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  • Aviso

    Caríssimos, o Bovinenses está sendo repensado.
    Enquanto isso, prosseguimos em atividade intensa no Twitter, via @bovinenses.
    Novidades em breve
    .

  • A different kind of truth

    Eu avisei. Mudan√ßas estavam por vir, j√° a galope. Pois foi tudo muito r√°pido, como acontece em cat√°strofes e eventos que te pegam com as cal√ßas na m√£o. De janeiro a mar√ßo, em dois meses, tudo o que existia em minha vida terminou, perdeu-se. Ou ficou a dist√Ęncia indeterminada, impalp√°vel, obscurecido, como um desenho oculto na parede atr√°s da grossa camada de pintura nova: aparece sob determinado √Ęngulo e desaparece se a aten√ß√£o se distrai.

    O eixo está de cabeça para baixo e tudo, absolutamente tudo pode acontecer de agora em diante. Essa dimensão de probabilidade assusta pela falta de chão, mas é excitante pelas surpresas que guarda.

    Há uma certeza: nada será como antes. Pode parecer terrível a quem tem uma vida toda estruturada. Aqui, dentro do caos em vórtice que me circunda, é uma perspectiva interessante, até promissora.

    Minha dedicação ao trabalho foi total. Passei quase um ano sem ver pessoas. Estive doente, entrevada. Me separei. Mudei de casa. Ainda tento me acostumar com a ausência de meu gato. Fui destituída de meu cargo em pleno deadline. Não chorei em nenhum momento: as fichas ainda estão caindo.

    A urg√™ncia do dinheiro ter√° de esperar, mesmo que isso implique trocar o espumante do Sheraton pela Polar no Ping√ľim (n√£o, n√£o, n√£o).

    De diva decadente √† mendic√Ęncia basta um passo. N√£o identifiquei medo diante dessa possibilidade. A mente est√° desperta e aberta - mas n√£o alerta, j√° que isso implica estar ocupada (tu-tu-tu-tu). Estou jogando a escada fora ap√≥s subir por ela.

    Não respondo pelo que virá, pois não faço a menor ideia do que me espera ali na esquina.

    Tudo o mais est√° em loading ou em repeat, como A Different Kind of Truth (2012), o √ļltimo disco do Van Halen, com David Lee Roth e Eddie Van Halen, que ou√ßo dias inteiros.

    A mudança se tornou meu norte.
    Por isso, pela primeira vez na história do Bovinenses (talvez um dos poucos blogs only text do Universo) coloco um vídeo embedado. Veja, e saberá o que sinto quando ouço isso. Se não funcionar, já que o sistema dos salsichas é repleto de fehler, clique aqui.




    Daí que decidi três coisas.
    1) Dar uma aliviada na cabeça e viajar.
    2) Publicar Fiorde infinito - Uma Noite com a Musa do Marlborão, o livro que está dormindo na gaveta desde 2004. (Incrível como aquele enredo ficou atual. Parece cortado a centímetro para o contexto de agora, juro.)
    3) Deixar mais um post band-aid no Bovinenses, para n√£o perder o blog.
    Isso não quer dizer que eu vá insistir em mantê-lo: não fiz backups, e não farei neste momento.

    √Č poss√≠vel que tamb√©m edite as poesias do CORVO (publica√ß√£o irregular de aipins)* da mesma forma que o livro.

    Quero encerrar esse capítulos para começar novas obras.

    A lei que apita ali na curva agora é ganhar tempo para pensar, repensar a direção.

    Por enquanto, a direção aponta para o aeroporto.

    O mundo é independente de minha vontade. Que o Sol nascerá amanhã é apenas uma hipótese na qual todos cremos como se fosse certa.**

    Relinchos. ;-)

    * O CORVO é uma revista de short poetry criada no Facebook em 2008, e que vai migrar para outra mídia porque o Mark Zuckenberg me cansou. Os aipins são eslovos que nascem de vez em quando meio tortos e sujos, tipo a cara de uma mandioca.
    ** Opa! Respingos ranhentos de Wittgenstein
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  • Voltaremos!

    O Bovinenses está em férias até ordem em contrário.

    Muitas coisas mudaram em minha vida em 2011. Projetos bacanas tiveram de ser adiados, um emprego desafiador surgiu, a realidade di√°ria ficou mais apertada; estou aprendendo diversas coisas novas, entrei em uma rotina de exerc√≠cios, etc. Tamb√©m houve sustos na sa√ļde da minha fam√≠lia. E agora, por isso e por outros motivos, a pr√≥pria fam√≠lia est√° em uma fase esquisita, cujo rumo aponta para a implos√£o da parceria e a partida para caminhos diferentes.

    De maneira que resolvi colocar aqui esse post band-aid, porque os salsichas enviaram mensagem de saudades. E isso quer dizer, na cultura alemã, que tá na hora de movimentar, mexer, escrever ao menos uma frase, ou perco o espaço.

    Talvez seja hora de repensar a raz√£o de ser do Bovinenses.
    Há prioridades reais e mudanças a serem decididas nos próximos meses.

    Come√ßamos 2012, portanto, com a promessa de modifica√ß√Ķes na estrutura da pr√≥pria vida, o que j√° me parece melhor do que o caos que foi no ano passado a √°rea pessoal. √Č preciso cortar determinadas rela√ß√Ķes para que haja crescimento e chance para que cada um encontre novamente seu ritmo e tranquilidade.

    Este será um ano de trabalho e construção. E de disciplina, para arrancar mais tempo na correria para escrever, seja aqui, no ZuKino, no CORVO (minha horta de aipins literários), e até quem sabe publicar finalmente aquele romance. Ser produtivo requer disciplina.

    Por enquanto, apertamos o pause para reflexão e organização.

    O mundo n√£o vai acabar. Voltamos em breve.

    Bis bald!

  • Post-it eqüino contra 2011

    Estamos em fase de vida complicada. Daquelas de dar nó nas guampas. Conto tudo depois, quando a poeira baixar.

    As complica√ß√Ķes v√£o desde a sa√ļde ao casamento, por isso pe√ßo a paci√™ncia dos queridos ruminantes que aparecem j√° raramente neste espa√ßo verde.

    Enquanto a tarja tá preta, deixo aqui uma frase - só para que os salsichas não achem que morri e me tirem o blog.

    "Cornografia, a arte de escrever utilizando determinadas aspas."

    Nem vi 2011, mas deixo a ele meu adews antecipado. Que o diabo o carregue.

    Relinchos.

    Ops.: O Bovinenses n√£o observa as normas do N√īvo Ac√īrdo Ortogr√°fico da L√≠ngua Portugu√™sa nem do VoLP.

  • Cagada viral

    "Foi mal, a√≠, ipan√™micos". Assim come√ßa a nota oficial sobre que diabos acontecia na Ipanema FM 94.9, expedida no final da tarde desta segunda-feira. No texto, um g√™nio infelizmente ainda an√īnimo, tenta minimizar uma a√ß√£o que a meu ver foi maior que um tiro no p√©: √© o paradigma de uma a√ß√£o malfeita, seja ela da al√ßada da publicidade ou de algum inserv√≠vel de alto cargo da sede da empresa, l√° em S√£o Paulo. O argumento da nota √© de que que foi uma 'pegadinha' com os ouvintes. Se colou, n√£o sei, a Hist√≥ria sempre vence e eu tenho fontes que podem revelar alguma coisa¬† embora, em uma empresa de comunica√ß√£o, nem sempre se saiba de onde a bala saiu ou porqu√™.

    E, se foi 'pegadinha', foi mal mesmo. Não foi buzz. Foi abuso geral. Brincou com a seriedade de seus comunicadores, alguns dos quais perderam completamente as estribeiras. Essa gente, cuja maioria eu conheço, não é da arte dramática. As lágrimas e as bebedeiras do fim de semana, para afogar a incredulidade, não eram pegadinha.

    Há muito tempo o Grupo Bandeirantes deseja dar um fim à Ipanema FM 94.9.

    Na √ļltima sexta-feira, 12, o golpe¬† - administrativo ou publicit√°rio, n√£o importa - foi executado. A r√°dio, que completaria 28 anos em outubro, morria aos 27, como v√°rios nomes do rock - g√™nero ao qual se dedicou desde 1986. Houve quem dissesse que era uma retalia√ß√£o contra a veicula√ß√£o de Gangue da Matriz, de Tonho Crocco: a repercuss√£o negativa na web de um processo contra ele, instaurado pela insatisfa√ß√£o de um deputado, teria motivado a 'revolu√ß√£o' na programa√ß√£o. Nesta segunda-feira, 15, ao longo do dia, alguns insistentes ouvintes foram alvo do que, segundo a nota, era uma chacota em ode √† 'liberdade'. P√©rolas da ax√© music e afins foram lan√ßadas do Morro Santo Ant√īnio. Se era uma piadinha, por que um apresentador foi retirado por seguran√ßas do pr√©dio, no s√°bado? Ser√° que a viol√™ncia era tamb√©m uma pegadinha? E isso aqui, √© o qu√™? Porque eu perdi a no√ß√£o.

    A at√© ent√£o chamada 'Ovelha Negra' possu√≠a uma longa hist√≥ria; antigamente tamb√©m conhecida como a 'r√°dio dos loucos', a Ipanema FM 94.9 criou e educou musicalmente gera√ß√Ķes de ouvintes. Com um perfil inovador, rebelde e ir√īnico, tamb√©m abriu espa√ßo a diversos estilos musicais, do cool jazz ao eletr√īnico. Foi uma das primeiras r√°dios do Brasil a ter transmiss√£o integral via streaming. Sempre levou muito a s√©rio seus ouvintes, afinal, um dos mandamentos da comunica√ß√£o radiof√īnica √© a credibilidade. Ironia n√£o √© sin√īnimo de inconsequ√™ncia.

    A turma que por lá trabalhou ao longo desses anos é um time de cabeças criativas e antenadas. A nuvem ameaçadora pairava há muito tempo sobre a 94.9 - talvez desde sempre. Mas a vontade das pessoas que faziam a rádio era forte e até então havia conseguido evitar o pior.

    O Grupo Bandeirantes cometeu, seja por si ou atrav√©s de algum asno da publicidade, um deslize, e da pior forma poss√≠vel. Se voc√™ quer fazer uma altera√ß√£o radical em um ve√≠culo de comunica√ß√£o, a regra n√ļmero um √© fazer isso aos poucos. Qualquer estudante de Comunica√ß√£o sabe disso.

    Contudo, parece que algu√©m teve uma id√©ia brilhante para o que caracterizam genericamente de p√ļblico jovem. O diretor-geral da regional estava tomando ch√°, nesta segunda-feira, em uma reuni√£o com a c√ļpula executiva. Ser√° que ele estava de pegadinha? E estas afirma√ß√Ķes aqui? Devem ser uns mal-informados. O pessoal que papagueia release √© que t√° correto.

    N√£o √© de hoje. Seduzir esse tal p√ļblico jovem √© uma ambi√ß√£o hist√≥rica da empresa, cujas ra√≠zes est√£o fincadas em S√£o Paulo e ignora o que acontece aqui no Pasto. O nicho almejado √© formado por um espectro imagin√°rio gasoso, ningu√©m sabe ao certo o que o p√ļblico jovem √©, nem do que realmente gosta de fato. Dependendo do executivo, ele pode achar que os jovens de 10 a 18 anos adoram qualquer tipo de lixo de gravadora. E as gravadoras n√£o andam bem das pernas, voc√™ sabe. Talvez algumas empresas de comunica√ß√£o estejam perdidas, apalpando a realidade, crendo em gurus com MBA em m√≠dias antissociais, fazendo qualquer coisa para conseguir chamar a aten√ß√£o de anunciantes.

    Executivos do marketing s√£o uma gente mesquinha e med√≠ocre, e com esse pensamento dominam o mundo - pois investem-se rios de dinheiro em publicidade de alguma onda de estrume qualquer que, de tanto se insistir em cima, no mesmo hit, as pessoas passam a achar normal. E voc√™, caro ruminante, sabe que quanto menos est√≠mulos, mais insens√≠veis nos tornamos. A mediocriza√ß√£o torna as pessoas est√ļpidas n√£o porque a porcaria vendida tenha potencial para contaminar c√©rebros. Nada disso. As pessoas se tornam energ√ļmenas e quadr√ļpedes porque conhecem poucas coisas, poucos lugares, poucas culturas. O que voc√™ viu na Ipanema FM n√£o √© pegadinha: √© a prova da midiocriza√ß√£o.

    Mas os executivos precisam manter seus empregos e seus altos sal√°rios, e para isso precisam inventar moda, criar necessidades, gerar demandas inexistentes, seja na publicidade ou na √°rea de gest√£o administrativa. Ent√£o, algum ensebado que tem uma cadeira de couro em uma sala refrigerada, seja em uma ag√™ncia famosa ou na sede da rede, l√° em S√£o Paulo, esse g√™nio resolveu mostrar trabalho, cavar, de alguma forma, uma maneirinha aparentemente ousada para ganhar uns centavos a mais e fazer bonito na reuni√£o mensal da equipe ilustrada a Power Point. E ent√£o essa pessoa, pressionada por algum gerente que s√≥ ouve a voz dos n√ļmeros, decidiu que √© hora de a audi√™ncia da Ipanema FM aumentar a qualquer custo. Nem que isso signifique ofender sua fiel e antiga audi√™ncia e submeter uma equipe de profissionais ao estresse e √† tristeza. Nem que para isso seja preciso falar de coc√ī ao vivo, como aconteceu neste s√°bado, dia 13, √†s 16h, no Programa QUEAD, de um mau gosto e nojeira abissais. Mas talvez seja esse o objetivo: veicular merda para ganhar audi√™ncia. N√£o √© genial? Vivemos tempos estranhos, mesmo.

    Como eu disse, e reafirmo, mudar a programação da Ipanema FM é idéia antiga.

    Trabalhei na Band AM 640 ao longo de um ano, entre 1996 e 1997, como repórter.
    Foi uma √©poca de ouro nesta emissora hoje agonizante; para mim, foi uma oportunidade fant√°stica de aprendizado. A Band AM 640 fica no mesmo pr√©dio da TV Bandeirantes, da Band FM (transformada pouco depois em um playlist autom√°tico) e da Ipanema FM, no Morro Santo Ant√īnio, e a empresa n√£o se chamava 'Bandeirantes', mas R√°dio e TV Portovis√£o. As reda√ß√Ķes das r√°dios¬† ficavam em aqu√°rios praticamente diante uma da outra. Entre elas, o corredor. Na √©poca, ouviam-se ecos na 'r√°dio corredor' de que havia necessidade de se exterminar com a Ipanema FM, pois 'n√£o dava lucro'. Houve alvoro√ßo interno, e o pessoal se puxou. Lembro de ver as estat√≠sticas de vendas de an√ļncios em um painel: pela primeira vez, um ve√≠culo da Band RS dava 'lucro'. Esse ve√≠culo era a Ipanema FM. Conseguiram provar aos executivos de S√£o Paulo que a r√°dio valia a pena.

    Desde ent√£o, houve uma explos√£o de crescimento no n√ļmero de ouvintes e no sucesso da Ipanema FM. N√£o tenho o menor conhecimento sobre n√ļmeros de audi√™ncia da r√°dio, e seu destino me importa tanto quanto a cota√ß√£o do adubo. Mas se houvesse c√©rebro no lugar da ervilha existente na cabe√ßa deste executivo, esse g√™nio criativo, ele saberia que o mercado de r√°dio ga√ļcho √© dominado por um conglomerado maior do que a Band, que tem outro perfil. Al√©m disso, saberia que a Ipanema FM cresceu justamente porque havia uma parcela significativa de p√ļblico √≥rf√£, cujo √ļnico ref√ļgio eram LPs, fitas K-7 e Walkmans. Foi esse p√ļblico carente de rock de qualidade que a 94.9 conquistou, e o fez com eleg√Ęncia e intelig√™ncia. Acima de tudo, a Ipanema FM ganhou seus ouvintes pelo ouvido. Nesta segunda-feira, houve quem cogitasse, na concorr√™ncia, sobre as possibilidades de se aproveitar esse nicho de abandonados e fazer uma nova Ipanema FM.

    Sa√≠ da Band AM 640 em uma emiss√£o de gases semelhante √† esta. Era 1¬ļ de abril de 1997. Era dif√≠cil de acreditar. Mas n√£o era pegadinha. Em um papelzinho, estavam escritos os nomes de n√£o 10, como est√° registrado por a√≠, mas perto de duas dezenas de jornalistas, entre chefes, supervisores, produtores e rep√≥rteres. O crit√©rio utilizado foi: quem √© solteiro est√° demitido. Foi o que me disseram. As coisas s√£o assim, de repente. As explica√ß√Ķes para as coisas n√£o seguem linhas de intelig√™ncia, s√£o burocr√°ticas e obedecem ordens espirituais de flutua√ß√Ķes de mercados. E aquela r√°dio din√Ęmica, com um time incr√≠vel, tornou-se insignificante at√© mesmo na transmiss√£o de futebol. Parte de seu cast integra hoje a concorr√™ncia, e d√° show de bola. Em seguida, aconteceu uma 'fumaceira' na Ipanema FM.

    Mas agora está tudo esclarecido por meio desta nota não-assinada. Não é? reflita. Se realmente fosse um golpe de marketing fabuloso, por que razão 1) diriam que 'foi mal', e 2) acima de tudo, por que esse gênio criativo não aparece? Eu digo por que.

    Não houve coragem de assumir o processo de 'reestruturação' até o fim. Alguém ponderou que o estrago no branding já estava grande e que o cofrinho estava aparecendo. O 'sucesso' desta empreitada foi tamanho que a retratação aos ouvintes foi publicada também no site da Band.

    Para mim, essa pegadinha tem outro nome.
    Foi a maior cagada da história do rádio no Rio Grande do Sul.

    Leia aqui a nota da Ipanema FM. Ou seria do Uol?

    Nota 1: Esse post foi escrito no sábado, 13, e antes de terminá-lo meu marido sofreu um ataque cardíaco. Isso não é pegadinha. O update, feito nesta segunda-feira, ficou cheio de remela por conta do episódio. O texto saiu que nem boi de corno virado, e assim ficará.

    Nota 2. Leia mais sobre a história da Band AM 640 kHz e a demissão de Kátia Suman da Ipanema FM neste livro do Luiz Ferraretto.

  • Horizonte de eventos: princípio de exclusão

    Estamos trabalhando duro para melhor entendê-los.
    Falarei sobretudo sobre tudo. Juro. Em breve neste espaço verde.
    Muitas mudanças em andamento, ao mesmo tempo.
    Grata pela compreens√£o moment√Ęnea, deixo-vos com um texto in√©dito e nubente de transforma√ß√Ķes.
    Não que venha ao propósito do Bovinenses, ou tenha serventia de entretenimento.
    √Č um suspiro
    apenas.


    Como matar um Golem

    Chega o tempo em que, embora a dor seja a mesma, chorar torna-se um desperd√≠cio; De tempo para se reconstruir; De l√°grimas que poderiam ser empregadas para alegrias; Uma despesa de for√ßas para alcan√ßar a tr√©gua, mesmo que isso seja uma aus√™ncia, um nada. E voc√™ constata um padr√£o, uma s√©rie de eventos repisados e reincidentes, e que gra√ßas a esta rotina ent√£o a dor permanece l√°, em seu ninho, como uma h√≥spede j√° conhecida, que tem seu quarto e suas cobertas; E suas gl√Ęndulas tornaram-se viciadas, as l√°grimas s√£o abstratas ou o corpo j√° est√° t√£o macerado que n√£o reage mais; Nos olhos, o desespero prossegue buscando uma solu√ß√£o, uma sa√≠da para que tudo isso pare, um rem√©dio decisivo que acalme a vontade de arrancar a pele do rosto com as unhas, perfurar o t√≥rax, arrancar √† for√ßa o cora√ß√£o e atir√°-lo pela janela, antes que ele mesmo se suicide num enfarto. O tremor das m√£os denuncia sua ang√ļstia, e elas pegam x√≠caras e cigarros como se denotassem Parkinson. Quase todas as vontades desaparecem ― sobra apenas aquela que diz para voc√™ correr para bem longe de onde est√°, deixando para tr√°s esse lodo fatal, onde busca algo em que se agarrar e acha n√£o mais que fantasmas de ra√≠zes est√©reis desde o pret√©rito; Evadir-se, mandar-se √† merda, para bem longe, √© uma id√©ia que lhe puxa como um √≠m√£, magnetica e constantemente. Voc√™ tem diarr√©ia, voc√™ chora insone at√© salivar porque precisa lutar por sua vida, para que essa sua vida n√£o queira tamb√©m lhe abandonar, como voc√™ quer abandonar a situa√ß√£o.

    Chega o tempo em que mesmo os bons momentos s√£o prel√ļdios do mal, ent√£o at√© deles √© preciso escapar, evit√°-los como um inseto de patas pegajosas e corpo mole; E talvez esta seja a maior dor, porque o seu amor n√£o muda, mas voc√™ precisa ignor√°-lo, ou tudo volta a um in√≠cio eterno, e tudo se repete, e voc√™ pode at√© achar que est√° sonhando, porque a realidade aparece como irreal, um exagero, um peso que a um corpo pequeno √© imposs√≠vel encarar; E voc√™ sabe que se n√£o arranjar uma sa√≠da, uma solu√ß√£o, mesmo que tempor√°ria, sucumbir√°; E a√≠ voc√™ estar√° marcado para morrer antes da hora por causa dessa degenera√ß√£o, hipn√≥tica como um v√≠cio, porque acreditou que isso bastava para que as pessoas fossem, ora, felizes; E hoje o espelho devolve-lhe uns olhos que n√£o parecem mais seus, e eles tamb√©m lhe indagam e devolvem o olhar de perplexidade, de afli√ß√£o; E voc√™ tenta entender como surgiram em cada lado do rosto ravinas escuras, da p√°lpebra em dire√ß√£o √† boca, e se pergunta como foi t√£o parvo a ponto de se meter mais uma vez com esse Golem, e nada faz sentido; E voc√™ sabe, com toda a for√ßa da ci√™ncia que possui em si mesmo, que para parar isso n√£o existem rem√©dios nem fugas: √© preciso apagar do Golem uma parte dele mesmo para que morra ― Voc√™ sabe que √© preciso amputar sua perna, se ela estiver gangrenada, para permanecer vivo; decepar-se √© a √ļnica sa√≠da poss√≠vel.

    Chega o tempo em que √© preciso que voc√™ fa√ßa um sacrif√≠cio para ter de volta a si mesmo, mesmo que lhe falte um peda√ßo; Voc√™ precisa fazer essa ren√ļncia para ser novamente um ser humano e ter sua vida de volta. Chega o tempo em que √© preciso ter coragem, e para viver √© preciso matar, ou voc√™ sucumbir√° de m√£os dadas com o Golem. Ap√≥s esse procedimento, doloroso mas necess√°rio, ainda sangrando, voc√™ conseguir√° abrir um sorriso d√©bil, febril, mas ainda um movimento vivo, e concluir√°: quem inventou o Golem foi voc√™.

    Ariela Boaventura, set2010.

    * O Bovinenses n√£o obedece √†s regras do N√īvo Acordo Ortogr√°fico da L√≠ngua Portuguesa.

  • Cinzeiro

    Este √© o texto que o escritor, poeta e mestre Marcelo Noah* apresentou no Primeiro Popular Porto Alegre de Ru√≠do & Literatura Vol. 3, no qual eu tamb√©m li um eslovo delirante. Naquela √©poca (2008), plat√©ia ainda tinha acento − atualmente, at√© diarr√©ia perdeu o agudo. O Rio Grande do Sul vivia ent√£o um √°pice de trevas absolutas, em que a pol√≠tica, eivada de esc√Ęndalos, abria uma fenda sin√°ptica no entendimento e a realidade estava, como ainda est√°, virada ao seu avesso. Como hoje tal contexto √© conting√™ncia nacional na figura de fatos cabulosos, o prezado ruminante constatar√° que os dados do texto s√£o ingredientes que prosseguem integrados ao caldo podre da realidade brasileira. √Č poss√≠vel que alguns percentuais estejam mais altos. Os atos, tamb√©m √© preciso reconhecer, s√£o ainda mais audaciosos na esfera federal e escarnecem da boa-f√© do cidad√£o.

    A apresentação deste texto foi mais que um fato estético. Foi muito além da performance, pois o autor estava possuído e quem o escutava, em catarse. Suas palavras eram petardos que, emitidos, comoveram quem teve o privilégio de assistir esse exorcismo.

    Assim, como hoje é meu aniversário, resolvi oferecer esta leitura como presente aos meus raros, mas fiéis, bovinenses.

    Desfrutem e digiram esta emuls√£o explosiva, enquanto uma nuvem de cinzas vulc√Ęnicas cobre o Rio Grande do Sul e uma neve de chumbo cai sobre nossas cabe√ßas.



    O POPULAR

    Por Marcelo Noah

    SEIS BILH√ēES/OITOCENTOS E VINTE E TR√äS MILH√ēES/ SETECENTOS E DOZE MIL/ CENTO E NOVE [...] pessoas.

    8,6 bebês nascem a cada segundo no planeta, são 516 nascimentos por minuto.

    No Brasil nasce 1 beb√™ a cada 12 segundos e, mesmo que meus c√°lculos n√£o estejam assim t√£o corretos, nesse exato momento somos perfeitamente CENTO E NOVENTA E DOIS MILH√ēES/ NOVECENTOS E SETENTA E CINCO MIL/ SEISCENTOS E SETENTA E DUAS pessoas.

    E segundo dados do IBGE, a m√©dia de ces√°reas no brasil √© de 46,6%; mais que o dobro da porcentagem recomendada pela Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde, que considera aceit√°vel um √≠ndice de no m√°ximo 15% de ces√°reas entre as parturientes.

    Mas nada de entrar em p√Ęnico, pois ao menos em S√£o Paulo a fecundidade anda diminuindo: em 2008, a m√©dia de filhos foi de 1,7 por mulher. √Č a metade da taxa registrada em 1980.

    E mais! UMA em cada 7 brasileiras de at√© 40 anos j√° fez aborto, o que d√° um n√ļmero aproximado de 5 milh√Ķes de mulheres.

    No Brasil, homens duram 7,6 anos menos que as mulheres.

    J√° um levantamento recente do Incra revela que o √≥rg√£o ignora o que se passa em 5 milh√Ķes de km¬≤ da Amaz√īnia Legal, que compreende 59% do territ√≥rio nacional.

    E a soma total da riqueza dos milion√°rios no mundo chegou a US$ 40,7 trilh√Ķes, o que representa 75% do PIB mundial no ano passado. E o n√ļmero de milion√°rios NO BRASIL n√£o p√°ra de crescer: s√£o CENTO E NOVENTA MIL milion√°rios, 46,1% a mais que no ano passado. J√° na lista de BILION√ĀRIOS deste ano da revista "Forbes", o Brasil tem 18 ilustres representantes, sendo que o mais rico √© o empres√°rio Eike Batista, que aparece na OITAVA coloca√ß√£o geral com seus modestos 27 bilh√Ķes... de d√≥oolares.

    Mas a grana n√£o p√°ra por a√≠, e tudo indica que o Brasil √© mesmo um pa√≠s pro futuro. Segundo um levantamento da Barclays Wealth e da Economist Intelligence Unit, estima-se que em 2017 o Brasil ter√° 675 mil domic√≠lios com fortuna de pelo menos US$ 1 milh√£o e ser√° o pa√≠s emergente com o maior n√ļmero de milion√°rios.

    Enquanto isso, do lado de c√° da realidade, a taxa de desemprego ficou em 7,4% no primeiro trimestre de 2010, mas o Sistema de Informa√ß√Ķes de Cr√©dito do BC divulgou que o universo de brasileiros com alguma d√≠vida, mesmo que pequena, √© de 80 milh√Ķes. Mas ao contr√°rio do que pode parecer, 95% s√£o adimplentes, ou seja, pagam em dia as suas obriga√ß√Ķes.

    Já uma pessoa que, em 1994, comprava uma calça por R$ 100, hoje teria que gastar R$ 150. Mas, se em vez de comprar a calça em 1994, o consumidor colocasse os R$ 100 numa aplicação que corrigisse o valor da inflação do período, em 2009 ele teria R$ 311,12. Em outras palavras, o dinheiro que comprava 1 calça há 16 anos, hoje compraria 2. E ainda sobraria um troco pro xis com ovo e pepsi-cola.

    E a milhagem n√£o p√°ra, mais de 208 milh√Ķes de pessoas no mundo usaram drogas il√≠citas pelo menos uma vez nos √ļltimos 12 meses, √© o que afirma o Relat√≥rio Mundial sobre Drogas da ONU. A maconha √© a droga mais consumida: 166 milh√Ķes de pessoas usaram em 2006.

    E segundo dados da PF, um grama de cocaína vale R$ 6 no atacado e R$ 25 no varejo, gerando um lucro de 300%.

    Agora um recado pra quem acha o Paulo Coelho uma droga: em maio de 2008 os originais de um romance do Paulo foram arrematados por 243 MIL EUROS (cerca de R$ 617.000) num leilão beneficente promovido pela atriz Sharon Stone, em Cannes. O livro, que atende pelo título "O Vencedor Está Só", é considerado a obra mais longa do autor, com 100.000 palavras - contra as 76.000 de "O Zahir".

    Os evang√©licos j√° s√£o 25% dos brasileiros, sendo 19% seguidores de denomina√ß√Ķes pentecostais, O crescimento do rebanho acompanha a redu√ß√£o do percentual de cat√≥licos, que hoje s√£o 61%.

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a registar 76% de aprovação para o seu governo, um recorde desde que assumiu, em janeiro de 2003. Lula é o presidente mais bem avaliado desde o fim da ditadura. Fernando Collor (1990-1992) teve máxima de 36%. Fernando Henrique Cardoso (1995-2001) chegou a 47%.

    Estados desembolsam R$ 1,69 bi em propaganda. O governo tucano do Estado de S√£o Paulo foi o que mais gastou com propaganda e publicidade no pa√≠s -quase um quinto de R$ 1,69 bilh√£o que as administra√ß√Ķes estaduais desembolsaram na v√©spera do ano eleitoral.
    Sozinho, o governo federal teve gastos publicit√°rios de R$ 1,119 bilh√£o em 2009.

    O gasto dos ga√ļchos com propaganda para divulga√ß√£o da governadora Yeda Crusius foi de R$ 18,98 por habitante.

    De acordo com levantamento realizado pela ONG Contas Abertas, o chamado hor√°rio eleitoral gratuito no r√°dio e na televis√£o custar√° R$ 856.359.976,86 aos cofres p√ļblicos - dinheiro suficiente para custear um ano de estudo para 635 mil alunos, um contingente de estudantes de rede p√ļblica de uma grande capital.

    39 pessoas j√° ocuparam a Presid√™ncia do Brasil, o sucessor de Lula ser√°, portanto, o 40¬ļ presidente.

    O texto aprovado essa semana pela C√Ęmara do projeto Ficha Limpa atinge s√≥ 1 pol√≠tico dos 70 deputados federais e 3 senadores paulistas, al√©m dos 37 l√≠deres partid√°rios do Congresso. De acordo com o site da Transpar√™ncia Brasil, apenas Paulo Maluf se enquadra no projeto.

    No 1¬ļ dia no Twitter, Ch√°vez supera 69 mil seguidores

    dilma já está a dois meses no twitter e só hoje chegou nos 66 mil

    Dilma teria direito a 10min29s no hor√°rio nobre da TV (em um bloco de 25 minutos), contra 6min46s de Serra. A campanha eleitoral na TV vai durar 45 dias, no primeiro turno.

    Das 512 prefeitas Brasil adentro, 51,2% comandam cidades nordestinas.

    De acordo com n√ļmeros divulgados pela Anatel referentes a abril, o Brasil tem 180,8 milh√Ķes de celulares. A cada grupo de 100 habitantes, existem 93,8 celulares. Desse total, 82,36% s√£o pr√©-pagos e 17,64%, p√≥s-pagos. A Vivo tem 30,14% de participa√ß√£o e √© l√≠der do mercado, seguida por Claro (25,47%), TIM (24,72%) e Oi (20,3%).

    A telefonia m√≥vel tamb√©m teve um aumento em acessos, e deve chegar a 5 bilh√Ķes de assinantes apenas neste ano.

    A internet chega a 26% da popula√ß√£o mundial, ou melhor, 1bilh√£o e 700milh√Ķes de usu√°rios.

    1,4 bilh√£o de domic√≠lios possuem aparelho de TV -- o que representa uma cobertura equivalente a 5 bilh√Ķes de pessoas no mundo, ou uma penetra√ß√£o de 79%. S√≥ na √Āfrica que a penetra√ß√£o ainda √© baixa: apenas 28% das resid√™ncias possuem TV.

    dados do Ideb divulgados na √ļltima segunda-feira mostram que s√≥ 2% das escolas de ensino fundamental no pa√≠s atingiram ou superaram a m√©dia 6.

    de janeiro a março de 2008, 41.565.000 brasileiros tiveram acesso à internet.

    Os ganhos da operadora OI subiram de R$ 11 milh√Ķes, no primeiro trimestre de 2009, para R$ 496 milh√Ķes.

    Apenas 17,5% das escolas brasileiras têm banheiros e dependências acessíveis a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Os dados são do Ministério da Educação.

    o √≠ndice de acessibilidade na rede p√ļblica √© de 14,6%; na particular, √© de 29,7%.

    Segundo dados do Departamento da Defesa dos EUA o país possui 5.113 ogivas nucleares ativas. 
    O Brasil est√° terminando de colher uma safra de soja de 67,4 milh√Ķes de toneladas.

    O peso médio dos 23 jogadores convocados por Dunga é de 76 kg. Quanto à altura, o time atual mede em média 1m82cm.

    Uma em cada seis crianças nos EUA é obesa. No Brasil, 9% das crianças e adolescentes são obesas.

    Ao menos 22.700 pessoas aguardam hoje na fila por um transplante de córnea, sendo que a média de espera é de TRÊS anos.

    a AmBev gasta 4,37 litros de √°gua para produzir cada litro de cerveja. O brasileiro bebe 9 bilh√Ķes de litros de cerveja por ano.

    o Rog√©rio Skylab meteu 19 vezes as express√Ķes "vagabundo" e "filho da puta" no Hino Nacional e n√£o foi processado sequer uma √ļnica vez pela fa√ßanha.

    207 dos 3.000 escaladores que j√° subiram os 8.848 metros do Monte Everest morreram durante o trajeto.

    44 MILH√ēES (44.000.000!!!) foram os REAIS roubados DO POVO GA√öCHO com a coniv√™ncia de uma mulher que - ainda hoje - segue √† frente do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Faltam 128 dias para a pr√≥xima elei√ß√£o.


    * Al√©m ser possu√≠do pela faculdade cada vez mais rara de cultivar o pensar, Marcelo Noah apresenta o programa Teorema na Ipanema FM 94.9 MHz todos os Domingos e alimenta o espa√ßo liter√°rio Cont√©m Gl√ļten com prote√≠nas po√©ticas em transe. Ele tamb√©m domina de jeito um bambol√™.

  • SIZA versus PISA

    ATENÇÃO: Se você é engenheiro ou querelante, veja a descrição do PISA antes de ler este texto aqui.


    "Um muro se ergue à minha frente, na curva do caminho..."
    (Pierre Teilhard de Chardin)

    "A violência que se desencadeou alhures aproxima-se sem que eu a veja. Ela se oculta atrás dos muros, como fazem os salteadores" (Iberê Camargo)


    RESUMO:

    Porto Alegre ter√° a melhor rede de tratamento de esgotos do universo. √Č um projeto amplo, com nome e sobrenome. Atende por Projeto Integrado Socioambiental (PISA) e construir√° o Emiss√°rio Subaqu√°tico, no Estaleiro S√≥, e a Esta√ß√£o de Bombeamento de Esgotos do Cristal. O projeto tem tr√™s frentes de a√ß√£o:1

    (1) melhoria da qualidade da água do Guaíba;
    (2) desenvolvimento urbano e drenagem e programa de geração de renda;
    (3) gest√£o ambiental.

    "O projeto é coordenado pela Secretaria Municipal de Gestão e Acompanhamento Estratégico e executado pelo DMAE, com a co-execução de outras secretarias e departamentos do município" (Correio do Povo, Geral, 20/06/2010).

    F√īlego. Respire.

    Urge destacar quatro (4) pontos exalados deste projeto.

    (a) De acordo com o jornal Zero Hora (30/12/2009), o Projeto Integrado Socioambiental (PISA) foi alvo de inquérito pela Polícia Federal.
    (b) De acordo com o jornal Zero Hora (Geral, 27/05/2011), as tubula√ß√Ķes preciosas do Emiss√°rio Subaqu√°tico for√ßam a constru√ß√£o de um muro em frente √† Funda√ß√£o Iber√™ Camargo.
    (c) Na tarde de 20 de maio de 2011, o prefeito de Porto Alegre José Fortunati e a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, visitaram obras do Projeto Integrado Socioambiental (PISA).
    (d) O Cons√≥rcio GEL/Infracon/Bronstrup, constitu√≠do pelas empresas Goetze Lobato Engenharia Ltda., Infracon Engenharia e Com√©rcio Ltda. e Bronstrup Constru√ß√Ķes Incorpora√ß√Ķes e Participa√ß√Ķes Ltda. foi o vencedor da licita√ß√£o do projeto, com proposta de R$ 102.595.189,43.

    Agora, raro ruminante, acompanhe os desdobramentos de cada ponto:

    (a) A Pol√≠cia Federal abriu o inqu√©rito contra o PISA por suspeita de irregularidade em licita√ß√Ķes. Est√° no mesmo texto citado.
    (b) Esse muro j√° est√° sendo erguido desde fevereiro de 2011. Ele ter√° 4m40cm de altura. Deve ficar pronto daqui a pouco mais de 2 meses, em agosto. (Dados: Idem, loc. cit, passim.)
    (c) Na visita, a ministra falou da alegria de conhecer o projeto. As obras do PISA contam com financiamento da Caixa Econ√īmica Federal via Programa de Acelera√ß√£o do Crescimento (PAC).
    (d) Aqui você tem os nomes envolvidos na suspeita de fraude. Não há referência ao consórcio nem às empresas vencedoras. Mas há um nome já citado em outros litígios.

    Ainda em rela√ß√£o a (b), o Departamento de Esgotos Pluviais explica que o muro defronte √† Funda√ß√£o Iber√™ Camargo vai proteger as tubula√ß√Ķes do emiss√°rio terrestre. (Fonte: idem, etc.).

    Por fim, alguns n√ļmeros.

    - As obras do PISA custar√£o um total de R$ 580 milh√Ķes. √Č mais de meio bilh√£o.
    Deste total:
    - R$ 83 milh√Ķes s√£o financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID;
    - R$ 316,2 milh√Ķes s√£o financiados pela Caixa Econ√īmica Federal por meio do PAC;
    - R$ 67,1 milh√Ķes como contrapartida da Prefeitura de Porto Alegre.

    Detalhes que fogem por um ponto de fuga invisível:

    - A imprensa bovina pastejou e pautou o tema de forma oblíqua e fragmentada: fala de canos na Geral e de obras magníficas de tratamento de esgotos para 2014 no caderno de Esportes. Um texto sóbrio e de poucas linhas, cuja forma tem similar na literatura de releases de assessoria de imprensa de Departamento de Esgotos Pluviais, anuncia na manchete que o muro ficará pronto em agosto - como se o fato fosse favas cantadas, como se todos os bovinenses estivessem já carecas de saber desse muro que está sendo construído em frente ao prédio da Fundação Iberê Camargo, o que leva ao ponto seguinte.

    - O pr√©dio da Funda√ß√£o Iber√™ Camargo √© uma obra de arte. √Č projeto do arquiteto portugu√™s √Ālvaro Siza. √Č um referencial arquitet√īnico n√£o apenas para Porto Alegre como para o Brasil. √Č um espa√ßo ativo com mostras de arte moderna e contempor√Ęnea. √Ālvaro Siza √© um dos cinco arquitetos contempor√Ęneos mais importantes do mundo. O projeto da Funda√ß√£o Iber√™ Camargo recebeu o Le√£o de Ouro da Bienal de Arquitetura de Veneza (2002) e √© m√©rito especial da Trienal de Design de Mil√£o. No Brasil, Siza foi agraciado com a Medalha de Ordem ao M√©rito Cultural em 2007 e recebeu A RIBA Gold Medal, que √© um dos pr√™mios mais prestigiosos da arquitetura.

    Uma, e apenas uma, observação - que talvez tenha a ver com o item (a) supramencionado: "A vereadora Maria Celeste (PT) solicitou", na tarde de 2/12/2009, "a criação de uma comissão externa para investigar as possíveis irregularidades no PISA, relatadas durante sessão da CPI da Corrupção. Esta comissão teria autorização para acessar no DMAE todos os documentos que envolvem as obras do programa" (Fonte: Jornal do Comércio, 2/12/2009).

    Ok, só mais uma observação: "O PISA" era "um dos principais programas da gestão José Fogaça" (idem).

    D√ļvidas:

    - Como se justifica a interfer√™ncia perene de encanamentos, obras-de-arte da engenharia, na beleza da obra de arte de √Ālvaro Siza?
    - Que fim levou a investigação da Polícia Federal?
    - Por que os jornalistas de cultura de Porto Alegre não dão atenção a esta pauta flamejante, fervente, fumegante, quentiíssima?
    - O que aconteceu com a intenção do PT municipal em querelar contra o PISA?

    CONSIDERA√á√ēES FINAIS

    "Tem uma chaminé de equilíbrio no meio de tudo isso. Tem, mas eu não vejo. Há dois emissários: um terrestre e um subaquático. Vejo apenas um emissário, e ele me parece extraterrestre" (BOAVENTURA, 2011).

    Em troca da beleza da arte, teremos merda tratada.
    Teremos de abdicar de √Ęngulos de vis√£o que nos porporcionam prazer aos sentidos.
    Teremos de abrir m√£o da liberdade de olhar para o p√īr-do-sol no Gua√≠ba sem entraves.
    Mas pondere.
    Merda pode dar muito dinheiro, depende de como você a encara.
    Perdido o √Ęngulo, a coisa se reconfigura.
    O ponto de vista é crucial para a arte e para beleza.
    A fruição depende dos sentidos humanos.
    Quanto mais aguçados, sensíveis e treinados, melhor apreciamos a arte.
    Quanto menos usarmos e cultivarmos nossos sentidos, menos prestamos atenção à arte.
    Ao perder um peda√ßo da vis√£o da Funda√ß√£o Iber√™ Camargo, por um lado, e pelo outro uma nesga de p√īr-do-sol do Gua√≠ba, tamb√©m empobrecemos mais nossos sentidos.
    Ao empobrecermos, sensivelmente, emburrecemos: embrutecemos.
    Brutalizados, reagimos sem ciência, sem pensar no que queremos receber.
    Recebemos o que merecemos e o que podemos pensar merecer.
    Coliformes fecais, neste caso.

    REFERÊNCIAS

    BOAVENTURA, Ariela et al. 'Siza versus Pisa'. In: Bovinenses, 'os melhores em tudo'.
    DE CHARDIN, Pierre Teilhard. (Citação.) In: CAMARGO, IBERÊ.  Cartão de Natal. Disponível na íntegra no site da Fundação Iberê Camargo.
    CAMARGO, Iberê. Cartão de Natal. In: Gaveta dos Guardados. Edusp (1998).

    NOTAS EXPLICATIVAS

    1 S√£o termos empregados em documento contendo dados do PISA em formato PPS, entregue √† C√Ęmara de Vereadores de Porto Alegre em 2009.


    ANEXOS

    I - Há mais detalhes sobre o muro de Iberê aqui, aqui e aqui.

    II - H√° uma enquete com op√ß√Ķes nonsense sobre o tema deste post aqui.

    III - H√° fogo-amigo nos canos e tubula√ß√Ķes do PISA aqui.

    IV - Confira o andamento de cada obra do PISA aqui.

    V - Veja como foi a chegada das gigantescas tubula√ß√Ķes a Porto Alegre aqui.

    VI - Confira e partilhe tamb√©m das preocupa√ß√Ķes da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, com o cumprimento dos prazos das obras de infra-estrutura para a Copa de 2014 aqui.

    VII - Cota√ß√£o do d√≥lar em 2009: R$ 2,443. √Č s√≥ para ver se voc√™ estava concentrado. ;)

    * Bovinenses não observa as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

  • O caso da Formiguinha Gulosa & outras lendas inarráveis do rock gaúcho

    Ser ga√ļcho e ser nost√°lgico. O vivente toma a cuia e sorve a erva-mate com os olhos perdidos no horizonte. A milonga √© declamada com rugas dram√°ticas, para enfatizar o sentimento sem dar ar de frescura. Os esses s√£o cortados dos plurais propositadamente, para dar ainda maior √™nfase ao idioma do bovinense, essa criatura metade homem, metade cavalo e cora√ß√£o de manteiga domado no relho. A imagem do ga√ļcho √©, assim, conhecida no mundo inteiro: sua terra √© a melhor e mais guasca do universo, com hist√≥rias de fa√ßanhas marcadas na pele do tempo com sangue e coragem, malgrado as d√ļvidas hist√≥ricas, o exagero pitoresco e os sorrisos c√©ticos dos estrangeiros. √Č daqui o chimarr√£o, o churrasco e o cusco, e ningu√©m tasca. E √© aqui, nessa terra de desembestados, que foi inventado o melhor rock do planeta, misto de tosquera nua, cacha√ßa, jovem guarda e milonga. √Č o melhor rock das realidades existentes ou imaginadas porque, ora bolas, √© daqui. Dizem que ga√ļcho roqueiro toca s√≥ com dois dedos e tr√™s acordes, enquanto prepara a erva com a outra m√£o, assoviando em uma perna s√≥.

    E √© para celebrar a mem√≥ria do rock ga√ļcho que voc√™ vai ler aqui no Bovinenses tr√™s epis√≥dios n√£o-oficiais que integram e deliciam o imagin√°rio de todo aquele que esfregou a bunda na cal√ßada da Osvaldo Aranha e estragou o f√≠gado com Polar quente na Lancheria do Parque. S√£o dois os imp√°vidos protagonistas, eles mesmos lend√°rios em si. Vou narrar com todas as nuances duvidosas e falhas da minha mem√≥ria. Processos por danos morais por conte√ļdo publicado aqui n√£o ter√£o bens a confiscar.

    Ver√£o, loucos anos 90. Porto Alegre arde a sua criatividade. Bares e bandas se multiplicam de forma bacteriana. √Č nessa caldeira de id√©ias que gente inesquec√≠vel como Edu K, Frank Jorge, Nei Lisboa, J√ļpiter Ma√ß√£, Plato Divorak & milhares de bandas desenvolvem e elevam sua arte a um n√≠vel jamais vislumbrado nem pelo fil√≥sofo Humberto Gessinger.¬† A m√ļsica lis√©rgica de bandas como Laranja Freak incensam momentos inesquec√≠veis. E √© nessa nuvem de elementos t√≥xicos por√©m ainda liberados que Plato Divorak protagoniza um momento de alucinose jamais visto. N√£o se sabe como ele desenvolveu tal ideia. Sabe-se apenas o que testemunhas narram. Beirava o meio-dia. Nas proximidades da rua Jo√£o Abbott, ou, mais exatamente, pr√≥ximo √† E√ßa de queiroz, havia uma padaria e confeitaria chamada Formiguinha Gulosa sobre cuja cal√ßada era exibido, para atrair as crian√ßas, um dispositivo do tamanho e do formato de uma enorme bola de praia, transparente e repleto de chicletes e balas coloridos. De repente, num √°timo, surge correndo nas proximidades um rapaz de longos cabelos castanhos cacheados. Era Plato Divorak que sa√≠ra de casa em estado mescalino e agora voava Preot√°sio Alves abaixo, em dire√ß√£o √† Formiguinha Gulosa. Ent√£o, ele p√°ra, e decididamente arranca a enorme bola de balas e sai correndo novamente. O ato foi t√£o absurdo que o dono, mesmo vendo o que estava prestes a acontecer, ficara de boca aberta e s√≥ acordou quando Plato Divorak j√° dobrara a esquina e voltava para casa. O dono da confeitaria chamou a pol√≠cia, que, ap√≥s custar a crer no que o comerciante relatava, saiu meio que de m√° vontade atr√°s desse ind√īmito adorador de balas, sem contudo obter sucesso na busca.

    Porto Alegre, anos 80. N√£o existem ainda amplificadores nem est√ļdios de ensaio.¬† O Domingo ensolarado √© de um arreganho que √© flor e flor.¬† Gordo F., um jornalista famoso no underground do rock porto-alegrense, n√£o por apenas publicar o jornal voltado ao tema quanto por fornecer alegria infinita a estrelas de todos os escal√Ķes, est√° relaxando dentro de seu carro, estacionado no meio-fio que circunda a Pra√ßa da Encol, bairro Bela Vista. Ele vai a um casamento, o que explica seu aspecto black-tie n√£o-usual: est√° de terno, gravata, sapato social; penteou o cabel√£o ensebado, est√° de barba feita e at√© mesmo de banho tomado. Parece mais alegre que guaipeca recebendo o dono na porteira. No porta-luvas do seu Fusca, h√° um tijolinho de alegria, empacotado em papel alum√≠nio √† causa de ganha-p√£o. Por uma infeliz piada do destino, a Pol√≠cia Civil resolveu fazer um rol√™ pela pra√ßa. A viatura passa devagarinho pelo nosso her√≥i e p√°ra ao lado do Fusca. Os policiais fazem sinais esquisitos, mas o Gordo resolve dar uma de esperto e finge que n√£o entende. Por precau√ß√£o, esconde o dedinho de erva fumegante todo dentro da boca. Mas o cheiro inconfund√≠vel de muamba teima em permanecer no ar. Os policiais est√£o bem-dispostos e folgados. Eles apeiam do ve√≠culo e v√™m ter com o Gordo, que come√ßa a demonstrar seu desespero tamb√©m por meio da pele, suando frio por antecipa√ß√£o glandular; o cora√ß√£o coiceia e tenta a sa√≠da pela boca; a voz o abandona. Engole o pedacito fumegante enquanto espera, sem conseguir responder √†s quest√Ķes embara√ßosas, por causa do cheiro na boca; espera que revistem o carro enquanto gagueja uma desculpa vaga sobre o cas√≥rio ao qual se dirigiria logo depois. Os brigadianos encontram o pacote no porta-luvas e olham para o Gordo, como quem pega a crian√ßa com a m√£o no doce. L√°grimas escorrem pelos olhinhos oleosos do Gordo. Mas os guardas est√£o com senso de humor, e j√° t√™m a pena decretada. Admiram a beca e a preza do Gordo com aqueles trajes de Domingo, sapatos listrados e cabelo engomado. Ent√£o, eles lhe dizem para tirar as cal√ßas. √Č de cuecas que ele recebe sua senten√ßa. Os policiais mandam o Gordo sair do carro e correr em volta da Pra√ßa da Encol. "Corre, gordo!", eles gritam. E ficam ali, encostados no fusca, √†s gargalhadas, enquanto v√™em ao longe o Gordo de fraque e cuecas largando fora, sem olhar para tr√°s. De vez em quando, eles recuperam o f√īlego e gritam: "Corre, Gordo!".

    Pouco antes, ou pouco depois, desse epis√≥dio da Pra√ßa da Encol, o Gordo foi protagonista de um filme deveras bizarro. √Č claro que ningu√©m, naquela √©poca, estava em um estado normal de consci√™ncia, e era comum cometer-se desatinos por um pacote de salgadinhos ou balas da mesma forma como se faria por uma garrafa de Jack Daniels ou certas subst√Ęncias at√© hoje inenarr√°veis. O filme, um curta-metragem de uns 10 minutos, foi feito em VHS em plano-sequ√™ncia por um baterista, hoje aposentado, em estado alterado. √Č uma obra-prima expressionista repleta de suspense e com um desfecho arrasador. Ser√° imperativo cometer aqui um spoiler, uma vez que a fita se encontra em lugar incerto e n√£o-sabido. Play. Abaixo do comando REC, v√™-se em princ√≠pio somente trevas. √Č preciso acostumar seus olhos, ou olhar, √© preciso que use toda a sua sensibilidade cinematogr√°fica. Em um quarto escuro e repleto de restos de comida e garrafas de cerveja, v√™-se em primeiro plano um colch√£o encardido, fininho, com um cobertor cinza-rato por cima, o qual parece esconder alguma coisa debaixo. Tudo est√° quieto, neste momento. A c√Ęmera oscilante aproxima-se um pouco mais do colch√£o, onde, √† dist√Ęncia de um bra√ßo, encontra-se um pacote de Ruffles aberto; algumas batatinhas escorregaram para fora e descansam sobre o ch√£o imundo. O sagaz diretor espera, a c√Ęmera grava o escuro, o sil√™ncio cortado de vez em quando pelo que parecem ser roncos, mas o olho da c√Ęmera n√£o se distrai desse colch√£o. Ent√£o, quando voc√™ come√ßa a dar o primeiro bocejo, o colch√£o se mexe. Quer dizer, aquilo que est√° sob o cobertor e sobre o colch√£o, uma montanha de alguma coisa viva se contorce e geme. A c√Ęmera treme de emo√ß√£o e fecha mais sobre esse mesmo √Ęngulo. De soslaio, abre-se uma fenda no canto superior direito do cobertor, e dali espia para fora uma m√£ozinha gorda, branca e peluda. Fr√°gil e vacilante, ela apalpa o ch√£o, farejando alimento. Encontra o saco de Ruffles, e voc√™ at√© pode notar que ela, de algum modo muito pr√≥prio, sorri, ao agarrar algumas batatinhas; da√≠, num √≠mpeto, como se temesse ser surpreendida tal presa, foge por entre a fenda do cobertor novamente, onde some. Ali, movimentando-se minimamente, a montanha viva emite um ru√≠do similar a 'crock-cronch-cronch'. A c√Ęmera se distancia, como se admirasse aquele ign√≥bil momento, e antes que possamos morrer de nojo chega o fade out. Fim.

    Caro ruminante, voc√™ quer saber mais sobre estas e outras hist√≥ria do rock ga√ļcho em detalhes incandescentes? Adquira o livro Gauleses irredut√≠veis, de Alisson √Āvila, Cristiano Bastos e Eduardo M√ľller, o Coc√≥ (Ed. Sagra-Luzzatto). √Č pena que esse livro tamb√©m j√° esteja se tornando uma lenda, porque foi lan√ßado em 2001 e at√© hoje n√£o recebeu uma segunda edi√ß√£o e √© muito dif√≠cil encontrar √† venda. (A situa√ß√£o dessa obra me recorda a letra de 'Buraco Tridimensional', de Os Replicantes, cujo refr√£o diz: "Mudou-se para outra camada/Mudou-se para outra dimens√£o/Mudou-se para outra realidade/Mudou-se para outro sistema...".) Quer adquirir uma discografia especial das obras-primas do g√™nero? Clique aqui e baixe uma compila√ß√£o, dividida em dois volumes (e um terceiro de extras), de arquivos hist√≥ricos do rock rio-grandense. Clique aqui e para baixar p√©rolas da discografia do rock made in RS.

  • 'Shoobydahbydoobah - Porto Alegre é meu lar'

    Refletir sobre o anivers√°rio de Porto Alegre, que completou 239 anos no √ļltimo dia 26, pode parecer tosa de porco: muito barulho e pouca l√£. Penso por√©m que o ru√≠do provocado pela eventual agita√ß√£o de qualquer fato corrente de Porto Alegre √© como saborear lascas de picanha rec√©m-sa√≠das da brasa: h√° contra√ß√Ķes afetivas nas ondas de histeria de tamanho vari√°vel que surgem de um mar de absurdos. O novelo cultural torna-lhe uma cidade ainda mais peculiar, onde h√° tantos escritores, cineastas e bandas de rock por metro quadrado quanto √°rvores que, em dias ventosos, torram os fios de eletricidade e deixam a capital do Pasto no breu.

    Porto Alegre tem muitos √≠cones: a Polar quente, o La√ßador, o p√īr-do-sol do Gua√≠ba, este sendo por sua vez um desafio √† hermen√™utica ecol√≥gica, misto de lago, lodo e enigma; o Monumento ao Expedicion√°rio do Parque 'da Reden√ß√£o'; a enorme chamin√© da Usina do Gas√īmetro; o Mercado P√ļblico; a Feira do Livro; a Ponte M√≥vel do Gua√≠ba, hoje um tanto paralisada devido a uma artrite em suas jun√ß√Ķes; a Casa de Cultura M√°rio Quintana, o pr√≥prio M√°rio Quintana e sua poesia de sapatinho florido, de equa√ß√£o simples como um cacetinho do Zaffari, que √© bom porque √© nosso. E foi a partir dessa fartura de imagens e excesso de fa√ßanhas mal-acabadas que pensei em celebrar em texto o anivers√°rio da cidade por meio de uma m√ļsica. Primeiro, pensei no √≥bvio: implicar com a letra de 'Porto Alegre √© Demais', de Isabela Foga√ßa e Jos√© Foga√ßa, Poeta, ex-prefeito e ex-candidato a governo do Rio Grande do Sul. Por qu√™? Porque √© uma del√≠cia a analogia da letra com uma sacanagem do tipo proibida:

    Porto Alegre é que tem
    Um jeito legal
    √Č l√° que as gurias etc... e tal

    Como assim, "as gurias etc. e tal?", o que quer dizer isto? √Č uma ila√ß√£o a respeito de alguma a√ß√£o √≠mproba das meninas porto-alegrenses, algum costume er√≥tico impublic√°vel? N√£o sei, mas eu fico com a pulga atr√°s da orelha. Da√≠, para tentar a ingenuidade, tem mais essa parte:

    Porto Alegre me dói...

    Onde, querida?

    Não diga a ninguém...

    √Č um segredo entre n√≥s, claro. Agora, conte-me: o que voc√™ anda fazendo que lhe d√≥i e n√£o pode se comentar por a√≠?

    Porto Alegre me tem...

    Ah, entendi. √Č uma rela√ß√£o amorosa. Voc√™ √© casada?

    [...]

    Mas resolvi deixar essa bela can√ß√£o dos Fo√ßaga em paz e resumir a homenagem por meio de uma obra-prima tradicional, algo vetusto, em riste e, n√£o suficiente, inesquec√≠vel como uma cicatriz. Chama-se 'Shoobydahbydoobah, Porto Alegre √© Meu Lar'. Note o "bah" sonoro no final deste termo ind√īmito que d√° in√≠cio ao t√≠tulo da m√ļsica. √Č uma obra criada pela banda de trash metal Panic, porto-alegrense da gema e da clara, cujos integrantes germinaram sua inf√Ęncia no Bom Fim/Cidade Baixa/Centro/IAPI. O clipe √© de 1993, muito moderno, se voc√™ levar em considera√ß√£o que Porto Alegre teve seu primeiro est√ļdio de som somente nos anos 80, √©poca em que possuir um amplificador seria considerado t√£o-somente imposs√≠vel quanto o indiv√≠duo seria suspeito de inssurrei√ß√£o contra o regime militar.

    Devo avisar duas coisas, antes de você ter acesso a este videoclipe.

    1) Ouvir Panic pode causar inflama√ß√£o de nervos em vizinhos, portanto, tenha cuidado; o √°udio est√° um horror, tenha paci√™ncia, observe a data ningu√©m sonhava com colesterol ou em ouvir m√ļsica em mp3.

    2) Embora fosse de se imaginar o contrário afinal, o trash metal escandalizaria agora os porto-alegrenses, cuja maioria prefere o sertanojo universitário e outras milongas parasitárias , a banda não acabou completamente, é sucesso ainda hoje na Europa e no Japão e está para lançar, se é que não lançou, um CD do primeiro LP o clássico "Rotten Church" (1987) remasterizado digitalmente, uma bigorna auditiva, um ataque biológico aos nervos.

    Por fim, como eu sou uma m√£e para voc√™s, √© poss√≠vel conferir a generosa ficha t√©cnica com o nome dos artistas e colaboradores, muitos deles hoje grisalhos pais de fam√≠lia ou maestros cujo fino bom-humor subsistiu a Chernobyl. E, por conta dos anais da Hist√≥ria, cometi talvez o exagero de copiar os carinhosos agradecimentos do encarte do LP "Best Before End". Nos detalhes, inseridos aqui ipsis verbis, voc√™ poder√° constatar a inven√ß√£o da primeira hashtag, ainda anal√≥gica: "N√£omexecomaminhaneguinha" (piadas internas, cacofonias bagaceiras, homenagens a groupies e revela√ß√Ķes p√ļblicas de √ļltima hora, entre outras vilanias que agora levariam a tarja de politicamente incorretas, eram muito comuns em encartes de LP's).

    Leia os agradecimentos com bondade. Sua digitação foi trabalhosa, me causou LER e é o registro de uma mentalidade sem caretice que já não encontra espaço atualmente no meio cultural, tampouco na sociedade bovinense.

    Quanto à letra de 'Shoobydahbydoobah, Porto Alegre é Meu Lar', repensei, e concluí que o mundo não tem mais preparo psicológico para tal contato direto.

    Feliz aniversário, Porto Alegre! Clica aí no link, pois o Bovinenses é low-tech.

    http://www.youtube.com/watch?v=yT_UFGueKwk


    PANIC - LP "Best Before End". Ficha técnica:

    Recorded in Porto Alegre 1993 - Panic - Best Before End / Band: Eduardo Martinez: Guitars / Guga: Vocals & Guitars / Marcelo PT: Baixo / Claudio Calcanhotto: Drums.

    Ultra thanx: Eduardo, Sandra & Martinez Family. Morgada Cunha. Carlos Calcanhoto. Kraemer Gomes Fonseca Family. Paz Family. David "Monobumbo Troglovaldo" Drumer. Simone & Nejitailenco Family. Guga & Freitas Family. Klaina. Gremlin.

    Thanx to: Cau. Danilo Pizzato. Biba. Igor Cavalera. Xicone. Duda Dolls. Daniel & os Malaca do P√© do Morro. Leandro. Leonardo. Zico. Pel√©. Silvinho. Celso. Vivi. Luz. Rafaela. Luiz Paulo Santos. K√°tia Suman & Ipanema FM. Coconut & Felusp FM. Ricardo Bar√£o. Cl√≥vis Dias Costa. Ded√© Ferlauto. Revista Bizz. Revista Rock Brigade. Revista Metal. Gustavo Barros & Madhouse Magazine. Riff Zine & all Zines. Andrei Calcanhoto & Padaem√īnio. Leonardo, Gl√°ucio & everybody at Lito Som. Bruno "N√£omexecomaminhaneguinha" Klein. Dido (apaguei!), DiMenor (morsa at√īmica) & everybody at Eger Studio. Fl√°vio (Pit). Henrique (Vap). Maracelo (Bus). Lica. F√°tima. Vanessa. Fausto e M√īnica (Beco 26). Kayson & Galera AAARGH. Galera do Ypu (Os Chamin√©s). Galera do Tubino.* Airton Amaral. Paulo Grillo. Edu K. Egisto. Ivan Muller. Izak. Mario Grace Gildo. Onairo. Minero. Paul√£o. Babu. Keny. Nazi. Paulo "Jake E. Lee Slash". Cassio & Jacques Maciel & Eduardo & Barezin. Sandra Slayer Hell Awaits. Regener. Ricardo Olsen. Renato Jardim. Julio Falavigna. Rodrigo K. Ba√ßo. Rexx. Terra. Rui & Jean (Gringol√Ęndia). Russowsky Family. Dudi. Paulo Mallet. Guta. De Rose. Woodstock Records. Cogumelo Records. C√©sar √Ātomo. Oswaldo Aranha (Bar Lola & seus residentes). Nova Id√©ia Records. Alexandre Machado. Gilberto & Paulo Rocha. M√°rcio Pereira. Lizi & Cris. Marlon Xavier. Fabr√≠cio Viegas. Zel. √Ālvaro Borges. Cliff Burton. Ariel Tatim. Carmelo Zarb√°. Enrique Azambuja. Marcelo Fornazo. El√°dio. Marguinha & Alex (Clara Luz). Andr√©. Cleide & Cl√≥vis (Porto de Elis). Cocaine. Marofa. Pico. Boleta. Gordo Miranda. Studio Alfa. Mr. Plus & suas fontes maravilhosas. S√©rgio Luffing. Felipe (Studio Live). Eduardo "Ping√ľino" & Alexandre. Cleomar. Paul Jannone. Andr√©a. Cl√°udio Heinz. Matthew Kerr. Brian Larsen (Artless Manag). Marcos Machado. Jonca. Cl√°, Adrianne, Chris, Ajaxi & Mousse Simioni. Z√≥zimo Rech. Adriana Scherer, Nicolau Richter (Som√ļsica), Fredi & Cristina Gerling. Hubertus Hofmann. Any Raquel. Z√© Prediger. Celso Loureiro Chaves. Pedro Duval. Fernando Torres. Lea Kiefer. Casa de Cultura M√°rio Quintana. Andr√© Bertuol.. Simone Rasslam. Eduardo Figueiredo. James Correa. Cl√°udia. Geraldo Massiah. Akira. Joyce. Kid Bei√ßo. Museu. Queen. Arroz. Z√© Augusto. Gil Vane. Cleber. Vera. Paula Phone. D√£o. Dirceu (Passo Fundo). Richard & Phillip. Frank & Roger. Pez√£o. Xico (MX). James Muller. Paulo Nequete. Ricardo "Perna". Marcelo Truda. Nicanor. Marto & Marcia Alcaide Vieira. Pinheirinho & Family. Werner. Paulinho. N√™nis. Beto. Luciane (Provok). Andr√© Barcell√£o & Family. Circo Voador. Frank Jorge. Tch√™. Charles Master. Paulo Arcari. Lucia (St√ļdio Biz). Aeroanta. Armando. Bulita. Fernando (Pialo). Eduardo "B.C. Rich". Flavo Becker. Gustavo & Galera de Tr√™s Coroas. Marco DeMartino. R√©gis & T√Ęnia. Irzo. Domingos Fialho. Silvio. Suzy Doll. Silvio Lima. Wilson. L√©o. Z√© Nat√°lio. Caco & Vento Norte. Cintia & Ceccarelli Family. Dante Jr. Bugo. Karen (SP). Cristiano (SP). Genevieve (RN. Jorge (Salem). Pereira (Cia. das Pizzas). C√°rlida. Ananda Ferlauto. Artur de Farias. Marcelo (mau Yamaha!. Alberto Siedler. Coca Barbosa. Lenha. Elaine. Silvia. Quina. Ch√īco. Panga (R√©). Diabo Loiro. Rodrigo. Morcego. Ermilio. Ika. Cl√°udia. Otavio. Alex (Thrash Attack. Kerine (SP). Felipe Drago. Corset. Carlos Gerbase.

  • Lista de desejos pelo 8 de março

    N√£o basta eu ficar martelando no quanto √© ocioso festejar o Dia Internacional da Mulher com parab√©ns, rosas e outros louros in√ļteis e fortalecedores do machismo latente em nossa cultura. N√£o basta olhar para a realidade e constatar que somos, ainda, fragilizadas em v√°rios sentidos, e o ponto mais fr√°gil √© a comemora√ß√£o de uma data voltada para lhe parabenizar por voc√™ pertencer ao sexo feminino. Se isso n√£o √© sexismo, pode me internar. Sou contra a cria√ß√£o de datas de discrimina√ß√£o, acho que s√≥ servem para demonstrar o quanto nossa sociedade √© retr√≥grada. Tamb√©m n√£o gosto quando a imprensa faz compara√ß√Ķes rasas entre sexos, enfatizando diferen√ßas e n√£o os pontos de semelhan√ßa. Mais que isso, ao receber um bot√£o de rosa pelo "meu dia", por mais que o gesto pare√ßa belo, me sinto ofendida. A sensa√ß√£o √© de pertencer a uma esp√©cie em extin√ß√£o, como as baleias. N√£o me faz sentir pertencer a um meio sem preconceito ou a ser igual, pois j√° estou sendo colocada √† parte, como algu√©m especial. Ser especial n√£o √© ser igual.

    Como mulher, posso ter particularidades: posso gestar crias, tenho TPM e me acostumei a me maquiar -- e h√° homens que se maquiam, e meu pai foi um, para disfar√ßar tra√ßos como bochechas e nariz vermelho como um morango. Temos problemas hormonais dram√°ticos. Nosso sistema nervoso √© mais assim-assim, e por a√≠ vai, pois h√° diferen√ßas estruturais entre os corpos de um e de outro sexo. Contudo, os homens n√£o precisam ter um dia, eles apenas existem. S√£o livres, infinitamente mais livres. Podem beber at√© cair sem ouvir censuras morais em voz alta ou ser vistos como algu√©m que est√° ali no bar para se oferecer sexualmente, em busca de algu√©m; podem jamais se casar com uma mulher, e isso n√£o ser√° interpretado como se n√£o prestassem ou fossem hist√©ricos; podem colocar o pinto para fora e fazer xixi na rua (embora isso seja uma selvageria), pois ningu√©m vai censur√°-los. At√© mesmo os gays homens parecem ser mais aceitos em p√ļblico do que as l√©sbicas. A lista de opress√Ķes √© grande e n√£o pretendo esgot√°-la aqui.

    Criei outra lista. Diante destas e de outras discrimina√ß√Ķes residuais, ainda evidentes em diversos detalhes cotidianos, elenquei itens que acho importantes para a igualdade feminina em uma muito singela lista de 5 desejos. Afinal, para alguma coisa essa data de 8 de mar√ßo deve servir, al√©m de distribuir cestinhas com flores e entregar bot√Ķes de rosas, e acredito que a reflex√£o seja um excelente pretexto para marcar a data.

    Lista de desejos para a igualdade feminina:

    1) Que as l√©sbicas possam manifestar seu carinho em p√ļblico sem isso ser atentado aos bons costumes.

    Ainda são raros os locais que suportam a manifestação de carinho entre mulheres; ver o carinho como um atentado ao pudor é uma prova do quanto a sociedade é doente. A violência é bem-tolerada. O amor, não.

    2) Que as presidiárias possam ver seus filhos com mais frequência, e que sejam liberadas para vê-los no Natal/Ano-novo.

    Como jornalista, fui sensibilizada pelas causas das presidi√°rias, ao cobrir duas rebeli√Ķes. Estas insurg√™ncias tinham o mesmo motivo: a saudade dos filhos. √Č de cortar o cora√ß√£o v√™-las apanhar para sossegar o cora√ß√£o, especialmente em datas t√£o significativas para todo ser humano.

    3) Que haja menos homenagens, efemérides e hipocrisia para que haja igualdade real. Dar botão de rosa é fácil.

    A mulherada também pode ajudar, recusando ser alvo de atitudes patéticas, e engajar-se por mudanças reais e na discussão de seu papel na sociedade.

    4) Que haja mais isonomia nos sal√°rios. N√£o somos escravas.

    As mulheres recebem cerca de 20% a menos que um homem ocupando o mesmo cargo. Pelo menos, pois esse percentual pode chegar a 50%. E as mulheres n√£o costumam reclamar, criticar, ousar reivindicar melhores condi√ß√Ķes. S√£o passivas, e isso √© reflexo da presen√ßa do machismo ao qual elas se subjugam, adotando-o como modelo de conduta.

    5) Que as mulheres deixem de crer que só ao lado de um homem há realização.

    Ao tomar a responsabilidade por sua realiza√ß√£o nas pr√≥prias m√£os, as mulheres poderiam ser mais livres, de fato. Casamento n√£o √© objetivo de vida. Viver plenamente deveria ser a finalidade de uma exist√™ncia. H√° o conhecimento, a arte, o trabalho, e talvez isso j√° n√£o seja o caso da maioria. Por√©m, ainda vejo mulheres sozinhas infelizes com sua situa√ß√£o, sofrendo emocionalmente por serem solteironas e sonhando com um homem perfeito que venha salvar-lhes de uma exist√™ncia vazia. Isso me entristece. √Č como vender-se em troca de seguran√ßa. O casamento n√£o √© algo para todos, √© preciso ter voca√ß√£o para tamanha empresa. H√° mulheres que se sentem frustradas e infelizes por serem solteiras, e saem por a√≠ ensandecidas para encontrar algu√©m, qualquer um a quem possam chamar de seu. Respeitar-se acima de tudo como ente humano seria emancipador. Acho que esta √© uma quest√£o sociocultural s√©ria sobre a qual se deve refletir.

    Muito foi conquistado, reconhe√ßo. Mas ainda h√° muito caminho a ser percorrido, com vontade e engajamento, pela liberdade e pela igualdade entre sexos. Tenho f√© na ideia de que ser menos machista ajudaria a mulher a ter uma exist√™ncia mais plena, enfrentando conflitos humanos extens√≠veis a todos, independente do g√™nero. Ser feminista do tipo mulher-macho tamb√©m me parece fr√≠volo no s√©culo 21. Portar-se como homem para ser vista como igual √© travestir-se de algo que n√£o se √©: bastaria tentar existir sem ilus√Ķes de cinderela. E banho de rosas de nenhum tipo pode ser sin√īnimo de igualdade. Nem putas, nem submissas.

    A vida é maior e mais complexa e cheias de conflitos, aos quais todos nós, seres humanos, necessitamos encararar com maturidade, ação e coragem. Reagir contra o próprio comodismo, à passividade e ir ao banheiro sozinhas, em 2011, já seria um começo. O debate aberto, unir-se para discutir suas necessidades de forma organizada perante a sociedade, para mim, isso sim, seria um orgulho.

  • Bullshits instantâneas: liberdade/covardia em 140 caracteres

    Decidi inverter o processo blog-Twitter. Ningu√©m mais tem tempo de ler textos longos, an√°lises com encadeamento l√≥gico e anal√≠tico. Ningu√©m mais quer saber o que outros pensam. O que se quer s√£o epifen√īmenos. Epifanias. Momentos m√°gicos de tiradas e an√°lises cr√≠ticas em 140 caracteres, no m√°ximo. Lembrei ent√£o desse espa√ßo de terra arrasada, devastado pelo abandono, e resolvi publicar o impublic√°vel. Se voc√™ achar √≠mprobo, reclame ao servidor alem√£o, em alem√£o. Espero de cora√ß√£o que os s√©rios me perdoem; bom humor √© decisivo para a minha sanidade mental.

    A seguir, caro ruminante, voc√™ ter√° acesso privilegiado a minha primeira sele√ß√£o de tweets. S√£o tweets ordin√°rios? √© o jogo o que importa. Nasceram nas horas mortas, explodiram dentro da membrana √ļmida da madrugada. Enquanto esp√©cimes larvais, devem se dar bem em terra semi-√°rida.

    Calma, raro leitor. √Č como reality show em forma de palavras, jpgs e links. Possui mais for√ßa no calor da hora, integrado ao LIVE ou com efeito delay proposital. √Č como o brilho distante de uma estrela que consegue ser captado em um √°timo.

    Mas de que diabos você está falando?

    A experi√™ncia est√° em fase beta. Para dar certa dimens√£o 'est√©tica', publiquei primeiro no TweetLonger, agora aqui, redigido com as devidas justificativas para a posteridade nula. Pequena explica√ß√£o: trollar √© o ato de surrar, esculhambar, esculachar qualquer coisa conhecida: algu√©m p√ļblico ou programa de TV, por exemplo (LOST, neste caso). O processo de overflood se encarrega de causar qualquer coisa: colocar o tema nos Top Trends, dar id√©ia para pauta a jornalistas ociosos, enfim. A coisa √© criativa e totalmente fora de controle. Quer dizer, no meu caso, foi planejada em um instante, entre goles de uma ta√ßa de bom vinho branco. (N√£o repita isso em casa. Jamais se deve tuitar em estado alterado, a n√£o ser que voc√™ seja nerd consciente.)

    Por√©m, al√©m das epifanias, h√° aquelas porcarias mentais que voc√™ jamais tuitaria, a n√£o ser que n√£o tenha amor por sua imagem p√ļblica ou esteja alterado. Assim nasceu a hashtag #tweets-deletados. Defini√ß√£o: Tweets de 5 segundos. √Č anomalamente simples. S√£o tweets-rel√Ęmpago de consci√™ncia leviana publicados na Time Line que somem em exatos 5 segundos. Desaparecem. N√£o ficam em cache. Quem l√™, leu, ponto, adeus. Podem ser reprisados? Sim, caso os seguidores pe√ßam. Ou por milagre. Tweets-fantasmas. Podem ser editados? Sim, se o tema for maculoso. Quanto mais o tema for amea√ßador √† imagem do autor, mais ele tem potencial para jamais ser reproduzido. ORS√äJ, o sumo desse fen√īmeno √©:

    "Escreva qualquer bullshit e suma com as provas em 5 segundos."

    H√° uma dimens√£o √©tica e moral nisso, e que demonstra muito sobre nossos tempos. Deixo essa an√°lise para algum fil√≥sofo beneficente com interesse m√≥rbido em fen√īmenos de comunica√ß√£o na internet. Isto √©, em tese.

    Bom, let's go! Voc√™ pode - talvez deva - ler debaixo para cima, se quiser entender a ordem cronol√≥gica. No Twitter, o tempo corre ao contr√°rio, voc√™ sabe: os √ļltimos da lista s√£o os primeiros.

    Relaxe. Garanto-lhe: é rápido e gostoso. E é só, nada mais que isso.
    De nada. O prazer foi meu. Deixe seus coment√°rios ali embaixo.


    @bovinenses
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    ¬ł.*¬ī¬®`*.¬ł¬ł.¬ł.* PIPILOS DA MADRUGADA *¬ī¬®`*.¬ł¬ł.¬ł.*¬ī¬®`*.¬ł¬ł.¬ł.*

    ░░░░░░░░░░░░░░░¬†¬† ♫ SELECTION TWEETS ♫¬†¬† ░░░░░░░░░░░░░░░░░
    by Ariela Boaventura

    1¬ļ/03/2011

    ░░░░░░░░░░░░░░░ LOST: TROLLER:

    15 hours ago
    ¬Ľ @boninho, explique LOST.

    15 hours ago
    ¬Ľ N√ďNCA vou entender! "Vou matar voc√™!"/ "Como?" (i. e., de que forma)/ "√Č surpresa". LOST infinito.

    15 hours ago
    Esse careca "dono" de LOST tem SÊOS. #duloren

    15 hours ag
    ¬Ľ O cara se afoga com uniforme de capit√£o de navio. Morri.

    15 hours ago
    ¬Ľ Ontem me concentrei e consegui entender 1 minuto de LOST.

    15 hours ago
    ¬Ľ Acharam meu marido em LOST. Sempre desconfiei dele.

    15 hours ago
    ¬Ľ "Destruir metaforicamente". S√≥ em LOST, mesmo.

    15 hours ago
    ¬Ľ Quer dizer. Eu n√£o vou ficar aqui sozinha escutando esses di√°logos nonsense de LOST. "Eu quero partir", ele diz. Eu tamb√©m. Adeus.

    15 hours ago
    ¬Ľ <-- Sozinha na TM. (Snif.)

    15 hours ago
    ¬Ľ @boninho Sei imitar com desenvoltura e entusiasmo GRAVE a voz do cara que diz: "Nos epis√≥dios anteriores...". Tenho emprego?

    15 hours ago
    ¬Ľ Jesus, j√° √© LOST.


    ░░░░░░░░░░░░░░░ METAF√ćSICA

    15 hours ago
    ¬Ľ (@bovinenses fala para todos) Onde est√£o @todos?


    ░░░░░░░░░░░░░░░ POLITICISMO E PROFECIAS

    15 hours ago
    ¬Ľ Nota 2: No Brazil, Lattes tem "erro". E pessoa ganha t√≠tulo Honoris Causa -- sem estudar. #bananite

    15 hours ago
    ¬Ľ Nota: o ministro alem√£o (que realmente √© bar√£o) teve a HONRA de assumir publicamente o pl√°gio e sua vergonha, e depois renunciar.

    15 hours ago
    ¬Ľ Ministro da Defesa alem√£o Theodor zu Gutenberg √© chamado de "Bar√£o do Copy+Paste" na imprensa europeia ap√≥s ren√ļncia: http://goo.gl/bLEee.

    16 hours ago
    ¬Ľ Profetizei que Zu Gutenberg cairia em 5 dias. Tenho testemunhas.

    15 hours ago
    ¬Ľ Decretada pris√£o preventiva de Ricardo Neis, MONSTRORISTA IND√ĒMITO que atropelou ciclistas em Porto Alegre #melhoremtudo: fian√ßa de quanto?

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    ¬Ľ <-- escreveu "prexisa". Fez efeito.

    16 hours ago
    ¬Ľ Obitu√°rio do @blogdayeda prexisa ser atualizado. (Na pelica.)


    ░░░░░░░░░░░░░░░ #tweets-deletados (5 seg.)

    15 hours ago
    ¬Ľ RT @luciouberdan presenciei tudo; RT @bovinenses: Voc√™ √© testemunha. @luciouberdan tuite sumindo foi c√īmico; || (kkks suprimidos.)

    16 hours ago
    ¬Ľ Foi-se. CONTAMINOU. Adorei.

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    <-- bebeu toda a garrafa de vinho branco e colocou água c/ CURRY p/ disfarçar. (Crianças, não façam em casa.) (Esse tweet sumirá em 5 seg.)

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    ¬Ľ √ď, ATEN√á√ÉO seus ind√īmitos: vou ressuscitar um tweet deletado - por 5 seg. Lembre-se de dar adeus. #tweets-deletados

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    ¬Ľ Perdi a no√ß√£o. Escovei os dentes de novo. Efeito LOST.

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    ¬Ľ At√© o ERRAMOS pode ser editado hoje em dia.

    16 hours ago
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    ¬Ľ Criado: tweet de 5 segundos com delete instant√Ęneo. Por @bovinenses. 1/03/2011. √ĒSEJER: quem viu testemunhou.

    (x)

    Ops.: O Bovinenses jamais adotou as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Não obstante, no Twitter, escreve-se de centenas de maneiras que fogem às normas ortográficas, e nisso há riqueza de significados. Verbalize-se.

  • Ai, chucruta, me deixa!

    Caros salsichas,

    n√£o adianta ficar enviando emails dizendo que est√£o com saudades.

    O Bovinenses ainda está em férias. Voltaremos dia 15/02/2011.
    N√£o vou ficar enchendo ling√ľi√ßa aqui.
    A quem se interessar, estamos atendendo via Twitter, em @bovinenses.
    Verstehst? Grata.
    E viva o couscous!

  • Férias no Pasto

    Preguiça infinita de fazer post, por enquanto.
    Janeiro é cemitério aqui no Pasto.

    Tenho me atacado no Twitter.
    Siga o @bovinenses.
    Até breve!

  • I World War Web, a guerra dos bits: WikiLeaks vs. Mundo

    Car√≠ssimos ruminantes! Esse ser√° possivelmente o √ļltimo post do ano. E a capital bovina n√£o tem nada a oferecer a n√£o ser o seu glorioso baf√£o √ļmido de ver√£o, seu t√©dio infinito e muito f√©div√©r, como carros voando sobre o Riacho Ipiranga Arroio Dil√ļvio, inclusive a m√≠dia j√° fez uma cronologia completa sobre esse fen√īmeno. Suponho haver um tema muito mais rumoroso e que interessa a todos os cidad√£os do mundo, inclusive aos bovinenses. Assim, pe√ßo que voc√™ largue um pouco de roer essa costela ou chupar esse chimarr√£o e d√™-me alguns instantes de sua aten√ß√£o. O texto a seguir foi escrito em coisa de minutos, √© uma esp√©cie de instant√Ęneo do momento hist√≥rico atual e foi postado originalmente h√° 4 dias em minhas notas do Facebook.

    Farei pela primeira vez uma ceia com mam√£e em minha casa neste 24 de dezembro. √Č nesse esp√≠rito − verdade que benefici√°rio direto do Frontal − que desejo a todos os meus raros e fi√©is leitores um glorioso Natal! Frohe Weihnachten!

    (A quem souber #!/bin/sh, tamb√©m desejo openssl com muita 'cebola'.) ٩(-̮̮̃-̃)۶ Lols

    On Tuesday 7th December 2010, @bovinenses said:

    Guerra dos bits: WikiLeaks vs. Mundo

    O caso WikiLeaks é um marco na História. O chamado Cablegate, além de vazar segredos de diplomacias de países democráticos, coloca a liberdade de informação sob um ponto de interrogação e apresenta ao mundo um novo tipo de guerra, consequentemente, uma nova divisão política do mundo.

    Julian Assange, fundador do WikiLeaks, é acusado de violação sexual, um golpe quixotesco. Ao mesmo tempo, ele tem todas as formas de financiamento e hospedagem de seu site bloquedas. A falácia é tão óbvia quanto é vertiginosa a rapidez com que os fatos ligados ao episódio acontecem.

    Gigantes da internet, como a Amazon e PayPal, e √≠cones do consumo, como Visa/Mastercard, suspenderam seus servi√ßos a Assange e a seu site. A ideia √© alij√°-lo da Web, cal√°-lo, prend√™-lo a qualquer custo e inviabilizar a exist√™ncia econ√īmica do site e dele mesmo. Marginaliz√°-lo, ou melhor, fazer com que desapare√ßa da realidade.

    Esse modo operacional remonta aos anos 60, n√£o funcionar√°. O inc√īmodo pol√≠tico gerado pelo WikiLeaks √© √ļnico, √© grave e mostra que tipo de mundo pol√≠tico n√≥s temos: repressivo, bandido, covarde e inepto. Mostra o tamanho da liberdade que temos, repleta de sen√Ķes e conveni√™ncias. Mostra uma imprensa apagada, que tornou-se uma esp√©cie de papagaio de ag√™ncias internacionais; as not√≠cias sobre o caso WikiLeaks chegam com atraso de horas preciosas √† m√≠dia, com seus hor√°rios e liba√ß√Ķes dependentes de grades comerciais: a internet saiu na frente, as redes sociais pegaram fogo. Sobretudo, mostra o quanto somos mal-informados e alienados. Quem ganhou, por enquanto? a m√≠dia1 que arriscou a pr√≥pria legalidade e fez contratos com o WikiLeaks para vazar as informa√ß√Ķes, ap√≥s edit√°-las.

    A prisão de Assange (7/12/2010), que entregou-se à polícia, mobilizou centenas de milhares de vozes na internet e foi uma radiografia da censura na Web. Redes sociais até então simpáticas, "livres" e neutras chegaram a seu limite, como o Twitter.2 Tudo está em jogo nesse momento. Modelos de integração social na internet até então pensados para atrair marketing e pessoas terão de ser repensados. Não somos mais tão ingênuos.

    Estamos em plena guerra, a primeira "World War Web". A cabe√ßa de Assange pode custar um pre√ßo alt√≠ssimo a governos no mundo todo. Pode causar uma outra guerra, esta entre pa√≠ses-bomba como China, Uni√£o Sovi√©tica, Ir√£, Paquist√£o. Caso aconte√ßa algum evento grave a Assange, ou aos servidores do site, existe a amea√ßa do famoso pacote de documentos com a segunda leva das p√≠lulas de veneno. Intitulado "insurance.aes256", o arquivo √© encriptado sob uma chave de 256 bits, j√° foi baixado por milhares de pessoas e traz revela√ß√Ķes sobre a empresa de petr√≥leo BP (Beyond Petroelum) e a pris√£o de Guant√°namo. A √ļnica pe√ßa que falta para abrir o arquivo insurance.aes256 √© a senha, a chave.

    Os atos de retalia√ß√£o econ√īmica e judicial contra Assange pretendem-se pedag√≥gicos para que ningu√©m ouse como ele ousou peitar o poder. A inten√ß√£o √© amedront√°-lo, e dar o exemplo. A ideia √© calar essa voz. Contudo, o WikiLeaks segue a ideologia hacker, um paradigma colaborativo que n√£o funciona dentro dos moldes capitalistas ou pol√≠ticos atuais pois n√£o √© dinheiro que Assange ou seu site desejam. E os funcion√°rios do WikiLeaks s√£o colaboradores espont√Ęneos, gente que atua dentro de empresas e governos, ou fora deles, espalhada pelo mundo sem receber um tost√£o por isso.

    Assange, um "ex-hacker",* reivindica o direito de que todos "saibam a verdade". E ele sabe que a pris√£o pela acusa√ß√£o qui√ß√° injusta de viol√™ncia sexual √© a parte mais branda dessa saga: sua cabe√ßa est√° a pr√™mio. Her√≥i para uns, inimigo da humanidade para outros, √© ineg√°vel que Assange √© o homem mais poderoso e perigoso do mundo hoje. Um mundo que foi dividido em antes e p√≥s-Cablegate, em capitalista e anarquista, em democr√°tico e algo que ainda n√£o entendemos bem o que √©, em evolu√ß√£o constante a cada momento, como um v√≠rus. Certeza h√° apenas de que nesse novo mundo replicante as tentativas de dar fim a um fen√īmeno que incomoda s√≥ causa sua multiplica√ß√£o infinita. Acredito que o caso WikiLeaks seja um n√≥ da Hist√≥ria, ap√≥s o qual nosso mundo ser√° diferente n√£o necessariamente melhor nem mais livre: isso depender√° da nossa atua√ß√£o. Se todos formos Julian Assange, ningu√©m ser√°. Juntos, sempre vencemos.

    Ariela Boaventura

    (Sharing it by CC, pls.)

    1 Como, por exemplo, The Wall Street Journal, The New York Times, Der Spiegel, entre outros; no Brasil, O Globo e Folha de S√£o Paulo.
    2 Desde há algum tempo, o Twitter não apresenta em suas trends os termos WikiLeaks, Assange e derivados, e nenhuma explicação foi oferecida aos usuários.

    * "Once hacker, ever hacker" (n>2=cHa0s).

  • Fronteiras do preconceito - o caso da performance "Não alimente o escritor"

    Acabem-se com todas as formas iníquas de diversão, que vivamos todos em um mosteiro, que a pachorra reine sem fim no Pasto. Que se faça a assepsia total das ruas, que todos pensem os mesmos pensamentos, ajam da mesma forma, vistam as mesmas ideias: que todos adorem costela, Grenal, Polar e filas. E que todo discordante, desviante do padrão, seja extinto. Bem-vindo ao entediante admirável mundo novo, caro ruminante.

    Voc√™ j√° ouviu falar disso. N√£o √© censura, n√£o √© ditadura nem √© piada. √Č um fen√īmeno bem pior. √Č "aquilo" que n√≥s todos sempre juramos que jamais aconteceria novamente, e que, no entanto, consta na Hist√≥ria como perene amea√ßa: sorrateira, habita as frestas da sociedade moderna; chega com p√©s de pano, porque travestida de bom comportamento, boa inten√ß√£o, boa sa√ļde, boa morte. √Č o inomin√°vel, √© o que levou a Alemanha ao nazismo. √Č uma esp√©cie da bacilo. Surge sem se notar, evolui para a aprova√ß√£o acr√≠tica a arbitrariedades, tecnologias de controle e de repress√£o, vigil√Ęncia m√ļtua e acaba com a extin√ß√£o do indiv√≠duo em suas mais √≠ntimas liberdades e com a franca express√£o do lado mais sombrio dos seres humanos.

    N√£o conhe√ßo Telma Scherer. N√£o vi a sua performance, que suscitou reclama√ß√Ķes, ordem para retirar-se do local em que realizava sua manifesta√ß√£o na Pra√ßa da Alf√Ęndega, durante a Feira do Livro, e dirigir-se ao posto policial, escoltada por diversos agentes. A an√°lise que fa√ßo do epis√≥dio √© informal e pessoal.

    Segundo o jornal Zero Hora, "algumas pessoas" reclamaram da performance dessa escritora, porque a) ela gritava muito; b) parecia alcoolizada; c) oferecia bebida alcoólica a menores; d) o ato estava prejudicando as compras. Além disso, e) "a ação da Brigada Militar foi no sentido de colaborar para a segurança de todos, inclusive da própria manifestante".

    As justificativas estão todas desconectadas da realidade e explico a seguir o porquê, item a item.

    a) "Ela gritava muito" − Na Feira do Livro crian√ßas azucrinam; mulheres entram em surto e desfazem casamentos; alto-falantes cortam conversas agrad√°veis de amigos, anunciando eventos, ofertas, etc. Enfim, barulho √© o que sobra na Feira do Livro. Ou vai querer que uma feira p√ļblica com 1 milh√£o de pessoas seja silenciosa? Sugiro morar em um cemit√©rio − gente enjoada, que reclama de tudo, j√° t√° meio morta, mesmo.

    b) "Ela parecia alcoolizada" − Meu deus, que esc√Ęndalo! Somos mu√ßulmanos e eu n√£o sabia! Olha, na televis√£o, anunciam bebida alco√≥lica o tempo inteiro, todo o tempo, o tempo todo. Voc√™ n√£o viu? Ali√°s, voc√™ tamb√©m bebe, seu c√īnjuge bebe, todo mundo bebe aquela caipirinha ou uma cervejinha, porque na propaganda se diz que √© coisa de gente boa, porque esse pa√≠s ama futebol, porque desce redondo, porque desce macio e reanima. At√© o presidente bebe! Dirige-se alcoolizado como se isso fosse um costume! Ent√£o, que mal tem a poeta se manifestar com uma garrafa c√™nica? Ela n√£o ocupa cargo presidencial, n√£o est√° de carro e n√£o √© sua filha, nem esposa, tampouco amante, voc√™ n√£o a conhece. E ela est√° em uma encena√ß√£o, entende? Pense tamb√©m na diferen√ßa entre parecer e estar.

    c) "Ela oferecia bebida alco√≥lica a menores" − Ou os tais menores (na minha √©poca se chamavam crian√ßas) n√£o receberam a menor educa√ß√£o de sua parte e voc√™ √© um irrespons√°vel ou voc√™ √© do tipo controlador paran√≥ico, v√° se tratar. Se a cria quer beber, √© sua responsabilidade cuidar para que ela n√£o fa√ßa isso nem na Feira do Livro nem na quermesse da Igreja ou enquanto v√™ a novela das oito. Afinal, o "perigo" est√° em toda a parte, voc√™ n√£o acha? E mais, n√£o s√£o 10h da manh√£ e sim entre 18h e 20h, e quando anoitece √© hora das crian√ßas irem para cama. Mais ainda: na Pra√ßa da Alf√Ęndega residem b√™bados e mulheres que oferecem servi√ßo de sexo sempre, todos os dias do ano, e nem por isso devem ser retirados de l√°. Eles fazem parte da cidade e da sociedade, mesmo que voc√™ negue ou que seus filhos n√£o olhem. Eu prefiro que eles continuem dando ao Centro sua presen√ßa viva. Bact√©rias fazem o iogurte, e n√£o a Activia.

    d) "O ato estava prejudicando as compras" − Acredito que essa argumenta√ß√£o n√£o tenha vindo do p√ļblico careta e sim de algum dono de barraca. Da√≠, faz sentido. Aproveita e expulsa tamb√©m o trovador do Apocalipse, o megafone de ofertas, os palha√ßos da √°rea manicomial infantil e os est√ļdios da emissora, que chamam bastante a aten√ß√£o das pessoas e podem atrapalhar as compras.

    e) Se a a√ß√£o da Brigada Militar foi no sentido de colaborar para a seguran√ßa de todos, inclusive da pr√≥pria manifestante, √© sinal de que a civiliza√ß√£o faliu, a democracia √© imposs√≠vel (j√° sabia) e nossa sociedade, al√©m de bovina, √© c√≠nica e selvagem. √Č como se todos fossem crian√ßas que n√£o soubessem se comportar em espa√ßo p√ļblico ou n√£o suportassem escutar opini√Ķes divergentes das suas e por isso matam, queimam e arrancam o escalpo de quem lhes contrariar. Entendo que colaborar para a seguran√ßa da manifestante significa que havia a possibilidade de ela ser linchada, morta, escalpelada e ter suas v√≠sceras penduradas no rel√≥gio em frente √† pra√ßa. A Brigada Militar deve ter coisas mais importantes para fazer do que proteger ouvidos de gente intolerante √† arte. Por que voc√™ n√£o vai curtir a assepsia de um shopping center?

    Contudo, de acordo com a R√°dio Gua√≠ba, as coisas n√£o foram bem assim, e o p√ļblico na verdade n√£o teria sido o co-autor da repress√£o. Tudo come√ßou porque "expositores chamaram a pol√≠cia", e a a√ß√£o policial teria sido "violenta", conforme relatos de testemunhas. Parece que a apresenta√ß√£o reunira muitas pessoas e isso tirou a Feira do Livro daquele movimento de vaiv√©m bovino, inconsciente, c√īmodo e entediante, desviando poss√≠veis compradores dos ninhos de ofertas. "Cerca de 40 pessoas se reuniram para assistir Telma falar sobre sua condi√ß√£o de escritora. Ela teria emocionado o p√ļblico ao revelar que precisou deixar seu apartamento porque estava com tr√™s meses de aluguel atrasado. A performance art√≠stica questionava o sistema liter√°rio, o que pode ter incomodado representantes do mercado editoral", diz a mat√©ria.

    Em seu blog, Telma Scherer antecipa a performance "N√£o alimente o escritor": "Estarei atada a uma pequena casa de cachorro repleta de contas de aluguel e telefone (todas em meu nome). Outros elementos c√™nicos como uma coleira, um espelho e uma garrafa de conhaque e suas manipula√ß√Ķes formar√£o a imagem po√©tica". A escritora explica ainda a concep√ß√£o de seu ato criativo: "Minha performance √© uma cr√≠tica √† vis√£o reducionista da literatura, que transforma leitores em consumidores padronizados e valoriza apenas a compra e venda de produtos (os livros) sem abordar a quest√£o central: seus conte√ļdos, a press√£o que sobre estes exerce o sistema liter√°rio e a invisibilidade do processo criativo". Que a abordagem art√≠stica dela tivesse a beleza de uma sonata para piano de Mozart, ora, convenhamos, n√£o combinaria com a est√©tica de um ato de rep√ļdio.

    Esse vídeo registra o momento em que a escritora foi abordada e retirada do local. Observe o boludo, típico homem pastoril, que aparece reclamando daquela "pouca vergonha".

    Para mim fica claro que, gra√ßas ao caro√ßo de sua explana√ß√£o, ela deve ter sido uma pedra no sapato dos donos das barraquinhas. A propor√ß√£o da intoler√Ęncia aumenta compreensivelmente se se levar em conta que as vendas da Feira do Livro desabam ano ap√≥s ano, sem que nenhuma mente brilhante proponha um modelo diferente, algo mais sens√≠vel √† din√Ęmica dos novos tempos, menos comercial, menos venda crua e seca, que tenha um apelo mais l√ļdico, livre e artisticamente diversificado.

    Diante do exposto, penso que haja:

    1. Desespero. O modelo da feira est√° obsoleto e √© preciso buscar alternativas mais vivazes de chamar a aten√ß√£o e atrair consumidores, e n√£o culpar uma criatura por roubar seus compradores, atazanar sua vida, obstruir passagem de pedestres ou cadeirantes ou seja l√° o que for. O consumidor da feira n√£o tem comprometimento, est√° curtindo jacarand√°s, comendo pipocas, encontrando amigos; est√° sob efeito daquela terr√≠vel cerveja morna que se serve no bar do evento; est√° buscando um banheiro f√≠sico; est√° estressado: a mulher enche, o marido flerta, a crian√ßa berra, os avisos do alto-falante lhe d√£o um pequeno choque no cora√ß√£o. N√£o matem a coisa mais viva do evento, que √© a espontaneidade, o relacionamento das pessoas e o hosp√≠cio. O mercantilismo em que o evento surgiu est√° morto. Ofere√ßam mais, cobrem menos. Tudo est√° ficando muito chato, com o banimento do espa√ßo social de todos os que de alguma forma n√£o se parecem com o sorridente ser humano de um comercial de carro. √Č importante n√£o esquecer que a rua √© para todos, at√© mesmo para os poetas.

    2. O politicamente correto. Estamos sofrendo uma higieniza√ß√£o fatal na linguagem e nas a√ß√Ķes. Processos e repress√£o se tornaram sin√īnimo de cidadania. Essa assepsia cria monstruosidades sociais. √Č preciso ter mais toler√Ęncia com o que n√£o entendemos, mais curiosidade, mais vida, repito. Sempre haver√° um cadeirante apertado em uma multid√£o de 1 milh√£o de pessoas. Sempre haver√° uma crian√ßa perdida. Sempre haver√° algu√©m passando mal. √Č muita gente, s√£o muitas vari√°veis, √© incontrol√°vel − e por isso mesmo √© bacana. √Č loucura tentar satisfazer todos os descontentes.

    3. Imaturidade social. H√° uma pluralidade de malucos que acorrem a esse evento aberto e p√ļblico, seja para vaticinar a ressurrei√ß√£o de Satan√°s, para oferecer balinhas √† guisa de isca sexual para atrair filhos malcuidados de pais cuja moral √© inexistente, a come√ßar pela omiss√£o em educar as pr√≥prias crias (para que recusem balinhas de estranhos, para que n√£o bebam bebidas alco√≥licas, para que parem de berrar feito psic√≥ticos, etc.). As pessoas devem cuidar de si mesmas e de seus filhos em via p√ļblica, e educ√°-los para que saibam das condi√ß√Ķes do mundo. √Č o m√≠nimo. O Estado auxilia no dano. Como est√°, temos um jardim de inf√Ęncia de 1 milh√£o de pessoas.

    4. Desrespeito. Alegar que a escritora estava perturbando suas vendas n√£o me parece coisa razo√°vel de se dizer, em hip√≥tese alguma. Contudo, na era da "√©tica de mercado", tudo √© poss√≠vel e aleg√°vel conforme o interesse do mercador. Resta saber de quem √© esta banca e boicotar a editora. Qualquer dia desses v√£o dizer que quem futrica o balaio, ou est√° esperando um amigo no cantinho, ou est√° folheando um volume est√° atrapalhando as vendas. Banir tudo o que n√£o tem perfil comercial ou n√£o faz parte da programa√ß√£o do evento que se realiza em espa√ßo p√ļblico √© petulante e antip√°tico.

    3. Excesso de zelo da polícia. A matéria da Rádio Guaíba dá conta de 10 policiais para calar a escritora. Deixar para trás assaltantes, assassinos, estupradores para cuidar de uma pessoa que está expressando sua indignação por meio de um discurso e gestos é desproporcional e só posso entender isso como uma relação de profundo esmero entre organização e um dos financiadores, o governo. A polícia deve avaliar se realmente uma ação desse tipo é necessária. A sociedade deve tentar conviver com suas diferenças e só apelar à polícia em casos que fogem ao coexistir pacífico, no confronto desproporcional, na violência e em episódios que fogem ao controle racional e ameaçam danos.

    Minha conclus√£o √© de que o espa√ßo p√ļblico est√° zoneado: quem tem o direito a usufruir dele s√£o apenas aqueles que consomem, ou apresentam, por meio de seu aspecto, potencial para consumir. O restante √© banido com o aval da sociedade ou a pedido dela, em nome de seu duvidoso gosto, em nome de sua sa√ļde, em nome de seus direitos ao feudo. Se eu agisse assim, eu baniria de minha cidade torcedores que urram palavr√Ķes homof√≥bicos e ofensivos contra mulheres das janelas do pr√©dio; proibiria o reggae e o sertanejo universit√°rio; guincharia carros cujos alarmes disparam a noite inteira; processaria seguran√ßas de shopping centers, que me olham como se eu fosse o Melara em p√™lo; chamaria a BM a cada obra que fura, corta e martela madrugada adentro. As "boas" inten√ß√Ķes aparecem sob a forma de leis para proteger patrim√īnios, zonas de consumo e inibir preconceitos, que prosseguem latentes; a vigil√Ęncia √© constante n√£o contra a injusti√ßa mas para que tudo seja sempre do mesmo jeito, o jeito que agrada a maioria. N√£o h√° boa inten√ß√£o que n√£o seja travestida de lei, de dever, de direito, de obrigatoriedade, logo, a subst√Ęncia da boa inten√ß√£o em nossa sociedade √© a hipocrisia.

    √Č poss√≠vel que se Telma Scherer fosse conhecida em Porto Alegre isso n√£o tivesse acontecido: as pessoas respeitam a fama mais que a Jesus Cristo, ou talvez respeitem Jesus Cristo por justamente ser famoso. Se ela estivesse sob as c√Ęmeras de emissoras, eu duvido que algo assim acontecesse. √Č poss√≠vel que se Telma Scherer fosse estrangeira tivesse sido linchada em pra√ßa p√ļblica, literalmente. De certa forma, ela √© estrangeira. De certa forma, metaf√≥rica, houve linchamento. De certa forma, ela atingiu seu objetivo como artista: chamar a aten√ß√£o para algo que lhe incomoda pelo choque ou pelo contraste. E √© poss√≠vel que agora, ironicamente, Telma Scherer venda seus livros como √°gua. Na pr√≥xima Feira do Livro.

  • A questão sobre a questão da questão

    Parab√©ns, ruminantes e ruminantas. L√° e aqui, festa e alegria da massa em transe. Sua for√ßa √© de um tipo m√≠stico tal que seria poss√≠vel sentir fisicamente a promessa miraculosa de salva√ß√£o. Sabemos que agora tudo vai ficar bacana, e eu realmente tor√ßo por isso. O otimismo est√° impregnado no ar, e o entusiasmo pela Copa de 2014 enche os cora√ß√Ķes de torpor. Lamentavelmente, sou resistente a hipnose, estou cheia de brotoejas e suspeito que talvez tenha s√≠ndrome de parisiense, que reclama e p√Ķe defeito em tudo.

    Fui atacada por arritmia e uma sensa√ß√£o de irrealidade, de desconex√£o com o universo com a coletiva de imprensa desta quarta-feira (4). Se neste governo a estrutura gram√°tica e a l√≥gica proposicional forem mantidas, mostrarei aqui minha gratid√£o. Ser√° no entanto dif√≠cil escutar as preciosas id√©ias da eleita em entrevistas. Suas declara√ß√Ķes me deixam profundamente confusa, em p√Ęnico, epil√©ptica. N√£o afirmo que ela fale errado ou tiop√™s, n√£o √© isso. Nada tenho contra a presidente, achei linda sua vit√≥ria e a julgo suficientemente inteligente − por isso, penso que um pouquinho de encadeamento mais s√≥lido de id√©ias a partir desse importante momento seria bem a prop√≥sito.

    Eu sei, v√£o me arrancar a pele, afinal, as discuss√Ķes agora s√£o assim: tisnadas de fanatismo. Eu sei, √© inocente, √© um estilo pessoal, √© como ter verrugas, ningu√©m tem culpa. D√° para consertar, como a l√≠ngua presa, embora para isso se necessite de certa autocr√≠tica. E al√©m do mais n√£o h√° quem reclame. E tamb√©m tem a vantagem de ser um discurso contempor√Ęneo, em voga, em raz√£o da sua estrutura similar √† dos atendimentos de telemarketing, em que humanos falam como se fossem rob√īs, com uma linguagem repleta de termos empolados sem igual no dicion√°rio, al√©m das pausas e concord√Ęncia verbal inadequadas para comunicar determinado conte√ļdo cujo sentido √© obscuro. E quem se importa? H√° coisas mais importantes na nossa vida, e tudo fica por isso mesmo.

    Somos indulgentes com quem comanda o destino de uma cidade, estado ou na√ß√£o, enquanto conosco as exig√™ncias s√£o inversamente proporcionais e v√£o muito al√©m da apar√™ncia, modo de falar e comunicar; s√£o como se dirig√≠ssemos um minist√©rio alem√£o: temos de mostrar relat√≥rios de produtividade, provar que existimos, pagar os abusivos tributos sem chiar, mostrar conhecimento acima da m√©dia para disputar empregos sem direitos assegurados (e achar isso normal), entre outros diferentes e cotidianos desafios. Ent√£o, eu fico me perguntando se um chefe de Estado n√£o deveria mostrar uma postura mais adequada ao cargo, incluindo a√≠ boa dic√ß√£o e lucidez de racioc√≠nio. Transpar√™ncia de id√©ias ajuda a acabar com pretensos compl√īs, especialmente aqueles advindos da imprensa, e ao "povo" oferece prova de respeito.

    Eu n√£o sei quanto a voc√™, mas eu tenho muita dificuldade em entender o que nossa presidente diz. A quantidade de v√≠rgulas utilizada √© exasperante; o tom √© irritadi√ßo, agressivo, desestimulando questionamentos; n√£o h√° cuidado com a concord√Ęncia e v√≠cios de linguagem se multiplicam; as id√©ias se concatenam aos trancos, fragmentadas, sem que haja preocupa√ß√£o com o seu sentido; diversos pensamentos ficam sem conclus√£o, inseridos dentro de um cabedal de repeti√ß√Ķes por sua vez repetidas atr√°s de conectores como 'ali√°s' ou poluentes espichadores de tempo como 'quest√£o' em um loop sem fim. Seus memes* contaminaram at√© mesmo o meu discurso diversas vezes, √© viral!

    Os exemplos a seguir eu pesquei na coletiva desta quarta-feira. "C√™ quer CPMF? CPMF eu j√° respondi!" (Uia!). "Eu me considero que j√° respondi a quest√£o." "O fato de que, n√≥s, tamos, ali√°s, n√≥s temos, um problema, n√≥s temos um PIB, que √© um PIB...". (?) Esse pr√≥ximo exemplo eu vi em debate na TV: "Por qu√™ isso acontece? isso, √© porque o pr√©-sal √© uma quest√£o, ali√°s, sobre essa quest√£o, eu gostaria de dizer que…..". Acho a cita√ß√£o desses exemplos suficiente para justificar o quanto meus nervos entram em fal√™ncia ao ouvi-la falar. Fico perplexa com seu discurso, de modo extensivo. E agora que a paix√£o uterina das massas passou, sinto-me mais tranq√ľila para fazer esse apontamento: antes do dia 31, seria acusada de antipetismo e encaminhada √† fogueira.

    E ainda hoje pode parecer mesquinharia de minha parte criticar o desenho do seu discurso, essa forma de emaranhado de id√©ias que ruma a um v√≥rtice de declara√ß√Ķes redundantes. De fato, eu queria outro nome, outra proposta, outro rumo para meu Pa√≠s − talvez no fundo eu deseje mesmo outro pa√≠s. √Č como voc√™ amar um marido infiel desejando, em seu √≠ntimo, que ele algum dia seja diferente, e voc√™ sabe que acreditar na possibilidade de mud√°-lo √© ilus√£o: √© um c√≠rculo, logo, √© repetitivo. Redundante √© tamb√©m eu reclamar aqui de candidatos em que fui obrigada a dar meu voto; redundante √© gritar no vazio, √© chorar sobre o leite derramado, chover no molhado; redundante √© pastar, ruminando. Mas eu insisto que discurso √© importante, √© t√£o importante quanto um cart√£o de visitas ou dentes; por√©m, se voc√™ est√° com Poder, pode falar em esquizofren√™s ou sarapintar seu pensamento com v√≠rgulas e retic√™ncias. Quem se importa? Presidenta ou presidente? Tanto faz.

    Nem por isso tenho de aceitar calada o que h√°. N√£o d√° para querer outra coisa, como diz aquela propaganda de carro?

    Sei que a presidente tem outras preocupa√ß√Ķes nesse momento, e que essa 'quest√£o' √© como uma alface em seus dentes. Sei tamb√©m que preciso mudar. Sei que n√£o sou adaptada aos valores que vigem em meu Brasil: a esperteza, a "manha", o jeitinho, o desprezo pela educa√ß√£o (√© vergonhoso dizer por a√≠ que voc√™ gosta de James Joyce, por exemplo). Gra√ßas √†s chibatadas di√°rias, entendi que devo ser menos "s√©ria", ter mais "jogo de cintura", esquecer essa coisa antiquada chamada coer√™ncia em alguns instantes cruciais, ser mais cara-dura, em todos os sentidos, como todo mundo. Sei que preciso ser mais agressiva nas a√ß√Ķes e em meu discurso di√°rio; que √© crucial aprender a arte de deixar para l√°, baixar os cornos e ficar 'na minha', calar a boca, perder o costume insalubre de criticar, seguir o exemplo dos 'bem-sucedidos' de minha profiss√£o, cuja caracter√≠stica principal √© o conformismo. Aprender a ser sem v√≠sceras, em suma.

    Do Brasil ao Pasto, isso significa ficar calmo diante do que sai publicado no PIG, assumindo o manique√≠smo como filosofia. √Č n√£o arrancar os olhos, por exemplo, diante da "quest√£o" da abertura do show do Paul McCartney em Porto Alegre, que, por alguma piada do destino, foi entregue √† "simp√°tica" dupla Kleiton & Kledir. Levar a vida com mais leveza e sorrir com bondade ao escutar que o ex-Beatle √© quem ter√° o privil√©gio de abrir o show da mocoronga dupla bovinense. √Č pensar com mais carinho em minha prov√≠ncia, p√īr a c√©lebre venda nos olhos e dizer que a Feira do Livro √© perfeita porque √© nossa, e ponto: jamais dizer que seu modelo est√° superado e que se o evento assim prosseguir, bom. √Č esquecer as despesas estaduais com o laqu√™, √© ter coragem de fechar esse blog. √Č ver meu Brasil sorrindo com uma cor s√≥, como um time, e calar o que penso, resignada. Essa falta de cr√≠tica √© estagnadora, o concordismo n√£o leva a nada bom. Mas afinal, quem se importa?

    * Unidade de informação cultural, como prática ou idéia, que é transmitida verbalmente ou pela ação repetida de uma mente para outra. Aqui tem uma interessante caracterização de meme.

    1. O Bovinenses n√£o adota as regras do Novo Acordo Ortogr√°fico. 2. As opini√Ķes aqui expressas refletem o que o autor pensa, e n√£o voc√™.

  • We're on the Highway to Hell

    (Avisos aos fi√©is: 1. Post longo. 2. O Bovinenses n√£o usa figurinhas. 3. N√£o adotamos as regras do Novo Acordo Ortogr√°fico. 4. As opini√Ķes refletem o que o autor pensa, e n√£o voc√™. Grata pela aten√ß√£o.)

    Cara, que espetáculo deprimente essa campanha eleitoral para a Presidência. Da próxima vez, troco meu voto por caixas de Frontal; na próxima, farei campanha para que a Rainha do Pasto se candidate, para que os disparates possam ao menos me divertir e, claro, para que haja uma competição pelo visual arrepiado a laquê, escovado para o alto e agravante, up, up! Se o candidato empacou e não sobe na pesquisa, sobe o penteado dele para assustar, distrair, desviar o foco! Juro que a velhinha amou o penteado da candidata, a qual cunhou de "topetuda"; ao Serra, definiu como "sapo", olha que ironia, se você recordar do Brizola; e à Marina, demonstrou certa preocupação com sua alimentação e a chamou de "magrinha". Corcunda, com mais de 80 anos e muito bom humor, divertia-se comentando os desenhos das capas da Rolling Stone na frente da minha banca de revistas predileta, o dedinho enrugado apontava a cada desenho.

    Mas meu humor est√° cinza, √© dif√≠cil fazer piada diante desse procedimento a√≠ de assistencialismo em troca de votos, √© de dar gastrite ver o √≥dio m√ļtuo, as acusa√ß√Ķes rudes e insultuosas entre os candidatos; √© dose assistir a falta de toler√Ęncia com opini√Ķes diferentes, em um clima de ca√ßa √†s bruxas e falsas den√ļncias. At√© o Bovinenses entrou na lista negra de militantes n√£o sei de que lado. O blog sofreu um atentado no in√≠cio de setembro, quando algu√©m denunciou o link desse post no Facebook como "conte√ļdo impr√≥prio". Deu o que fazer, mas meu alem√£o (in)fluente ajudou a desfazer o estrago. Dei-me conta do poder que entregamos √†s pessoas ao adicion√°-las como contatos e bloqueei meu back door, por assim dizer, na rede social. O pr√≥ximo passo √© acionar minha ferramenta viral de contrainforma√ß√£o pol√≠tica a cada asneira que um candidato disser, a cada trafic√Ęncia sem explica√ß√£o, a cada spam recebido.

    S√©rio, estou furiosa. Invocaram at√© Jesus para desviar a aten√ß√£o da falta de programas concretos de governo, e mandaram ao inferno todos os infi√©is ou aqueles cuja f√© n√£o √© crist√£. A f√© √© uma cren√ßa √≠ntima que jamais deveria se misturar com Estado. Eu n√£o tenho nada contra Jesus, desde que ele n√£o interfira na pol√≠tica nem na minha vida. Do contr√°rio, √© macerar a bunda divina pelada a vara. N√£o gosto desse clima de Jesus, de comer criancinhas ou de pregar a caretice como modelo a ser seguido. Tenho medo de gente que exalta "pessoas de bem", "fam√≠lia brasileira", "a Igreja e a f√©". Se h√° quem venda seu voto em troca de ladainha religiosa, candidato algum deveria tirar proveito disso: √© porn√ī*.

    E √© cesta b√°sica, √© rem√©dio, √© um tal de dar tudo gr√°tis em troca de voto que me cora a alma. Seria mais decente que os brasileiros pudessem ter condi√ß√Ķes de adquirir por si mesmos suas pr√≥prias coisas, que se libertassem da depend√™ncia dos favores. Para que as pessoas n√£o precisassem pedir, implorar por medicamentos, alimentos ou trocar seu voto por benesses populistas seria impositivo um projeto corajoso, de longo prazo, envolvendo reformas profundas, economia, seguran√ßa, educa√ß√£o, sem trolol√≥ nem topete, apenas respeito e rigor espartano. Afinal, em troca de nosso sangue, damos bastante dinheiro ao governo federal para que justamente nos forne√ßa o que nos √© de direito, de forma digna, correta e com qualidade.

    Tch√™, essas s√£o as elei√ß√Ķes mais bagaceiras que j√° vi. Dividiram-nos em brasileiros e brasileiras, todos e todas, eleitores e eleitoras, presidente e presidenta, ora, que bobajada √© essa? N√£o sei voc√™, mas eu me sinto discriminada, pois achava que fazia parte do coletivo no masculino, todos juntos e iguais no substantivo, sejam heterossexuais, gays, l√©sbicas, psicanalistas, transexuais ou barbies. A divis√£o √© sexista, e al√©m disso me faz lembrar que tenho √ļtero e isso evoca papanicolau. N√£o √© por menos que o pa√≠s figura em 85¬ļ lugar no ranking da igualdade entre sexos.

    A preocupa√ß√£o dos candidatos com a hipercorre√ß√£o de g√™nero √© √≠ndice de ignor√Ęncia e demonstra que suas posi√ß√Ķes s√£o oleosas, amb√≠guas e abra√ßam a todos os deuses − ou quem sabe deuses e deusas, seres humanos e seres humanas? E olha que nem mencionei a pataquada que fizeram com o T√≠tulo de Eleitor. √Č por conta dessa farofada pol√≠tica que defendo a ado√ß√£o do novo Hino Nacional, Adocica. Abra√ßa eu, Beto Barbosa! Vamos abra√ßar √°rvores! (Afinal, as √°rveres somos nozes e o jardineiro √© Jesus.) Vamos aplaudir o p√īr-do-sol! Seja org√Ęnico, coma coc√ī! Pelas batas do arcebispo, √© de admirar a nossa patetice!

    Al√©m da feminiza√ß√£o excessiva, e da beataria fan√°tica, o n√≠vel do debate est√° raso, peitando o √Ęmbito pessoal e s√≥ falta os candidatos sa√≠rem no tapa na cara, no salto alto na careca, porque os ataques j√° est√£o dentro das casas de cada um, envolvendo fam√≠lia e cren√ßas. Se esse √© o tipo de presidente que merecemos, olha, ent√£o os brasileiros realmente est√£o muito mal no que diz respeito √† dec√™ncia. Se nossos governantes s√£o um espelho de nossa sociedade, a sociedade brasileira est√° doente, e temo, mais que ter nascido em lugar errado, que meu comportamento comece a ser visto como amea√ßador, j√° que a fraudul√™ncia est√° institucionalizada. √Č frente a essa realidade que vejo, com tristeza, muito nost√°lgico por a√≠ dizendo que "na √©poca da ditadura n√£o era assim" e que "√© o que d√° terrorista tomar o poder". Isso √© um soco na cara de todos n√≥s que lutamos pela democratiza√ß√£o desse pa√≠s.

    Mas agora quem n√£o pensa de acordo com a cartilha √© inimigo, √© contra a vida e contra o Brasil. A batatada √© farta e a ret√≥rica, vazia. Acusam quem pensa como eu de ser "de direita". N√£o sou de direita, nunca fui. Acontece que a esquerda, aquela do sonho comum, da esperan√ßa e da igualdade, me pregou um belo par de chifres, cara. Estou arrependida de ter acreditado na chamada "esquerda". Sinto-me usada, sinto-me palha√ßa, sinto-me estuprada, e nem aborto eu posso fazer. N√£o bastasse o trote pol√≠tico, o "tapet√£o" que me puxaram, sucumbi no mar das trevas da valoriza√ß√£o da ignor√Ęncia. Ter grau superior hoje s√≥ entrava a sua vida, o diploma √© como um espantalho, ningu√©m mais quer pagar o quanto voc√™ custa e nem metade disso; o mercado se voltou ao estagi√°rio, ao trabalhador de ensino b√°sico ou m√©dio. Esses t√™m emprego, cr√©dito e podem at√© mesmo ter filhos. A classe m√©dia com terceiro grau empobreceu, endividou-se e est√° desempregada, desesperada e esquecida: desapareceu, e ningu√©m quer saber dela, afinal, quem conta para o voto s√£o as classes C, D e o restante do analfabeto.

    √Č de chorar: at√© o humor andou proibido durante um certo per√≠odo da campanha eleitoral. Em um site de partido, li, horrorizada, que o oxig√™nio continuar√° dispon√≠vel, caso o seu candidato ven√ßa: ele promete que preservar√° a liberdade de express√£o e de convic√ß√£o religiosa, como no governo atual. Ora, eu n√£o cogitava nem em sonho a possibilidade de o direito √† liberdade de culto, de pensamento e de express√£o me ser retirado! Mas o candidato coloca isso como se fosse uma d√°diva!

    Ora bolas, todos n√≥s, blogueiros, sabemos como foram dif√≠ceis e complicados esses √ļltimos tempos, o quanto fomos amea√ßados, processados, "assacados" e perseguidos. Tem blogueiro que teve de fechar o blog e sair do pa√≠s. Tem blogueiro h√° meses proibido de postar. Outro, n√£o bastasse a morda√ßa, foi obrigado a retirar todo o conte√ļdo de seu blog. Tem outro que foi novamente processado pelo mesmo chato, um crismado obcecado por banners patrocinados. Antes de publicar um post, tenho mo√≠do muito a moringa para evitar problemas, e isso se chama autocensura. Deus √© temor, como diz o Dahmer. (Vote Dahmer para presidente aqui.) A censura a blogs no Brasil repercute internacionalmente, e, acredite, h√° candidato aproveitando para se promover at√© com isso. N√£o termina a√≠. A mis√©ria de escribas bem-relacionados tamb√©m tem servido de palanque e cabo eleitoral virtual. Tenho pesadelos reincidentes com as manipula√ß√Ķes do pensamento em Cuba e na China.

    Estou furiosa, de saco cheio e cansada. Saturei a paci√™ncia com gente que promete c√©us e mover√° montanhas, mas que n√£o responde sobre despachos de galinha preta disfar√ßados de marzip√£ nem explica esc√Ęndalos que aconteceram em sua pr√≥pria Casa**, investimentos pessoais e desvios feitos com dinheiro p√ļblico. Gente que enaltece a ANAC, esquecendo-se da falta de decoro de v√°rios nomes institucionais diante da trag√©dia em Congonhas, em que morreram 199 ga√ļchos por conta de descaso; os corpos ainda n√£o haviam esfriado e, poucos dias depois, os eclesi√°sticos do caos a√©reo trocavam medalhas em uma cerim√īnia repleta de sorrisos e alegria. Diversos √≥rg√£os, ag√™ncias e institui√ß√Ķes p√ļblicas est√£o minadas, transformadas em um gr√™mio ou fac√ß√£o a servi√ßo de interesses pr√≥prios. Eis o que o Brasil tem hoje: uma superestrutura repleta de cupins, agregados que fazem qualquer neg√≥cio para se locupletar √†s custas do meu, do seu, do nosso trabalho. Pagamos impostos mais altos que na Dinamarca, onde se vive como rei, para manter essa estrutura de poder viciada, sem receber de volta ao menos um relat√≥rio. E eu duvido que este ou aquele candidato possa mudar isso, que algum deles consiga extirpar a cupinzada, a s√ļcia que tomou conta da estrutura do poder.

    Estou farta de escutar mentiras, de ouvir uma catilin√°ria gaga no repeat infinito de termos como "n√≥s" (quem?), "voc√™ est√° errado", "essa quest√£o", frases cortadas por centenas de v√≠rgulas e racioc√≠nios incompletos, em um tom professoral que n√£o convence porque n√£o explica nada de nada. O candidato est√° certo para todo o sempre, am√©m. Feche os olhos e ouvidos. √Č tudo mentira, cal√ļnia e miragem, boatos maldosos: no poder, est√£o todos beatificados, e voc√™ n√£o deve pensar o contr√°rio use a corrente do bem e o exu desaparecer√°. E ningu√©m, absolutamente, responde pelos desmandos ou sabe de coisa alguma, s√£o carapitangas imaculadas e a culpa √© da imprensa golpista. A imprensa, essa cadela partid√°ria, √© que fica inventando fatos, fact√≥ides e outros derivados maliciosos. Eis o partidarismo da coisa p√ļblica, e isso s√≥ tem um sentido, o vertical para cima, em tom escarlate. Meu Fod√īmetro atingir√° seu √°pice, e eu espero estar com os orif√≠cios j√° ocupados, pois a quantidade de gigantescos falos voadores que vir√° √© de Temer.

    Sabe, chega. Como voc√™, meu caro leitor, estou gasta de ver gente que faz qualquer coisa para vencer, e isso se estende a quem diz absurdos para angariar votos. Quero deixar claro aqui meu rep√ļdio √†quele que se mostrava livre de cren√ßas religiosas e, em momento de pleito, tornou-se devoto de santo; isso √© mais que hipocrisia ou oportunismo, isso √© desprezo pela sua e pela minha intelig√™ncia. Quanto mais o n√≠vel de campanha decai para atingir as camadas da base da pir√Ęmide, menos alfabetizada e carente de senso cr√≠tico, mais sinto que os candidatos riem de minha mis√©ria, pois de repente saiu de moda pensar. Agora, hype √© dar gra√ßas por "almo√ßar e jantar" e certo √© ver pol√≠tico como pai ou m√£e. O golpe √© contra todos n√≥s, os eleitores, em tese os verdadeiros donos do poder. N√£o precisamos de pai nem m√£e como presidente, e sim de um estadista, de algu√©m que valorize conhecimento, civilidade e bom senso, que ajude a promover a ascens√£o de todos, independentemente de sua cor pol√≠tica, ao que √© justo e bom. Comprar carro, por exemplo, n√£o √© bom: polui o meio ambiente e nenhum governante infeliz pensa em reformar o tr√Ęnsito das cidades − Porto Alegre, nesse sentido, est√° um inferno para motoristas e pedestres. Ter por ter n√£o ajuda ningu√©m a melhorar como ser humano. Se em vez de ter chance de comprar carro, casa, celular, viagens de avi√£o, etc., as pessoas tivessem acesso √† educa√ß√£o de qualidade, nosso mundo seria outro. Ter√≠amos mais jornais, mais pesquisadores, mais escritores, mais arte, mais questionamentos e talvez menos crimes e um parlamento mais √©tico. Isso √© o que importa ter: um mundo melhor.

    Há muito estamos acostumados à gandaia, atravessamos vazadouros de lama e coliformes como se fosse uma grande fuzarca e nos transformamos, por covardia, em amigos dos espíritos das trevas para evitar o bullying político ou para não parecer intelectual, como se pensar criticamente fosse vergonhoso; por estarmos habituados ao abuso, perdemos a noção de cidadania e zoamos de nossa própria desgraça elegendo palhaços e afins. Assim, já que escolhemos ficar à mercê das bênçãos da conveniência, já que preferimos ser um rebanho conduzido em vez de dominar as crinas do nosso destino, já que não temos mais dentes a perder, proponho que na próxima eleição o eleitor considere com carinho a idéia da subversão. Não confunda mulá com torá. Pensar "não tem tu, vai tu mesmo" é como dar de ombros ao futuro, é suicídio. Vire essa mesa, vivente! resista, mostre que não está contente. Na indecisão, o Anticristo tá aí pra isso: Ariela, 666.

    * Sobre a o uso de convic√ß√Ķes religiosas em troca de votos nestas elei√ß√Ķes, sugiro o artigo iluminado de Eliane Brum sobre a demoniza√ß√£o do aborto: "Menos leviandade, por favor". Revista √Čpoca, 11/10/2010.

    ** O site da Casa Civil está entregue às moscas desde a demissão da então ministra Elenice Guerra, em setembro: não há biografia do interino, notícias ou agenda.

  • Rumo às profundezas do Tártaro

    Enquanto as boas-novas n√£o chegam, e a √°gua prossegue entrando com mais profus√£o do que o tamanho de meu baldinho pode suportar, resolvi abrir o boteco hoje para postar um texto a prop√≥sito. Dia 29 de outubro come√ßa a 56¬™ Feira do Livro de Porto Alegre, um evento cultural que √© a menina-dos-olhos de todo bovinense. N√£o que o ga√ļcho ame livros, embora o IBGE insista em pregar que o Pasto √© onde mais se l√™ e se √© melhor em tudo. A d√ļvida me inflama todas as veias, pois n√£o deve ser √† toa que ficam em S√£o Paulo as maiores editoras, l√°, onde vivem 19¬†223¬†897 almas − tamb√©m de acordo com o IBGE. Mas todo bovinense ama a Feira do Livro, ela √© o seu Caminho de Santiago, e os aut√≥grafos dos mais vendidos, sua h√≥stia; o objetivo maior √© banhar-se na multid√£o, zanzar, curtir essa festa t√£o bonita, enfrentar as preciosas filas − patrim√īnio porto-alegrense − e curtir a chuva que teima em cair durante todos os dias, durante cada edi√ß√£o do evento. Ent√£o, resolvi publicar essa cr√īnica aqui abaixo, pois ela √© a) uma homenagem sard√īnica aos nossos costumes; b) porque foi publicada no querido paralelos.org, hoje s√≥ existente no Internet Archive; c) porque em 2010 o patrono √© ningu√©m mais que Paix√£o C√īrtez, o boludo dos boludos, e d) porque Deus assim quis. Falando no Todo-Poderoso, observo que, como toda peregrina√ß√£o religiosa, a ida √† Feira do Livro precisa ser dolorosa, e este ano ela ter√° mais um elemento de autoflagela√ß√£o: a Pra√ßa da Alf√Ęndega, onde se d√° a romaria, est√° em obras de recupera√ß√£o hist√≥rica. Voil√†!


    RUMO √ÄS PROFUNDEZAS DO T√ĀRTARO
    por Ariela Boaventura

    Saiba como foi o pen√ļltimo dia da 49¬™ Feira do Livro de Porto Alegre

    Corpos me espartilhavam de todos os lados. Estava num corredor polon√™s, as pessoas se comprimiam entre as bancas e a grade de um dos jardins da Pra√ßa da Alf√Ędega. Num pregui√ßoso movimento ondular, uma fila de gente vinha e outra voltava. Fam√≠lias inteiras, ilhas de pais com um mar de crias √† sua volta. Por algum mist√©rio, todos comiam picol√©s, sorvetes, pipocas, algod√Ķes-doces, batatas-fritas, cachorros-quentes − ou bebiam refrigerantes, uma meleca que se espatifava nas suas roupas e grudava nas dos passantes. Os loucos todos tamb√©m haviam marcado encontro por l√°: um pregava o fim do mundo, outro esbravejava contra jornalistas, meios de comunica√ß√£o, deputados e o Congresso Nacional; uma maluca arrastava a filha pela camiseta, aplicando-lhe sopapos do lado do ouvido, enquanto a guria gritava como uma caturrita em transe. Abrira-se a porta do inferno naquele s√°bado, o pen√ļltimo dia da 49¬™ Feira do Livro em Porto Alegre. Como nasci com instintos suicidas, resolvi me embrenhar em meio ao Hades para encontrar um livro interessante. O pen√ļltimo dia da Feira √© a v√©spera do Ju√≠zo Final, √† exce√ß√£o de que n√£o vir√° ningu√©m para te salvar.

    Poucos instantes ap√≥s ser absorvida pela massa onduliforme, meu instinto vice-versou, e transformou-se em psicopatia. Cada crian√ßa que chorava incitava-me ganas homicidas. Ainda restavam alguns cent√≠metros para vencer o fim do corredor polon√™s quando, pouco adiante de mim, uma alemoa gorda que transpirava manteiga pelos poros estacou. O tr√°fego todo parou para que ela pudesse apreciar o bal√© que um livro fazia, pendurado num estande. Ancorada numa das m√£os da alemoa uma cria se debatia, berrando. Senti que estava prestes a ter um ataque card√≠aco. Pedi licen√ßa e, ao passar pelo pote de manteiga, esbarrei sem querer na crian√ßa e pisei com tudo em seu p√©. Foi um acidente, mas aquilo me lavou um pouco a alma gangrenada de f√ļria. Desculpe, b√™ibe, pensei; o dod√≥i j√° vai passar; al√©m disso, eu tenho s√≥ alguns anos mais de vida, enquanto voc√™ tem ela inteira pela frente. A crian√ßa ficou para tr√°s, berrando a plenos pulm√Ķes. Lembrei da mulher de L√≥ e resolvi olhar somente o que o caminho √† frente me reservava.

    Com a histeria de fim de Feira, fica imposs√≠vel chegar perto de um balaio de promo√ß√£o, por mais chinfrim que seja. As pessoas se acotovelam perigosamente em volta da caixa, como abelhas em volta de uma colm√©ia. √Č uma batalha na qual s√≥ aqueles tipos mais agressivos conseguem lugar. Numa √Ęnsia man√≠aca, s√≥ explicada pela certeza do amanh√£ n√£o tem mais, eles farejam, bolinam, despentelham capas, folheiam, enfaram a curiosidade e depois atiram os livros longe, com desprezo. Numa estat√≠stica para l√° de subjetiva, se isso for poss√≠vel, pode-se dizer que, de cada centena de bolinadores, apenas dois compram; destes, um encontra algo raro a pre√ßo bom e o outro leva uma inutilidade a R$ 5 que ele jamais vai abrir. √Č exatamente o contr√°rio do que ocorre no primeiro dia, quando se encontra muitas pe√ßas √≥timas por barbada, se √© bem-atendido e os compradores s√£o educados, em geral solteiros e sem filhos. √Č o pessoal que mora no Centro ou nas redondezas que vai no primeiro dia. No pen√ļltimo, a cidade toda acorre. E, como praga nunca chega sozinha, neste s√°bado era feriado, s√≥ havia duas coisas a se fazer na cidade: ir √† Feira ou √† Bienal, o que d√° na mesma, porque a Bienal se estende em volta da Feira.

    L√ļcifer me seguia. A certa altura, n√£o antes das minhas v√≠sceras receberem um murro de uma senhora cujo rosto parecia-se com o da Madre Teresa, encontrei Cartas na Rua, do velho bebum, escondido atr√°s de um tratado geral de qu√≠mica org√Ęnica avan√ßada. Finalmente, uma esperan√ßa. A edi√ß√£o era de 1987, mas estalava de novo. Antes de me decidir no impulso, e entortar o cora√ß√£o de culpa por comprar s√≥ malandragem, dei mais uma olhada pelo balc√£o do estande. A pre√ßo de um d√≠gito, mordi um Barthes cl√°ssico, s√≥ para n√£o perder a fama de chata. O ideal, num dia em que o diabo est√° solto, seria pegar o livro e se mandar, porque se voc√™ quer fazer a coisa direito recebe toltchoques na cara. O dono da banca era surdo e cego, ou talvez eu estivesse invis√≠vel, essas coisas a gente nunca sabe ao certo. Para sorte dele uma senhora me ouviu e eu paguei, antes de desistir dos livros, das compras, das pessoas e sair arrebentando tudo que visse pelo caminho.

    O livro impossível
    Uma obsess√£o √© algo que n√£o te abandona. √Č poss√≠vel perder tudo na vida, mas as obsess√Ķes a gente carrega para sempre consigo, num bolso. E eu precisava encontrar um certo livro que nenhuma editora tem.

    A jogada √© assim: voc√™ se mete dentro de uma multid√£o ensandecida, cheia de m√£es hist√©ricas, velhinhas homicidas, cigarros periclitantemente acesos e crian√ßas ranhentas e jura que vai conseguir sair dessa vivo. Mas o jogo s√≥ fica bom mesmo se, al√©m de conseguir vencer a multid√£o sem ser pisoteado, voc√™ tem uma miss√£o imposs√≠vel como esta: escontrar um livro dific√≠limo, semi-inexistente. √Č sadomasoquismo, uma esp√©cie de vingan√ßa aliada a um gosto por sofrer, ou, ainda, o prazer do desafio √† realidade e √† paci√™ncia das pessoas; em √ļltima inst√Ęncia, √© um exerc√≠cio rumo √† ilumina√ß√£o b√ļdica ou ao √ļltimo degrau da degenera√ß√£o humana.

    O nome do livro é Minima Moralia, uma bíblia de aforismos filosóficos de Theodor Adorno. Tem um morando lá em casa desde o início do ano, mas pertence biblioteca do Instituto Goethe. Me apeguei como a um filho, não tem jeito de devolver, a não ser que o substitua por outro igual. Portanto, havia pelo menos um pouco de razão nesta aventura.

    Coc√ī de passarinho
    Para se ter uma id√©ia, s√≥ uma id√©ia, porque o n√ļmero preciso eu n√£o sei, s√£o 124 bancas de livros distribu√≠das por 10 mil m2 de √°rea. As bancas s√£o como estas de revistas, s√≥ que cheias de, ora, batatas que n√£o seriam. E sobre as bancas h√° uma cobertura pl√°stica desenvolvida para proteger as pessoas da chuva, que cisma em cair sempre nas tr√™s semanas de Feira do Livro. Palmilhar esse espa√ßo √© algo banal em dias banais. Mas em dias de Feira √© uma epop√©ia que n√£o raro leva casais √† separa√ß√£o e m√£es ao hosp√≠cio. Os casais brigam por discordarem nas compras, por estarem cansados, por terem bebido demais no bar ou por qualquer outra ninharia; as m√£es se perdem das crias, ou o contr√°rio.

    Esse ano, a organiza√ß√£o da Feira inventou um espa√ßo para os pimpolhos. Ali √© o portal que leva direto ao s√©timo c√≠rculo do inferno, sem escalas. O hor√°rio de recreio em um manic√īmio √© um cemit√©rio perto daquilo. A aglomera√ß√£o de pessoas (pais, av√≥s, cachorros, pivetes) √© tal que nem um monstro vindo diretamente de um filme do Spectraman poderia dispersar essa gente. Palha√ßos e bailarinas, conjuntos musicais infantis e "bonecos vivos" levam as crian√ßas √†s raias da loucura. Passei bem longe dali, por precau√ß√£o contra meus instintos malignos, e segui minha epop√©ia. Ao fazer uma pausa para um cigarro, debaixo de um dos jacarand√°s, tive a certeza do que j√° desconfiava eu s√≥ podia mesmo estar sendo ciceroneada pelo capeta. Porque um passarinho, por distra√ß√£o ou incontin√™ncia intestinal, cagou, e seu coc√ī caiu l√° de cima justo no ombro esquerdo da minha camisa branca. Suspiro.

    Banca a banca, em busca do livro inexistente, recebia sucessivos n√£os. √Č como catar pulgas (por isso, talvez, "mercado de pulgas"?), a busca se retroalimenta a cada fracasso. Encontrei quem eu n√£o procurava: Mishima, a trilogia toda separada, um livro em cada banca, a R$ 10 cada. Atropelei um velho que mancava e quase colidi com um cego; dancei uma chula sobre a sua bengala e amaldi√ßoei meu mau humor. Por fim, bolhas e fome, as primeiras nos p√©s e a outra no cora√ß√£o do est√īmago. Chegara a hora de dar adeus √†s barracas e ao enxame de gente. N√£o consegui a ilumina√ß√£o, apenas um olhar de esc√°rnio do Maligno, que me piscou o olho e disse:

    − N√£o chora. Ano que vem, tem mais.

    − No ano que vem eu venho no primeiro dia − respondi-lhe, mostrando a l√≠ngua. E me mandei para casa, para esperar o Ju√≠zo Final em paz.

    A Feira do Livro completa 50 anos de exist√™ncia ininterrupta no ano que vem. A farra dos livros acontece na Pra√ßa da Alf√Ęndega, no Centro de Porto Alegre, √† sobra de dezenas de jacarand√°s centen√°rios, onde vivem milhares de passarinhos alegres, mas com incontin√™ncia intestinal. Os porto-alegrenses adoram eventos culturais, principalmente porque adoram atrolhos de gente e entrar em filas. H√° filas para quase todos os gostos, em quase todos os lugares: para comprar p√£o, no restaurante, na danceteria, no cinema, para ir ao banheiro do bar, comprar sorvete e at√© para pegar uma cerveja. A Feira do Livro, portanto, re√ļne as coisas mais caras ao porto-alegrense: cultura − na figura do livro −, atrolho de gente e filas (para o banheiro qu√≠mico e para os aut√≥grafos).

    Em tempo: A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do país e o maior evento do gênero realizado ao ar livre na América Latina.

    :: dezembro 2, 2003 03:55 PM

  • Tempo sem pausa

    Ficou um pouco poluído por aqui. Os salsichas dizem que não é no servidor deles. Eu acho que foi uma notinha em corpo 7 que eu não enxerguei bem, dizendo que os adsenses em profusão faziam parte. Mas atrapalha a leitura deveras, ainda mais em um blog que foi criado para só exibir texto e quer continuar assim.

    Bovinenses vai migrar, mas n√£o vai ser hoje.
    Tem que fazer a mudança sem quebrar a porcelana.
    A política é a de diques: começou a entrar água por vários lados, e só tenho um baldinho daqueles de praia. O domínio e o servidor já temos.

    √Č o que importa, fora a paci√™ncia e a mem√≥ria dos bons.

    Estamos trabalhando para melhor servi-los, ou n√£o.

    Espero ter boas-novas em breve.

  • Balde cheio, discurso vazio

    N√£o √© apenas da lama da Expointer que sobrevive a alma bovinense. H√° uma parcela de lodo viscoso e podre oriundo de setores os mais variados que inflamam at√© a raiz de nossos p√™los sagrados do bigode; um tal atoleiro geral que afeta cada bovinense de tal maneira que aderiu-se ao mutismo. O bovinense √© mudo, surdo e cego porque √© muito sens√≠vel a determinados tipos de lama. Bosta de cavalo, tudo bem, h√° at√© certo prazer em sentir o cheiro org√Ęnico dessa classe de excremento. Mas outras categorias de coc√ī n√£o lhe caem bem.

    E eu estou pasma com a quantidade de bosta atirada nos ventiladores da mídia só agora, em plena época eleitoral. Claro, sou uma imbecil assumida, e por isso não aceito, por exemplo, a declaração do ministro da Fazenda Guido Mantega. "Os vazamentos da Receita sempre ocorreram", ele disse.

    Se "sempre ocorreram", nada existe de anormal, √© o que essa frase quer induzir, entortando a l√≥gica que aponta para caso de pol√≠cia. √Č o mesmo desenho de argumento utilizado por certo candidato √† chefia do Banan√£o, que, defendendo-se das acusa√ß√Ķes desse mesmo caso, disse que a quebra de sigilo √© coisa de 2009. Ou seja, se foi feito no ano passado, que import√Ęncia tem agora? Ambos os argumentos t√™m o mesmo gene de parentesco. Ambos, em vez de assumir que algo muito grave ocorreu, tentam minimizar os fatos e desviar a l√≥gica de seu curso normal. E deixam a mim e a voc√™, respeit√°vel leitor, com cara de paspalho, palha√ßo, ruminante, pois somos obrigados a votar.

    "Se você olhar para o passado, tem vários [vazamentos] que aconteceram." Como assim, ministro? E ele fala como se eu devesse estar ciente de que meus dados andam vazando por aí há anos, das mãos da Receita para as mãos sabe-se lá de quem, para usos sabe-se lá de que tipo. E ele fala como se eu tivesse de aceitar isso como fato corriqueiro. Se o sistema da Receita é falho, se sua segurança é podre, há meios hoje em dia para saneá-lo e torná-lo seguro; a Receita Federal tem o dever de oferecer um sistema seguro, ministro. Meu advogado não acha normal esse tipo de irresponsabilidade. Eu não admito que a culpa seja sempre do sistema, não nesse caso.

    Eu tamb√©m fico admirada com certa ingenuidade de quem elabora coisas como vazamento de dados sigilosos e que n√£o se d√° conta de que peixe pequeno e "terceirizado" n√£o tem nada a perder e fala por qualquer R$ 10 mil na carteira, e que n√£o tenha no√ß√£o de rid√≠culo e esconda dinheiro grosso em cuecas e vasos ornamentais. Olha, se isso n√£o feder mesmo, se isso n√£o respingar, vamos ter todo o direito de desconfiar da seguran√ßa e da integridade do sistema da urna eletr√īnica.

    Esque√ßamos agora a lama federal e voltemos rapidamente os olhos para nosso amado Pasto. Canos pol√≠ticos fr√°geis vazaram dados sigilosos por aqui tamb√©m. Parece que √© ato institucionalizado, moda, estilo de fazer pol√≠tica. Ningu√©m usa mais a palavra crime, √© termo anacr√īnico. A Pol√≠cia do Rio Grande do Sul prendeu hoje um sargento da Brigada Militar "suspeito" de vazar dados de pol√≠ticos ga√ļchos. Por meio do sistema, o cara fez milhares de consultas sobre pol√≠ticos, partidos e bicheiros, e pode ter acessado dados fiscais estaduais e processos em andamento na Justi√ßa, inclusive os que est√£o sob sigilo. Aqui no Bovinenses a gente n√£o esquece que o caso Detran estava sob sigilo. E lembramos tamb√©m que sargentos cumprem ordens, em geral.

    Pausinha para respirar.

    Estamos euf√≥ricos, afinal, √© setembro. Para quem ignora, dia 20 de Setembro o Pasto celebra a sua "p√°tria". H√° desfiles de cavalos, o melhor amigo do ga√ļcho; canta-se o Hino Rio-Grandense, homenageiam-se as tradi√ß√Ķes dessa gente, como o chimarr√£o, a boleadeira e a chinoca. Programas de moda falam sobre a indument√°ria do ga√ļcho, misturando Vivienne Westwood com o estilo de Paix√£o C√īrtes, advogado, folclorista e modelo do La√ßador, est√°tua-s√≠mbolo de Porto Alegre, a melhor cidade do mundo.

    Em setembro, nosso governador torna-se o presidente de uma Rep√ļblica Rio-Grandense, e veste bombachas mesmo que use saias e m√≥ito laqu√™. Sempre chove, e a √°gua se mistura ao tapete t√©pido de estrume que cobre as ruas, exalando um odor t√£o caracter√≠stico √† cidade que deveria ser tombado como patrim√īnio cultural. Estamos em setembro, o m√™s do Pasto, quando se acender√°, em breve, a chamada Chama Crioula, outro s√≠mbolo bovinense, esse por√©m um pouco perigoso pelo risco que o chefe pastoril corre na hora de acend√™-lo. (√Č poss√≠vel que, se terroristas houvesse, a chama fosse abolida por quest√Ķes de seguran√ßa, ou mandassem um escravo acend√™-la.) Da √ļltima vez, o fogo explodiu, chamuscando delicadamente certos p√™los cobertos de laqu√™. O Parque da Harmonia se transforma em acampamento, vacas s√£o assadas inteiras em espetos cravados no solo √ļmido, o mate rola solto e turistas chegam de todas as partes do mundo para ver de perto os h√°bitos dessa gente. A harmonia √© o nome correto para tamanha hospitalidade: √© quando o ga√ļcho se despe de sua dureza e sua alma desconfiada se abre para exibir o orgulho de seus costumes: r√ļstico, mas am√°vel.

    E diante de tamanha festa √© poss√≠vel prever com exatid√£o, salvo um esc√Ęndalo de propor√ß√Ķes incontrol√°veis e as propor√ß√Ķes atuais s√£o do tamanho do universo , como dizia, √© poss√≠vel adivinhar com certeza que as elei√ß√Ķes correr√£o em paz, celebrando nossa democracia t√£o s√≥lida e exemplar. E assim, as dores de cabe√ßa de hoje ser√£o esquecidas. At√© porque, penso c√° eu com meus bot√Ķes j√° gastos, √© preciso contar com patrocinadores de peso para a festa dos Farroupilhas, n√£o √©? Ah, pois √©, eu √© que n√£o vou ficar fazendo assertivas aqui que me deixem em uma posi√ß√£o dif√≠cil mais uma vez. A gente aprende, gra√ßas √† aplica√ß√£o exemplar da lei.

    Em todos esses casos, 1) vazamento de dados da Receita Federal e 2) o vazamento de dados de pol√≠ticos ga√ļchos pelo sargento, al√©m de 3) a "suposta fraude" no banco dos ga√ļchos, √© preciso reconhecer que investiga√ß√Ķes que interessam √† sociedade, investiga√ß√Ķes sobre o vazamento de dados de brasileiros, investiga√ß√Ķes sobre desvio de recursos p√ļblicos, investiga√ß√Ķes dessas classes e desse tipo de gravidade ficarem sob segredo de justi√ßa √© coisa que s√≥ perde em razoabilidade diante do fato de todos n√≥s sermos obrigados a votar em gente suspeita de bandidagem.

    Leitor, apure seu ouvido para as palavras utilizadas em declara√ß√Ķes. Embora a ret√≥rica seja de baixo n√≠vel, sua forma pode confundir. Seria louv√°vel que a imprensa ajudasse e n√£o se detivesse somente em declara√ß√Ķes oficiais: precisamos mais do que nunca de investiga√ß√£o isenta de interesse pol√≠tico. Seria √≥timo que pud√©ssemos continuar contando com os Minist√©rios P√ļblicos, mas, independentemente do papel da Justi√ßa, precisamos mais do que nunca de liberdade de imprensa, para cumprir a fun√ß√£o social de nosso trabalho. A pol√≠tica chegou ao n√≠vel dos esgotos: repleta de imposturas, pejorativa e malcheirosa, constitui, e eu lamento isso, o que se cunhou em filosofia como "falar merda". A ess√™ncia de falar merda n√£o √© dizer algo falso, mas adulterado √© um blefe, uma camufla√ß√£o , e o √ļnico objetivo do falador de merda n√£o √© deturpar a verdade, mas nos enganar em rela√ß√£o √†s suas inten√ß√Ķes. "Falar merda √© um inimigo muito pior da verdade do que mentir".*

    E não venham os arautos da modernidade dizer que isso tudo nos deixa bestas porque hoje temos mais informação: nossa informação é cuidadosamente filtrada, e qualquer dia haverá um advogado em cada redação.

    E seria recomendável que os governos começassem a pensar seriamente em um tampão absorvente ou obturador para estancar os vazamentos de seu material cloacal. Se você não pode mudar seu caráter, disfarce, aconselhava Maquiavel. Voto não é lixo. Eleitor não é latrina.

    * Sobre Falar Merda, Harry G. Frankfurt. Ed. Intrínseca, 2005. Trata-se de um ensaio filosófico sobre o discurso denominado como falação de merda. Frankfurt é um filósofo moral e professor de filosofia na Princeton University.

  • Neve, alegria do bovinense

    Com a chegada do frio, algumas cidades do Pasto tornaram-se brancas.
    Os turistas adoram. Os jornais ficam flocados de notícias sobre o tema. Quem não curte neve?
    Mas esta n√£o √© qualquer neve, √© a neve do ga√ļcho: n√£o tem nada igual.
    √Č a melhor neve do mundo, porque √© daqui.

    Coça essa moringa, vivente! Pensa bem, tchê! Cancela aquelas férias no norte da Europa, vai ali na Rodoviária de Porto Alegre e compra uma passagem para Bom Jesus. E já aproveita para comer a excelente torrada de queijo a R$ 2 pila que só na nossa rodoviária tem.

    Alguns moradores e turistas ficaram em choque diante das paisagens brancas de algumas cidades. "A gente ficou at√© meio abobado", disse um algu√©m, olhando para a ponta meio esbranqui√ßada de seu cachecol e rindo. O "abobado" √© porque as pessoas ficam assim: olham para o fen√īmeno e riem, indagando a outras se elas realmente est√£o vendo o que est√£o vendo. Ficam euf√≥ricas, felizes com a natureza, por estar vivas e tocar na neve, sentir ela caindo sobre seu rosto, ficam assim, lindamente loucas, como se tivessem tomado LSD, visto Jesus ou, mais adequadamente, as duas coisas.

    As fotos que vi de Bom Jesus, lamentavelmente, s√£o assustadoras. A cidade t√° parecendo Hiroshima arrasada pela bomba ou Nova York p√≥s-11 de Setembro. N√£o √© aquela neve limpa, branqu√≠ssima, com bonequinho cute de nariz vermelho, sabe? N√£o √© aquela neve de Hollywood, perfeita como s√≥ no est√ļdio. √Č uma imagem desoladora e os bonequinhos parecem umas batatas enormes com palitos. Parece que ca√≠ram cinzas sobre a cidade, parece que Deus fumou e fez a cidade de cinzeiro. Mas √© neve, a nossa neve!

    Em minicol√≥quio, decidimos aqui em casa, eu e Otto, meu amigo imagin√°rio que est√° de cama, adoentado, bom, decidimos batizar essa neve exclusiva. √Č exclusiva porque s√≥ cai sobre o Rio Grande do Sul, porque aqui √© a terra do ga√ļcho, um povo cujo Pai-Nosso √© em bovin√™s e seu Jesus toma chimarr√£o. De maneira que aqui n√£o cai qualquer neve, aqui cai a "Bovineve". Aqui, bovinense n√£o se mixa: se houver nesvasca, √© para ga√ļcho guasca. Agora tu pode dizer que aqui, na tua terra, neva. Mais um orgulho para essa na√ß√£o.

    Meu recalque é que, quando nevou em Porto Alegre, em 1984, eu estava em Pedro Juán Caballero, Paraguai, aprendendo espanhol em uma escola cravejada de balas de canhão da Segunda Guerra. Morri de inveja, e o resultado disso você vê aqui, nesse texto. Como Otto está doente, e minha conta bancária está com mais de R$ 3 mil negativos, com saques proibidos, não posso ir até a rodoviária e comprar uma passagem para São Francisco de Paula. Não pela neve, mas porque lá tem uma luz e um oxigênio que me dão esse "efeito de neve": abobalhamento; porque queria construir uma casinha lá, ter bichos e filhos, cada um em seu gênero.

    Fora essa √ļltima parte, o post n√£o √© s√©rio: isso √© s√≥ mais um daqueles post band-aid.


    Ops! Como confio e oro para que haja leitores de outras regi√Ķes, e eu mesma estranhei, achei mais amig√°vel deslindar o verbete "mixar", cf. Houaiss, e que o bovinense usa no sentido dos itens 2 e 3:
    Acep√ß√Ķes
    verbo
    Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
    intransitivo
    1    chegar ao fim; terminar, acabar
    Ex.: nosso dinheiro j√° mixou
    intransitivo
    2    fazer não dar certo ou não dar certo; gorar, frustrar(-se), malograr(-se)
    Ex.: o mau tempo fez m. o piquenique
    intransitivo
    3    perder a intensidade; enfraquecer, diminuir
    Ex.: a animação mixou e a festa acabou

  • "Me passa aqui esse jabulani, tchê!"

    Desculpa aí, bati muito forte com a cabeça: eu havia prometido contar alguma coisa aqui? Esqueça.

    Bah, eu estava fora da realidade, mesmo. Hoje chegou a nova TV, e com ela a agenda brasileira, futebol e muita divers√£o classe. Aterrissei.

    A come√ßar pelo mais novo adjetivo para coisa ruim, fedorenta, feia, malfeita, maldita, desengon√ßada, imprest√°vel, esquisita, tronsa: jabulani. Para coisas caras e desprazerosas, infelizes: "Sabe aquele novo restaurante? bah, maior jabulani". Est√©tica do estrup√≠cio, tribufu: "A namorada do fulano? credo, √© uma jabulani!". Aparelhos falidos, avariados: "Esse celular j√° t√° que √© uma jabulani". Esportes: "A equipe teve um desempenho de jabulani". Eventos ruins: "Aquilo foi coisa de jabulani, mesmo". Churrasco: "A costela do Beto tava de jabulani". Bovinense gaud√©rio metido a boludo, referindo-se a uma coisa aporreante, sacal, como sempre no masculino: "Me passa aqui esse jabulani, tch√™!". Pior. M√£es entusiastas do futebol dar√£o nomes em homenagem √† efem√©ride a seus filhos, e centenas de Jabulanis ser√£o batizados. Se forem meninas, haver√° ainda uma deriva√ß√£o: Jabul√Ęnia. G√™meos? Jabulani e Jabul√Ęnia. "E a√≠, Jab√ļ?", √© como ser√£o chamadas na escola. Horrorizado? Duvida para ver. Jabul√Ęndia vai inspirar nomes a cidades brasileiras.

    Liguei a TV após o jantar como digestivo, e parecia que eu chegava de uma viagem a Marte: estranhei todo mundo. A Cristiane Pelajo estava gordíssima, com uns peitos enormes, pneuzinhos laterais saltitantes, a maquiagem parecia manchada, deselegante, enfim, estava uma jabulani. A Fátima Bernardes também não parecia bem, muito cansada, com olheiras e sem voz. O Faustão, pelo menos na propaganda, estava magérrimo, fiquei espantada. Outros dois repórteres envelheceram deveras. Durante o intervalo, a Globo promoveu a assinatura de vários serviços de internet a 0,99 cents por mês, coisa de ficção. Eles só não contam que, conforme consta no site da Globo.com, esse preço aumenta para mais de R$ 12 por mês depois de certo tempo, custo para fornecer nada mais que um provedor de acesso, e eu não entendi o resto: acesso discado para quê se você tem banda larga? Negócio mais jabulani, esse.

    E teve o filme tipo Z, no Intercine; ri muito com as vozes da dublagem, t√£o conhecidas de todos que passam pelo ouvido sem nenhuma protuber√Ęncia, a mim surpreendentes por serem sempre as mesmas: o menino com a voz de taquara rachada, o vil√£o, o gal√£ e a hero√≠na sempre s√£o os mesmos, voc√™ j√° sabe distinguir os pap√©is de quem vencer√° no final s√≥ pela dublagem. Perdi o f√īlego rindo de um personagem com a voz do Dr√°cula, cavernosa de Marlbor√£o, empostada pela eternidade e que recordava o Scooby-Doo. Baita jabulani esse Intercine!

    Senti que passara o efeito let√°rgico do jantar e bateu aquela inquieta√ß√£o, quis buscar qualquer coisa no Google, dar um oi a um amigo e verificar o que havia de novo nos sites preferidos, e peguei... o mouse. Passei tantos anos vendo televis√£o pela internet que n√£o me dei conta do absurdo: havia um aparelho de TV na minha frente, e n√£o a tela do computador com v√°rias emissoras mundiais em streaming, sites abertos, r√°dios em pause, o messenger aberto, dicion√°rios online, lojas ao alcance da m√£o, email, blog, aplica√ß√Ķes a atualizar, downloads a fazer, coisas a descobrir a cada instante. Vi um bloco de concreto preto, morto, sem intera√ß√£o e mobilidade, um objeto sem ess√™ncia, como meditaria Descartes. (Reflito que talvez por causa do costume com a est√©tica dos telejornais alem√£es eu tenha estranhado os jornalistas brasileiros.)

    Relaxar, esperar, olhar outros canais, é o que as pessoas fazem quando vêem TV, não é? Mas isso mudará em breve. Agora, em vez de pedir uma doação de aparelho de TV só para assistir a F1, como eu fiz, você pode usar um dispositivo USB para receber o sinal de TV no notebook. E daí que com isso dá para unir ambos os universos e ter o prazer de realizar o sonho de atirar aquele trambolho prédio abaixo. Você pode ver a corrida de F1, por exemplo, em uma janela, e trabalhar em várias outras, e ainda falar com seu amigo, verificar emails e atualizar sua vida online, tudo ao mesmo tempo. Daí que com isso o aparelho físico de TV perdeu o sentido: se transformou em uma verdadeira jabulani.

  • Pré-despedida

    Antes de apagar a luz e fechar a porta do Bovinenses, achei que poderia ser¬† interessante eu contar que espatifei minha cara no ch√£o e quase fui encontrar Jesus. Vi inclusive a luz. Mas tenho que fazer como os entusiastas da ioga t√Ęntrica e segurar a onda, pois √© trabalho at√© de madrugada para compensar uma rasteira que levei de um magnata da uva. Gostaria de contar tamb√©m por que pretendo lobotomizar meu cora√ß√£o, atir√°-lo pela janela, a fim de ter mais paz na vida, mas essas coisas a gente n√£o diz em blog.

    Apareça e tente entender também o motivo que leva os bovinenses a decorarem as portas de garagem com vasos ornamentais de cimento.

    Doming√£o estarei aqui, com ou sem jogo, hein!

  • Sobre as virtudes desejadas em um homem

    Esse post poderia ser uma homenagem ao Dia dos Namorados, mas √© um band-aid. Os alem√£es me escrevem dizendo que sentem saudades, pretexto que significa uma amea√ßa velada de me tirar o blog. Da√≠, bom. Escrevi essa bobagem abaixo apenas para divertir uma amiga, esp√©cie em extin√ß√£o na minha vida. T√° bom, pode ser tamb√©m uma oportunidade de choramingar menos no cintilante Dia dos Namorados. Mas de qualquer forma √© incoerente com a raz√£o de ser do Bovinenses. √Č que estou acuada para entregar um trabalho e pagar d√≠vidas, sabe? Ent√£o, resolvi dar uma enrolada nos salsichas. Espero que meus ex-maridos n√£o se identifiquem com nenhuma caracter√≠stica abaixo: √© s√≥ blablabl√°, como diria um ex-presidente. √Č algo bobinho, n√£o daria processo. N√£o, n√£o √© um libelo contra o casamento, √© s√≥ um pouco de mofa. E est√° verde ainda, ou seja, nem era para estar na banca, em exposi√ß√£o. E como √© um texto em constru√ß√£o pode ficar ainda melhor com a sua ajuda, Caetano. Por isso, se voc√™, meu √ļnico leitor, curtir e tiver dicas para melhorar essa bobagem, envie pelos coment√°rios.


    O homem "perfeito", segundo a mente feminina ordin√°ria

    O homem perfeito, segundo algumas mulheres, reuniria as seguintes caracter√≠sticas: seria inteligente, atraente, independente (financeiramente e emocionalmente), sens√≠vel, bem-humorado, bonito, alto, moreno, "gostoso". Um cara que adoraria presente√°-las, apreciaria bons filmes e boa m√ļsica, saberia cozinhar, seria bom de cama e um faz-tudo dom√©stico. Antes de desejar essa criatura t√£o maravilhosa, vejamos de perto o que a realidade diz sobre cada uma destas qualidades:

    ♥ Inteligente: J√≥ia rara. √Č coisa t√£o incomum quanto achar uma nota de R$ 100 na rua, mas √© uma probabilidade que, embora seja aleat√≥ria, √© poss√≠vel, mesmo que o percentual seja de s√≥ 0,1 em 99,9 chances. Homens inteligentes, por√©m, n√£o significam nenhuma d√°diva: s√£o exc√™ntricos, complicados, teimosos e birrentos. Sem falar que passam horas e horas em cima do que mais gostam: matem√°tica, l√≥gica, m√ļsica, ci√™ncia... T√™m h√°bitos extravagantes, como comer tatu escondido, e fazem piadas internas. Em geral, n√£o cuidam do corpo nem ligam para moda, "essas coisas de gente f√ļtil", tampouco para voc√™. Detestam a maior parte das pessoas porque a seu ver elas s√£o imbecis. N√£o raro t√™m alguma doen√ßa, seja f√≠sica ou mental.

    ♥ Atraente:
    Ou seja, feio. Como o conjunto em sua totalidade não precisa ter harmonia, isto é, ser "belo", as chances de ocorrência aumentam, e é o tipo mais disponível. Ele pode se parecer com um personagem de Robert Crumb, por exemplo, ou ter uma leve pança, ser vesgo e ter nariz torto, mas se aos seus olhos for atraente, ou tiver algo que se "salve" (o olhar, um tique, um pinto grande) é o que vale. Aquelas chagas de espinhas chegam então a ter certo charme, como se fossem a marca de uma personalidade. O contraditório é que, com o tempo, um dia o que parecia atraente começa a se revelar esquisito ou fora de esquadro, como se um véu fosse retirado da frente dos olhos da mulher. Se o plano não for a longo prazo, e você for uma mulher conformada, contudo, eu diria que é um bom caminho para se apostar. Mas se você fosse conformada não estaria lendo isso.

    ♥ Independente $ e emocionalmente: N√£o quer mais nada, n√©? J√° √© raro que um homem seja emocionalmente independente (m√£e, ex-mulher, futebol, cerveja, amigos da bocha, filmes de a√ß√£o, amantes, filhos com a ex, etc.), que dir√° com dinheiro. Olha, se o cara tem grana, ele vive trabalhando, passa o tempo entre reuni√Ķes e hot√©is, viajando. Seu maior inimigo, na presen√ßa dele, ser√° o palmtop. √Č um ser distante, que n√£o precisa de nada, muito menos de voc√™. Inevitavelmente, ter√° amantes e boas desculpas. Possui fetiches como marcas e carros, comidas ex√≥ticas e t√©cnicas de relaxamento orientais em voga. √Č um ser fr√≠volo, vazio, n√£o vale nada. Se ele tem dinheiro e n√£o trabalha, ent√£o √© traficante. Em ambos os casos, voc√™ viver√° de migalhas de tempo e lembrancinhas de aeroportos. Ou seja, n√£o tem sa√≠da: √© uma escolha de inevit√°vel sofrimento.

    Presenteiro: Alguma coisa ele tá escondendo, nem que seja a própria consciência. Cuidado.

    Bem-humorado: O chato. Adora fazer as pessoas mostrarem os dentes com suas piadinhas. √Č simp√°tico demais, faz de tudo para que os outros sintam o prazer proporcionado por sua companhia. Tem sempre uma express√£o muito jovial, muito alegre e desvairada de energia: acorda √†s 6h j√° pronto para uma corrida, para dan√ßar ou cantar, para te mostrar o quanto o dia est√° lindo mesmo que esteja chovendo canivetes. Nunca lhe dir√° um n√£o, mesmo que voc√™ queira. Em um funeral, ser√° inconveniente. Falar√° com passarinhos e com os cachorros, e um dia voc√™ se irritar√° muito com isso, e se sentir√° mal brigando com algu√©m t√£o "bacana". Enfim, √© um ser insuport√°vel porque nunca mostra o que realmente se passa em sua alma de palha√ßo e nos faz sentir como bruxas desalmadas.

    Sens√≠vel: Toca Star Way To Heaven no viol√£o e chora ao ouvir Caetano Veloso. Sempre traz uma flor ou um poema de pr√≥pria autoria para voc√™; gosta de origamis e √© um rom√Ęntico. Seu sonho √© morar em uma praia paradis√≠aca, ter muitos filhos com voc√™ e fazer amor ao luar. Usa sand√°lias no ver√£o e no inverno tamb√©m, com meias. Entende tudo o que Gilberto Gil diz. √Č a favor da libera√ß√£o geral da maconha e de todo o resto. √Č do tipo liberal e quando fala com suas amigas olha direto para os seus peitos, como se falasse com eles. Adora discutir sobre o estilo de Baudelaire √†s 8h da manh√£. Ele promete ainda cuidar de voc√™ quando estiver velhinha ou doente. Tudo √© muito lindo, mas voc√™ descobre que nada disso √© poss√≠vel porque ele simplesmente n√£o faz nada da vida, n√£o ajuda nas contas da casa e passa o tempo inteiro achando que √© um g√™nio da poesia.

    Bom de cama: Sexoman√≠aco. Se voc√™ n√£o puder dar agora, ele vai atr√°s de outra, de outro ou mesmo de frutas, animais ou legumes. Tem um pinto grande, mas pouco agrad√°vel justamente por isso. Querer√° tr√™s, quatro vezes por dia ou at√© lhe deixar exausta, depois apavorada e por fim horrorizada. Deixar√° em seu corpo roxos, dores, escalavros e assados; exigir√° gritos e gemidos de filme porn√ī; quebrar√° bibel√īs, TV e at√© a pia do banheiro; utilizar√° objetos curiosos, como bicos de garrafas ou ventiladores. A parte boa ser√° a emo√ß√£o da loucura er√≥tica e a l√≠ngua, o que far√° voc√™ imensamente feliz por algum tempo, em geral um per√≠odo curto. Lembre-se de usar camisinha e aproveite enquanto durar.

    ♥ Alto:
    Tem retardo mental ou gigantismo, ou é holandês, ou joga basquete. Tanto faz, você não ficará muito tempo lá em cima para vê-lo. Homens altos são muito carinhosos e delicados, às vezes até são efeminados (com seios, por exemplo). A aflição é que ele calçará 48 ou 52, o que dará despesas tremendas por conta do sapato por encomenda. O pinto será inversamente proporcional, seguindo as leis da gravitação de Newton. Não o recomendo somente por isso, pois de resto é provável que você fosse imensamente feliz.

    Moreno: Vive na praia, de manh√£ √† noite. Ter√° c√Ęncer de pele ou uma amante surfista. Ou vive na cl√≠nica tomando banho de lua. Tem meio neur√īnio, pois o restante o mar levou, e se comunica com duas frases: "Pegar onda" e "Bora, bora!". Pinta o cabelo em mechas e ainda ouve Men at Work, INXS, Hoodoo Gurus. De qualquer modo, a cor da pele n√£o garante o de dentro. Eu recomendaria primeiro escolher dentro e depois fora.

    ♥ Bonito:
    Isso não quer dizer muita coisa, pois é relativo ao contexto e à cultura. Defina "bonito" e depois siga em frente. Lembre-se porém das moscas, caso o padrão de beleza dele agrade igualmente a outras mulheres. Também não esqueça da vaidade masculina: encha a casa de espelhos e tenha sempre um elogio na ponta da língua. Quando ele envelhecer, assegure-se de que tenha uma boa terapeuta ou mantenha remédios e facas longe de seu alcance.

    Gostoso: Ou homem-bombom. N√£o sei muito o que isso quer dizer. √Č de comer ou para viver?

    ♥ Bom cozinheiro: Outro chato, mas pelo menos descarrega sua verve na comida, em todos os sentidos. Simp√°tico, sente prazer em agradar o paladar alheio e a casa vive cheia de amigos. √Č inseguro, por isso usa a comida como sedu√ß√£o, terapia e autoconhecimento, quem sabe at√© como uma filosofia. Est√° um pouco acima do peso, mas nada que lhe impe√ßa de fechar o avental. Faz del√≠cias na cozinha e voc√™ engordar√°. Mas ser√° uma mulher feliz, contanto que n√£o meta a sua colher na cozinha dele. √Č uma boa escolha.

    Faz-tudo: Hoje em dia, s√≥ existem de fato na Fran√ßa: poloneses imigrantes casados e com 8 filhos, que vivem de consertos em geral, hidr√°ulica e troca de √≥leo. Diz-se que s√£o excelentes amantes, a despeito do cheiro de vodca e do pinto rosa. Os brasileiros s√£o muito metidos a saber tudo sobre engrenagens, torneiras, canos, motores e etc., mas s√≥ ficam na teoria: olham o problema com interesse, co√ßam o queixo preocupadamente e trocam conjecturas e opini√Ķes com amigos pelo telefone, mas resolver mesmo, nada. De qualquer forma, √© mais pr√°tico chamar um faz-tudo e pag√°-lo pelo(s) servi√ßo(s) que aguentar um marido que pretensamente ajudar√° com os problemas dom√©sticos mas que lhe causar√° rugas, cabelos brancos e muita incomoda√ß√£o. Al√©m disso, ser√° mais excitante.

    ♥ Bom gosto para m√ļsica:
    Medo. Tenha muito medo quando um homem disser a voc√™ que tem bom gosto musical: √© uma mentira, uma ignor√Ęncia, algo monstruoso se esconde atr√°s dessas palavras. Homem com bom gosto musical √© como o homem inteligente: rar√≠ssimo. Pode ser o mesmo, inclusive. E ele jamais diria que tem bom gosto para m√ļsica pelo mesmo motivo que um gentleman nunca diz que √© um gentleman. Esse tipo n√£o anda em locais dispon√≠veis como bares, caf√©s, festas, ch√°s-de-panela... E o que se v√™ no mundo, solto por a√≠, √© s√≥ desola√ß√£o e pagode, boludos do vaneir√£o, imita√ß√Ķes de Mick Jaegger, junkies fuckyness... Al√©m disso, o cara que curte m√ļsica mesmo n√£o est√° muito interessado em mulheres e outras coisas mundanas. A m√ļsica o preenche completamente. Desnecess√°rio dizer que esse √© um h√°bito que suga a aten√ß√£o dele por horas e horas di√°rias. √Č um homem pleno, feliz, logo, para que buscar problemas se unindo a uma mulher, n√©? Sugiro esquecer esse quesito.

    Que goste de cinema: Idem ao que tem bom gosto pela m√ļsica: cuidado com o que h√° espalhado por a√≠. Homens "cl√°ssicos" ou gostam de "filmes para homem" (guerras, tiros, explos√Ķes, 007), de fic√ß√£o cient√≠fica (2001 e afins com espadas luminosas) ou de mulher pelada (sess√Ķes solit√°rias). E preferem assistir a filmes regados a cerveja em lata no sof√° e em geral pedem para voc√™ lhes trazer a cerveja. Agora, os cin√©filos ou s√£o diretores de cinema ou s√£o diretores frustrados de cinema, e ficam horas exumando detalhes t√©cnicos √≠nfimos sobre a produ√ß√£o, al√©m das discuss√Ķes intermin√°veis sobre a cor de cueca preferida de Truffaut. Aqueles que curtem ver um bom filme, aquele tipo de filme que voc√™ gosta, s√£o gays. S√£o bons amigos, mas √© improv√°vel que queiram ser maridos. De qualquer forma, talvez seja melhor um diretor de cinema, ou um frustrado, que um boludo.

    ♥ Que gosta de bares: Voc√™ quer um b√™bado ou um gar√ßom. Certifique-se de que voc√™ est√° em seu ju√≠zo e repense o assunto.

    Resumo: Deixe essa lista de lado e aceite o cara pelo que ele √©: asno, nerd, fedorento, hist√©rico, pregui√ßoso, mulherengo, antip√°tico, insens√≠vel, obtuso, pateta, impaciente, azarado, entediante. Porque todas essas caracter√≠sticas acima t√™m cada uma as suas adversidades. E que sejam reunidas as bem-aventuran√ßas numa criatura s√≥ √© quimera: nem voc√™ √© assim. Sobretudo, com os homens √© preciso paci√™ncia, toler√Ęncia, ouvidos moucos e persist√™ncia. Tem que ser quase um Buda, minha filha. E voc√™ vai comprar o pacote todo, entende? Homem n√£o √© arroz, que d√° para retirar os gr√£ozinhos mais feios e cozinhar a parte boa. E depois dos 40 a maioria deles tem problemas de ere√ß√£o, ou ter√°.

    Coragem, mulher!

    Dica de sedução: Assista a With tour Permission, de Paprika Steen, e inspire-se na personagem Bente.

  • Muito além da zona de conforto

    Bom, como dizer?

    Foi o inferno. E n√£o pretendo usar esse espa√ßo j√° anacr√īnico pelo descompasso entre fatos, flatos e gorgomilhos pol√≠ticos do Pasto s√≥ para chorar minhas mis√©rias. Contudo, para que as coisas n√£o pare√ßam incompreens√≠veis, informo que foi simplesmente desesperador esse in√≠cio de m√™s, especificamente o dia 1¬ļ de Maio, quando quase perdi meu marido por conta de uma intoxica√ß√£o medicamentosa. O m√©dico que receitou tal medica√ß√£o (sertralina) foi no m√≠nimo negligente, mas agora eu n√£o tenho for√ßa para ir atr√°s de um corretivo do CREMERS, e me sinto grata por ao menos ele estar vivo e estar aos poucos se recuperando. Olhando para tr√°s, concluo que 2010 n√£o est√° sendo um ano melhor que 2009, e olha que ano passado foi de enfartar. A not√≠cia positiva, pelo menos at√© esse instante, √© que estou h√° nove dias sem o Marlboro, √† guisa de protelar o c√Ęncer. A m√° not√≠cia √© que isso me tira a concentra√ß√£o e estou irritad√≠ssima.

    Assim, a vida ficou suspensa em um limbo por mais de uma semana, devido a hospital e ang√ļstia. N√£o suficiente, esta semana faltou luz duas vezes aqui em casa durante o dia, e por causa da CEEE meu trabalho est√° atrasado. Por isso, sinto culpa nesse momento por escrever, pois preciso dar conta de revisar uma b√≠blia sobre Descartes √† noite, seguir no frila das 13h √†s 18h, curar uma gripe e manter a sanidade sem pegar numa 12, por exemplo, e dar cabo de metade da humanidade. De volta √† vaca fria, e acertando novamente o foco de minhas lentes para fora de meu n√ļcleo familiar, dou um adeus moment√Ęneo a d√≠vidas e prazos, e roubo uma hora do tempo disputado a tapas para escrever esse post, verdade que um tanto azedo, mas nem sempre √© poss√≠vel sorrir por dentro.

    Tenho evidenciado ao meu abandonado leitor h√° algum tempo sobre a multiplica√ß√£o do espa√ßo na imprensa ao futebol. Se voc√™ fizer um acompanhamento sistem√°tico di√°rio, medindo tempo em TV e r√°dio e espa√ßo em jornal e em internet dedicados a esportes, especialmente ao futebol, verificar√° que o resultado √© alarmante. Eu arrisco dizer, medindo no olho e no ouvido, que nunca se falou tanto nesse tema em toda a hist√≥ria da Pastol√Ęndia. Desnecess√°rio seria repetir que, quando a Copa de 2014 chegar, muitos como eu desejar√£o ardentemente dar um tiro na boca ou sucumbir √† fuga f√°cil da realidade circundante por meio da aliena√ß√£o com uma qu√≠mica forte. Ser√° imposs√≠vel conter os urros bestiais dos meus vizinhos, que hoje j√° fazem esc√Ęndalos nas janelas por conta desses campeonatozinhos de v√°rzea. O prazer que essa gente extrai em ofender os torcedores do outro time ultrapassa qualquer escala de retardamento mental ou de selvageria verbal. Voc√™ fica t√£o perturbado que tem gana de mat√°-los, soltar um roj√£o em dire√ß√£o a suas janelas, mutil√°-los ou imit√°-los em seu comportamento psic√≥tico e berrar um palavr√£o bem cabeludo contra o Grenal e os seus torcedores quadr√ļpedes.

    Olha, parece que chego aqui para escrever apenas queixas contra essa gente bovina. Eu queria que fossem pessoas decentes que merecessem destaque por seu pensamento, n√£o digo elevado, simplesmente digno. Isso inexiste. Aqui √© a p√°tria da cavalice, do indiv√≠duo animalizado, dos cabe√ßas de v√°cuo, das mentes limitadas pelo sentimento b√©lico, pelo esp√≠rito raso, da m√° vontade e da cegueira dolosa; enfim, aqui √© a terra do hommo h√ļmus: um tipo de criatura aproveit√°vel somente para adubo, pois sua estrutura b√°sica cheira a dejeto. N√£o √© coincid√™ncia que seja esse o aroma reinante pelas ruas na data de comemora√ß√£o da maior fa√ßanha boluda: a derrota da Guerra dos Farrapos.

    Devo espantar meu corvo, eu sei. Morrerei de √ļlcera, murcharei de amargor. O horizonte por√©m me parece verde de mofo, n√£o de esperan√ßa. E j√° fiz minhas malas, antes que me lembrem que a porta √© a serventia do potreiro. Mas n√£o deu certo, a nuvem preta √© poderosa e os alem√£es do Planalto Central n√£o foram legaizinhos. E n√£o espero mais nada, minhas perspectivas, como as de meus amigos, s√£o um resumo cada vez menor de nossas potencialidades. E nos sentimos mal achando que somos muito doentes ou chatos, e que as pessoas corporativas, proativas, que fazem exerc√≠cios no Parc√£o e t√™m essa ambi√ß√£o fant√°stica de crescimento profissional √© que est√£o certas: a fantasia tomou o lugar da realidade. O branding est√° a√≠ para mostrar que vivemos em um mundo ficcional cujo fundamento √© o discurso publicit√°rio abstrato e seus valores, espremidos do sumo de ervilhas chamadas de gurus: sustentabilidade, responsabilidade social, miss√£o, postura proficcional. Estamos at√© o nariz de bullshits, comendo coc√ī de p√° com um sorriso delineado por for√ßa da coa√ß√£o social em nossos l√°bios. Afinal, a pior coisa do mundo √© ficar isolado, sozinho, teimando em valores em que s√≥ voc√™, um maluco, retr√≥grado, ecochato e xiita, acredita. Baixe suas expectativas, n√£o exija das pessoas o que elas n√£o podem ser, n√£o queira ser melhor que ningu√©m, seja como a maioria da boiada e deixe dessa de ficar criticando tudo. Guerreie pelo seu time e siga o exemplo de nossa governan√ßa: fa√ßa o seu feij√£o-com-arroz e tudo ficar√° bem.

    Antes de me digladiar contra o desejo de fumar um cigarro, devo ainda confessar que do verdadeiro jornalismo me aposentei. Talvez edite um livro sobre culin√°ria, fa√ßa uma curadoria de cinema, prossiga escrevendo fic√ß√£o, enfim, coisas inocentes e prazerosas: a vida √© curta, cheia de bic√Ķes aben√ßoados pela cara-dura, gente sem recheio mas que atinge seus objetivos porque acredita, entende? E a indigna√ß√£o e a busca pelo direito, e pelo que √© √©tico e justo, o excerc√≠cio da cr√≠tica, do debate e da reflex√£o, tudo isso s√≥ causa rugas e mau humor.

    Porque, tch√™, estupefa√ß√£o foi pouco fiquei besta. Minha dileta personagem aqui citada como paradigma do jornalismo ac√©falo, uma belezinha com um sorriso lindo de dar d√≥, o microfone balan√ßando pelo fio, para l√° e para c√°, impaciente: nenhum neur√īnio; aquela que n√£o sabia que tipo de sat√©lite era Edgar Morin ("morr√£") nem quem era Wim Wenders, tampouco imaginava com que consoantes escrever tais nomes, agora, bom. Agora, ela √© funcion√°ria da maior rede de comunica√ß√£o do pa√≠s. Bom para ela, parab√©ns √† empresa pela aquisi√ß√£o, mas eu temo pelo que sai de sua boca e espero que haja um editor atento, inteligente e paciente. Deparei-me com ela dias atr√°s na TV de 15 polegadas e antena em curto da UTI, onde eu velava pelo f√≠gado do meu marido. Senti-me tra√≠da, n√£o sei por qu√™; depois, reagi como se tivessem me fincado o esf√≠cter.

    Caíram todos os meus butiás, admito; admito que não entendo mais nada de nada, ponto.

    Admito que errei, que deveria ter seguido outro caminho na vida, quem sabe mais f√°cil, sem tantas d√ļvidas, inquieta√ß√Ķes, indaga√ß√Ķes, protestos, indigna√ß√£o. Deveria ter escutado meu falecido pai e seguido a carreira do Ex√©rcito ou do banco; deveria ter aceitado aqueles malditos bombons da Kopenhagen, me casado com um homem rico, gordo, brega, infiel e calculista; deveria ter sido uma mulher f√ļtil, inescrupulosa e com tr√™s, quatro amantes, um poodle hist√©rico, dois psicanalistas caros e in√ļteis e fazer doa√ß√Ķes filantr√≥picas de fachada. Deveria ter esquecido meu c√©rebro e minha moral indigesta em casa e escrito aquelas mat√©rias sobre fatos inexistentes que o dono de um jornal local tanto insistiu para que fizesse afinal, que mal h√° em dar o que o consumidor deseja? Deveria ter seguido mais ordens sem me insurgir, deveria sobretudo ter me preocupado em acreditar na ideologia de ser feliz, me dedicado √† igreja do ego√≠smo e, sobretudo, deveria ter me engajado na constru√ß√£o de uma imagem e arranjado patrocinadores a qualquer pre√ßo, mesmo que fosse de funer√°rias. Deveria ter mandado a sociedade √† merda, sorrindo.

    Parece que a vida me foi sugada pela raiz, mas na verdade o que ocorre √© que n√£o existe mais nada capaz de me fazer acreditar na sociedade, nas boas inten√ß√Ķes, nas leis, no Direito, na pol√≠tica, no jornalismo, na medicina, na fam√≠lia, em editais, em trabalho duro ou na efici√™ncia alem√£. Ilus√Ķes ao mar, estou sem √Ęncora e, quer saber? acho isso com sabor de Emuls√£o Scott, mas sei que √© fundamental em algum sentido. Que venha a ru√≠na, de repente √© a√≠ que mora a sa√≠da. Confio a partir de agora no poder do v√°cuo.

    E eu ainda tenho de escutar ruminante dizer que precisamos sair da "zona de conforto".

    Podem desligar os meus aparelhos, por favor.

  • Bilhete

    Um dia, acontece.
    Mas você segue sem pensar que vai acontecer, porque se pensar, não segue.

    Problemas de sa√ļde em casa me impedem de atualizar o blog.
    O desespero é um estado solitário; ninguém nem nada poderia me consolar.

    Compreens√£o e carinho, obrigada.

  • Carne e ossos

    Raríssmo leitor, estou com uma tendinite temporariamente incapacitante, portanto, pausinha para forçado repouso.

    Em breve, pensemos para cima e com entusiasmo!, mais alguns eslovos por aqui. O Pasto prossegue em chamas, e tem um assunto fervendo para analisar neste espaço verde. Pacênça e perserverança: garanto um cáustico post (estou cheia de dívidas, mesmo).

    Falando em fogo, tenho uma audi√™ncia na Justi√ßa do Trabalho nesta quarta-feira. Espero um acordo, ou vai a j√ļri.

    Torçam por mim, preciso de apoio, nem que seja via bits.
    Meu carinho aos de fé.

    A.

     

  • Pequeno tratado sobre a honra

    Esse post é longo.

    Cá entre nós, leitor, eu acho que a honra de cada um hoje é do tamanho do seu cérebro.
    E que ocupar a Justiça com problemas de ordem pessoal, facilmente tratáveis no analista, deveria resultar em multa. Isso é um parecer particular o qual, estou ciente, devo engolir junto com as "ervilhas". A fim de evitar julgamentos inoportunos, porém, estamos calando nosso ponto de vista em diversos espaços da internet. De maneira que resolvi advogar minha justificativa atrás de palavras mais antigas e juízos melhor embasados: assim, depois, o processo será contra um (outro) filósofo. Antes de começar, explico sumariamente o que defino por "ervilhas".

    As "ervilhas sociais" são seres cujo cérebro possui o formato e o tamanho dos grãos destas adoráveis leguminosas. Ao contrário dos deliciosos petits-pois, porém, seu interior é vacuoso e o exterior, uma máscara precária, frágil. Belicosas segundo suas possibilidades jurídicas e financeiras, são vagens de uma espécie que luta para manter-se merecedora de respeito social na base da truculência.

    Sou jornalista e daquelas que estudaram com discreto afinco. Tamb√©m escrevo eslovos categoricamente ficcionais e me meto a artista e cineasta. Ou seja, trabalho com express√£o livre de id√©ias e tenho alguns valores os quais defendo com obstina√ß√£o. Sou contra a nova reforma ortogr√°fica, por exemplo, por julg√°-la desp√≥tica, vertical, equivocada e d√ļbia em muitos casos (como √© o caso de algumas normas sobre o h√≠fen). Embora seja fruto de mais de uma d√©cada de debates, a reforma passou por cima do principal: a l√≠ngua viva de cada cultura. Tudo para afofar alguns corifeus da gram√°tica e tricotadores de quest√Ķes bizantinas. Amo o portugu√™s pr√©-reforma tanto quanto a manteiga para cozinhar: √© uma rela√ß√£o cultural, na medida em que fez parte de minha vida, e ainda faz; √© tamb√©m uma quest√£o de apre√ßo pelo sabor, no primeiro caso o das palavras e no segundo, o da comida. √Č tamb√©m uma prefer√™ncia, at√© mesmo uma filosofia, e acima de tudo um anacronismo. √Č claro que respeito as novas normas ortogr√°ficas quando necess√°rio.

    √Čpoca c√≠nica, esta em que vivemos. O imoral n√£o tem problema. Minha querela tem de estar, ou poder estar, dentro da lei eis o que importa. √Čpoca higi√™nica, t√©cnica, burocr√°tica, objetiva, pragm√°tica. Vamos combinar que tem gente que j√° defende a manipula√ß√£o da comida com luvas, alegando higiene. Seria melhor nem cozinhar, se a pessoa tem tanto medo de intoxicar a comida com as pr√≥prias m√£os.

    Se eu pensasse do modo como anda t√£o em voga, pragmaticamente, teria um processo contra cada meio de comunica√ß√£o para o qual arrendei meu c√©rebro, e olha que teria todo o Direito, pois, bom. Todo mundo sabe o que se passa por a√≠, em alguns manic√īmios do setor. E eu estaria agora de bom humor, com grana no bolso e, muito possivelmente, trabalhando a l√©guas da pastol√Ęndia. Pessoas assim s√£o chamadas de "espertas". Ser esperto √© ganhar algo em cima do preju√≠zo de outros. Os espertos n√£o necessariamente os citados na linha anterior tamb√©m curtem meter um processo por "dano moral": √© o que se chama por a√≠ tamb√©m de crime contra a honra. N√£o entendo como se pode perder a honra ou manch√°-la com a freq√ľ√™ncia com que vejo processos entupindo as mesas do Judici√°rio.

    Desenvolveu-se uma "ind√ļstria da honra" em nosso meio, e h√° quem cale-se em vez de se expressar com receio de tomar um processo. Acredito que temos de ser respons√°veis com o que expressamos, cr√≠ticos em rela√ß√£o ao mundo interior e exterior e, dentro dos limites da nossa cr√≠tica e responsabilidade, limites que podem inclusive ultrapassar a vaidade e sensibilidade extrema de certas almas afeitas √† morda√ßa, enfim, dentro destes limites somos, e temos o dever de ser, livres para expressar nosso pensamento. E √© por pensar assim, do modo periclitante diante de nossos dias, que busquei luz em quem escreveu um tratado sobre a honra e tem estofo para ag√ľentar um processo (afinal, estou falida, e ele, morto). Refiro-me a Aforismos para a sabedoria de vida, de Arthur Schopenhauer, c√°ustico, mal-humorado e pessimista fil√≥sofo alem√£o.

    Segundo ele, essa coisa de brigar pela honra dissimulava a baixaria: "...precisa de fato ter uma pobre opinião do próprio valor aquele que se apressa a suprimir cada observação ofensiva, com o fito de impedir sua audição. [...]". Schopenhauer é um tanto mais direto, mas resolvi cortar alguns adjetivos que viriam a seguir para poupar espaço.*

    Minha pergunta √© simples: se todos come√ßarem a se precaver contra danos √† honra, como se a honra fosse algo assim tipo uma salsa no dente, √© poss√≠vel que o Judici√°rio tome medidas repressivas que prejudiquem aqueles que realmente tiverem sua, v√° l√°, honra atingida. Honra √© algo subjetivo, social e culturalmente definido. √Č como um apelido: como justificar que em um indiv√≠duo o apelido "pega" e o faz conhecido em seu meio por tal alcunha, por menos que isso seja por ele aceit√°vel?

    Como posso provar minha honra? Coisas da √©poca rom√Ęntica: os homens iam para um descampado, uma charneca ou qualquer local afastado, em geral na primeira hora da manh√£, para provar a honra por meio da bala. Quem atirasse antes, e danasse o corpo do outro de forma testemunhal, salvava, limpava e recebia de volta a sua honra. Em geral, as mulheres que t√™m a sua honra "suja" n√£o tem como recuper√°-la e s√£o para todo o sempre am√©m chamadas de vagabundas em seu meio, isso ainda hoje, em pleno s√©culo 21. Mas a honra da mulher nunca importou muito.

    Tampouco eu me importo com coisas desse tipo. Diz Schopenhauer, meu amigo fantasma: "A honra é, em termos objetivos, a opinião dos outros sobre o nosso valor e, em termos subjetivos, o nosso temor dessa opinião [...]"  (p. 74).

    O temor desta opini√£o, segundo ele, n√£o tem origerm moral, e sim da for√ßa que o conjunto de opini√Ķes favor√°veis representam ao sujeito, as quais prometem-lhe "a prote√ß√£o e a ajuda das for√ßas reunidas do conjunto, que s√£o uma muralha infinitamente maior contra os males da vida do que as suas pr√≥prias for√ßas" (e sua pr√≥pria moralidade de consci√™ncia, eu acrescentaria). A honra est√° ligada √† confian√ßa e √† opini√£o, portanto, e disso originam-se muitos tipos de honra os quais Schopenhauer chama de "rela√ß√Ķes".

    A honra sempre ter√° um car√°ter utilit√°rio ao sujeito. A honra burguesa √© moral, e a mais f√°cil de ser perdida, ainda que tudo n√£o passe de pressuposi√ß√£o: manchada, macula todas as a√ß√Ķes subseq√ľentes. √Č um tipo de honra que n√£o existe mais, pois, como se sabe, a lama √© geral. Mas esta honra, rar√≠ssima, √© a que define tamb√©m o car√°ter e sua perman√™ncia sobre uma atitude virtuosa perene. Um car√°ter perdido √© irrecuper√°vel, pois este √© inerente √† pessoa, ou seja, se a criatura √© honrada, ela tem car√°ter, e t√™-lo-√° sempre, a n√£o ser que uma cal√ļnia ou insulto o manchem, e √© preciso provar que h√° engano ou falsa apar√™ncia. Embora pare√ßa churumela de fil√≥sofo, esta afirma√ß√£o est√° baseada em na l√≥gica do discurso: "[...] a inj√ļria, o mero insulto, √© uma cal√ļnia sum√°ria sem indica√ß√£o dos motivos [...] (p. 77). Ou seja, h√° uma forma.

    Mas esta m√°xima n√£o se encontra expressa em parte alguma, e aquele que insulta "revela que nada tem de real e verdadeiro a alegar contra o outro. Do contr√°rio, ele o apresentaria como premissas e deixaria, consolado, a conclus√£o a cargo dos ouvintes; em vez disso, apresenta a conclus√£o, omitindo as premissas." (id.)

    A √ļnica maneira de defender a honra, diz Schopenhauer, √© uma refuta√ß√£o, acompanhada de divulga√ß√£o apropriada e desmascaramento do caluniador. Mas em rela√ß√£o a isso, e a tudo o que est√° ligado √† honra, √© preciso ser um ourives: "Quem quebra a lealdade e a f√© perde-as para sempre, n√£o importando o que fa√ßa ou o que possa ser, e os frutos amargos trazidos por tal perda n√£o tardam a surgir" (p. 77). Contudo, esse respeitado pensador distingue a honra cavalheiresca da verdadeira honra, aquela que √© dependente apenas de n√≥s, a honra que vem do sujeito, baseia-se em suas a√ß√Ķes e omiss√Ķes, n√£o no que os outros fazem ou no que lhe acontece (de fora, vindo de outrem).

    Ele ainda cita a honra do cargo. "Quanto mais importante e amplo for o c√≠rculo de a√ß√£o de um homem no Estado, logo, quanto mais elevado for o posto ocupado, tanto mais elevada tem de ser a opini√£o sobre as capacidades intelectuais e as qualidades morais que o tornam apto a ocup√°-lo". Entre estes cargos, o de professor situa-se entre os mais elevados, devido ao seu trabalho intelectual. A tal honra do cargo imp√Ķe-se que se fa√ßa ser respeitada mediante o cumprimento estrito dos seus deveres, e, al√©m disso, "n√£o deve deixar impune nenhum ataque contra si mesmo e contra seu cargo enquanto o ocupar [...]; pelo contr√°rio, utilizando-se das puni√ß√Ķes legais deve provar que aqueles ataques eram injustos" (p. 80).

    A honra cavalheiresca √© exterior ao homem. N√£o depende da opini√£o dos outros, mas apenas se tais opini√Ķes forem exteriorizadas. Se esta opini√£o tem base real ou n√£o, n√£o importa: "Os outros podem nutrir a pior opini√£o a nosso respeito, por conta de nosso modo de vida, e podem desprezar-nos como bem entenderem; durante o tempo em que ningu√©m se atrever a express√°-la em voz alta, ela n√£o prejudicar√° nossa honra" (p. 87). Contudo, mesmo que o sujeito seja querido por causa de suas qualidades e a√ß√Ķes, e uma vez que isso n√£o depende dele, basta ent√£o que somente "um indiv√≠duo seja ele o pior e mais ignorante exprima o seu desprezo por n√≥s para que logo nossa honra seja ferida e at√© perdida para sempre, caso n√£o a reparemos".

    Schopenhauer conclui, brilhantemente, que, diante desta total falta de arb√≠trio sobre nossas a√ß√Ķes, qualidades e virtudes, "o importante n√£o √© ganhar respeito, mas extorqui-lo". Pois a honra cavalheiresca depende do que o outro diz ou faz, ficando assim "na ponta da l√≠ngua de cada um". Caso perdida, o que pode acontecer a qualquer instante, oportunamente, somente o processo de repara√ß√£o pode resgat√°-la, processo este em que o indiv√≠duo exp√Ķe-se a um perigo de vida, sua sa√ļde, sua liberdade, √Ęnimo, dinheiro, etc. Se ele "engolir" a afronta, as pessoas o desprezar√£o profundamente, "fugir√£o dele como se tivesse peste". Na idade das trevas da humanidade, se o acusado n√£o provasse sua inoc√™ncia, e n√£o possu√≠sse "fiadores" que o abonassem perante o juiz, ou se o acusador n√£o aceitasse tais fiadores, chamava-se o ju√≠zo de Deus. De maneira que, para lavar a honra cavalheiresca, recorre-se √†s armas, a chamada vingan√ßa sangrenta (p. 90, 91).

    E tudo isso baseia-se no fato de que ser insultado é uma vergonha e insultar é uma honra (p. 92). A mim é paradoxal. "O mais rude sempre tem razão", escreveu o amargurado filósofo, acrescentando que a animalidade é o supremo tribunal de justiça dos homens. Quem duvidaria disso ainda hoje?

    Para finalizar o tratado, a honra verdadeira seria aquela conhecida por povos civilizados, aquela que vale pela conduta do homem e n√£o "ao que agrada a uma l√≠ngua solta dizer sobre ele" (p. 95). √Č desse modo que, mutatis mutandis, somente voc√™ pode aniquilar a sua pr√≥pria honra com o que diz ou faz nestas culturas altamente desenvolvidas. N√£o √© esse o caso do Pasto, logo, creio que aqui o mais rude sempre tem raz√£o. Os rudes s√£o aqueles ervilhas, l√° do come√ßo desse longo texto que levei uma semana para concluir.

    Juro que já vi algumas pessoas que se queixam de ter sua honra manchada ou a moral atacada por aí, embriagadas, berrando pelo time ou por qualquer outra bobagem, em uma posição que certamente não as favoreceria em nada.

    Eu poderia sair por aí e enfiar o dedo nos olhos de algumas pessoas, alegando depois ser isso um conceito artístico e que elas estão tendo o privilégio de fazer parte dele. Eu poderia fazer uma igreja do heavy metal e não pagar meus impostos. Poderia até processar uma figura conhecida, fazer a alegria do sindicato e receber a Justiça como a volta de Jesus. Não faço nada disso, prefiro me engalfinhar com meus pensamentos, filmes, textos, valores.

    Falei ontem com uma figura cintilante da diplomacia brasileira, e chegamos √† conclus√£o de que estou cert√≠ssima. √Č verdade que j√° beb√≠amos a segunda garrafa de espumante.

    O Glauco e o Gerald√£o me far√£o falta.

    Por fim, a prova de que nem o Google est√° preparado para aceitar nossa natureza ruminante:

    [Google] Porto Alegre: verifique se a palavra est√° escrita corretamente.


    Ops: * A quem se interessar, leia na obra citada o capítulo 4, "Daquilo que alguém representa" (p. 61-137).

    ** Invoco aqui categorias fundamentais √† sobreviv√™ncia civilizat√≥ria, como o direito √† sa√ļde, √† educa√ß√£o e √† livre express√£o, e mais: poderei fazer disso uma pe√ßa jur√≠dica bem bonita depois, caso haja manifesta√ß√£o litigiosa de determinados legumes.

    Constam da Constituição Federal os seguintes itens:

    A lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;

    T√ćTULO VIII - DA ORDEM SOCIAL
    CAP√ćTULO V - DA COMUNICA√á√ÉO SOCIAL
    Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
    ¬ß 1¬ļ Nenhuma lei conter√° dispositivo que possa constituir embara√ßo √† plena liberdade de informa√ß√£o jornal√≠stica em qualquer ve√≠culo de comunica√ß√£o social, observado o disposto no art. 5¬ļ, IV, V, X, XIII e XIV.
    ¬ß 2¬ļ √Č vedada toda e qualquer censura de natureza pol√≠tica, ideol√≥gica e art√≠stica.
    ¬ß 5¬ļ Os meios de comunica√ß√£o social n√£o podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monop√≥lio ou oligop√≥lio.


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