstante, no Twitter, escreve-se de centenas de maneiras que fogem às normas ortográficas, e nisso há riqueza de significados. Verbalize-se.

  • Ai, chucruta, me deixa!

    Caros salsichas,

    não adianta ficar enviando emails dizendo que estão com saudades.

    O Bovinenses ainda está em férias. Voltaremos dia 15/02/2011.
    Não vou ficar enchendo lingüiça aqui.
    A quem se interessar, estamos atendendo via Twitter, em @bovinenses.
    Verstehst? Grata.
    E viva o couscous!

  • Férias no Pasto

    Preguiça infinita de fazer post, por enquanto.
    Janeiro é cemitério aqui no Pasto.

    Tenho me atacado no Twitter.
    Siga o @bovinenses.
    Até breve!

  • I World War Web, a guerra dos bits: WikiLeaks vs. Mundo

    Caríssimos ruminantes! Esse será possivelmente o último post do ano. E a capital bovina não tem nada a oferecer a não ser o seu glorioso bafão úmido de verão, seu tédio infinito e muito fédivér, como carros voando sobre o Riacho Ipiranga Arroio Dilúvio, inclusive a mídia já fez uma cronologia completa sobre esse fenômeno. Suponho haver um tema muito mais rumoroso e que interessa a todos os cidadãos do mundo, inclusive aos bovinenses. Assim, peço que você largue um pouco de roer essa costela ou chupar esse chimarrão e dê-me alguns instantes de sua atenção. O texto a seguir foi escrito em coisa de minutos, é uma espécie de instantâneo do momento histórico atual e foi postado originalmente há 4 dias em minhas notas do Facebook.

    Farei pela primeira vez uma ceia com mamãe em minha casa neste 24 de dezembro. É nesse espírito − verdade que beneficiário direto do Frontal − que desejo a todos os meus raros e fiéis leitores um glorioso Natal! Frohe Weihnachten!

    (A quem souber #!/bin/sh, também desejo openssl com muita 'cebola'.) ٩(-̮̮̃-̃)۶ Lols

    On Tuesday 7th December 2010, @bovinenses said:

    Guerra dos bits: WikiLeaks vs. Mundo

    O caso WikiLeaks é um marco na História. O chamado Cablegate, além de vazar segredos de diplomacias de países democráticos, coloca a liberdade de informação sob um ponto de interrogação e apresenta ao mundo um novo tipo de guerra, consequentemente, uma nova divisão política do mundo.

    Julian Assange, fundador do WikiLeaks, é acusado de violação sexual, um golpe quixotesco. Ao mesmo tempo, ele tem todas as formas de financiamento e hospedagem de seu site bloquedas. A falácia é tão óbvia quanto é vertiginosa a rapidez com que os fatos ligados ao episódio acontecem.

    Gigantes da internet, como a Amazon e PayPal, e ícones do consumo, como Visa/Mastercard, suspenderam seus serviços a Assange e a seu site. A ideia é alijá-lo da Web, calá-lo, prendê-lo a qualquer custo e inviabilizar a existência econômica do site e dele mesmo. Marginalizá-lo, ou melhor, fazer com que desapareça da realidade.

    Esse modo operacional remonta aos anos 60, não funcionará. O incômodo político gerado pelo WikiLeaks é único, é grave e mostra que tipo de mundo político nós temos: repressivo, bandido, covarde e inepto. Mostra o tamanho da liberdade que temos, repleta de senões e conveniências. Mostra uma imprensa apagada, que tornou-se uma espécie de papagaio de agências internacionais; as notícias sobre o caso WikiLeaks chegam com atraso de horas preciosas à mídia, com seus horários e libações dependentes de grades comerciais: a internet saiu na frente, as redes sociais pegaram fogo. Sobretudo, mostra o quanto somos mal-informados e alienados. Quem ganhou, por enquanto? a mídia1 que arriscou a própria legalidade e fez contratos com o WikiLeaks para vazar as informações, após editá-las.

    A prisão de Assange (7/12/2010), que entregou-se à polícia, mobilizou centenas de milhares de vozes na internet e foi uma radiografia da censura na Web. Redes sociais até então simpáticas, "livres" e neutras chegaram a seu limite, como o Twitter.2 Tudo está em jogo nesse momento. Modelos de integração social na internet até então pensados para atrair marketing e pessoas terão de ser repensados. Não somos mais tão ingênuos.

    Estamos em plena guerra, a primeira "World War Web". A cabeça de Assange pode custar um preço altíssimo a governos no mundo todo. Pode causar uma outra guerra, esta entre países-bomba como China, União Soviética, Irã, Paquistão. Caso aconteça algum evento grave a Assange, ou aos servidores do site, existe a ameaça do famoso pacote de documentos com a segunda leva das pílulas de veneno. Intitulado "insurance.aes256", o arquivo é encriptado sob uma chave de 256 bits, já foi baixado por milhares de pessoas e traz revelações sobre a empresa de petróleo BP (Beyond Petroelum) e a prisão de Guantánamo. A única peça que falta para abrir o arquivo insurance.aes256 é a senha, a chave.

    Os atos de retaliação econômica e judicial contra Assange pretendem-se pedagógicos para que ninguém ouse como ele ousou peitar o poder. A intenção é amedrontá-lo, e dar o exemplo. A ideia é calar essa voz. Contudo, o WikiLeaks segue a ideologia hacker, um paradigma colaborativo que não funciona dentro dos moldes capitalistas ou políticos atuais pois não é dinheiro que Assange ou seu site desejam. E os funcionários do WikiLeaks são colaboradores espontâneos, gente que atua dentro de empresas e governos, ou fora deles, espalhada pelo mundo sem receber um tostão por isso.

    Assange, um "ex-hacker",* reivindica o direito de que todos "saibam a verdade". E ele sabe que a prisão pela acusação quiçá injusta de violência sexual é a parte mais branda dessa saga: sua cabeça está a prêmio. Herói para uns, inimigo da humanidade para outros, é inegável que Assange é o homem mais poderoso e perigoso do mundo hoje. Um mundo que foi dividido em antes e pós-Cablegate, em capitalista e anarquista, em democrático e algo que ainda não entendemos bem o que é, em evolução constante a cada momento, como um vírus. Certeza há apenas de que nesse novo mundo replicante as tentativas de dar fim a um fenômeno que incomoda só causa sua multiplicação infinita. Acredito que o caso WikiLeaks seja um nó da História, após o qual nosso mundo será diferente não necessariamente melhor nem mais livre: isso dependerá da nossa atuação. Se todos formos Julian Assange, ninguém será. Juntos, sempre vencemos.

    Ariela Boaventura

    (Sharing it by CC, pls.)

    1 Como, por exemplo, The Wall Street Journal, The New York Times, Der Spiegel, entre outros; no Brasil, O Globo e Folha de São Paulo.
    2 Desde há algum tempo, o Twitter não apresenta em suas trends os termos WikiLeaks, Assange e derivados, e nenhuma explicação foi oferecida aos usuários.

    * "Once hacker, ever hacker" (n>2=cHa0s).

  • Fronteiras do preconceito - o caso da performance "Não alimente o escritor"

    Acabem-se com todas as formas iníquas de diversão, que vivamos todos em um mosteiro, que a pachorra reine sem fim no Pasto. Que se faça a assepsia total das ruas, que todos pensem os mesmos pensamentos, ajam da mesma forma, vistam as mesmas ideias: que todos adorem costela, Grenal, Polar e filas. E que todo discordante, desviante do padrão, seja extinto. Bem-vindo ao entediante admirável mundo novo, caro ruminante.

    Você já ouviu falar disso. Não é censura, não é ditadura nem é piada. É um fenômeno bem pior. É "aquilo" que nós todos sempre juramos que jamais aconteceria novamente, e que, no entanto, consta na História como perene ameaça: sorrateira, habita as frestas da sociedade moderna; chega com pés de pano, porque travestida de bom comportamento, boa intenção, boa saúde, boa morte. É o inominável, é o que levou a Alemanha ao nazismo. É uma espécie da bacilo. Surge sem se notar, evolui para a aprovação acrítica a arbitrariedades, tecnologias de controle e de repressão, vigilância mútua e acaba com a extinção do indivíduo em suas mais íntimas liberdades e com a franca expressão do lado mais sombrio dos seres humanos.

    Não conheço Telma Scherer. Não vi a sua performance, que suscitou reclamações, ordem para retirar-se do local em que realizava sua manifestação na Praça da Alfândega, durante a Feira do Livro, e dirigir-se ao posto policial, escoltada por diversos agentes. A análise que faço do episódio é informal e pessoal.

    Segundo o jornal Zero Hora, "algumas pessoas" reclamaram da performance dessa escritora, porque a) ela gritava muito; b) parecia alcoolizada; c) oferecia bebida alcoólica a menores; d) o ato estava prejudicando as compras. Além disso, e) "a ação da Brigada Militar foi no sentido de colaborar para a segurança de todos, inclusive da própria manifestante".

    As justificativas estão todas desconectadas da realidade e explico a seguir o porquê, item a item.

    a) "Ela gritava muito" − Na Feira do Livro crianças azucrinam; mulheres entram em surto e desfazem casamentos; alto-falantes cortam conversas agradáveis de amigos, anunciando eventos, ofertas, etc. Enfim, barulho é o que sobra na Feira do Livro. Ou vai querer que uma feira pública com 1 milhão de pessoas seja silenciosa? Sugiro morar em um cemitério − gente enjoada, que reclama de tudo, já tá meio morta, mesmo.

    b) "Ela parecia alcoolizada" − Meu deus, que escândalo! Somos muçulmanos e eu não sabia! Olha, na televisão, anunciam bebida alcoólica o tempo inteiro, todo o tempo, o tempo todo. Você não viu? Aliás, você também bebe, seu cônjuge bebe, todo mundo bebe aquela caipirinha ou uma cervejinha, porque na propaganda se diz que é coisa de gente boa, porque esse país ama futebol, porque desce redondo, porque desce macio e reanima. Até o presidente bebe! Dirige-se alcoolizado como se isso fosse um costume! Então, que mal tem a poeta se manifestar com uma garrafa cênica? Ela não ocupa cargo presidencial, não está de carro e não é sua filha, nem esposa, tampouco amante, você não a conhece. E ela está em uma encenação, entende? Pense também na diferença entre parecer e estar.

    c) "Ela oferecia bebida alcoólica a menores" − Ou os tais menores (na minha época se chamavam crianças) não receberam a menor educação de sua parte e você é um irresponsável ou você é do tipo controlador paranóico, vá se tratar. Se a cria quer beber, é sua responsabilidade cuidar para que ela não faça isso nem na Feira do Livro nem na quermesse da Igreja ou enquanto vê a novela das oito. Afinal, o "perigo" está em toda a parte, você não acha? E mais, não são 10h da manhã e sim entre 18h e 20h, e quando anoitece é hora das crianças irem para cama. Mais ainda: na Praça da Alfândega residem bêbados e mulheres que oferecem serviço de sexo sempre, todos os dias do ano, e nem por isso devem ser retirados de lá. Eles fazem parte da cidade e da sociedade, mesmo que você negue ou que seus filhos não olhem. Eu prefiro que eles continuem dando ao Centro sua presença viva. Bactérias fazem o iogurte, e não a Activia.

    d) "O ato estava prejudicando as compras" − Acredito que essa argumentação não tenha vindo do público careta e sim de algum dono de barraca. Daí, faz sentido. Aproveita e expulsa também o trovador do Apocalipse, o megafone de ofertas, os palhaços da área manicomial infantil e os estúdios da emissora, que chamam bastante a atenção das pessoas e podem atrapalhar as compras.

    e) Se a ação da Brigada Militar foi no sentido de colaborar para a segurança de todos, inclusive da própria manifestante, é sinal de que a civilização faliu, a democracia é impossível (já sabia) e nossa sociedade, além de bovina, é cínica e selvagem. É como se todos fossem crianças que não soubessem se comportar em espaço público ou não suportassem escutar opiniões divergentes das suas e por isso matam, queimam e arrancam o escalpo de quem lhes contrariar. Entendo que colaborar para a segurança da manifestante significa que havia a possibilidade de ela ser linchada, morta, escalpelada e ter suas vísceras penduradas no relógio em frente à praça. A Brigada Militar deve ter coisas mais importantes para fazer do que proteger ouvidos de gente intolerante à arte. Por que você não vai curtir a assepsia de um shopping center?

    Contudo, de acordo com a Rádio Guaíba, as coisas não foram bem assim, e o público na verdade não teria sido o co-autor da repressão. Tudo começou porque "expositores chamaram a polícia", e a ação policial teria sido "violenta", conforme relatos de testemunhas. Parece que a apresentação reunira muitas pessoas e isso tirou a Feira do Livro daquele movimento de vaivém bovino, inconsciente, cômodo e entediante, desviando possíveis compradores dos ninhos de ofertas. "Cerca de 40 pessoas se reuniram para assistir Telma falar sobre sua condição de escritora. Ela teria emocionado o público ao revelar que precisou deixar seu apartamento porque estava com três meses de aluguel atrasado. A performance artística questionava o sistema literário, o que pode ter incomodado representantes do mercado editoral", diz a matéria.

    Em seu blog, Telma Scherer antecipa a performance "Não alimente o escritor": "Estarei atada a uma pequena casa de cachorro repleta de contas de aluguel e telefone (todas em meu nome). Outros elementos cênicos como uma coleira, um espelho e uma garrafa de conhaque e suas manipulações formarão a imagem poética". A escritora explica ainda a concepção de seu ato criativo: "Minha performance é uma crítica à visão reducionista da literatura, que transforma leitores em consumidores padronizados e valoriza apenas a compra e venda de produtos (os livros) sem abordar a questão central: seus conteúdos, a pressão que sobre estes exerce o sistema literário e a invisibilidade do processo criativo". Que a abordagem artística dela tivesse a beleza de uma sonata para piano de Mozart, ora, convenhamos, não combinaria com a estética de um ato de repúdio.

    Esse vídeo registra o momento em que a escritora foi abordada e retirada do local. Observe o boludo, típico homem pastoril, que aparece reclamando daquela "pouca vergonha".

    Para mim fica claro que, graças ao caroço de sua explanação, ela deve ter sido uma pedra no sapato dos donos das barraquinhas. A proporção da intolerância aumenta compreensivelmente se se levar em conta que as vendas da Feira do Livro desabam ano após ano, sem que nenhuma mente brilhante proponha um modelo diferente, algo mais sensível à dinâmica dos novos tempos, menos comercial, menos venda crua e seca, que tenha um apelo mais lúdico, livre e artisticamente diversificado.

    Diante do exposto, penso que haja:

    1. Desespero. O modelo da feira está obsoleto e é preciso buscar alternativas mais vivazes de chamar a atenção e atrair consumidores, e não culpar uma criatura por roubar seus compradores, atazanar sua vida, obstruir passagem de pedestres ou cadeirantes ou seja lá o que for. O consumidor da feira não tem comprometimento, está curtindo jacarandás, comendo pipocas, encontrando amigos; está sob efeito daquela terrível cerveja morna que se serve no bar do evento; está buscando um banheiro físico; está estressado: a mulher enche, o marido flerta, a criança berra, os avisos do alto-falante lhe dão um pequeno choque no coração. Não matem a coisa mais viva do evento, que é a espontaneidade, o relacionamento das pessoas e o hospício. O mercantilismo em que o evento surgiu está morto. Ofereçam mais, cobrem menos. Tudo está ficando muito chato, com o banimento do espaço social de todos os que de alguma forma não se parecem com o sorridente ser humano de um comercial de carro. É importante não esquecer que a rua é para todos, até mesmo para os poetas.

    2. O politicamente correto. Estamos sofrendo uma higienização fatal na linguagem e nas ações. Processos e repressão se tornaram sinônimo de cidadania. Essa assepsia cria monstruosidades sociais. É preciso ter mais tolerância com o que não entendemos, mais curiosidade, mais vida, repito. Sempre haverá um cadeirante apertado em uma multidão de 1 milhão de pessoas. Sempre haverá uma criança perdida. Sempre haverá alguém passando mal. É muita gente, são muitas variáveis, é incontrolável − e por isso mesmo é bacana. É loucura tentar satisfazer todos os descontentes.

    3. Imaturidade social. Há uma pluralidade de malucos que acorrem a esse evento aberto e público, seja para vaticinar a ressurreição de Satanás, para oferecer balinhas à guisa de isca sexual para atrair filhos malcuidados de pais cuja moral é inexistente, a começar pela omissão em educar as próprias crias (para que recusem balinhas de estranhos, para que não bebam bebidas alcoólicas, para que parem de berrar feito psicóticos, etc.). As pessoas devem cuidar de si mesmas e de seus filhos em via pública, e educá-los para que saibam das condições do mundo. É o mínimo. O Estado auxilia no dano. Como está, temos um jardim de infância de 1 milhão de pessoas.

    4. Desrespeito. Alegar que a escritora estava perturbando suas vendas não me parece coisa razoável de se dizer, em hipótese alguma. Contudo, na era da "ética de mercado", tudo é possível e alegável conforme o interesse do mercador. Resta saber de quem é esta banca e boicotar a editora. Qualquer dia desses vão dizer que quem futrica o balaio, ou está esperando um amigo no cantinho, ou está folheando um volume está atrapalhando as vendas. Banir tudo o que não tem perfil comercial ou não faz parte da programação do evento que se realiza em espaço público é petulante e antipático.

    3. Excesso de zelo da polícia. A matéria da Rádio Guaíba dá conta de 10 policiais para calar a escritora. Deixar para trás assaltantes, assassinos, estupradores para cuidar de uma pessoa que está expressando sua indignação por meio de um discurso e gestos é desproporcional e só posso entender isso como uma relação de profundo esmero entre organização e um dos financiadores, o governo. A polícia deve avaliar se realmente uma ação desse tipo é necessária. A sociedade deve tentar conviver com suas diferenças e só apelar à polícia em casos que fogem ao coexistir pacífico, no confronto desproporcional, na violência e em episódios que fogem ao controle racional e ameaçam danos.

    Minha conclusão é de que o espaço público está zoneado: quem tem o direito a usufruir dele são apenas aqueles que consomem, ou apresentam, por meio de seu aspecto, potencial para consumir. O restante é banido com o aval da sociedade ou a pedido dela, em nome de seu duvidoso gosto, em nome de sua saúde, em nome de seus direitos ao feudo. Se eu agisse assim, eu baniria de minha cidade torcedores que urram palavrões homofóbicos e ofensivos contra mulheres das janelas do prédio; proibiria o reggae e o sertanejo universitário; guincharia carros cujos alarmes disparam a noite inteira; processaria seguranças de shopping centers, que me olham como se eu fosse o Melara em pêlo; chamaria a BM a cada obra que fura, corta e martela madrugada adentro. As "boas" intenções aparecem sob a forma de leis para proteger patrimônios, zonas de consumo e inibir preconceitos, que prosseguem latentes; a vigilância é constante não contra a injustiça mas para que tudo seja sempre do mesmo jeito, o jeito que agrada a maioria. Não há boa intenção que não seja travestida de lei, de dever, de direito, de obrigatoriedade, logo, a substância da boa intenção em nossa sociedade é a hipocrisia.

    É possível que se Telma Scherer fosse conhecida em Porto Alegre isso não tivesse acontecido: as pessoas respeitam a fama mais que a Jesus Cristo, ou talvez respeitem Jesus Cristo por justamente ser famoso. Se ela estivesse sob as câmeras de emissoras, eu duvido que algo assim acontecesse. É possível que se Telma Scherer fosse estrangeira tivesse sido linchada em praça pública, literalmente. De certa forma, ela é estrangeira. De certa forma, metafórica, houve linchamento. De certa forma, ela atingiu seu objetivo como artista: chamar a atenção para algo que lhe incomoda pelo choque ou pelo contraste. E é possível que agora, ironicamente, Telma Scherer venda seus livros como água. Na próxima Feira do Livro.

  • A questão sobre a questão da questão

    Parabéns, ruminantes e ruminantas. Lá e aqui, festa e alegria da massa em transe. Sua força é de um tipo místico tal que seria possível sentir fisicamente a promessa miraculosa de salvação. Sabemos que agora tudo vai ficar bacana, e eu realmente torço por isso. O otimismo está impregnado no ar, e o entusiasmo pela Copa de 2014 enche os corações de torpor. Lamentavelmente, sou resistente a hipnose, estou cheia de brotoejas e suspeito que talvez tenha síndrome de parisiense, que reclama e põe defeito em tudo.

    Fui atacada por arritmia e uma sensação de irrealidade, de desconexão com o universo com a coletiva de imprensa desta quarta-feira (4). Se neste governo a estrutura gramática e a lógica proposicional forem mantidas, mostrarei aqui minha gratidão. Será no entanto difícil escutar as preciosas idéias da eleita em entrevistas. Suas declarações me deixam profundamente confusa, em pânico, epiléptica. Não afirmo que ela fale errado ou tiopês, não é isso. Nada tenho contra a presidente, achei linda sua vitória e a julgo suficientemente inteligente − por isso, penso que um pouquinho de encadeamento mais sólido de idéias a partir desse importante momento seria bem a propósito.

    Eu sei, vão me arrancar a pele, afinal, as discussões agora são assim: tisnadas de fanatismo. Eu sei, é inocente, é um estilo pessoal, é como ter verrugas, ninguém tem culpa. Dá para consertar, como a língua presa, embora para isso se necessite de certa autocrítica. E além do mais não há quem reclame. E também tem a vantagem de ser um discurso contemporâneo, em voga, em razão da sua estrutura similar à dos atendimentos de telemarketing, em que humanos falam como se fossem robôs, com uma linguagem repleta de termos empolados sem igual no dicionário, além das pausas e concordância verbal inadequadas para comunicar determinado conteúdo cujo sentido é obscuro. E quem se importa? Há coisas mais importantes na nossa vida, e tudo fica por isso mesmo.

    Somos indulgentes com quem comanda o destino de uma cidade, estado ou nação, enquanto conosco as exigências são inversamente proporcionais e vão muito além da aparência, modo de falar e comunicar; são como se dirigíssemos um ministério alemão: temos de mostrar relatórios de produtividade, provar que existimos, pagar os abusivos tributos sem chiar, mostrar conhecimento acima da média para disputar empregos sem direitos assegurados (e achar isso normal), entre outros diferentes e cotidianos desafios. Então, eu fico me perguntando se um chefe de Estado não deveria mostrar uma postura mais adequada ao cargo, incluindo aí boa dicção e lucidez de raciocínio. Transparência de idéias ajuda a acabar com pretensos complôs, especialmente aqueles advindos da imprensa, e ao "povo" oferece prova de respeito.

    Eu não sei quanto a você, mas eu tenho muita dificuldade em entender o que nossa presidente diz. A quantidade de vírgulas utilizada é exasperante; o tom é irritadiço, agressivo, desestimulando questionamentos; não há cuidado com a concordância e vícios de linguagem se multiplicam; as idéias se concatenam aos trancos, fragmentadas, sem que haja preocupação com o seu sentido; diversos pensamentos ficam sem conclusão, inseridos dentro de um cabedal de repetições por sua vez repetidas atrás de conectores como 'aliás' ou poluentes espichadores de tempo como 'questão' em um loop sem fim. Seus memes* contaminaram até mesmo o meu discurso diversas vezes, é viral!

    Os exemplos a seguir eu pesquei na coletiva desta quarta-feira. "Cê quer CPMF? CPMF eu já respondi!" (Uia!). "Eu me considero que já respondi a questão." "O fato de que, nós, tamos, aliás, nós temos, um problema, nós temos um PIB, que é um PIB...". (?) Esse próximo exemplo eu vi em debate na TV: "Por quê isso acontece? isso, é porque o pré-sal é uma questão, aliás, sobre essa questão, eu gostaria de dizer que…..". Acho a citação desses exemplos suficiente para justificar o quanto meus nervos entram em falência ao ouvi-la falar. Fico perplexa com seu discurso, de modo extensivo. E agora que a paixão uterina das massas passou, sinto-me mais tranqüila para fazer esse apontamento: antes do dia 31, seria acusada de antipetismo e encaminhada à fogueira.

    E ainda hoje pode parecer mesquinharia de minha parte criticar o desenho do seu discurso, essa forma de emaranhado de idéias que ruma a um vórtice de declarações redundantes. De fato, eu queria outro nome, outra proposta, outro rumo para meu País − talvez no fundo eu deseje mesmo outro país. É como você amar um marido infiel desejando, em seu íntimo, que ele algum dia seja diferente, e você sabe que acreditar na possibilidade de mudá-lo é ilusão: é um círculo, logo, é repetitivo. Redundante é também eu reclamar aqui de candidatos em que fui obrigada a dar meu voto; redundante é gritar no vazio, é chorar sobre o leite derramado, chover no molhado; redundante é pastar, ruminando. Mas eu insisto que discurso é importante, é tão importante quanto um cartão de visitas ou dentes; porém, se você está com Poder, pode falar em esquizofrenês ou sarapintar seu pensamento com vírgulas e reticências. Quem se importa? Presidenta ou presidente? Tanto faz.

    Nem por isso tenho de aceitar calada o que há. Não dá para querer outra coisa, como diz aquela propaganda de carro?

    Sei que a presidente tem outras preocupações nesse momento, e que essa 'questão' é como uma alface em seus dentes. Sei também que preciso mudar. Sei que não sou adaptada aos valores que vigem em meu Brasil: a esperteza, a "manha", o jeitinho, o desprezo pela educação (é vergonhoso dizer por aí que você gosta de James Joyce, por exemplo). Graças às chibatadas diárias, entendi que devo ser menos "séria", ter mais "jogo de cintura", esquecer essa coisa antiquada chamada coerência em alguns instantes cruciais, ser mais cara-dura, em todos os sentidos, como todo mundo. Sei que preciso ser mais agressiva nas ações e em meu discurso diário; que é crucial aprender a arte de deixar para lá, baixar os cornos e ficar 'na minha', calar a boca, perder o costume insalubre de criticar, seguir o exemplo dos 'bem-sucedidos' de minha profissão, cuja característica principal é o conformismo. Aprender a ser sem vísceras, em suma.

    Do Brasil ao Pasto, isso significa ficar calmo diante do que sai publicado no PIG, assumindo o maniqueísmo como filosofia. É não arrancar os olhos, por exemplo, diante da "questão" da abertura do show do Paul McCartney em Porto Alegre, que, por alguma piada do destino, foi entregue à "simpática" dupla Kleiton & Kledir. Levar a vida com mais leveza e sorrir com bondade ao escutar que o ex-Beatle é quem terá o privilégio de abrir o show da mocoronga dupla bovinense. É pensar com mais carinho em minha província, pôr a célebre venda nos olhos e dizer que a Feira do Livro é perfeita porque é nossa, e ponto: jamais dizer que seu modelo está superado e que se o evento assim prosseguir, bom. É esquecer as despesas estaduais com o laquê, é ter coragem de fechar esse blog. É ver meu Brasil sorrindo com uma cor só, como um time, e calar o que penso, resignada. Essa falta de crítica é estagnadora, o concordismo não leva a nada bom. Mas afinal, quem se importa?

    * Unidade de informação cultural, como prática ou idéia, que é transmitida verbalmente ou pela ação repetida de uma mente para outra. Aqui tem uma interessante caracterização de meme.

    1. O Bovinenses não adota as regras do Novo Acordo Ortográfico. 2. As opiniões aqui expressas refletem o que o autor pensa, e não você.

  • We're on the Highway to Hell

    (Avisos aos fiéis: 1. Post longo. 2. O Bovinenses não usa figurinhas. 3. Não adotamos as regras do Novo Acordo Ortográfico. 4. As opiniões refletem o que o autor pensa, e não você. Grata pela atenção.)

    Cara, que espetáculo deprimente essa campanha eleitoral para a Presidência. Da próxima vez, troco meu voto por caixas de Frontal; na próxima, farei campanha para que a Rainha do Pasto se candidate, para que os disparates possam ao menos me divertir e, claro, para que haja uma competição pelo visual arrepiado a laquê, escovado para o alto e agravante, up, up! Se o candidato empacou e não sobe na pesquisa, sobe o penteado dele para assustar, distrair, desviar o foco! Juro que a velhinha amou o penteado da candidata, a qual cunhou de "topetuda"; ao Serra, definiu como "sapo", olha que ironia, se você recordar do Brizola; e à Marina, demonstrou certa preocupação com sua alimentação e a chamou de "magrinha". Corcunda, com mais de 80 anos e muito bom humor, divertia-se comentando os desenhos das capas da Rolling Stone na frente da minha banca de revistas predileta, o dedinho enrugado apontava a cada desenho.

    Mas meu humor está cinza, é difícil fazer piada diante desse procedimento aí de assistencialismo em troca de votos, é de dar gastrite ver o ódio mútuo, as acusações rudes e insultuosas entre os candidatos; é dose assistir a falta de tolerância com opiniões diferentes, em um clima de caça às bruxas e falsas denúncias. Até o Bovinenses entrou na lista negra de militantes não sei de que lado. O blog sofreu um atentado no início de setembro, quando alguém denunciou o link desse post no Facebook como "conteúdo impróprio". Deu o que fazer, mas meu alemão (in)fluente ajudou a desfazer o estrago. Dei-me conta do poder que entregamos às pessoas ao adicioná-las como contatos e bloqueei meu back door, por assim dizer, na rede social. O próximo passo é acionar minha ferramenta viral de contrainformação política a cada asneira que um candidato disser, a cada traficância sem explicação, a cada spam recebido.

    Sério, estou furiosa. Invocaram até Jesus para desviar a atenção da falta de programas concretos de governo, e mandaram ao inferno todos os infiéis ou aqueles cuja fé não é cristã. A fé é uma crença íntima que jamais deveria se misturar com Estado. Eu não tenho nada contra Jesus, desde que ele não interfira na política nem na minha vida. Do contrário, é macerar a bunda divina pelada a vara. Não gosto desse clima de Jesus, de comer criancinhas ou de pregar a caretice como modelo a ser seguido. Tenho medo de gente que exalta "pessoas de bem", "família brasileira", "a Igreja e a fé". Se há quem venda seu voto em troca de ladainha religiosa, candidato algum deveria tirar proveito disso: é pornô*.

    E é cesta básica, é remédio, é um tal de dar tudo grátis em troca de voto que me cora a alma. Seria mais decente que os brasileiros pudessem ter condições de adquirir por si mesmos suas próprias coisas, que se libertassem da dependência dos favores. Para que as pessoas não precisassem pedir, implorar por medicamentos, alimentos ou trocar seu voto por benesses populistas seria impositivo um projeto corajoso, de longo prazo, envolvendo reformas profundas, economia, segurança, educação, sem trololó nem topete, apenas respeito e rigor espartano. Afinal, em troca de nosso sangue, damos bastante dinheiro ao governo federal para que justamente nos forneça o que nos é de direito, de forma digna, correta e com qualidade.

    Tchê, essas são as eleições mais bagaceiras que já vi. Dividiram-nos em brasileiros e brasileiras, todos e todas, eleitores e eleitoras, presidente e presidenta, ora, que bobajada é essa? Não sei você, mas eu me sinto discriminada, pois achava que fazia parte do coletivo no masculino, todos juntos e iguais no substantivo, sejam heterossexuais, gays, lésbicas, psicanalistas, transexuais ou barbies. A divisão é sexista, e além disso me faz lembrar que tenho útero e isso evoca papanicolau. Não é por menos que o país figura em 85º lugar no ranking da igualdade entre sexos.

    A preocupação dos candidatos com a hipercorreção de gênero é índice de ignorância e demonstra que suas posições são oleosas, ambíguas e abraçam a todos os deuses − ou quem sabe deuses e deusas, seres humanos e seres humanas? E olha que nem mencionei a pataquada que fizeram com o Título de Eleitor. É por conta dessa farofada política que defendo a adoção do novo Hino Nacional, Adocica. Abraça eu, Beto Barbosa! Vamos abraçar árvores! (Afinal, as árveres somos nozes e o jardineiro é Jesus.) Vamos aplaudir o pôr-do-sol! Seja orgânico, coma cocô! Pelas batas do arcebispo, é de admirar a nossa patetice!

    Além da feminização excessiva, e da beataria fanática, o nível do debate está raso, peitando o âmbito pessoal e só falta os candidatos saírem no tapa na cara, no salto alto na careca, porque os ataques já estão dentro das casas de cada um, envolvendo família e crenças. Se esse é o tipo de presidente que merecemos, olha, então os brasileiros realmente estão muito mal no que diz respeito à decência. Se nossos governantes são um espelho de nossa sociedade, a sociedade brasileira está doente, e temo, mais que ter nascido em lugar errado, que meu comportamento comece a ser visto como ameaçador, já que a fraudulência está institucionalizada. É frente a essa realidade que vejo, com tristeza, muito nostálgico por aí dizendo que "na época da ditadura não era assim" e que "é o que dá terrorista tomar o poder". Isso é um soco na cara de todos nós que lutamos pela democratização desse país.

    Mas agora quem não pensa de acordo com a cartilha é inimigo, é contra a vida e contra o Brasil. A batatada é farta e a retórica, vazia. Acusam quem pensa como eu de ser "de direita". Não sou de direita, nunca fui. Acontece que a esquerda, aquela do sonho comum, da esperança e da igualdade, me pregou um belo par de chifres, cara. Estou arrependida de ter acreditado na chamada "esquerda". Sinto-me usada, sinto-me palhaça, sinto-me estuprada, e nem aborto eu posso fazer. Não bastasse o trote político, o "tapetão" que me puxaram, sucumbi no mar das trevas da valorização da ignorância. Ter grau superior hoje só entrava a sua vida, o diploma é como um espantalho, ninguém mais quer pagar o quanto você custa e nem metade disso; o mercado se voltou ao estagiário, ao trabalhador de ensino básico ou médio. Esses têm emprego, crédito e podem até mesmo ter filhos. A classe média com terceiro grau empobreceu, endividou-se e está desempregada, desesperada e esquecida: desapareceu, e ninguém quer saber dela, afinal, quem conta para o voto são as classes C, D e o restante do analfabeto.

    É de chorar: até o humor andou proibido durante um certo período da campanha eleitoral. Em um site de partido, li, horrorizada, que o oxigênio continuará disponível, caso o seu candidato vença: ele promete que preservará a liberdade de expressão e de convicção religiosa, como no governo atual. Ora, eu não cogitava nem em sonho a possibilidade de o direito à liberdade de culto, de pensamento e de expressão me ser retirado! Mas o candidato coloca isso como se fosse uma dádiva!

    Ora bolas, todos nós, blogueiros, sabemos como foram difíceis e complicados esses últimos tempos, o quanto fomos ameaçados, processados, "assacados" e perseguidos. Tem blogueiro que teve de fechar o blog e sair do país. Tem blogueiro há meses proibido de postar. Outro, não bastasse a mordaça, foi obrigado a retirar todo o conteúdo de seu blog. Tem outro que foi novamente processado pelo mesmo chato, um crismado obcecado por banners patrocinados. Antes de publicar um post, tenho moído muito a moringa para evitar problemas, e isso se chama autocensura. Deus é temor, como diz o Dahmer. (Vote Dahmer para presidente aqui.) A censura a blogs no Brasil repercute internacionalmente, e, acredite, há candidato aproveitando para se promover até com isso. Não termina aí. A miséria de escribas bem-relacionados também tem servido de palanque e cabo eleitoral virtual. Tenho pesadelos reincidentes com as manipulações do pensamento em Cuba e na China.

    Estou furiosa, de saco cheio e cansada. Saturei a paciência com gente que promete céus e moverá montanhas, mas que não responde sobre despachos de galinha preta disfarçados de marzipã nem explica escândalos que aconteceram em sua própria Casa**, investimentos pessoais e desvios feitos com dinheiro público. Gente que enaltece a ANAC, esquecendo-se da falta de decoro de vários nomes institucionais diante da tragédia em Congonhas, em que morreram 199 gaúchos por conta de descaso; os corpos ainda não haviam esfriado e, poucos dias depois, os eclesiásticos do caos aéreo trocavam medalhas em uma cerimônia repleta de sorrisos e alegria. Diversos órgãos, agências e instituições públicas estão minadas, transformadas em um grêmio ou facção a serviço de interesses próprios. Eis o que o Brasil tem hoje: uma superestrutura repleta de cupins, agregados que fazem qualquer negócio para se locupletar às custas do meu, do seu, do nosso trabalho. Pagamos impostos mais altos que na Dinamarca, onde se vive como rei, para manter essa estrutura de poder viciada, sem receber de volta ao menos um relatório. E eu duvido que este ou aquele candidato possa mudar isso, que algum deles consiga extirpar a cupinzada, a súcia que tomou conta da estrutura do poder.

    Estou farta de escutar mentiras, de ouvir uma catilinária gaga no repeat infinito de termos como "nós" (quem?), "você está errado", "essa questão", frases cortadas por centenas de vírgulas e raciocínios incompletos, em um tom professoral que não convence porque não explica nada de nada. O candidato está certo para todo o sempre, amém. Feche os olhos e ouvidos. É tudo mentira, calúnia e miragem, boatos maldosos: no poder, estão todos beatificados, e você não deve pensar o contrário use a corrente do bem e o exu desaparecerá. E ninguém, absolutamente, responde pelos desmandos ou sabe de coisa alguma, são carapitangas imaculadas e a culpa é da imprensa golpista. A imprensa, essa cadela partidária, é que fica inventando fatos, factóides e outros derivados maliciosos. Eis o partidarismo da coisa pública, e isso só tem um sentido, o vertical para cima, em tom escarlate. Meu Fodômetro atingirá seu ápice, e eu espero estar com os orifícios já ocupados, pois a quantidade de gigantescos falos voadores que virá é de Temer.

    Sabe, chega. Como você, meu caro leitor, estou gasta de ver gente que faz qualquer coisa para vencer, e isso se estende a quem diz absurdos para angariar votos. Quero deixar claro aqui meu repúdio àquele que se mostrava livre de crenças religiosas e, em momento de pleito, tornou-se devoto de santo; isso é mais que hipocrisia ou oportunismo, isso é desprezo pela sua e pela minha inteligência. Quanto mais o nível de campanha decai para atingir as camadas da base da pirâmide, menos alfabetizada e carente de senso crítico, mais sinto que os candidatos riem de minha miséria, pois de repente saiu de moda pensar. Agora, hype é dar graças por "almoçar e jantar" e certo é ver político como pai ou mãe. O golpe é contra todos nós, os eleitores, em tese os verdadeiros donos do poder. Não precisamos de pai nem mãe como presidente, e sim de um estadista, de alguém que valorize conhecimento, civilidade e bom senso, que ajude a promover a ascensão de todos, independentemente de sua cor política, ao que é justo e bom. Comprar carro, por exemplo, não é bom: polui o meio ambiente e nenhum governante infeliz pensa em reformar o trânsito das cidades − Porto Alegre, nesse sentido, está um inferno para motoristas e pedestres. Ter por ter não ajuda ninguém a melhorar como ser humano. Se em vez de ter chance de comprar carro, casa, celular, viagens de avião, etc., as pessoas tivessem acesso à educação de qualidade, nosso mundo seria outro. Teríamos mais jornais, mais pesquisadores, mais escritores, mais arte, mais questionamentos e talvez menos crimes e um parlamento mais ético. Isso é o que importa ter: um mundo melhor.

    Há muito estamos acostumados à gandaia, atravessamos vazadouros de lama e coliformes como se fosse uma grande fuzarca e nos transformamos, por covardia, em amigos dos espíritos das trevas para evitar o bullying político ou para não parecer intelectual, como se pensar criticamente fosse vergonhoso; por estarmos habituados ao abuso, perdemos a noção de cidadania e zoamos de nossa própria desgraça elegendo palhaços e afins. Assim, já que escolhemos ficar à mercê das bênçãos da conveniência, já que preferimos ser um rebanho conduzido em vez de dominar as crinas do nosso destino, já que não temos mais dentes a perder, proponho que na próxima eleição o eleitor considere com carinho a idéia da subversão. Não confunda mulá com torá. Pensar "não tem tu, vai tu mesmo" é como dar de ombros ao futuro, é suicídio. Vire essa mesa, vivente! resista, mostre que não está contente. Na indecisão, o Anticristo tá aí pra isso: Ariela, 666.

    * Sobre a o uso de convicções religiosas em troca de votos nestas eleições, sugiro o artigo iluminado de Eliane Brum sobre a demonização do aborto: "Menos leviandade, por favor". Revista Época, 11/10/2010.

    ** O site da Casa Civil está entregue às moscas desde a demissão da então ministra Elenice Guerra, em setembro: não há biografia do interino, notícias ou agenda.

  • Rumo às profundezas do Tártaro

    Enquanto as boas-novas não chegam, e a água prossegue entrando com mais profusão do que o tamanho de meu baldinho pode suportar, resolvi abrir o boteco hoje para postar um texto a propósito. Dia 29 de outubro começa a 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, um evento cultural que é a menina-dos-olhos de todo bovinense. Não que o gaúcho ame livros, embora o IBGE insista em pregar que o Pasto é onde mais se lê e se é melhor em tudo. A dúvida me inflama todas as veias, pois não deve ser à toa que ficam em São Paulo as maiores editoras, lá, onde vivem 19 223 897 almas − também de acordo com o IBGE. Mas todo bovinense ama a Feira do Livro, ela é o seu Caminho de Santiago, e os autógrafos dos mais vendidos, sua hóstia; o objetivo maior é banhar-se na multidão, zanzar, curtir essa festa tão bonita, enfrentar as preciosas filas − patrimônio porto-alegrense − e curtir a chuva que teima em cair durante todos os dias, durante cada edição do evento. Então, resolvi publicar essa crônica aqui abaixo, pois ela é a) uma homenagem sardônica aos nossos costumes; b) porque foi publicada no querido paralelos.org, hoje só existente no Internet Archive; c) porque em 2010 o patrono é ninguém mais que Paixão Côrtez, o boludo dos boludos, e d) porque Deus assim quis. Falando no Todo-Poderoso, observo que, como toda peregrinação religiosa, a ida à Feira do Livro precisa ser dolorosa, e este ano ela terá mais um elemento de autoflagelação: a Praça da Alfândega, onde se dá a romaria, está em obras de recuperação histórica. Voilà!


    RUMO ÀS PROFUNDEZAS DO TÁRTARO
    por Ariela Boaventura

    Saiba como foi o penúltimo dia da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre

    Corpos me espartilhavam de todos os lados. Estava num corredor polonês, as pessoas se comprimiam entre as bancas e a grade de um dos jardins da Praça da Alfâdega. Num preguiçoso movimento ondular, uma fila de gente vinha e outra voltava. Famílias inteiras, ilhas de pais com um mar de crias à sua volta. Por algum mistério, todos comiam picolés, sorvetes, pipocas, algodões-doces, batatas-fritas, cachorros-quentes − ou bebiam refrigerantes, uma meleca que se espatifava nas suas roupas e grudava nas dos passantes. Os loucos todos também haviam marcado encontro por lá: um pregava o fim do mundo, outro esbravejava contra jornalistas, meios de comunicação, deputados e o Congresso Nacional; uma maluca arrastava a filha pela camiseta, aplicando-lhe sopapos do lado do ouvido, enquanto a guria gritava como uma caturrita em transe. Abrira-se a porta do inferno naquele sábado, o penúltimo dia da 49ª Feira do Livro em Porto Alegre. Como nasci com instintos suicidas, resolvi me embrenhar em meio ao Hades para encontrar um livro interessante. O penúltimo dia da Feira é a véspera do Juízo Final, à exceção de que não virá ninguém para te salvar.

    Poucos instantes após ser absorvida pela massa onduliforme, meu instinto vice-versou, e transformou-se em psicopatia. Cada criança que chorava incitava-me ganas homicidas. Ainda restavam alguns centímetros para vencer o fim do corredor polonês quando, pouco adiante de mim, uma alemoa gorda que transpirava manteiga pelos poros estacou. O tráfego todo parou para que ela pudesse apreciar o balé que um livro fazia, pendurado num estande. Ancorada numa das mãos da alemoa uma cria se debatia, berrando. Senti que estava prestes a ter um ataque cardíaco. Pedi licença e, ao passar pelo pote de manteiga, esbarrei sem querer na criança e pisei com tudo em seu pé. Foi um acidente, mas aquilo me lavou um pouco a alma gangrenada de fúria. Desculpe, bêibe, pensei; o dodói já vai passar; além disso, eu tenho só alguns anos mais de vida, enquanto você tem ela inteira pela frente. A criança ficou para trás, berrando a plenos pulmões. Lembrei da mulher de Ló e resolvi olhar somente o que o caminho à frente me reservava.

    Com a histeria de fim de Feira, fica impossível chegar perto de um balaio de promoção, por mais chinfrim que seja. As pessoas se acotovelam perigosamente em volta da caixa, como abelhas em volta de uma colméia. É uma batalha na qual só aqueles tipos mais agressivos conseguem lugar. Numa ânsia maníaca, só explicada pela certeza do amanhã não tem mais, eles farejam, bolinam, despentelham capas, folheiam, enfaram a curiosidade e depois atiram os livros longe, com desprezo. Numa estatística para lá de subjetiva, se isso for possível, pode-se dizer que, de cada centena de bolinadores, apenas dois compram; destes, um encontra algo raro a preço bom e o outro leva uma inutilidade a R$ 5 que ele jamais vai abrir. É exatamente o contrário do que ocorre no primeiro dia, quando se encontra muitas peças ótimas por barbada, se é bem-atendido e os compradores são educados, em geral solteiros e sem filhos. É o pessoal que mora no Centro ou nas redondezas que vai no primeiro dia. No penúltimo, a cidade toda acorre. E, como praga nunca chega sozinha, neste sábado era feriado, só havia duas coisas a se fazer na cidade: ir à Feira ou à Bienal, o que dá na mesma, porque a Bienal se estende em volta da Feira.

    Lúcifer me seguia. A certa altura, não antes das minhas vísceras receberem um murro de uma senhora cujo rosto parecia-se com o da Madre Teresa, encontrei Cartas na Rua, do velho bebum, escondido atrás de um tratado geral de química orgânica avançada. Finalmente, uma esperança. A edição era de 1987, mas estalava de novo. Antes de me decidir no impulso, e entortar o coração de culpa por comprar só malandragem, dei mais uma olhada pelo balcão do estande. A preço de um dígito, mordi um Barthes clássico, só para não perder a fama de chata. O ideal, num dia em que o diabo está solto, seria pegar o livro e se mandar, porque se você quer fazer a coisa direito recebe toltchoques na cara. O dono da banca era surdo e cego, ou talvez eu estivesse invisível, essas coisas a gente nunca sabe ao certo. Para sorte dele uma senhora me ouviu e eu paguei, antes de desistir dos livros, das compras, das pessoas e sair arrebentando tudo que visse pelo caminho.

    O livro impossível
    Uma obsessão é algo que não te abandona. É possível perder tudo na vida, mas as obsessões a gente carrega para sempre consigo, num bolso. E eu precisava encontrar um certo livro que nenhuma editora tem.

    A jogada é assim: você se mete dentro de uma multidão ensandecida, cheia de mães histéricas, velhinhas homicidas, cigarros periclitantemente acesos e crianças ranhentas e jura que vai conseguir sair dessa vivo. Mas o jogo só fica bom mesmo se, além de conseguir vencer a multidão sem ser pisoteado, você tem uma missão impossível como esta: escontrar um livro dificílimo, semi-inexistente. É sadomasoquismo, uma espécie de vingança aliada a um gosto por sofrer, ou, ainda, o prazer do desafio à realidade e à paciência das pessoas; em última instância, é um exercício rumo à iluminação búdica ou ao último degrau da degeneração humana.

    O nome do livro é Minima Moralia, uma bíblia de aforismos filosóficos de Theodor Adorno. Tem um morando lá em casa desde o início do ano, mas pertence biblioteca do Instituto Goethe. Me apeguei como a um filho, não tem jeito de devolver, a não ser que o substitua por outro igual. Portanto, havia pelo menos um pouco de razão nesta aventura.

    Cocô de passarinho
    Para se ter uma idéia, só uma idéia, porque o número preciso eu não sei, são 124 bancas de livros distribuídas por 10 mil m2 de área. As bancas são como estas de revistas, só que cheias de, ora, batatas que não seriam. E sobre as bancas há uma cobertura plástica desenvolvida para proteger as pessoas da chuva, que cisma em cair sempre nas três semanas de Feira do Livro. Palmilhar esse espaço é algo banal em dias banais. Mas em dias de Feira é uma epopéia que não raro leva casais à separação e mães ao hospício. Os casais brigam por discordarem nas compras, por estarem cansados, por terem bebido demais no bar ou por qualquer outra ninharia; as mães se perdem das crias, ou o contrário.

    Esse ano, a organização da Feira inventou um espaço para os pimpolhos. Ali é o portal que leva direto ao sétimo círculo do inferno, sem escalas. O horário de recreio em um manicômio é um cemitério perto daquilo. A aglomeração de pessoas (pais, avós, cachorros, pivetes) é tal que nem um monstro vindo diretamente de um filme do Spectraman poderia dispersar essa gente. Palhaços e bailarinas, conjuntos musicais infantis e "bonecos vivos" levam as crianças às raias da loucura. Passei bem longe dali, por precaução contra meus instintos malignos, e segui minha epopéia. Ao fazer uma pausa para um cigarro, debaixo de um dos jacarandás, tive a certeza do que já desconfiava eu só podia mesmo estar sendo ciceroneada pelo capeta. Porque um passarinho, por distração ou incontinência intestinal, cagou, e seu cocô caiu lá de cima justo no ombro esquerdo da minha camisa branca. Suspiro.

    Banca a banca, em busca do livro inexistente, recebia sucessivos nãos. É como catar pulgas (por isso, talvez, "mercado de pulgas"?), a busca se retroalimenta a cada fracasso. Encontrei quem eu não procurava: Mishima, a trilogia toda separada, um livro em cada banca, a R$ 10 cada. Atropelei um velho que mancava e quase colidi com um cego; dancei uma chula sobre a sua bengala e amaldiçoei meu mau humor. Por fim, bolhas e fome, as primeiras nos pés e a outra no coração do estômago. Chegara a hora de dar adeus às barracas e ao enxame de gente. Não consegui a iluminação, apenas um olhar de escárnio do Maligno, que me piscou o olho e disse:

    − Não chora. Ano que vem, tem mais.

    − No ano que vem eu venho no primeiro dia − respondi-lhe, mostrando a língua. E me mandei para casa, para esperar o Juízo Final em paz.

    A Feira do Livro completa 50 anos de existência ininterrupta no ano que vem. A farra dos livros acontece na Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre, à sobra de dezenas de jacarandás centenários, onde vivem milhares de passarinhos alegres, mas com incontinência intestinal. Os porto-alegrenses adoram eventos culturais, principalmente porque adoram atrolhos de gente e entrar em filas. Há filas para quase todos os gostos, em quase todos os lugares: para comprar pão, no restaurante, na danceteria, no cinema, para ir ao banheiro do bar, comprar sorvete e até para pegar uma cerveja. A Feira do Livro, portanto, reúne as coisas mais caras ao porto-alegrense: cultura − na figura do livro −, atrolho de gente e filas (para o banheiro químico e para os autógrafos).

    Em tempo: A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do país e o maior evento do gênero realizado ao ar livre na América Latina.

    :: dezembro 2, 2003 03:55 PM

  • Tempo sem pausa

    Ficou um pouco poluído por aqui. Os salsichas dizem que não é no servidor deles. Eu acho que foi uma notinha em corpo 7 que eu não enxerguei bem, dizendo que os adsenses em profusão faziam parte. Mas atrapalha a leitura deveras, ainda mais em um blog que foi criado para só exibir texto e quer continuar assim.

    Bovinenses vai migrar, mas não vai ser hoje.
    Tem que fazer a mudança sem quebrar a porcelana.
    A política é a de diques: começou a entrar água por vários lados, e só tenho um baldinho daqueles de praia. O domínio e o servidor já temos.

    É o que importa, fora a paciência e a memória dos bons.

    Estamos trabalhando para melhor servi-los, ou não.

    Espero ter boas-novas em breve.

  • Balde cheio, discurso vazio

    Não é apenas da lama da Expointer que sobrevive a alma bovinense. Há uma parcela de lodo viscoso e podre oriundo de setores os mais variados que inflamam até a raiz de nossos pêlos sagrados do bigode; um tal atoleiro geral que afeta cada bovinense de tal maneira que aderiu-se ao mutismo. O bovinense é mudo, surdo e cego porque é muito sensível a determinados tipos de lama. Bosta de cavalo, tudo bem, há até certo prazer em sentir o cheiro orgânico dessa classe de excremento. Mas outras categorias de cocô não lhe caem bem.

    E eu estou pasma com a quantidade de bosta atirada nos ventiladores da mídia só agora, em plena época eleitoral. Claro, sou uma imbecil assumida, e por isso não aceito, por exemplo, a declaração do ministro da Fazenda Guido Mantega. "Os vazamentos da Receita sempre ocorreram", ele disse.

    Se "sempre ocorreram", nada existe de anormal, é o que essa frase quer induzir, entortando a lógica que aponta para caso de polícia. É o mesmo desenho de argumento utilizado por certo candidato à chefia do Bananão, que, defendendo-se das acusações desse mesmo caso, disse que a quebra de sigilo é coisa de 2009. Ou seja, se foi feito no ano passado, que importância tem agora? Ambos os argumentos têm o mesmo gene de parentesco. Ambos, em vez de assumir que algo muito grave ocorreu, tentam minimizar os fatos e desviar a lógica de seu curso normal. E deixam a mim e a você, respeitável leitor, com cara de paspalho, palhaço, ruminante, pois somos obrigados a votar.

    "Se você olhar para o passado, tem vários [vazamentos] que aconteceram." Como assim, ministro? E ele fala como se eu devesse estar ciente de que meus dados andam vazando por aí há anos, das mãos da Receita para as mãos sabe-se lá de quem, para usos sabe-se lá de que tipo. E ele fala como se eu tivesse de aceitar isso como fato corriqueiro. Se o sistema da Receita é falho, se sua segurança é podre, há meios hoje em dia para saneá-lo e torná-lo seguro; a Receita Federal tem o dever de oferecer um sistema seguro, ministro. Meu advogado não acha normal esse tipo de irresponsabilidade. Eu não admito que a culpa seja sempre do sistema, não nesse caso.

    Eu também fico admirada com certa ingenuidade de quem elabora coisas como vazamento de dados sigilosos e que não se dá conta de que peixe pequeno e "terceirizado" não tem nada a perder e fala por qualquer R$ 10 mil na carteira, e que não tenha noção de ridículo e esconda dinheiro grosso em cuecas e vasos ornamentais. Olha, se isso não feder mesmo, se isso não respingar, vamos ter todo o direito de desconfiar da segurança e da integridade do sistema da urna eletrônica.

    Esqueçamos agora a lama federal e voltemos rapidamente os olhos para nosso amado Pasto. Canos políticos frágeis vazaram dados sigilosos por aqui também. Parece que é ato institucionalizado, moda, estilo de fazer política. Ninguém usa mais a palavra crime, é termo anacrônico. A Polícia do Rio Grande do Sul prendeu hoje um sargento da Brigada Militar "suspeito" de vazar dados de políticos gaúchos. Por meio do sistema, o cara fez milhares de consultas sobre políticos, partidos e bicheiros, e pode ter acessado dados fiscais estaduais e processos em andamento na Justiça, inclusive os que estão sob sigilo. Aqui no Bovinenses a gente não esquece que o caso Detran estava sob sigilo. E lembramos também que sargentos cumprem ordens, em geral.

    Pausinha para respirar.

    Estamos eufóricos, afinal, é setembro. Para quem ignora, dia 20 de Setembro o Pasto celebra a sua "pátria". Há desfiles de cavalos, o melhor amigo do gaúcho; canta-se o Hino Rio-Grandense, homenageiam-se as tradições dessa gente, como o chimarrão, a boleadeira e a chinoca. Programas de moda falam sobre a indumentária do gaúcho, misturando Vivienne Westwood com o estilo de Paixão Côrtes, advogado, folclorista e modelo do Laçador, estátua-símbolo de Porto Alegre, a melhor cidade do mundo.

    Em setembro, nosso governador torna-se o presidente de uma República Rio-Grandense, e veste bombachas mesmo que use saias e móito laquê. Sempre chove, e a água se mistura ao tapete tépido de estrume que cobre as ruas, exalando um odor tão característico à cidade que deveria ser tombado como patrimônio cultural. Estamos em setembro, o mês do Pasto, quando se acenderá, em breve, a chamada Chama Crioula, outro símbolo bovinense, esse porém um pouco perigoso pelo risco que o chefe pastoril corre na hora de acendê-lo. (É possível que, se terroristas houvesse, a chama fosse abolida por questões de segurança, ou mandassem um escravo acendê-la.) Da última vez, o fogo explodiu, chamuscando delicadamente certos pêlos cobertos de laquê. O Parque da Harmonia se transforma em acampamento, vacas são assadas inteiras em espetos cravados no solo úmido, o mate rola solto e turistas chegam de todas as partes do mundo para ver de perto os hábitos dessa gente. A harmonia é o nome correto para tamanha hospitalidade: é quando o gaúcho se despe de sua dureza e sua alma desconfiada se abre para exibir o orgulho de seus costumes: rústico, mas amável.

    E diante de tamanha festa é possível prever com exatidão, salvo um escândalo de proporções incontroláveis e as proporções atuais são do tamanho do universo , como dizia, é possível adivinhar com certeza que as eleições correrão em paz, celebrando nossa democracia tão sólida e exemplar. E assim, as dores de cabeça de hoje serão esquecidas. Até porque, penso cá eu com meus botões já gastos, é preciso contar com patrocinadores de peso para a festa dos Farroupilhas, não é? Ah, pois é, eu é que não vou ficar fazendo assertivas aqui que me deixem em uma posição difícil mais uma vez. A gente aprende, graças à aplicação exemplar da lei.

    Em todos esses casos, 1) vazamento de dados da Receita Federal e 2) o vazamento de dados de políticos gaúchos pelo sargento, além de 3) a "suposta fraude" no banco dos gaúchos, é preciso reconhecer que investigações que interessam à sociedade, investigações sobre o vazamento de dados de brasileiros, investigações sobre desvio de recursos públicos, investigações dessas classes e desse tipo de gravidade ficarem sob segredo de justiça é coisa que só perde em razoabilidade diante do fato de todos nós sermos obrigados a votar em gente suspeita de bandidagem.

    Leitor, apure seu ouvido para as palavras utilizadas em declarações. Embora a retórica seja de baixo nível, sua forma pode confundir. Seria louvável que a imprensa ajudasse e não se detivesse somente em declarações oficiais: precisamos mais do que nunca de investigação isenta de interesse político. Seria ótimo que pudéssemos continuar contando com os Ministérios Públicos, mas, independentemente do papel da Justiça, precisamos mais do que nunca de liberdade de imprensa, para cumprir a função social de nosso trabalho. A política chegou ao nível dos esgotos: repleta de imposturas, pejorativa e malcheirosa, constitui, e eu lamento isso, o que se cunhou em filosofia como "falar merda". A essência de falar merda não é dizer algo falso, mas adulterado é um blefe, uma camuflação , e o único objetivo do falador de merda não é deturpar a verdade, mas nos enganar em relação às suas intenções. "Falar merda é um inimigo muito pior da verdade do que mentir".*

    E não venham os arautos da modernidade dizer que isso tudo nos deixa bestas porque hoje temos mais informação: nossa informação é cuidadosamente filtrada, e qualquer dia haverá um advogado em cada redação.

    E seria recomendável que os governos começassem a pensar seriamente em um tampão absorvente ou obturador para estancar os vazamentos de seu material cloacal. Se você não pode mudar seu caráter, disfarce, aconselhava Maquiavel. Voto não é lixo. Eleitor não é latrina.

    * Sobre Falar Merda, Harry G. Frankfurt. Ed. Intrínseca, 2005. Trata-se de um ensaio filosófico sobre o discurso denominado como falação de merda. Frankfurt é um filósofo moral e professor de filosofia na Princeton University.

  • Neve, alegria do bovinense

    Com a chegada do frio, algumas cidades do Pasto tornaram-se brancas.
    Os turistas adoram. Os jornais ficam flocados de notícias sobre o tema. Quem não curte neve?
    Mas esta não é qualquer neve, é a neve do gaúcho: não tem nada igual.
    É a melhor neve do mundo, porque é daqui.

    Coça essa moringa, vivente! Pensa bem, tchê! Cancela aquelas férias no norte da Europa, vai ali na Rodoviária de Porto Alegre e compra uma passagem para Bom Jesus. E já aproveita para comer a excelente torrada de queijo a R$ 2 pila que só na nossa rodoviária tem.

    Alguns moradores e turistas ficaram em choque diante das paisagens brancas de algumas cidades. "A gente ficou até meio abobado", disse um alguém, olhando para a ponta meio esbranquiçada de seu cachecol e rindo. O "abobado" é porque as pessoas ficam assim: olham para o fenômeno e riem, indagando a outras se elas realmente estão vendo o que estão vendo. Ficam eufóricas, felizes com a natureza, por estar vivas e tocar na neve, sentir ela caindo sobre seu rosto, ficam assim, lindamente loucas, como se tivessem tomado LSD, visto Jesus ou, mais adequadamente, as duas coisas.

    As fotos que vi de Bom Jesus, lamentavelmente, são assustadoras. A cidade tá parecendo Hiroshima arrasada pela bomba ou Nova York pós-11 de Setembro. Não é aquela neve limpa, branquíssima, com bonequinho cute de nariz vermelho, sabe? Não é aquela neve de Hollywood, perfeita como só no estúdio. É uma imagem desoladora e os bonequinhos parecem umas batatas enormes com palitos. Parece que caíram cinzas sobre a cidade, parece que Deus fumou e fez a cidade de cinzeiro. Mas é neve, a nossa neve!

    Em minicolóquio, decidimos aqui em casa, eu e Otto, meu amigo imaginário que está de cama, adoentado, bom, decidimos batizar essa neve exclusiva. É exclusiva porque só cai sobre o Rio Grande do Sul, porque aqui é a terra do gaúcho, um povo cujo Pai-Nosso é em bovinês e seu Jesus toma chimarrão. De maneira que aqui não cai qualquer neve, aqui cai a "Bovineve". Aqui, bovinense não se mixa: se houver nesvasca, é para gaúcho guasca. Agora tu pode dizer que aqui, na tua terra, neva. Mais um orgulho para essa nação.

    Meu recalque é que, quando nevou em Porto Alegre, em 1984, eu estava em Pedro Juán Caballero, Paraguai, aprendendo espanhol em uma escola cravejada de balas de canhão da Segunda Guerra. Morri de inveja, e o resultado disso você vê aqui, nesse texto. Como Otto está doente, e minha conta bancária está com mais de R$ 3 mil negativos, com saques proibidos, não posso ir até a rodoviária e comprar uma passagem para São Francisco de Paula. Não pela neve, mas porque lá tem uma luz e um oxigênio que me dão esse "efeito de neve": abobalhamento; porque queria construir uma casinha lá, ter bichos e filhos, cada um em seu gênero.

    Fora essa última parte, o post não é sério: isso é só mais um daqueles post band-aid.


    Ops! Como confio e oro para que haja leitores de outras regiões, e eu mesma estranhei, achei mais amigável deslindar o verbete "mixar", cf. Houaiss, e que o bovinense usa no sentido dos itens 2 e 3:
    Acepções
    verbo
    Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
    intransitivo
    1    chegar ao fim; terminar, acabar
    Ex.: nosso dinheiro já mixou
    intransitivo
    2    fazer não dar certo ou não dar certo; gorar, frustrar(-se), malograr(-se)
    Ex.: o mau tempo fez m. o piquenique
    intransitivo
    3    perder a intensidade; enfraquecer, diminuir
    Ex.: a animação mixou e a festa acabou

  • "Me passa aqui esse jabulani, tchê!"

    Desculpa aí, bati muito forte com a cabeça: eu havia prometido contar alguma coisa aqui? Esqueça.

    Bah, eu estava fora da realidade, mesmo. Hoje chegou a nova TV, e com ela a agenda brasileira, futebol e muita diversão classe. Aterrissei.

    A começar pelo mais novo adjetivo para coisa ruim, fedorenta, feia, malfeita, maldita, desengonçada, imprestável, esquisita, tronsa: jabulani. Para coisas caras e desprazerosas, infelizes: "Sabe aquele novo restaurante? bah, maior jabulani". Estética do estrupício, tribufu: "A namorada do fulano? credo, é uma jabulani!". Aparelhos falidos, avariados: "Esse celular já tá que é uma jabulani". Esportes: "A equipe teve um desempenho de jabulani". Eventos ruins: "Aquilo foi coisa de jabulani, mesmo". Churrasco: "A costela do Beto tava de jabulani". Bovinense gaudério metido a boludo, referindo-se a uma coisa aporreante, sacal, como sempre no masculino: "Me passa aqui esse jabulani, tchê!". Pior. Mães entusiastas do futebol darão nomes em homenagem à efeméride a seus filhos, e centenas de Jabulanis serão batizados. Se forem meninas, haverá ainda uma derivação: Jabulânia. Gêmeos? Jabulani e Jabulânia. "E aí, Jabú?", é como serão chamadas na escola. Horrorizado? Duvida para ver. Jabulândia vai inspirar nomes a cidades brasileiras.

    Liguei a TV após o jantar como digestivo, e parecia que eu chegava de uma viagem a Marte: estranhei todo mundo. A Cristiane Pelajo estava gordíssima, com uns peitos enormes, pneuzinhos laterais saltitantes, a maquiagem parecia manchada, deselegante, enfim, estava uma jabulani. A Fátima Bernardes também não parecia bem, muito cansada, com olheiras e sem voz. O Faustão, pelo menos na propaganda, estava magérrimo, fiquei espantada. Outros dois repórteres envelheceram deveras. Durante o intervalo, a Globo promoveu a assinatura de vários serviços de internet a 0,99 cents por mês, coisa de ficção. Eles só não contam que, conforme consta no site da Globo.com, esse preço aumenta para mais de R$ 12 por mês depois de certo tempo, custo para fornecer nada mais que um provedor de acesso, e eu não entendi o resto: acesso discado para quê se você tem banda larga? Negócio mais jabulani, esse.

    E teve o filme tipo Z, no Intercine; ri muito com as vozes da dublagem, tão conhecidas de todos que passam pelo ouvido sem nenhuma protuberância, a mim surpreendentes por serem sempre as mesmas: o menino com a voz de taquara rachada, o vilão, o galã e a heroína sempre são os mesmos, você já sabe distinguir os papéis de quem vencerá no final só pela dublagem. Perdi o fôlego rindo de um personagem com a voz do Drácula, cavernosa de Marlborão, empostada pela eternidade e que recordava o Scooby-Doo. Baita jabulani esse Intercine!

    Senti que passara o efeito letárgico do jantar e bateu aquela inquietação, quis buscar qualquer coisa no Google, dar um oi a um amigo e verificar o que havia de novo nos sites preferidos, e peguei... o mouse. Passei tantos anos vendo televisão pela internet que não me dei conta do absurdo: havia um aparelho de TV na minha frente, e não a tela do computador com várias emissoras mundiais em streaming, sites abertos, rádios em pause, o messenger aberto, dicionários online, lojas ao alcance da mão, email, blog, aplicações a atualizar, downloads a fazer, coisas a descobrir a cada instante. Vi um bloco de concreto preto, morto, sem interação e mobilidade, um objeto sem essência, como meditaria Descartes. (Reflito que talvez por causa do costume com a estética dos telejornais alemães eu tenha estranhado os jornalistas brasileiros.)

    Relaxar, esperar, olhar outros canais, é o que as pessoas fazem quando vêem TV, não é? Mas isso mudará em breve. Agora, em vez de pedir uma doação de aparelho de TV só para assistir a F1, como eu fiz, você pode usar um dispositivo USB para receber o sinal de TV no notebook. E daí que com isso dá para unir ambos os universos e ter o prazer de realizar o sonho de atirar aquele trambolho prédio abaixo. Você pode ver a corrida de F1, por exemplo, em uma janela, e trabalhar em várias outras, e ainda falar com seu amigo, verificar emails e atualizar sua vida online, tudo ao mesmo tempo. Daí que com isso o aparelho físico de TV perdeu o sentido: se transformou em uma verdadeira jabulani.

  • Pré-despedida

    Antes de apagar a luz e fechar a porta do Bovinenses, achei que poderia ser  interessante eu contar que espatifei minha cara no chão e quase fui encontrar Jesus. Vi inclusive a luz. Mas tenho que fazer como os entusiastas da ioga tântrica e segurar a onda, pois é trabalho até de madrugada para compensar uma rasteira que levei de um magnata da uva. Gostaria de contar também por que pretendo lobotomizar meu coração, atirá-lo pela janela, a fim de ter mais paz na vida, mas essas coisas a gente não diz em blog.

    Apareça e tente entender também o motivo que leva os bovinenses a decorarem as portas de garagem com vasos ornamentais de cimento.

    Domingão estarei aqui, com ou sem jogo, hein!

  • Sobre as virtudes desejadas em um homem

    Esse post poderia ser uma homenagem ao Dia dos Namorados, mas é um band-aid. Os alemães me escrevem dizendo que sentem saudades, pretexto que significa uma ameaça velada de me tirar o blog. Daí, bom. Escrevi essa bobagem abaixo apenas para divertir uma amiga, espécie em extinção na minha vida. Tá bom, pode ser também uma oportunidade de choramingar menos no cintilante Dia dos Namorados. Mas de qualquer forma é incoerente com a razão de ser do Bovinenses. É que estou acuada para entregar um trabalho e pagar dívidas, sabe? Então, resolvi dar uma enrolada nos salsichas. Espero que meus ex-maridos não se identifiquem com nenhuma característica abaixo: é só blablablá, como diria um ex-presidente. É algo bobinho, não daria processo. Não, não é um libelo contra o casamento, é só um pouco de mofa. E está verde ainda, ou seja, nem era para estar na banca, em exposição. E como é um texto em construção pode ficar ainda melhor com a sua ajuda, Caetano. Por isso, se você, meu único leitor, curtir e tiver dicas para melhorar essa bobagem, envie pelos comentários.


    O homem "perfeito", segundo a mente feminina ordinária

    O homem perfeito, segundo algumas mulheres, reuniria as seguintes características: seria inteligente, atraente, independente (financeiramente e emocionalmente), sensível, bem-humorado, bonito, alto, moreno, "gostoso". Um cara que adoraria presenteá-las, apreciaria bons filmes e boa música, saberia cozinhar, seria bom de cama e um faz-tudo doméstico. Antes de desejar essa criatura tão maravilhosa, vejamos de perto o que a realidade diz sobre cada uma destas qualidades:

    ♥ Inteligente: Jóia rara. É coisa tão incomum quanto achar uma nota de R$ 100 na rua, mas é uma probabilidade que, embora seja aleatória, é possível, mesmo que o percentual seja de só 0,1 em 99,9 chances. Homens inteligentes, porém, não significam nenhuma dádiva: são excêntricos, complicados, teimosos e birrentos. Sem falar que passam horas e horas em cima do que mais gostam: matemática, lógica, música, ciência... Têm hábitos extravagantes, como comer tatu escondido, e fazem piadas internas. Em geral, não cuidam do corpo nem ligam para moda, "essas coisas de gente fútil", tampouco para você. Detestam a maior parte das pessoas porque a seu ver elas são imbecis. Não raro têm alguma doença, seja física ou mental.

    ♥ Atraente:
    Ou seja, feio. Como o conjunto em sua totalidade não precisa ter harmonia, isto é, ser "belo", as chances de ocorrência aumentam, e é o tipo mais disponível. Ele pode se parecer com um personagem de Robert Crumb, por exemplo, ou ter uma leve pança, ser vesgo e ter nariz torto, mas se aos seus olhos for atraente, ou tiver algo que se "salve" (o olhar, um tique, um pinto grande) é o que vale. Aquelas chagas de espinhas chegam então a ter certo charme, como se fossem a marca de uma personalidade. O contraditório é que, com o tempo, um dia o que parecia atraente começa a se revelar esquisito ou fora de esquadro, como se um véu fosse retirado da frente dos olhos da mulher. Se o plano não for a longo prazo, e você for uma mulher conformada, contudo, eu diria que é um bom caminho para se apostar. Mas se você fosse conformada não estaria lendo isso.

    ♥ Independente $ e emocionalmente: Não quer mais nada, né? Já é raro que um homem seja emocionalmente independente (mãe, ex-mulher, futebol, cerveja, amigos da bocha, filmes de ação, amantes, filhos com a ex, etc.), que dirá com dinheiro. Olha, se o cara tem grana, ele vive trabalhando, passa o tempo entre reuniões e hotéis, viajando. Seu maior inimigo, na presença dele, será o palmtop. É um ser distante, que não precisa de nada, muito menos de você. Inevitavelmente, terá amantes e boas desculpas. Possui fetiches como marcas e carros, comidas exóticas e técnicas de relaxamento orientais em voga. É um ser frívolo, vazio, não vale nada. Se ele tem dinheiro e não trabalha, então é traficante. Em ambos os casos, você viverá de migalhas de tempo e lembrancinhas de aeroportos. Ou seja, não tem saída: é uma escolha de inevitável sofrimento.

    Presenteiro: Alguma coisa ele tá escondendo, nem que seja a própria consciência. Cuidado.

    Bem-humorado: O chato. Adora fazer as pessoas mostrarem os dentes com suas piadinhas. É simpático demais, faz de tudo para que os outros sintam o prazer proporcionado por sua companhia. Tem sempre uma expressão muito jovial, muito alegre e desvairada de energia: acorda às 6h já pronto para uma corrida, para dançar ou cantar, para te mostrar o quanto o dia está lindo mesmo que esteja chovendo canivetes. Nunca lhe dirá um não, mesmo que você queira. Em um funeral, será inconveniente. Falará com passarinhos e com os cachorros, e um dia você se irritará muito com isso, e se sentirá mal brigando com alguém tão "bacana". Enfim, é um ser insuportável porque nunca mostra o que realmente se passa em sua alma de palhaço e nos faz sentir como bruxas desalmadas.

    Sensível: Toca Star Way To Heaven no violão e chora ao ouvir Caetano Veloso. Sempre traz uma flor ou um poema de própria autoria para você; gosta de origamis e é um romântico. Seu sonho é morar em uma praia paradisíaca, ter muitos filhos com você e fazer amor ao luar. Usa sandálias no verão e no inverno também, com meias. Entende tudo o que Gilberto Gil diz. É a favor da liberação geral da maconha e de todo o resto. É do tipo liberal e quando fala com suas amigas olha direto para os seus peitos, como se falasse com eles. Adora discutir sobre o estilo de Baudelaire às 8h da manhã. Ele promete ainda cuidar de você quando estiver velhinha ou doente. Tudo é muito lindo, mas você descobre que nada disso é possível porque ele simplesmente não faz nada da vida, não ajuda nas contas da casa e passa o tempo inteiro achando que é um gênio da poesia.

    Bom de cama: Sexomaníaco. Se você não puder dar agora, ele vai atrás de outra, de outro ou mesmo de frutas, animais ou legumes. Tem um pinto grande, mas pouco agradável justamente por isso. Quererá três, quatro vezes por dia ou até lhe deixar exausta, depois apavorada e por fim horrorizada. Deixará em seu corpo roxos, dores, escalavros e assados; exigirá gritos e gemidos de filme pornô; quebrará bibelôs, TV e até a pia do banheiro; utilizará objetos curiosos, como bicos de garrafas ou ventiladores. A parte boa será a emoção da loucura erótica e a língua, o que fará você imensamente feliz por algum tempo, em geral um período curto. Lembre-se de usar camisinha e aproveite enquanto durar.

    ♥ Alto:
    Tem retardo mental ou gigantismo, ou é holandês, ou joga basquete. Tanto faz, você não ficará muito tempo lá em cima para vê-lo. Homens altos são muito carinhosos e delicados, às vezes até são efeminados (com seios, por exemplo). A aflição é que ele calçará 48 ou 52, o que dará despesas tremendas por conta do sapato por encomenda. O pinto será inversamente proporcional, seguindo as leis da gravitação de Newton. Não o recomendo somente por isso, pois de resto é provável que você fosse imensamente feliz.

    Moreno: Vive na praia, de manhã à noite. Terá câncer de pele ou uma amante surfista. Ou vive na clínica tomando banho de lua. Tem meio neurônio, pois o restante o mar levou, e se comunica com duas frases: "Pegar onda" e "Bora, bora!". Pinta o cabelo em mechas e ainda ouve Men at Work, INXS, Hoodoo Gurus. De qualquer modo, a cor da pele não garante o de dentro. Eu recomendaria primeiro escolher dentro e depois fora.

    ♥ Bonito:
    Isso não quer dizer muita coisa, pois é relativo ao contexto e à cultura. Defina "bonito" e depois siga em frente. Lembre-se porém das moscas, caso o padrão de beleza dele agrade igualmente a outras mulheres. Também não esqueça da vaidade masculina: encha a casa de espelhos e tenha sempre um elogio na ponta da língua. Quando ele envelhecer, assegure-se de que tenha uma boa terapeuta ou mantenha remédios e facas longe de seu alcance.

    Gostoso: Ou homem-bombom. Não sei muito o que isso quer dizer. É de comer ou para viver?

    ♥ Bom cozinheiro: Outro chato, mas pelo menos descarrega sua verve na comida, em todos os sentidos. Simpático, sente prazer em agradar o paladar alheio e a casa vive cheia de amigos. É inseguro, por isso usa a comida como sedução, terapia e autoconhecimento, quem sabe até como uma filosofia. Está um pouco acima do peso, mas nada que lhe impeça de fechar o avental. Faz delícias na cozinha e você engordará. Mas será uma mulher feliz, contanto que não meta a sua colher na cozinha dele. É uma boa escolha.

    Faz-tudo: Hoje em dia, só existem de fato na França: poloneses imigrantes casados e com 8 filhos, que vivem de consertos em geral, hidráulica e troca de óleo. Diz-se que são excelentes amantes, a despeito do cheiro de vodca e do pinto rosa. Os brasileiros são muito metidos a saber tudo sobre engrenagens, torneiras, canos, motores e etc., mas só ficam na teoria: olham o problema com interesse, coçam o queixo preocupadamente e trocam conjecturas e opiniões com amigos pelo telefone, mas resolver mesmo, nada. De qualquer forma, é mais prático chamar um faz-tudo e pagá-lo pelo(s) serviço(s) que aguentar um marido que pretensamente ajudará com os problemas domésticos mas que lhe causará rugas, cabelos brancos e muita incomodação. Além disso, será mais excitante.

    ♥ Bom gosto para música:
    Medo. Tenha muito medo quando um homem disser a você que tem bom gosto musical: é uma mentira, uma ignorância, algo monstruoso se esconde atrás dessas palavras. Homem com bom gosto musical é como o homem inteligente: raríssimo. Pode ser o mesmo, inclusive. E ele jamais diria que tem bom gosto para música pelo mesmo motivo que um gentleman nunca diz que é um gentleman. Esse tipo não anda em locais disponíveis como bares, cafés, festas, chás-de-panela... E o que se vê no mundo, solto por aí, é só desolação e pagode, boludos do vaneirão, imitações de Mick Jaegger, junkies fuckyness... Além disso, o cara que curte música mesmo não está muito interessado em mulheres e outras coisas mundanas. A música o preenche completamente. Desnecessário dizer que esse é um hábito que suga a atenção dele por horas e horas diárias. É um homem pleno, feliz, logo, para que buscar problemas se unindo a uma mulher, né? Sugiro esquecer esse quesito.

    Que goste de cinema: Idem ao que tem bom gosto pela música: cuidado com o que há espalhado por aí. Homens "clássicos" ou gostam de "filmes para homem" (guerras, tiros, explosões, 007), de ficção científica (2001 e afins com espadas luminosas) ou de mulher pelada (sessões solitárias). E preferem assistir a filmes regados a cerveja em lata no sofá e em geral pedem para você lhes trazer a cerveja. Agora, os cinéfilos ou são diretores de cinema ou são diretores frustrados de cinema, e ficam horas exumando detalhes técnicos ínfimos sobre a produção, além das discussões intermináveis sobre a cor de cueca preferida de Truffaut. Aqueles que curtem ver um bom filme, aquele tipo de filme que você gosta, são gays. São bons amigos, mas é improvável que queiram ser maridos. De qualquer forma, talvez seja melhor um diretor de cinema, ou um frustrado, que um boludo.

    ♥ Que gosta de bares: Você quer um bêbado ou um garçom. Certifique-se de que você está em seu juízo e repense o assunto.

    Resumo: Deixe essa lista de lado e aceite o cara pelo que ele é: asno, nerd, fedorento, histérico, preguiçoso, mulherengo, antipático, insensível, obtuso, pateta, impaciente, azarado, entediante. Porque todas essas características acima têm cada uma as suas adversidades. E que sejam reunidas as bem-aventuranças numa criatura só é quimera: nem você é assim. Sobretudo, com os homens é preciso paciência, tolerância, ouvidos moucos e persistência. Tem que ser quase um Buda, minha filha. E você vai comprar o pacote todo, entende? Homem não é arroz, que dá para retirar os grãozinhos mais feios e cozinhar a parte boa. E depois dos 40 a maioria deles tem problemas de ereção, ou terá.

    Coragem, mulher!

    Dica de sedução: Assista a With tour Permission, de Paprika Steen, e inspire-se na personagem Bente.

  • Muito além da zona de conforto

    Bom, como dizer?

    Foi o inferno. E não pretendo usar esse espaço já anacrônico pelo descompasso entre fatos, flatos e gorgomilhos políticos do Pasto só para chorar minhas misérias. Contudo, para que as coisas não pareçam incompreensíveis, informo que foi simplesmente desesperador esse início de mês, especificamente o dia 1º de Maio, quando quase perdi meu marido por conta de uma intoxicação medicamentosa. O médico que receitou tal medicação (sertralina) foi no mínimo negligente, mas agora eu não tenho força para ir atrás de um corretivo do CREMERS, e me sinto grata por ao menos ele estar vivo e estar aos poucos se recuperando. Olhando para trás, concluo que 2010 não está sendo um ano melhor que 2009, e olha que ano passado foi de enfartar. A notícia positiva, pelo menos até esse instante, é que estou há nove dias sem o Marlboro, à guisa de protelar o câncer. A má notícia é que isso me tira a concentração e estou irritadíssima.

    Assim, a vida ficou suspensa em um limbo por mais de uma semana, devido a hospital e angústia. Não suficiente, esta semana faltou luz duas vezes aqui em casa durante o dia, e por causa da CEEE meu trabalho está atrasado. Por isso, sinto culpa nesse momento por escrever, pois preciso dar conta de revisar uma bíblia sobre Descartes à noite, seguir no frila das 13h às 18h, curar uma gripe e manter a sanidade sem pegar numa 12, por exemplo, e dar cabo de metade da humanidade. De volta à vaca fria, e acertando novamente o foco de minhas lentes para fora de meu núcleo familiar, dou um adeus momentâneo a dívidas e prazos, e roubo uma hora do tempo disputado a tapas para escrever esse post, verdade que um tanto azedo, mas nem sempre é possível sorrir por dentro.

    Tenho evidenciado ao meu abandonado leitor há algum tempo sobre a multiplicação do espaço na imprensa ao futebol. Se você fizer um acompanhamento sistemático diário, medindo tempo em TV e rádio e espaço em jornal e em internet dedicados a esportes, especialmente ao futebol, verificará que o resultado é alarmante. Eu arrisco dizer, medindo no olho e no ouvido, que nunca se falou tanto nesse tema em toda a história da Pastolândia. Desnecessário seria repetir que, quando a Copa de 2014 chegar, muitos como eu desejarão ardentemente dar um tiro na boca ou sucumbir à fuga fácil da realidade circundante por meio da alienação com uma química forte. Será impossível conter os urros bestiais dos meus vizinhos, que hoje já fazem escândalos nas janelas por conta desses campeonatozinhos de várzea. O prazer que essa gente extrai em ofender os torcedores do outro time ultrapassa qualquer escala de retardamento mental ou de selvageria verbal. Você fica tão perturbado que tem gana de matá-los, soltar um rojão em direção a suas janelas, mutilá-los ou imitá-los em seu comportamento psicótico e berrar um palavrão bem cabeludo contra o Grenal e os seus torcedores quadrúpedes.

    Olha, parece que chego aqui para escrever apenas queixas contra essa gente bovina. Eu queria que fossem pessoas decentes que merecessem destaque por seu pensamento, não digo elevado, simplesmente digno. Isso inexiste. Aqui é a pátria da cavalice, do indivíduo animalizado, dos cabeças de vácuo, das mentes limitadas pelo sentimento bélico, pelo espírito raso, da má vontade e da cegueira dolosa; enfim, aqui é a terra do hommo húmus: um tipo de criatura aproveitável somente para adubo, pois sua estrutura básica cheira a dejeto. Não é coincidência que seja esse o aroma reinante pelas ruas na data de comemoração da maior façanha boluda: a derrota da Guerra dos Farrapos.

    Devo espantar meu corvo, eu sei. Morrerei de úlcera, murcharei de amargor. O horizonte porém me parece verde de mofo, não de esperança. E já fiz minhas malas, antes que me lembrem que a porta é a serventia do potreiro. Mas não deu certo, a nuvem preta é poderosa e os alemães do Planalto Central não foram legaizinhos. E não espero mais nada, minhas perspectivas, como as de meus amigos, são um resumo cada vez menor de nossas potencialidades. E nos sentimos mal achando que somos muito doentes ou chatos, e que as pessoas corporativas, proativas, que fazem exercícios no Parcão e têm essa ambição fantástica de crescimento profissional é que estão certas: a fantasia tomou o lugar da realidade. O branding está aí para mostrar que vivemos em um mundo ficcional cujo fundamento é o discurso publicitário abstrato e seus valores, espremidos do sumo de ervilhas chamadas de gurus: sustentabilidade, responsabilidade social, missão, postura proficcional. Estamos até o nariz de bullshits, comendo cocô de pá com um sorriso delineado por força da coação social em nossos lábios. Afinal, a pior coisa do mundo é ficar isolado, sozinho, teimando em valores em que só você, um maluco, retrógrado, ecochato e xiita, acredita. Baixe suas expectativas, não exija das pessoas o que elas não podem ser, não queira ser melhor que ninguém, seja como a maioria da boiada e deixe dessa de ficar criticando tudo. Guerreie pelo seu time e siga o exemplo de nossa governança: faça o seu feijão-com-arroz e tudo ficará bem.

    Antes de me digladiar contra o desejo de fumar um cigarro, devo ainda confessar que do verdadeiro jornalismo me aposentei. Talvez edite um livro sobre culinária, faça uma curadoria de cinema, prossiga escrevendo ficção, enfim, coisas inocentes e prazerosas: a vida é curta, cheia de bicões abençoados pela cara-dura, gente sem recheio mas que atinge seus objetivos porque acredita, entende? E a indignação e a busca pelo direito, e pelo que é ético e justo, o excercício da crítica, do debate e da reflexão, tudo isso só causa rugas e mau humor.

    Porque, tchê, estupefação foi pouco fiquei besta. Minha dileta personagem aqui citada como paradigma do jornalismo acéfalo, uma belezinha com um sorriso lindo de dar dó, o microfone balançando pelo fio, para lá e para cá, impaciente: nenhum neurônio; aquela que não sabia que tipo de satélite era Edgar Morin ("morrã") nem quem era Wim Wenders, tampouco imaginava com que consoantes escrever tais nomes, agora, bom. Agora, ela é funcionária da maior rede de comunicação do país. Bom para ela, parabéns à empresa pela aquisição, mas eu temo pelo que sai de sua boca e espero que haja um editor atento, inteligente e paciente. Deparei-me com ela dias atrás na TV de 15 polegadas e antena em curto da UTI, onde eu velava pelo fígado do meu marido. Senti-me traída, não sei por quê; depois, reagi como se tivessem me fincado o esfícter.

    Caíram todos os meus butiás, admito; admito que não entendo mais nada de nada, ponto.

    Admito que errei, que deveria ter seguido outro caminho na vida, quem sabe mais fácil, sem tantas dúvidas, inquietações, indagações, protestos, indignação. Deveria ter escutado meu falecido pai e seguido a carreira do Exército ou do banco; deveria ter aceitado aqueles malditos bombons da Kopenhagen, me casado com um homem rico, gordo, brega, infiel e calculista; deveria ter sido uma mulher fútil, inescrupulosa e com três, quatro amantes, um poodle histérico, dois psicanalistas caros e inúteis e fazer doações filantrópicas de fachada. Deveria ter esquecido meu cérebro e minha moral indigesta em casa e escrito aquelas matérias sobre fatos inexistentes que o dono de um jornal local tanto insistiu para que fizesse afinal, que mal há em dar o que o consumidor deseja? Deveria ter seguido mais ordens sem me insurgir, deveria sobretudo ter me preocupado em acreditar na ideologia de ser feliz, me dedicado à igreja do egoísmo e, sobretudo, deveria ter me engajado na construção de uma imagem e arranjado patrocinadores a qualquer preço, mesmo que fosse de funerárias. Deveria ter mandado a sociedade à merda, sorrindo.

    Parece que a vida me foi sugada pela raiz, mas na verdade o que ocorre é que não existe mais nada capaz de me fazer acreditar na sociedade, nas boas intenções, nas leis, no Direito, na política, no jornalismo, na medicina, na família, em editais, em trabalho duro ou na eficiência alemã. Ilusões ao mar, estou sem âncora e, quer saber? acho isso com sabor de Emulsão Scott, mas sei que é fundamental em algum sentido. Que venha a ruína, de repente é aí que mora a saída. Confio a partir de agora no poder do vácuo.

    E eu ainda tenho de escutar ruminante dizer que precisamos sair da "zona de conforto".

    Podem desligar os meus aparelhos, por favor.

  • Bilhete

    Um dia, acontece.
    Mas você segue sem pensar que vai acontecer, porque se pensar, não segue.

    Problemas de saúde em casa me impedem de atualizar o blog.
    O desespero é um estado solitário; ninguém nem nada poderia me consolar.

    Compreensão e carinho, obrigada.

  • Carne e ossos

    Raríssmo leitor, estou com uma tendinite temporariamente incapacitante, portanto, pausinha para forçado repouso.

    Em breve, pensemos para cima e com entusiasmo!, mais alguns eslovos por aqui. O Pasto prossegue em chamas, e tem um assunto fervendo para analisar neste espaço verde. Pacênça e perserverança: garanto um cáustico post (estou cheia de dívidas, mesmo).

    Falando em fogo, tenho uma audiência na Justiça do Trabalho nesta quarta-feira. Espero um acordo, ou vai a júri.

    Torçam por mim, preciso de apoio, nem que seja via bits.
    Meu carinho aos de fé.

    A.

     

  • Pequeno tratado sobre a honra

    Esse post é longo.

    Cá entre nós, leitor, eu acho que a honra de cada um hoje é do tamanho do seu cérebro.
    E que ocupar a Justiça com problemas de ordem pessoal, facilmente tratáveis no analista, deveria resultar em multa. Isso é um parecer particular o qual, estou ciente, devo engolir junto com as "ervilhas". A fim de evitar julgamentos inoportunos, porém, estamos calando nosso ponto de vista em diversos espaços da internet. De maneira que resolvi advogar minha justificativa atrás de palavras mais antigas e juízos melhor embasados: assim, depois, o processo será contra um (outro) filósofo. Antes de começar, explico sumariamente o que defino por "ervilhas".

    As "ervilhas sociais" são seres cujo cérebro possui o formato e o tamanho dos grãos destas adoráveis leguminosas. Ao contrário dos deliciosos petits-pois, porém, seu interior é vacuoso e o exterior, uma máscara precária, frágil. Belicosas segundo suas possibilidades jurídicas e financeiras, são vagens de uma espécie que luta para manter-se merecedora de respeito social na base da truculência.

    Sou jornalista e daquelas que estudaram com discreto afinco. Também escrevo eslovos categoricamente ficcionais e me meto a artista e cineasta. Ou seja, trabalho com expressão livre de idéias e tenho alguns valores os quais defendo com obstinação. Sou contra a nova reforma ortográfica, por exemplo, por julgá-la despótica, vertical, equivocada e dúbia em muitos casos (como é o caso de algumas normas sobre o hífen). Embora seja fruto de mais de uma década de debates, a reforma passou por cima do principal: a língua viva de cada cultura. Tudo para afofar alguns corifeus da gramática e tricotadores de questões bizantinas. Amo o português pré-reforma tanto quanto a manteiga para cozinhar: é uma relação cultural, na medida em que fez parte de minha vida, e ainda faz; é também uma questão de apreço pelo sabor, no primeiro caso o das palavras e no segundo, o da comida. É também uma preferência, até mesmo uma filosofia, e acima de tudo um anacronismo. É claro que respeito as novas normas ortográficas quando necessário.

    Época cínica, esta em que vivemos. O imoral não tem problema. Minha querela tem de estar, ou poder estar, dentro da lei eis o que importa. Época higiênica, técnica, burocrática, objetiva, pragmática. Vamos combinar que tem gente que já defende a manipulação da comida com luvas, alegando higiene. Seria melhor nem cozinhar, se a pessoa tem tanto medo de intoxicar a comida com as próprias mãos.

    Se eu pensasse do modo como anda tão em voga, pragmaticamente, teria um processo contra cada meio de comunicação para o qual arrendei meu cérebro, e olha que teria todo o Direito, pois, bom. Todo mundo sabe o que se passa por aí, em alguns manicômios do setor. E eu estaria agora de bom humor, com grana no bolso e, muito possivelmente, trabalhando a léguas da pastolândia. Pessoas assim são chamadas de "espertas". Ser esperto é ganhar algo em cima do prejuízo de outros. Os espertos não necessariamente os citados na linha anterior também curtem meter um processo por "dano moral": é o que se chama por aí também de crime contra a honra. Não entendo como se pode perder a honra ou manchá-la com a freqüência com que vejo processos entupindo as mesas do Judiciário.

    Desenvolveu-se uma "indústria da honra" em nosso meio, e há quem cale-se em vez de se expressar com receio de tomar um processo. Acredito que temos de ser responsáveis com o que expressamos, críticos em relação ao mundo interior e exterior e, dentro dos limites da nossa crítica e responsabilidade, limites que podem inclusive ultrapassar a vaidade e sensibilidade extrema de certas almas afeitas à mordaça, enfim, dentro destes limites somos, e temos o dever de ser, livres para expressar nosso pensamento. E é por pensar assim, do modo periclitante diante de nossos dias, que busquei luz em quem escreveu um tratado sobre a honra e tem estofo para agüentar um processo (afinal, estou falida, e ele, morto). Refiro-me a Aforismos para a sabedoria de vida, de Arthur Schopenhauer, cáustico, mal-humorado e pessimista filósofo alemão.

    Segundo ele, essa coisa de brigar pela honra dissimulava a baixaria: "...precisa de fato ter uma pobre opinião do próprio valor aquele que se apressa a suprimir cada observação ofensiva, com o fito de impedir sua audição. [...]". Schopenhauer é um tanto mais direto, mas resolvi cortar alguns adjetivos que viriam a seguir para poupar espaço.*

    Minha pergunta é simples: se todos começarem a se precaver contra danos à honra, como se a honra fosse algo assim tipo uma salsa no dente, é possível que o Judiciário tome medidas repressivas que prejudiquem aqueles que realmente tiverem sua, vá lá, honra atingida. Honra é algo subjetivo, social e culturalmente definido. É como um apelido: como justificar que em um indivíduo o apelido "pega" e o faz conhecido em seu meio por tal alcunha, por menos que isso seja por ele aceitável?

    Como posso provar minha honra? Coisas da época romântica: os homens iam para um descampado, uma charneca ou qualquer local afastado, em geral na primeira hora da manhã, para provar a honra por meio da bala. Quem atirasse antes, e danasse o corpo do outro de forma testemunhal, salvava, limpava e recebia de volta a sua honra. Em geral, as mulheres que têm a sua honra "suja" não tem como recuperá-la e são para todo o sempre amém chamadas de vagabundas em seu meio, isso ainda hoje, em pleno século 21. Mas a honra da mulher nunca importou muito.

    Tampouco eu me importo com coisas desse tipo. Diz Schopenhauer, meu amigo fantasma: "A honra é, em termos objetivos, a opinião dos outros sobre o nosso valor e, em termos subjetivos, o nosso temor dessa opinião [...]"  (p. 74).

    O temor desta opinião, segundo ele, não tem origerm moral, e sim da força que o conjunto de opiniões favoráveis representam ao sujeito, as quais prometem-lhe "a proteção e a ajuda das forças reunidas do conjunto, que são uma muralha infinitamente maior contra os males da vida do que as suas próprias forças" (e sua própria moralidade de consciência, eu acrescentaria). A honra está ligada à confiança e à opinião, portanto, e disso originam-se muitos tipos de honra os quais Schopenhauer chama de "relações".

    A honra sempre terá um caráter utilitário ao sujeito. A honra burguesa é moral, e a mais fácil de ser perdida, ainda que tudo não passe de pressuposição: manchada, macula todas as ações subseqüentes. É um tipo de honra que não existe mais, pois, como se sabe, a lama é geral. Mas esta honra, raríssima, é a que define também o caráter e sua permanência sobre uma atitude virtuosa perene. Um caráter perdido é irrecuperável, pois este é inerente à pessoa, ou seja, se a criatura é honrada, ela tem caráter, e tê-lo-á sempre, a não ser que uma calúnia ou insulto o manchem, e é preciso provar que há engano ou falsa aparência. Embora pareça churumela de filósofo, esta afirmação está baseada em na lógica do discurso: "[...] a injúria, o mero insulto, é uma calúnia sumária sem indicação dos motivos [...] (p. 77). Ou seja, há uma forma.

    Mas esta máxima não se encontra expressa em parte alguma, e aquele que insulta "revela que nada tem de real e verdadeiro a alegar contra o outro. Do contrário, ele o apresentaria como premissas e deixaria, consolado, a conclusão a cargo dos ouvintes; em vez disso, apresenta a conclusão, omitindo as premissas." (id.)

    A única maneira de defender a honra, diz Schopenhauer, é uma refutação, acompanhada de divulgação apropriada e desmascaramento do caluniador. Mas em relação a isso, e a tudo o que está ligado à honra, é preciso ser um ourives: "Quem quebra a lealdade e a fé perde-as para sempre, não importando o que faça ou o que possa ser, e os frutos amargos trazidos por tal perda não tardam a surgir" (p. 77). Contudo, esse respeitado pensador distingue a honra cavalheiresca da verdadeira honra, aquela que é dependente apenas de nós, a honra que vem do sujeito, baseia-se em suas ações e omissões, não no que os outros fazem ou no que lhe acontece (de fora, vindo de outrem).

    Ele ainda cita a honra do cargo. "Quanto mais importante e amplo for o círculo de ação de um homem no Estado, logo, quanto mais elevado for o posto ocupado, tanto mais elevada tem de ser a opinião sobre as capacidades intelectuais e as qualidades morais que o tornam apto a ocupá-lo". Entre estes cargos, o de professor situa-se entre os mais elevados, devido ao seu trabalho intelectual. A tal honra do cargo impõe-se que se faça ser respeitada mediante o cumprimento estrito dos seus deveres, e, além disso, "não deve deixar impune nenhum ataque contra si mesmo e contra seu cargo enquanto o ocupar [...]; pelo contrário, utilizando-se das punições legais deve provar que aqueles ataques eram injustos" (p. 80).

    A honra cavalheiresca é exterior ao homem. Não depende da opinião dos outros, mas apenas se tais opiniões forem exteriorizadas. Se esta opinião tem base real ou não, não importa: "Os outros podem nutrir a pior opinião a nosso respeito, por conta de nosso modo de vida, e podem desprezar-nos como bem entenderem; durante o tempo em que ninguém se atrever a expressá-la em voz alta, ela não prejudicará nossa honra" (p. 87). Contudo, mesmo que o sujeito seja querido por causa de suas qualidades e ações, e uma vez que isso não depende dele, basta então que somente "um indivíduo seja ele o pior e mais ignorante exprima o seu desprezo por nós para que logo nossa honra seja ferida e até perdida para sempre, caso não a reparemos".

    Schopenhauer conclui, brilhantemente, que, diante desta total falta de arbítrio sobre nossas ações, qualidades e virtudes, "o importante não é ganhar respeito, mas extorqui-lo". Pois a honra cavalheiresca depende do que o outro diz ou faz, ficando assim "na ponta da língua de cada um". Caso perdida, o que pode acontecer a qualquer instante, oportunamente, somente o processo de reparação pode resgatá-la, processo este em que o indivíduo expõe-se a um perigo de vida, sua saúde, sua liberdade, ânimo, dinheiro, etc. Se ele "engolir" a afronta, as pessoas o desprezarão profundamente, "fugirão dele como se tivesse peste". Na idade das trevas da humanidade, se o acusado não provasse sua inocência, e não possuísse "fiadores" que o abonassem perante o juiz, ou se o acusador não aceitasse tais fiadores, chamava-se o juízo de Deus. De maneira que, para lavar a honra cavalheiresca, recorre-se às armas, a chamada vingança sangrenta (p. 90, 91).

    E tudo isso baseia-se no fato de que ser insultado é uma vergonha e insultar é uma honra (p. 92). A mim é paradoxal. "O mais rude sempre tem razão", escreveu o amargurado filósofo, acrescentando que a animalidade é o supremo tribunal de justiça dos homens. Quem duvidaria disso ainda hoje?

    Para finalizar o tratado, a honra verdadeira seria aquela conhecida por povos civilizados, aquela que vale pela conduta do homem e não "ao que agrada a uma língua solta dizer sobre ele" (p. 95). É desse modo que, mutatis mutandis, somente você pode aniquilar a sua própria honra com o que diz ou faz nestas culturas altamente desenvolvidas. Não é esse o caso do Pasto, logo, creio que aqui o mais rude sempre tem razão. Os rudes são aqueles ervilhas, lá do começo desse longo texto que levei uma semana para concluir.

    Juro que já vi algumas pessoas que se queixam de ter sua honra manchada ou a moral atacada por aí, embriagadas, berrando pelo time ou por qualquer outra bobagem, em uma posição que certamente não as favoreceria em nada.

    Eu poderia sair por aí e enfiar o dedo nos olhos de algumas pessoas, alegando depois ser isso um conceito artístico e que elas estão tendo o privilégio de fazer parte dele. Eu poderia fazer uma igreja do heavy metal e não pagar meus impostos. Poderia até processar uma figura conhecida, fazer a alegria do sindicato e receber a Justiça como a volta de Jesus. Não faço nada disso, prefiro me engalfinhar com meus pensamentos, filmes, textos, valores.

    Falei ontem com uma figura cintilante da diplomacia brasileira, e chegamos à conclusão de que estou certíssima. É verdade que já bebíamos a segunda garrafa de espumante.

    O Glauco e o Geraldão me farão falta.

    Por fim, a prova de que nem o Google está preparado para aceitar nossa natureza ruminante:

    [Google] Porto Alegre: verifique se a palavra está escrita corretamente.


    Ops: * A quem se interessar, leia na obra citada o capítulo 4, "Daquilo que alguém representa" (p. 61-137).

    ** Invoco aqui categorias fundamentais à sobrevivência civilizatória, como o direito à saúde, à educação e à livre expressão, e mais: poderei fazer disso uma peça jurídica bem bonita depois, caso haja manifestação litigiosa de determinados legumes.

    Constam da Constituição Federal os seguintes itens:

    A lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;

    TÍTULO VIII - DA ORDEM SOCIAL
    CAPÍTULO V - DA COMUNICAÇÃO SOCIAL
    Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
    § 1º Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.
    § 2º É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.
    § 5º Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio.


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